sábado, 19 de dezembro de 2015

Carta de Rossini

Carta de meu pai

Não me lembro de ter estado aqui nessa vila enquanto vivia, mas nesse entardecer preciso de maio olhei o mar e soube que estamos no outono porque o calor já não castiga e a água tem uma cor diferentes das todas as conhecidas.

Cheguei, não sei como, e comigo a noite rápida enlouquecendo as fronteiras entre o céu e o mar. Fiquei parado com meus pés descalços ( em vida tão raro meus pés descalços) na reia morna vendo os meus filhos, netos, bisnetos em meio à névoa salgada da praia.

Uns nadando, outros olhando o sol sumir no mar.

Lembro que o silêncio era pesado como uma caixa muito pesada que o ar carregasse, mas o ar era leve e líquido, porque nele as lembranças navegavam passando umas pelas outras como folhas ao vento ou peixes fugindo de redes.

E nas lembranças passantes navegantes flutuantes eu via o meu passado mas via tambem o futuro que iluminava estradas percorridas, coisas vividas como pela primeira vez como numa morada dessas recordações que eram minhas, precisas, únicas.

Eu esperava que algum daqueles meninos chegasse pedindo para ser reconhecido, conhecido por esse bisavô que partiu há tanto e tanto tempo e que os esperava descalço nessa praia inesquecível. Tão única, tão de mar revolto, inteiramente selvagem como mares nunca navegados.

E então, absorto nesse momento perfeito e impossível te vi caminhando em minha direção, jovem como quando te conheci; eras Gilda, minha mulher e na soma das nossas memórias compartilhadas ficamos silenciosos, lado a lado, como garotinhos saudosos do futuro que não seria nosso.

domingo, 11 de outubro de 2015

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

agosto entre os carros e outros contos

Agosto entre os carros

Todas as pessoas tem um secreto pacto com a poesia.
Sei disso porque quando setembro aponta no horizonte, com suas madrugadas dia a dia um minuto mais claras, elas se olham pelas ruas a caminho do trabalho, nessa precariedade ardente que a morte das coisas traz, com uma ardência sem limites, como se quisessem dizer tudo que jamais poderá ser dito.
E há um punhado de sorrisos que nunca foram dados, palavras impossíveis que nunca foram faladas e que se deixam ver bailando no ar sujo que o inverno largou pelas ruas por onde passo cada manhã, abismada de que tudo ainda seja assim tão desajeitadamente pequeno.
E mesmo que a sujeira das ruas, essa sujeira quase inacreditável e dura, exista chamando a atenção de meus olhos já tão cansados de reparar em tudo que o mundo não deveria ser,
mesmo que a realidade apareça agora nessa hora da manhã em que a vejo com seus braços de estrela, seus corpinhos de nuvens afogadas, no meio do pó frio das calçadas.
Mesmo assim seguirei pensando o quanto é inevitável estar aqui perambulando por um bairro ou outro, passando pelo centro com seus antigos edifícios, seus cinemas onde, numa lembrança muito distante, velhos pianistas tocavam.
E os homens que por esses mesmos lugares passam olham para dentro de seus peitos em perdidos, primaveris pensamentos.
Por toda a parte há um desejo no ar de que por fim alguma coisa aconteça que não essas de todos os dias, todos os dias, lamentavelmente.
Quem poderá algum dia saber o que pensam as pessoas que passam?

Mesmo quando não sabem, sobretudo quando não veem nada disso do que vejo, quando um ou outro olhar cruza o meu olhar então se desenha no ar uma forma oblíqua, porque são sempre assim essas formas, figuras que não se pode tocar figuras que sequer terão existência quando o pleno dia chegar.
São instantâneas e muito pouco perceptíveis essas formas que em vão tento abraçar com meu corpo de sol cheirando a sabonete e lavanda, mas são tão cansados os gestos que se arrastam no luminoso oxigênio do dia, no homem que agora passa em seus ombros carregados de melancolia; essa que atrasa as estações, que prolonga o inverno, que nos torna a todos um pouco mais tristes e inevitavelmente perdidos, entre os postes, lojas, esquinas, entre tudo o que nunca será.
É preciso registrar aqui de modo drástico e definitivo, a importância daquilo tudo que nunca será e que percorre a cidade em percursos invisíveis; é preciso afirmar essa dolorosa e fotográfica constatação de que os prédios se diluem na massa de inevitáveis desencontros, de que o sangue resta ressecado na ponta aguda dos becos, dos tiros, dos gritos, das crianças torturadas, dos abortos feitos nas tardes mortas de cansaço, entre os executivos apressados nos metrôs que escondem o calor da Paulista, em espaços da mais perfeita ordem, em vãos livres de museus, cujos fetos entopem as privadas dos escritórios elegantes, descobertos apenas e tão somente pelo cheiro insuportável que navega tenso entre os computadores de última geração.

Importa registrar, num registro impossível, tudo o que nunca será.

Nossa existência de rostos vincados pela dor, por sorrisos pequenos que nos aprisionam em nossa realidade de horários, supermercados, escolas, e bancos; por todo esse tempo que vai escorrendo de nossos corpos exaustos de nunca viver a vida, nesse ir e vir sem sentido, na rotina amarga imposta pelos quarteirões fechados em si mesmos, como grutas, nos trens que se sucedem, nos aviões que sobrevoam o céu azul de quando a noite começa a cair.
O lixo amontoado ao longe na calçada não é lixo, é uma criança dormindo ao relento, mais uma delas dessa São Paulo colorida com o perverso sacrifício dos inocentes. Como quem não sabe, como quem mente no escuro que os fantasmas não existem, meu menino, só meninos que morrem sozinhos no poço escuro das drogas, fantasmas que no escuro espremem o coração da gente, descem o frio à boca do estômago: caras remelentas nos faróis, meninas meninos estupradas estuprados pelos pais, enquanto outros meninos de bicicleta passam paralelos, exageradamente anônimos, completamente desconhecidos de ti, que também desperdiçavas teu tempo pelas ruas, ouvindo tudo que todas as densas imagens têm pra contar, sem uma palavra sequer, nenhuma letra.
As flores na Doutor Arnaldo, os ipês amarelos de agosto, o rosa súbito das enormes árvores que surgem encantadas no cinza das casas velhas, os passarinhos, pois cantam pássaros em muitos dos teus cantos vagos, minha cidade, e até borboletas se avista em plena Av. Sumaré voando desesperadas entre os carros dos fins de tarde de enquanto passeava contigo.

