domingo, 17 de outubro de 2010

Na asfixia do azul

Pedro mergulha no mar de outono

e esse mar que eu nunca tinha visto existia vestido de um único azul aquele que eu jamais conheceria
e o ar em torno era delicado roçando os corpos como nas despedidas daqueles que julgam se amar
teu corpo deslizou do meu pensando bem fui eu que escorreguei de ti na leveza do oxigênio de maio enquanto ouvia muito longe gritos que eu poderia confundir aos poucos com outros de gaivotas
desço flutuando na palidez do dia no sol baço que esse dia traz
escorre daquilo que estou deixando de ser para o teu corpo e do teu corpo para o meu ou indo embora do meu já não distingo uma carícia tão definitiva tocam as nossas peles tudo o que jamais viveremos os fatos da vida que não teremos bailam em torno do que éramos num desapego sem consciência nenhuma
sigo afundando no espesso líquido do medo me afogando na escuridão que me envolve num líquido salgado que engulo e que me engasga lentamente pouco a pouco cumprindo a sina que me foi escrita por um ingrato destino
ouço teu choro que já é quase o ar me sufocando do ar que quase não respiro mais que dói como algum ponto do meu corpo que não posso precisar
vou me desfazendo na água enorme que persegue meus sonhos num mar que só nesse instante descubro percorrendo meu corpo dentro e fora me absorvendo como às algas ou aos peixes
tudo como numa onda muito rápida que a escuridão envolve numa noite de sonhos impossíveis
de ti meu corpo se perdeu nos perdemos
estoura dentro de mim essa certeza sangrenta
nunca mais vai clarear

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Pálidos Poentes

nos recortes do meu assombrado coração estou pequena agachada no cantinho mais secreto por entre pregas vermelhas tão pequena estou cada vez mais não sinto nada apenas minha mente continua um prédio iluminado minando confuso em meio à neblina com todos os seres encantados que estão vivos e ainda viverão produzindo um ritmo vertiginoso idéias pensamentos contraditórios lembranças que se entrechocam agitadas
em colapso estão minhas memórias que se extinguirão deixando como que um vazio de neurônios lentamente se apagando um a um ou em bandos esfriando devagar deixando de guiar girar com alegria de múltiplas descobertas de ternas constatações
só aí há vida nesses homenzinhos trabalhando cantando contando histórias nos rádios da minha infância onde lá dentro bem no fundo de suas caixas grandes de madeira havia uma vida réplica exata da nossa com tudo que tínhamos aqui fora só que bem menor mas mais ensolarada
eu sempre soube desde menina que a verdadeira vida as verdadeiras pessoas moravam dentro dos rádios que nós tínhamos todos e cada um outro igual que levava uma existência mais leve e bela entremeada de viagens e canções

sábado, 26 de junho de 2010

agonia

hoje alguém está lentamente morrendo..........morre sem querer, porque não há outro jeito.......lembro-me dele vez ou outra entre as coisas atropeladas do dia e posso vê-lo em seu leito de morte pálido e imóvel, assim como se esperasse.....embora não possa vê-lo
não há mais volta para ele, para nada do que ele foi e poderia ser....e assim eu o penso enquanto escrevo ouvindo uma música do apartamento ao lado onde alguém comemora alguma coisa...depois percebo de dançam....e então gritam de felicidade...e eu não estou aqui
apenas escrevo enquanto a noite percorre seus caminhos e o frio aumenta

sexta-feira, 19 de março de 2010

compreensão da floresta

bem no fundo na última raiz naquela que arranha a rocha oculta sob a terra
por debaixo de toda a terra um escuro em silêncio
como pensar sequer esse silêncio se na superfície das coisas nada existe
eu recolho um eu recolhe nesse silêncio absoluto memórias de nadas e escuros de uma noite quente e imóvel sem qualquer vento
noite imóvel como uma montanha imóvel como florestas ou árvores
mas nada disso diz de uma floresta
nada do que eu disse saber ser floresta

olhar longamente o morro adiante olhar sem palavras nem pensamentos isso antes de tudo
passar horas e dias olhando a mata sem dar nomes nem lembrar de outras florestas iguais
não há florestas iguais

depois em grande recolhimento pensar o morro verde à noite com seus bichos
pensá-lo na doçura da madrugada quando o sereno tomba contínuo e lento
sobre tudo sobre a menor das folhas
depois pensá-la com sua lua trafegando entre as sombras
sem no entanto pensar a lua

compreender uma floresta será talvez buscar essa imensidão quase imóvel por onde passam ventos escorre a chuva banha o sereno
indo de um lugar ao outro do cérebro levando esse silêncio essa imobilidade ardente essa imensa e profunda vida

depois bem mais tarde quando a noite segue seus ritmos voltar atrás à primeira mirada ao silêncio de dentro quando não há mais necessidade de palavra nenhuma

pensar a floresta sem o vento como uma enorme montanha imóvel
saber de seu solo umido onde camadas de velhas folhas repousam sem nunca nenhum movimento
não querer saber dos galhos secos nem dos brotos
não querer saber da rugosidade das cascas que lentamente tombam não desejar sequer conhecer a variedade de suas árvores a diversidade enorme de cores texturas perfumes que uma grande mata possui
sobretudo não querer ficar numa proximidade de ares no mesmo oxigênio
num indeterminado e indelével espaço branco

assim poderá ser um inicio muito tênue uma primeira compreensão
um pouco ser como
ainda bem pouco
no entanto
aonde ainda nunca ninguém pisou
isso não seria uma definição

florestas devastadas invadidas continuarão nas noites claras erguendo seus braços aos céus
hirtas
imensas
sinistras