bem no fundo na última raiz naquela que arranha a rocha oculta sob a terra
por debaixo de toda a terra um escuro em silêncio
como pensar sequer esse silêncio se na superfície das coisas nada existe
eu recolho um eu recolhe nesse silêncio absoluto memórias de nadas e escuros de uma noite quente e imóvel sem qualquer vento
noite imóvel como uma montanha imóvel como florestas ou árvores
mas nada disso diz de uma floresta
nada do que eu disse saber ser floresta
olhar longamente o morro adiante olhar sem palavras nem pensamentos isso antes de tudo
passar horas e dias olhando a mata sem dar nomes nem lembrar de outras florestas iguais
não há florestas iguais
depois em grande recolhimento pensar o morro verde à noite com seus bichos
pensá-lo na doçura da madrugada quando o sereno tomba contínuo e lento
sobre tudo sobre a menor das folhas
depois pensá-la com sua lua trafegando entre as sombras
sem no entanto pensar a lua
compreender uma floresta será talvez buscar essa imensidão quase imóvel por onde passam ventos escorre a chuva banha o sereno
indo de um lugar ao outro do cérebro levando esse silêncio essa imobilidade ardente essa imensa e profunda vida
depois bem mais tarde quando a noite segue seus ritmos voltar atrás à primeira mirada ao silêncio de dentro quando não há mais necessidade de palavra nenhuma
pensar a floresta sem o vento como uma enorme montanha imóvel
saber de seu solo umido onde camadas de velhas folhas repousam sem nunca nenhum movimento
não querer saber dos galhos secos nem dos brotos
não querer saber da rugosidade das cascas que lentamente tombam não desejar sequer conhecer a variedade de suas árvores a diversidade enorme de cores texturas perfumes que uma grande mata possui
sobretudo não querer ficar numa proximidade de ares no mesmo oxigênio
num indeterminado e indelével espaço branco
assim poderá ser um inicio muito tênue uma primeira compreensão
um pouco ser como
ainda bem pouco
no entanto
aonde ainda nunca ninguém pisou
isso não seria uma definição
florestas devastadas invadidas continuarão nas noites claras erguendo seus braços aos céus
hirtas
imensas
sinistras