Queria te dizer que amo esses seres anônimos que cruzam opacos meu caminho, mesmo hoje, esses homens e mulheres, com suas casas na periferia, seus desejos de uma televisão melhor, até mesmo de um carro, seus rostos pálidos, seus olhos fundos.
Queria poder te dizer que amo os camelôs que armam suas barracas no circuito das Clínicas e as pessoas que param, sorriem, ainda podem ser felizes em qualquer manhã; amo com um amor infeliz e doloroso as crianças doentes, especialmente aquelas sem cabelo, de olhos fundos e faces encovadas que param com suas mães na rua para comprar um macaquinho de corda na bicicleta, talvez um algodão doce se o dinheiro der e que depois lambem os lábios de satisfação sorrindo seus sorrisos tristes.
Pudesse eu te dizer do olhar de amor que essas pessoas têm, do tempo para parar e agradecer e lembrar de um outro dia passando ali, de uma toalha bordada, do gosto bom do beiju feito na hora.
Hei de conseguir contar mais tarde de uma tarde na Santa Casa e de como a lua cheia se deixava ver, de repente, por trás dos prédios dos ambulatórios e dos centros cirúrgicos, do mesmo modo altaneiro como se deixa ver entre coqueiros muito distantes ou navega sobre o mar.
Como pessoas solitárias ou famílias inteiras, horas e horas à espera uma transfusão de sangue, uma fratura, um tiro, uma sessão de quimioterapia, olhavam, devem olhar ainda para a lua, como se nunca a tivessem visto, enquanto caminham até o ponto do ônibus e se despedem agradecidas de que haja a vida, haja a noite e exista ainda o caminho de casa.
Te contar do meu desejo, eu queria tanto.
De uma vida enfim, como essas vidas parecem ser, completa em si mesma, parecida com outras, não como as que enxergamos ávidos pelo vidro dos carros, entre os carros nessa manhã fria de agosto.
O menino manco caminha no cruzamento, os carros buzinam, uma mulher bem vestida fala um palavrão horrível, mas o menino não sabe, não pode correr. O homem negro e magro sobe a Teodoro Sampaio puxando a carroça de sucata, o suor escorre por suas pernas tortas, uma mais curta que a outra.
O Esquadrão Resgate salva um motoqueiro, enquanto o gordo engravatado no Audi reclama do atraso, do trânsito, da vida infernal, dos estúpidos que se deixam atropelar, enquanto escarra na avenida.
Na frente do IML as maritacas passam gritando cortando o céu de fora a fora.
Amanheceu de todo e em São Paulo um novo dia caminha sem sentido nenhum.
Nos cemitérios todas as árvores estão floridas, meu amor e eu não consigo mais te contar nenhuma outra história, entre tantas que nunca consegui contar.
Tomo tuas mãos geladas em minhas mãos, toco devagarinho cada um dos teus dedos pequenos, infinitamente longe de mim agora teus pequenos dedos.
Lá fora as maritacas gritam e gritam, mas não ouves mais o som contínuo que essa cidade tem, um som que parece o mar de que gostavas tanto, meu menino.
Enquanto eu aqui morta em vida, para sempre.
Morta em vida para sempre olhando teu corpo tão coberto pelo frio inevitável que só aumentará.


O menino que eu não tive

Uma vez, quando eu fui menino, me lembro bem disso, de uma praça, dos meus pés sempre descalços; eu nem ligava mais, nem no frio. E no calor eu mergulhava no chafariz perto da catedral, enquanto a polícia se distraia olhando as vitrines das lojas de sapatos.
As nuvens, como carneirinhos, me lembro que alguém perto de mim um dia disse isso, passeavam em bandos pelo céu e às vezes duas a duas, como duas menininhas muito amigas, de mãos dadas.
No luminoso do céu é que parecia ficar meu medo pendurado, no luminoso mais fundo do céu, bem na menina dos olhos.
Mas não era medo das coisas que eu tinha, era medo da fome que eu sentia, que não dava conta de fazer parar, do frio da noite quando eu não tinha um amigo e das botas que passavam, dos guardas batendo na quina gelada das calçadas, eram muitos os guardas armados com seus revólveres escuros.
Medo dos muros que ficavam ali tão hirtos e gigantescos, de um pai que nunca conheci, medo de ter nascido e estar agora tão abandonado na curva triste das avenidas, entre o vazio dos faróis mirando o estreito da estrada, medo de não poder ter nunca nenhuma pequena esperança.
É muito tarde da noite agora, nessa hora da noite em que nem os carros param, nem obedecem sinais, nem nada, passam como bandos de pombas assustadas, quando ouvem tiros distantes.
Penso agora mais rápido, penso sem parar, bem depressa mesmo, só pra afugentar o silêncio tão escuro da madrugada, se quando eu nasci a mãe que eu não conheci olhou alguma vez o céu que eu vejo, se olha ainda; penso se afinal existe ou existiu em algum lugar essa mãe que eu imagino nessa hora de atropelo.
Crio, nesse vazio que em mim habita, um perfume dela que possa passear por meus braços, por meu rosto, uma voz cristalina, que possa um dia cantar bem junto aos meus ouvidos, uns lábios finos e tão rosados, como só uma vez vi numa revista, mas ainda mais bonitos.
Uns cabelos de tal delicadeza, longos, soltos, que eu pudesse enfim acariciar.
Imagino se essa mãe pensa ou se já pensou em alguém como eu, na sua solidão, como eu agora penso nela, tão sem formas, tão sem linhas, traços, nada, pedindo ardente para ser inventada.
Nessa hora calada que é tão demorada de passar, ainda mais se tenho fome, faz frio como nesse instante, ou chove, eu me assusto só de pensar naquilo tudo que eu não tive e em como seria tão bom ser feliz, só penso nela, me pego pensando em toda a vida que eu não vivi, sempre entre essas ruas, fugindo da polícia, esperando a neblina descer para mais me ocultar debaixo dos bancos ou dos viadutos, penso no cheiro bom da cola que anestesia a dor.
É no medo da dor que eu penso agora olhando essa gente que a boca do metrô engole, sem nenhum susto e me pergunto, todo o tempo, pra onde elas vão, e se era preciso tanto, tantas ruas, tantos carros, tantas lojas, tantos prédios, tantas coisas, enquanto sozinho eu penso nisso, porque hoje você não veio me procurar nem veio ninguém e eu encosto aqui sentido um cheiro que nem existe, de churro, de pipoca, de churrasquinho de gato que os homens comeram de dia na praça e sinto uma tontura boa.
A tontura de não me incomodar mais mãe que nunca te tenha tido, que não tenha uma casa, uma cama, alguém me acariciando os cabelos, isso que só a fumaça da maconha pode me trazer, o profundo descaso por todas as coisas, pela vida que os outros meninos têm.
Viajo no tranquilo do céu que desenha as nuvens da chuva e no mar que só conheço de foto vista no jornal, enquanto minha mãe passa silenciosa no transtorno agudo das ruas vazias, no barulho da água da fonte da Praça da Sé, procurando, quem sabe, por um menino assim como eu.
Penso no amor que nunca conheci de ninguém, nenhuma mão passeando pelos meus cabelos, pela minha testa tão vazia de nenhum afago, beijo, qualquer coisa que me encantasse os dias, que criasse uma rotina, agora se dorme, agora se levanta, se toma um banho quente, se vai à escola.
Lembro dos dias vazios, nos quais jamais andei de mãos dadas com ninguém, como sempre vejo passar as crianças. A rua é feita da sujeira que se agarra na alma da gente, escorrega feito lodo por dentro e enquanto isso perto dos barcos voam gaivotas, que pegam peixes fugidios nas redes, no mesmo momento em que os urubus comem ao meu lado uma carniça de rato e é só isso que de verdade eu vejo.
Me chamam por aqui de um nome que não é meu nome, a maioria das vezes de menino ou pivete, nome que eu não gosto.
Menino mesmo é o que eu sou, menino pequeno ainda, mas sempre um menino valente, esse orgulho eu tenho, pois o que tiver que ser ou vir eu encaro, limpando com a manga do casaco o nariz que o frio escorre, olhando distraído pra ver se a lua mais uma vez saiu na névoa seca da madrugada.
Quando o céu é fechado e baixo como hoje o ar fica, não sei porque, mais pesado é quase como se eu me suicidasse devagar, isso é uma coisa boa de sentir, como se cada minuto dessa noite besta se afirmasse sem motivo nenhum de existir, uma coisa que é que nem desgraça, é quase um pedido de desculpas para mim mesmo que não sou ninguém, eu que nem mesmo sei quem eu sou.
Me disseram que eu vivia ao relento, eu gostei dessa palavra relento, como gosto de outras, que digo baixinho pra afugentar esse engasgo do meu peito: água, gaivota, meninas, mãe, lua, estrela, relento.
Lua, chão, areia, grão, meninas, mãe, ao relento eu estou mãe, sozinho na cidade grande.
São palavras bonitas essas e com elas eu posso esconder as outras: dor, grito, merda, morte, fome, medo, nojo.
Com elas posso falar e formar frases juntando cidade, medo, fome, dor, relento, cidade, estrela, meninas, não sei onde colocar as estrelas, a areia, os grãos, mas sei da lua que arredonda a quina dos prédios, acho tão bonita a lua!
Não sei formar frases, sei juntar essas palavras que contam quem sou, quem somos porque há muitos eus que se escondem, com o nariz escorrendo pelas ruas todas de São Paulo.
Um dia, de tanto pensar, vou achar um jeito bom de seguir vivendo, uma forma de colocar essas palavras feias debaixo daquelas outras, que eu procuro por toda parte, escondidas entre as folhas das árvores mais altas, nas bancas dos camelôs, entre todas as coisas coloridas, nas vitrines de tênis emborrachados, nas portas dos restaurantes mais finos, nas churrascarias, na entrada do cinema, em todos esses lugares que eu nunca fui, na lona do circo, na frente dos meninos de uniforme, que passam para a escola, todos juntos, rindo alto.
Eu vou guardando as palavras bonitas que encontro e vou colecionando todas no meu pensamento; como não sei escrever fico repetindo todo o tempo baixinho cada uma delas, depois duas a duas, todas juntas por fim e repito e repito sussurrando, cochichando, só pra não esquecer; são muitas as palavras bonitas que eu guardo comigo e não falo delas pra ninguém minha mãe.
Em meio a todas elas lua, mãe, menino, cidade vazia, por onde andarás pra sempre tão longe de mim minha mãe?
E guardo pra ti e só pra ti todas essas palavras luminosas que eu coleciono e que tem brilho, cor e um perfume de tanta delicadeza que inventei e que apenas moram no teu corpo esgarçado pela ausência e pela noite.
Por que é que sempre eu soube, minha mãe, que não virias nunca?











