nos recortes do meu assombrado coração estou pequena agachada no cantinho mais secreto por entre pregas vermelhas tão pequena estou cada vez mais não sinto nada apenas minha mente continua um prédio iluminado minando confuso em meio à neblina com todos os seres encantados que estão vivos e ainda viverão produzindo um ritmo vertiginoso idéias pensamentos contraditórios lembranças que se entrechocam agitadas
em colapso estão minhas memórias que se extinguirão deixando como que um vazio de neurônios lentamente se apagando um a um ou em bandos esfriando devagar deixando de guiar girar com alegria de múltiplas descobertas de ternas constatações
só aí há vida nesses homenzinhos trabalhando cantando contando histórias nos rádios da minha infância onde lá dentro bem no fundo de suas caixas grandes de madeira havia uma vida réplica exata da nossa com tudo que tínhamos aqui fora só que bem menor mas mais ensolarada
eu sempre soube desde menina que a verdadeira vida as verdadeiras pessoas moravam dentro dos rádios que nós tínhamos todos e cada um outro igual que levava uma existência mais leve e bela entremeada de viagens e canções