Houve uma noite contigo

Foi durante um verão do qual já não me recordo e era um daqueles momentos raros, no qual a noite chegara, mas o mar ainda era morno e cheio de vida.
Nós estávamos ali, como sob o efeito de uma droga qualquer, olhando o escuro do céu sem nenhuma estrela.
Na profundidade distante das águas um ou outro raio caia, mas tão longe que não nos chegava qualquer som, apenas riscos luminosos dobrados sobre si mesmos que percorriam o céu e era uma luz que não nos abandonaria nunca mais, eu pensei.
Eu pensei então que havia mares gelados naquele mesmo instante e só esse pensamento bastou para me encher os olhos d’água; o mundo era grande demais, eu tive certeza disso enquanto te ouvia gritando na lonjura parda das ondas e teu grito era da mais pura alegria, era um som que vinha de zonas do teu corpinho pequeno, lugares que eu não conheceria nunca, mas que seriam serenos como punhados de sol sobre a relva molhada, como um pouco da neblina cortando cada amanhecer, em matas tão distantes e nas quais jamais viveríamos.
E que essas matas, ah eu queria nelas um lugar qualquer, que nenhum passo humano houvesse percorrido, antes que fossem marcadas por teus gritos e passos de feroz felicidade.
Fossem marcadas pelo ar que respiras e que rompem o líquido volume dessa praia, marcando para sempre esse fim de tarde, no qual finalmente somos os dois, como duas nuvens irmãs, que caminham e flutuam e se transformam quando há vento ou prenúncio de chuva e que se eternizam assim, enquanto navegam no mais bonito do céu claro, enquanto brincam e se espantam de que seja tão enorme o mundo, com todos os seus insuspeitados contornos.
A noite agora é completamente escura e estamos os dois com o mar encostando em nossos joelhos submersos e o mar é cálido e leve e se estende pela areia com uma fartura, uma crença marítima em futuros que a nós talvez nem cheguem.
És meu filho, és tão não meu, que o amor me chega à garganta em forma de soluço e aos olhos, e posso flutuar, existir na minha vida prosaica e boba e até fingir que lá serei feliz, mas é dessa sensação que falo, disso que não perderei, desse mar, do toque de tua mão pequena no meu braço, do seu riso, que tem nessa mistura toda que faz parte do teu ser, um tanto de medo e um tanto da mais doce curiosidade.
Não te esquecerei, não esquecerei o momento em que ergues o rosto e observas por um segundo o céu.
E teu vulto se cobre com uma onda qualquer de luar.











Georgina tece a noite

Durante anos o tempo foi passado apenas no viver a vida a cada dia: a casa se enchia de cheiros e sabores, um dia o peixe ensopado, o camarão noutro dia, a carne de panela, o milho verde cozido, o pão de minuto.
As crianças iam crescendo, alguém tinha sarampo e logo estavam todos febris e a casa girava em torno dos quartos, de se contar histórias que não tinham nem fim, de se fazer compotas.
E chegavam mais filhos e era preciso chamar a parteira, que vinha solícita, com chás e poções, ligeiramente afobada; por algum tempo chorava um bebe e os corredores se perfumavam com o cheiro de fraldas e de papinhas feitas na hora.
Nas noites compridas a sala de jantar se agitava e os mais velhos contavam suas proezas, enquanto jogavam o bingo. E mais tarde, após aquietar a todos, ela se deitava silenciosa ouvindo a respiração de seu homem, junto ao som contínuo das ondas do mar.
Então rezava uma reza sem letras, uma reza calma, sem nenhuma palavra agradecendo sua casa cheia, seus filhos todos com saúde.
Mas agora tudo se fora, como fim de sonho bom, e sozinha, tão sozinha como nunca, ela ficara.
Já não podia programar com as empregadas o cardápio da semana, nem sair às compras nas manhãs de sol ou esperar pelo leiteiro no portão de sua casa.
Quando o falatório das enfermeiras cessa e o hospital entra naquele torpor das madrugadas, naquele silêncio que não é silêncio, naquele som que para ser um som necessitaria de alguma coisa viva, como um canto, uma risada de criança, um cheiro de feijão queimando na panela, ela ainda chega com dificuldade até o vidro da janela, e tímida, como a menor das criancinhas, vê para muito além do vulto escuro dos prédios sua primeira casa, o jardim e o poste aceso na noite espalhando no ar quente de São Vicente uma cruel alegria.
É tarde sempre nessa hora, parece ser mais tarde do que nunca, mais tarde do que deveria, mesmo assim ela ainda pode ver todas aquelas janelas acesas.
Colando o nariz ao frio do vidro pode ouvir o tilintar dos copos e as vozes alegres dos meninos enquanto cresciam ou saiam batendo com força o portão de ferro.
















Fluidez noturna

(a partir do conto “A terceira margem do rio” de Guimarães Rosa)

O que acontecia naquela época é que a vista vista da água de dentro do rio, do meio mesmo do rio, era precisa, delineada conforme a luz era de outono ou primavera, ou quando ainda o frio soprava de longe, de lugares que eu nunca conheceria.
Ou quando ainda nem a manhã chegara às folhas das árvores, quando a luz só pensava ainda em resvalar pela carne áspera das pedras e em ir descendo até o brilho líquido do rio, no qual estaria eu boiando nessa superfície fluida e de monótona aparência
Talvez na noite, se houver nesse céu muitas estrelas, verei as janelas da casa iluminada e um vulto que chega e se debruça no batente olhando para esse lugar onde estou que a escuridão oculta.
No lusco fusco que esconde as coisas, com sua vontade sombria eu olho para a margem, pois o olhar da gente olha mesmo sem querer olhar para onde alguma vida se agita.
Fico passeando meus olhos por cantos, formas, contornos tortos, por onde transluzem linhas que hão de brilhar mais tarde, quando terei já cerrado meus olhos exaustos.
A terceira margem do rio é apenas a terceira margem.
Nela estou, embora ainda não saiba se é o meu olhar, se é o tempo que já não sinto passar, que vou enganando devagar, me mantendo acordada, vigiando cada pedaço da noite, tomando conta das horas, que assim posso ir controlando em punhados delirantes de minutos que eu não viveria se dormisse.
Por certo não viveria, acho uma pena tão grande morrer!
A noite chega enquanto a canoa escorre e eu me deito no chão do barco sentindo por baixo da minha pele a água que passa, e as estrelas no topo do mundo.
Parecem maiores agora as estrelas, mais que quando eu vivia na terra, entre os troncos, as pedras, os bichos.
Deitada no chão da canoa estreita a água não tem nenhum som, enquanto passa ou passo no rio; as margens estão de cada lado meu e há outra que defino com meu corpo, que forma essa linha imperecível e absoluta que margeia um mundo do outro.
Essa vai se tornando ar quente, um divisor de mundos, no mundo mole das coisas silenciosas, nesse mundo que é meu desde que e apenas pelo corpo da madeira.
Soturna me ajeito às muitas temperaturas que dividem com a minha pele um volume denso de pétalas, de perfumes distraídos que boiam no vento ou se enroscam entre o mato alto das margens deixando afetos espalhados à beira fofa das raízes.
No meio das noites quando consigo não dormir sequer um minuto, que varo percebendo em claro um vazio de penumbras sem cor, penumbras brancas, como quando os espaços dos meus poros tentam com suas mãozinhas ferozes segurar os segundos que correm, que nem sequer olham por onde andam, nessas noites que engano e atrapalho com a minha cruel e determinada insônia, um vazio de penumbras me cercam brancas, e apenas entre elas nessa noite sou feliz, porque sem dormir a vida não passa para mim.
Ocupo todas as horas que os outros abandonam em seus suspiros, que jogam fora nas janelas estreitas dos seus sonhos, que ocupam zonas na intersecção das coisas entre o que é humano e essa hora noturna, que não sei o que seja, que não é mais que um outro elemento fora os conhecidos, que nos surpreende com sua lenta passagem pela superfície fechada da terra, dos poros da água.
O corpo respira na noite um silencio que se consome em si mesmo, que se entrega à sua própria perfeição.
Na escuridão o silencio cava um poço fundo rasgando as coisas todas que vagam pelo mundo, os pensamentos que uma vez pensados grudam-se uns atrás dos outros, e por trás dos olhos, como se já fossem realidade, uma realidade que não se pode alterar, suprimir, transportar para outros lugares que não aquele onde se encontram brincando de assombrar, surgir das sombras talhando nas horas cruas do dia um risco de susto.
Da varanda vejo o rio e as andorinhas que se encontram no voo, bailando nessa manhã de incontida luz. E vejo outras coisas, como pedaços de telhados que as chuvas intermitentes e as plantas trazidas pelos bicos dos pássaros carregaram.  Do meu corpo para o teu uma lonjura de ventos, um abismo de distâncias que meus pés jamais percorrerão.









Momento de peixes

Bem pouco antes de morrer Ana viu, vindo do fundo lodoso e frio do lago, o peixe vermelho, que se colaria deslizante à sua retina para sempre.
Houve tempo também para se perguntar por que nunca reparara nos peixes desse lugar, nem tampouco nos barcos que cediam seu peso doce ao balanço das marolas, num silêncio inquieto de pássaros.
Ana até o momento de morrer não reparara jamais nas andorinhas, que sugavam rápidas a água, com uma doçura de bicos pequenos, que voavam juntas sem nenhuma linearidade nessa manhã de setembro, que não percebiam o quanto ela se debatia gritando num abandono sem ecos seu terror inútil.
O peixe parou um instante na água com seus grandes olhos abertos talvez fitando seus olhos, talvez.
Um anu piou longe e o céu amanhecendo ia descendo sobre a terra um azul, inesquecível e completo.
Havia pencas de flores amarelas tão pequenas, na beirada do lago, aonde ela jamais chegaria notou, um pouco debruçadas sobre a água.
Ana reparou naqueles caules longos, finos, delicados, de leve acompanhando a brisa que chegava agora de algum lugar, com olhos que se apagariam daqui a pouco.
E sabia que seus olhos estavam se despedindo do mundo, porque reparou como em nenhum outro momento de sua vida antes desse, nas pétalas tão frágeis das flores, numa só e menor flor, no ar perfumado que nunca mais seria dela.
Receita de sábado à tarde

Porque talvez o sábado seja um dia insípido saio recolhendo a poesia espalhada nas coisas do mundo, enquanto vou ao mercado e pelas ruas, como lixeiro por infinitas calçadas, eu trago objetos atrevidos que me saltaram aos olhos exigindo serem percebidos.
Não, eu não invento nada disso, as coisas se atropelam em sua tranquilidade de coisas e atravessam o caminho que percorro, às vezes até com fastio.
Não é minha culpa se trago umas e deixo outras à mercê da própria sorte, pois mesmo seres inanimados sentem a passagem dos meus passos e avançam em minha direção, cheios de si.
Exausta de caminhar e de prestar tanta atenção ao que ocorre em meu caminho passo a recolher a poesia solta nas gavetas da cozinha, com suas colheres, facas, garfos, conchas, porque essas coisas delicadas e prosaicas também pedem aconchego e guarita.
Tão indefesas e tontas são que me enchem os olhos de lágrimas, como se fossem pessoas pequeninas pedindo colo.
A vida nessa casa ganha então uma desmedida fartura, com as coisas saindo de seus cantos e navegando no ar translúcido da tarde; apenas cerro os vidros para que não se percam além das paredes, para que eu não as perca de vista, porque é bonito olhá-las enquanto dançam livres de sua rotina diária.
E depois quando se cansam regressam aos seus lugares de origem e já a noite vem e elas passam a existir novamente como coisas de todo o dia; mas é nessa hora então que uma enorme compaixão toma conta de mim e passo a armazená-las também nas palavras como arrumo as verduras e frutas na geladeira: uma a uma com toda a delicadeza.
Contatos de primeiro grau

Era só uma palmeira esquecida pela chuva que se via da fresta da janela, mas era tão exata, tão como aquela que eu via da varanda de casas muito distantes, que a tarde se fez como só se fazem as mortes ou os partos, quando não há qualquer testemunha.
Alguma coisa havia por nascer entre a garoa e o estouro das ondas.
Era estranho e incômodo chorar sobre as teclas do computador, mas eu chorava posto que me lembrei que a palmeira esquecida na fresta da janela era a mesma, posicionava-se igual, tinha a mesma altura e a folhagem, toda verde à outra da minha infância, vista da varanda da minha primeira casa. Só hoje eu havia reparado nisso visto que andava cega e morta entre escadas, paredes, portas e os batentes de uma vida sem sentido.
O dia clareava e algum barco teria se atrevido na soturna sombra dos mares sem nenhuma cor teria deixado a marina, depois de alguma espera, mas sem olhar pra trás.
Arildo estaria por certo desafiando as ondas e os peixes sem Iemanjá e os peixes se contorciam em suas mãos habilidosas e duras no mar profundo sacudindo de leve o barco pequeno, que balançava entre uma e outra vaga, como se o mundo todo fosse só um curto recado, um esquecimento de Deus, uma ligeira imperfeição deixada sobre esse imperfeito mundo de pessoas solitárias e quietas, como só convém às pedras e aos lagartos das montanhas ermas de sol e do mais completo esquecimento.




Num corpo de mulher

O carro rodava pela estrada como um rio que não cruzava nenhuma outra avenida nunca, um rio sem qualquer barco ou ponte.
E as estrelas no céu eram fincadas e duras no espaço escuro, como conchas submersas, como restos de naufrágios remotos.
Recostada no banco do carro ela deixou que seus olhos fixassem aquele estúpido nada coalhado de luz gota a gota, tantas as estrelas, as mãos frias no volante.
E agora diferentemente de quando era menina, essas luzes pequenas não esmagaram seu peito numa dor funda sem cura, seu peito apenas respirava fundo o ar fresco como um bicho.
Nem trouxeram as estrelas, com seu brilho, recordações de um futuro no qual permaneceria como enfim sempre permanecera só.
A luz dessas estrelas cortava o ar parado da noite em que o carro rodava sem o barulho do motor, na agonia anestesiante da madrugada.
Nos para-brisas uma garoa miúda vazia de esperanças e igualmente das dores todas dessa vida cumpria seu dever, sem charme, de molhar as coisas devagar, só mais um pouco as arestas, os cantos, as quinas das coisas.
A paisagem era sempre a mesma, só uma e escura e a vida que respirava nessa noite na mata em torno da estrada era subentendida como uma poça não sabida, nunca possuída por ninguém.
A solidão é só uma palavra, ela pensou de repente, sentada no âmago frio dessa hora que não passava, que talvez não passasse nunca.
A solidão nem era mais uma palavra, tinha se tornado material como o banco do carro, os sapatos apertando um pouco os dedos dos pés, os faróis de um caminhão que nesse instante cruzava com ela.
E na bruma do amanhecer o carro ainda rodava soturno seu som sem história, sem sequer destino, enquanto o tempo permanecia quieto, suspenso entre as primeiras nuvens do amanhecer.  E as estrelas ainda recusando-se a partir nos vultos que aos poucos se distinguiam entre árvores e pássaros, perdidos entre um guarda rodoviário e um pedágio abandonado, na distância indivisa da neblina de horas sempre iguais.












Confissão em Cartagena de Índias

A igreja de Santa Marta era, no calor infernal do meio dia no sol ardente do Caribe, um oásis de sombra e silêncio, quebrado apenas pelo som incessante dos ventiladores. O padre, velhinho, estava sentado próximo ao altar; ao lado dele, que olhava sempre em frente, uma cadeira vazia.
Ele esperava seus fiéis, entre entediado e exausto.
Perto dos grandes ventiladores pessoas se agrupavam, menos talvez pela fé, mias para fugir da inclemência do dia. Os lugares estavam disputados onde o vento batia.
Ao lado do padre não havia ventilador.
Então uma senhora gorda chegou com seu leque e sentou-se. Ela também olhando para frente como se estivesse só. E desandou a falar. Era uma confissão bastante demorada.
O olhar do homem não se modificou.
Ela falava e falava; parecia feliz em ter tantos pecados e poder ficar ali naquele lugar de indiscutível destaque ao lado do pároco, cada vez mais sufocado pelo calor.
Depois dela chegou um adolescente apressado que se sentou e leu no celular todos os seus pecados. Antes mesmo da absolvição já ia se levantando, olhando a porta aberta e o sol lá fora.
Por último um velhinho chegou. Olharam-se. Trocaram meia dúzia de palavras e saíram juntos para a sacristia.
Ficaram as duas cadeiras vazias e uma pomba que cismava em voar baixo por toda a nave atrapalhando a reza e fazendo a delícia das crianças.

O enterro de Rossini

Seguiu-se à intempestiva morte dele um anoitecer deslumbrante e uma noite infernalmente quente, de céu estrelado e distante.
Ela, sentada na sala esperando o dia clarear, viveu cada minuto dessa escuridão insone, incapaz de se mover. Pensou sem pensamentos, assim como acontece com um bater leve de asas no escuro, um mar estrelado ou a sombra das montanhas. Em pensamentos sem formas do pensar, como riscos na neblina, como o redondo da terra, como lagos congelados e voo de gaivotas, como flores despedaçadas.
Ela não entendia, não conseguia entender e nesse vazio branco que só a morte pode trazer ficava. Imagens de trem, capim, cana de açúcar, mangueiras altas na ventania das tardes, chão molhado de jabuticabas esmagadas, banheiras quentes, sopa no fogão de lenha, gargalhadas e correrias. A voz dele chamando alto seu nome, a voz dele agora para sempre muda cantando apenas nos vãos da sua mente.
Então era assim: o coração falseava, seguia-se a isso uma grande falta de ar e o escuro da noite sem fim. Pronto.
O sol nascia iluminando o prédio avistado da varanda.
Enquanto a manhã progredia chegavam amigos, de todos os lados e lugares, uns ali de perto, outros de longe, repartindo vans, kombis e carros. Chegou um caminhão causando estupefação no cemitério, chegou a turma do clube de pesca, insones da noite mal dormida e aqueles que nenhum de nós conhecia.
Chegaram anônimos ramalhetes pequenos e corbeilles gigantescas, com nomes de pessoas importantes lamentando sua partida precoce. Chegou vindo do interior um barril de pinga de alambique, a preferida dele, sucos para as crianças e gelados para as mulheres.
O dia tecia com sua passagem a derradeira e simples história de um homem muito amado.
Lá pelas quatro da tarde o mundo escureceu e pensamos em adiantar o enterro.
Mas foi durante a reza de despedida, logo encurtada pela necessidade premente da natureza, que os trovões e raios começaram. E então caiu sobre São Paulo um aguaceiro inesquecível.
Foi bem assim como conto, passo a passo, como a memória registrou: o vento uivou a princípio baixinho, portas bateram, um lenço passou voando entre as folhas secas e o caixão foi logo fechado interrompendo a reza do terço puxada por Tereza e apressando em todos nós o começo da saudade.
Depois disso os amigos brigaram entre si para ter a honra de carregar o morto e saíram todos para o tempo na ventania que sacudia as árvores. O temporal desabou.
Ela, filho nos braços, acompanhou com o olhar o bailado dos homens bêbados encharcados de dor, de chuva e de pinga que procuravam, entre os córregos e a lama, o lugar da cerimônia. O céu se fez ainda mais escuro numa noite antecipada. Os raios iluminavam o cortejo dos guarda-chuvas e ela pensou que estava vivendo dentro de um filme, que aquilo de fato não estava acontecendo: pôde assim apreciar a tremenda beleza que o sofrimento trazia e registrá-la para sempre.
Pensou nele deitado no escuro do caixão que ia bamboleando entre gemidos, trovões e xingamentos entrecortados de seus amigos queridos. E sorriu: pela primeira vez ele não podia se manifestar, imóvel que estava em meio às flores do campo.
Viu mais uma vez, entre lágrimas, os amigos de seu pai em meio ao susto da morte.





















No desenho do ar

A noite era densa, atropelada, vadia e o homem que caminhava ao meu encontro de repente parou. Assim mesmo como conto: um homem veio caminhando ao meu encontro e de repente parou.
Seus braços e mãos viraram seres animados, animais suspensos que procuravam no alheio ar em torno alguma história esquecida, os dedos tentando agarrar alguma coisa invisível, os cabelos desgrenhados nalgum resto de luar, e as mãos abertas pareciam escolher, entre as lembranças, alguma coisa que ele não sabia bem, algo que não se decidia a ser, que pudesse realmente ser escolhido.
Os olhos olhavam para baixo seguindo as emendas da calçada suja, desenhando formas entre os riscos do cimento, com um meneio muito sutil, vago e demorado, como se ao longe alguém rezasse, como se dentre as quaresmeiras da avenida um beija-flor tardio ainda procurasse pelo ninho, numa pequena aflição de filhotes esquecidos.
Foi assim como estou contando, na noite que começava o homem parou.
Mas nele a vida passou a fluir mais que antes de uma maneira que aturdia a gente, deixava um constrangimento no ar, entre as coisas nossas de todo dia,  sem saber o que fazer.
Passei rapidamente por ele, quase pedindo desculpas, com meu casaco e sacolas e a Dr. Arnaldo seguiu sua vida de trânsito e pessoas, umas indo, outras voltando.



No meio de mortos olhares

Na hora em que Ana entrou no metrô nada de especial aconteceu.
O trem seguiu seu curso por túneis e avenidas subterrâneas, percorrendo aquele espaço nostálgico onde nada existe e onde as coisas perdem seus verdadeiros contornos, restando apenas rodas metálicas em trilhos, sons distantes de outros trens, uma voz que anuncia cada estação.
No entanto, naquela tarde do dezembro, enquanto a existência das pessoas repetia mais uma tarde ensolarada por sobre a Avenida Paulista, Ana decidiu trocar seus sapatos, no vagão do trem e o barulho inusitado de um enorme saco plástico que se abre de repente invadiu nosso circunspecto estar cada um em seu lugar, alguns de pé, outros já se aproximando das portas para descer na próxima estação.
Tudo parou, enquanto a moça distraída de si mesma e menos ainda atenta a qualquer um de nós trocou, com vagar e cuidado, seus lindos sapatos de salto, por um par de confortáveis tênis azuis.
Digo trocou com vagar, mas o ato foi muito maior: foi de uma ousadia tão desconcertante para nós, quanto mais ela esticava cada uma das pernas e examinava o efeito dessa troca, como se estivesse sozinha em seu apartamento.
Quando chegamos às Clínicas ela fechou com pressa a sacola e saiu correndo do trem.
Deixou para trás sem perceber, como era magnífico aquilo, fiquei muito tempo a pensar, deixou um silêncio, um mal-estar, uma vergonha de sermos assim tão...de sermos assim como fomos...... como somos.......de termos ficado um ou outro com a boca aberta de estupefação.
O que Ana fez foi simplesmente trocar os sapatos, não num ato agressivo ou acintoso, talvez tenha errado ao ignorar tantos olhares e tantas presenças, mas apenas trocou os sapatos.
Quando nos olhamos novamente, nós, os que ficamos naquele vagão, era como se nos perguntássemos inquietos se realmente existíamos e se aquilo de fato tinha acontecido.
Ficou entre uma e outra parada um senhor um pouco querendo sorrir e um garoto que acompanhou Ana com os olhos até a escada rolante.
















Casa da infância.

Ela ficou um tempo enorme parada do outro lado da rua olhando a velha casa.
O céu estava azul, com algumas nuvens baixas, ela notou em meio à sua emoção. Notou também que soprava um vento leve que balançava, lá longe, até aonde ela podia ver, as folhas verdes da mangueira. Sua mangueira.
Olhou a rua, essa ladeira de pedras, inesquecível, por onde os cavalos passavam. As mesmas casas com suas árvores coladas aos muros. Para cima e para baixo a ladeira era a mesma de quando tinha oito anos.
Olhou a pintura amarela devastada pelos anos e pelos temporais de Cerquilho. Reparou que a pintura do portão era outra, de uma cor mais forte, que ela não gostou.
E pelo meio das grades viu o quintal. Era um quintal enorme e cheio de sombras que os anos não puderam esconder.
A vida havia passado por ela levando para muito longe a alegria da infância, a terra com cheiro de chuva, os trovões e as grandes tempestades de todos os verões nos quais ali vivera. Mas naquele momento em que o tempo havia deixado vez às memórias, ela se deu conta, sem sofrimento, sem nenhum remorso, nem mágoa, que muita coisa ficara no passado com seus cheiros, cores, formas.
O trinco do portão fez um barulho estranho, mais metálico do que nos anos em que corria de calcinha nas chuvaradas de dezembro. Era um portão moderno, ela notou sem mais nenhum pensamento.
No entanto as mangueiras estavam lá, o chão de folhas secas, que escondiam umidade e minhocas, estava lá, as grandes sombras permaneciam. Até a jabuticabeira, de onde despencara em tarde muito longínqua e torcera o pescoço, erguia-se exuberante.
Silêncio. Nada se movia. Então Lucia colheu uma manga, só uma, da mangueira mais jovem que não existia no seu tempo, mas que estava na sua terra, naquela em que existira menina e que ainda existia dentro de si. Ela pensou na velha terra sem idade, existindo por milênios e milênios, sem pressa, sem passado nem futuro.
E na ponta dos pés escolheu a manga mais bonita, avermelhada pelo sol que também era o seu sol de cinquenta anos atrás, o mesmo bom e velho sol e guardou no bolso da saia.
Ontem me contou que o caroço vingou e que hoje ela tem uma pequena mangueira em um vaso na sua sala do vigésimo andar do centro da cidade de São Paulo.
Olhamo-nos e nos despedimos. Corajosa ela era, eu havia tido medo de voltar, medo de enfrentar de olhos secos o passado. Como agora.









Pés em pétalas

Quando as lembranças saiam pelas ruas e eram lembranças de folhas e terra no outono, elas encontravam outras histórias, que iam ocupando pequenos espaços de vento ou pedaços de ar parado à beira de troncos ou postes.
E quando uma ou outra lembrança povoava o amanhecer das ruas quietas, quando o movimento da cidade ainda não tinha se atrevido a espantar a quietude dos paralelepípedos é que essas lembranças de orvalho pela manhã em cafezais já tão distantes encontravam-se com fiapos de outras memórias, atrevidas todas como nós a perambular pela cidade de concreto e aço.
Tudo isso acontecia antes que o barulho das coisas começasse a cavar suas próprias e temporárias histórias. Eram obscuras certas formas que sobrevoavam o ar limpo da madrugada, eram lembranças às vezes luminosas, outras nem tanto, que escapavam no ar azul, que acompanhavam o sol da manhã trazido por detrás do nítido contorno de cada prédio.
Isso me lembra o sitio, você me disse uma vez pela tela do computador e apesar da distância em mares e terras que separa meu outono e tua primavera existe como que um tempo, no qual existimos meninas e o cheiro de mato queimado que te percorre o pensamento não é o mesmo que talvez percorra o meu, mas é cheiro e de matos por certo iguais ou quase.
Enquanto caminhas segurando a beira do casaco comprido no frio de Londres, essa luminosidade que também é minha, me percorre a pele fina que surge escorregadia por debaixo da saia curta; bem rentes numa proximidade fresca e quase abrupta, nossos corações podem cantar baixinho, ou mesmo não, mas percebem ambos brotos nascendo em canteiros de qualquer parte do mundo, em todos nas quais passeiem nossos pés.
E o ar pelo qual passamos as duas, cada uma em seu continente, vai se tingindo de um rosa tão delicado como você me disse: pétalas são apenas pétalas.
Tão delicadas nós duas seguindo por essa estrada da vida afora pousando nossos olhos, quem sabe distraídos, por sobre flores miúdas, num rosa de pétalas que teimarão em seguir nossos pensamentos por todo o dia.
Ando agora um pouco mais depressa e a madrugada já se tornou mais um dia comum, minhas memórias aceleradas desconhecem a realidade desse sol poluído da cidade, teimando em se mostrar juntas, com pressa, tão exibidas todas de sua existência autônoma.
E então vão se deixando ficar pelas esquinas, onde outras lembranças se mesclam em conversas ouvidas de passagem, em frases entreouvidas nos metrôs.
São não minhas, mas tão minhas essas histórias parcialmente ouvidas. Como me aproprio delas descarada e vadia como se eu fosse um ladrão.
Ou talvez as memórias já sigam sem dono, existindo quase matéria nem consistência nenhuma, tão como se nunca tivessem sido vividas.
Na brisa do outono é bom caminhar entre as árvores vazia do que fui e até do que serei, deixando que pensamentos alheios cubram minha própria vida e passem a me pertencer ou de fato a ninguém. Também a liberdade das minhas próprias lembranças viaja numa territorialidade que também a mim atiça cavalga e amedronta, num mundo só de mundos sem nenhuma materialidade, que projetam incansavelmente suas eternas e recorrentes imagens de coisas, plantas e viajantes.
Crio agora imagens sem nenhuma forma enquanto caminho respirando bem fundo pra não chorar, pois as lágrimas não choradas, e apenas elas conhecerão o orvalho que não tece o dia, como quando era bem cedo e chegava alguém abrindo bem de leve a porta, como quem não quer ser percebido.


















De uma extrema delicadeza

Anoitecia muito devagar e a noite anoitecendo ia entrando pelas janelas, entranhando nas frestas dos móveis e nos vãos esquecidos das gavetas. E esse anoitecer ia brincando lentamente com as folhas do amor perfeito, rastreando os passos de Gigi pela casa, tentando bem de leve invadir o espaço entre almofadas e talheres.
O noturno ar escuro preenchia devagar o vazio das panelas e mesmo debaixo dos lençóis a noite havia se insinuado deslizante.
Tudo ia sendo tomado por um silêncio aconchegante, num vazio dos sons que conduziram o dia ao seu final e que agora também haviam desaparecido na penumbra.
Sofia regando as plantas foi notando distraída que entre os vasos e mesmo a terra dos vasos e por debaixo dos móveis uma delicada escuridão a tudo envolvia com mil olhinhos de seda.
E ela pensou a noite com seus passos pequenos de espuma e não fechou as janelas; com seus olhos a escuridão da noite parecia uma menina dormindo.
Tão linda e tão tranquila a menina dormindo, antes de a noite chegar.







Desmedida distância

O avião cortaria o céu escuro rumo às estrelas.
Ela sabia, o avião iria ultrapassar o momento da dor, iria deixar para trás o frio e a chuva de São Paulo enfumaçada, iria cortar a noite suavemente, tecendo zonas de silêncio, onde antes havia a sofreguidão de dias intermináveis e opacos.
O avião iria desenhar espaços pequenos e acumulados e iria flutuar num impenetrável presente, no qual seu corpo cansado poderia se abandonar.  E como ela ansiava pelo momento de embarcar.
Segurou firma a bolsa rente ao corpo, tentou fechar os olhos, queria ouvir a chamada, queria adivinhar no ar o átimo de instante anterior ao que anunciasse sua partida,
O avião decolaria na sua loucura costumeira de desafiar a vida, subiria suicida jogando-se em meio à chuva e ao vento, aos raios e trovões, mas ela não teria nenhum medo; sua alma deixava lentamente a aflição para se tornar leve, quase nuvem.
O avião abriria espaço no espaço líquido do ar e ficaria tão alto que de nada adiantaria olhar pela janela e então nesse momento, ela poderia olhar quieta para dentro de si, onde a saudade cavara um fosso profundo, só então ela poderia olhar pra dentro de si sem ter medo de morrer.
A saudade deixara um rastro amarrado e doloroso que iria se soltando aos poucos nas nove horas em que estaria lá no alto, fingindo que aquela viagem era só mais uma viagem, no panorama farto de sua tresloucada vida.
Só lá nos espaços levemente ondulados seria possível começar a deixar de sentir a dor sem tamanho que a atormentava e quando todas as luzes se apagassem, naquele momento da madrugada em que se dorme e se acorda e em que tudo é silêncio e som longínquo de motor, nesse momento sim poderia viver a saudade enlouquecida e tonta que só fazia aumentar sem a presença dele.
E então, só então ela poderia vê-lo por inteiro e deixar a saudade doer demais e morder seu corpo e não perdoar, pois tudo agora era uma questão de muito pouco tempo, ela que havia ficado tanto tempo sem ele.
Agora ela já podia vê-lo com seu corpo moreno, seus cabelos revoltos voando no ar frio de New York, seu olhar curioso ao pensar em como ela chegaria até ele, que roupa estaria usando, como estariam seus cabelos.
Levantou-se tremula rumo ao portão de embarque sem pensar, sem sofrer, quase sem querer, como se o destino a estivesse levando líquida, rumo aos braços dele.
Era hora de embarcar.










Daquilo que nem existe

Ana listou com cuidado os homens de sua vida, num desses dias em que o tédio havia se abatido sobre ela inexplicavelmente e resolveu ir para a cozinha com uma sensação de falta, um esquecimento sem fatos, uma lembrança sem qualquer imagem que a atormentou durante algum tempo, como um pernilongo numa noite insone.
Quando todos da casa chegaram a encontraram cabisbaixa, apreensiva, invocada, tenebrosa lavando as folhas da alface. Brincava ainda com ela esse esquecimento sem coisa esquecida na hora da novela das oito, um pensamento como o de uma traição, onde não houvesse personagens, nem motivo, posto que traição nenhuma acontecera.
O que ela não saberia, nem ao tomar seu banho antes de deitar, e escovar os dentes, era do homem esquecido do passado, do amor único, exato e tão definitivo, que havia sido consumido em si mesmo, nas horas tontas de um só verão, sem envelhecimento nem lembrança.
Não restara neles ou em qualquer lugar deles, esse amor que se extinguira ligeiro e alucinado, em fugazes encontros no meio de tardes paradas, em quartos e casas emprestadas, ao acaso, em horas roubadas, no meio de dias azuis.
O que Ana jamais saberia é que desse amor não restaram sobras, mágoas, nada a lembrar, decifrar, esquecer, procurar. E que esse homem que existiu também não teria agora nele nenhum traço dela que fosse perceptível, nenhum perfume que trafegasse em suas memórias, nenhum jantar a ser relembrado, nenhum ponto no corpo ou talvez na alma que pudesse ser outra vez tocado, revivido, relembrado, que se mostrasse, quem sabe mesmo esquecido.

E porque nada restou de cada um no pensamento do outro é que suas vidas puderam continuar a ser como um caminho secreto até deles próprios, de puro éter, da mais estreita e completa beleza.
Em algum lugar agora desse vasto mundo alguém sentirá talvez um pouco de frio, embora a noite seja feita do mais puro verão.
O amor deles que eles mesmos esqueceram e que não era mais sabido por ninguém, que não restara em qualquer vago e aéreo espaço passou na brisa da noite, como um perfume de mel ou flores abertas em montanhas onde jamais ninguém pisaria, em damas da noite voando num lugar só de estrelas.
Um amor deles mesmo ressuscitado e imediatamente perdido na constância de desalentos sem conta e na inexatidão que por fim levaria tudo de existente sobre a terra.











Coisa de mar

No meio da névoa eu caminhava sozinha, com a pele do mar colada à minha pele e eram as duas tão únicas, que poderiam ir se diluindo no frescor do oxigênio, como se nunca fôssemos nos encontrar, as pessoas e as peles das pessoas, envoltas todas numa mesma e invisível materialidade, como se nada de fato existisse.
A névoa que encobria metade da praia e um pedaço tênue de mar era só a névoa fria de um fim de ano qualquer, depois de uma chuva muito forte.
Ela vinha sozinha como se sempre e desde sempre caminhasse diretamente pelo meio do tempo, como se o passar das horas fosse mais material que o ar que respirava, que a areia por debaixo dos meus pés, com suas conchas partidas.
Andava vazia e indefinida pela areia irregular, ora alta ora baixa, pelos anos ou mesmo pela inexistência dos anos, como se a noite demorasse a chegar hoje mais do que ontem ou se abrigasse por trás dos montes espichando-se menina por sobre o Montão de Trigo diluído na umidade, um bicho no meio das coisas, dos caramujos, de todos os outros bichos.
Caminhar assim era flutuar entre o sal do mar e as gaivotas, entre o tempo que estica as pernas pelas ruas das cidades onde nunca estaremos, por uma garoa conhecida onde se pudesse apoiar o cansaço e o tédio dos dias, a companhia medíocre das pessoas sem brilho, os olhares lúbricos, a ganância, a falta crônica de qualquer delicadeza, uma falta jamais apagada pelas telas, pelas novelas, pelas realidades falsas, minuto a minuto criadas.
Pequena sombra no meio do halo ardente eu te indicaria o caminho mordaz entre as pedras que espantam a água etérea das ondas, se eu pudesse falar essa linguagem das coisas, que se fazem e desfazem com tal naturalidade, como se morrer ou existir tivessem um só e mesmo significado.
No Montão de Trigo boiam os cadáveres e um longo e constante gemido estilhaça as ondas, parte as asas das gaivotas, paira acima de tudo, até sobre as marolas mornas que enrolam a tépida água de dias sem fim, desses dias sem término e tão constantes que só os pescadores podem conhecer no silêncio dos seus barcos, enquanto puxam as redes.
Caminho, sozinha de ti e do que fomos um dia.
Não te pertenço mais, nem lamento não mais te pertencer. Verbo que assim conjugado esconde outros corpos e lágrimas, que se entregam no meio de mares, oculta a lembrança do que foi ter te pertencido, o próprio fato insólito de ter um dia sido tua.
Tudo se afoga na luxúria de maremotos e furacões, nessa beleza louca que só o vento traz, um vento muito forte, mais que antes. Mares mornos como tua pele era antes, talvez salgada misteriosa e ardente, como só podem ser a ilusões longamente arquitetadas.
Tua pele, tua pinta na testa, que a minha imaginação achou bela, tua franja loura que só o vento dos meus lábios tocava e fazia dançar no meio das tardes macias, nas quais nos amávamos; nas quais eu te amava ou pensava te amar.






A menina que amava o mar

Era uma noite por demais cheia de estrelas e quando olhamos para o céu as duas juntas sentadas no banco frio da praia o mundo se cobriu de um silêncio fresco e transparente como só se fazem os silêncios junto ao mar.
E a noite era linda, não havia nuvens no céu, nem os pernilongos que te picam a pele clara voavam nessa hora e pela areia os siris caminhavam quietos, lentos, com preguiça de fugir dos nossos passos.
A noite era feita só de ondas, e os cachorros da cidade que nos seguiam os passos eram tranquilos, paravam para farejar a lua cheia brilhando na atmosfera leve do ar; eras tão pequenina, eras menina ainda quando me abraçavas ou corrias e teus pés afundavam delicados na areia orvalhada da praia ou procuravam a água morna, que o sol da tarde havia esquentado.
Éramos só nós duas e os sinos chineses tocavam muito longe.
Havia barcos em alto mar com uma ou outra luz que às vezes desaparecia entre as marolas e que brilhavam como pequenas estrelas.
É primavera meu amor e se ficarmos bem quietinhas vamos ouvir as sementes das flores germinando e rompendo o chão da praia à procura da luz e do sol que aparecerá cada dia mais cedo; ouviremos até os bichos nas suas tocas e as tatuíras escondidas sob a areia molhada da praia.

Então arrumaremos nossos baldes, pás bolas e sairemos a passeio, e todos, até os peixes escondidos no fundo mais fundo do mar saberão que somos felizes.





Montão de Trigo

Esse lá que eu vejo dessa praia deve ser muito triste à hora em que anoitece se o dia é frio e chove.
E há uma delicadeza tal que fica pelo ar brincando como em pétalas inexistentes de flores que há muito já morreram enquanto o mar já de cansado e sem rumo levanta uma espuma silenciosa e branca, como nuvens inesquecíveis.
Tudo é doce e mergulha em abismos da saudade mais difícil, aquela das coisas que não se viveu, que permanecem atônitas percorrendo aflitas os caminhos mais íngremes de cada alma.
A saudade do que não foi vivido cerca essa ilha da fragilidade das coisas mortas, mas que permanecem, uma saudade fantasmagórica só um pouco dolorida, como um ano inteiro vivido do qual nada ficou, nem uma imagem, nenhuma memória verdadeira.
E pouco a pouco tantas lembranças juntas começam a chamar as redes que lembram outras praias e areias de outras texturas densidades e cores e essa praia em que estou é apenas mais um remanso na tarde difusa, na neblina de além-mar, um movimento que mora nessas palavras de quando apenas se sonhou e o dia espera intacto e enorme na sombria soleira da porta.
Tudo é distante a partir da névoa que envolve a alma num movimento agudo, pronto para ser vivido, num suspiro que envolve o corpo de quando ainda nem se respirou.
Lá daquela ilha, por trás da Ilha das Cobras há alguém que me vê, não, há alguém que vê no horizonte, não essa praia em que estou, mas as pontas da montanha onde a mata cresce buscando a brisa que essa hora traz, uma brisa ainda morna no hálito da noite densa que se aproxima devagar da linha ondulada dos montes.
E esse alguém vendo o continente, talvez pense que aqui possa existir alguém que ao cair da noite pensa nele como alguém sem nenhum contorno, uma imagem de sonho, que de repente é lembrada e logo fugaz desaparece.
Com extremo carinho, com uma sensação sutil de esperança.












Memória dela neles

Com o passar dos anos a memória deles dentro dela ia ficando leve, fluida como nuvens passageiras quando, à tardinha, o céu se tinge de vermelho. Ou quando a chama de uma vela vai ficando menor e menor e já se vê dentro dela um desejo de se apagar, um desejo de não mais existir.
Algumas imagens eram assim, voltavam sem aviso, chegavam quando a alma repousava num remanso de sossego e doíam como coisas que estivessem ainda acontecendo naquele exato instante e demorassem a terminar de acontecer, ou continuassem acontecendo por um tempo irreal, extremamente arrastado, como se quisessem durar para sempre.
Algumas memórias doíam quando ela se lembrava de parreiras, uvas ou trilhas no meio do mato, ou quando no desassossego da adolescência ela sentia um brutal desespero ao mergulhar os olhos no céu coalhado de estrelas, assim, sem motivo nem consequência.
Como doíam trazendo ventos do passado de inesquecível tormento, como era o tempo, um tempo que não podia voltar um segundo antes da queda uma palavra maldita ou que deveria enfim ter sido dita, mas não e tudo partira dela rumo a não sei onde, lugares inacessíveis.
Como essa sensação de impossibilidade machucava o silêncio mole da tarde, enfrentava uma tristeza esquisita que se colava à chegada da noite, perdia o rumo entre barulho de copos e talheres ou carros na avenida fazendo esquecer as notícias do dia, as notícias reais.
A memória deles e a memória dela neles existiriam, por certo, para sempre, mas, onde ficariam todas essas paixões pensadas ou vividas quando ela não mais existisse e seu corpo se desfizesse lentamente, pavorosamente?
Era preciso reter os pensamentos, ainda mais aqueles que eram ou pareciam bonitos, inteiros, feitos em si mesmos, sem nenhuma palavra a mais ou a menos, exata em seu acabamento de limites e palavras.
Pensamentos envoltos em cores ou cantos, pensamentos pensados entre a água fria das geadas nos cafezais e a poluição escura das cidades, tão inteiramente inteiros quanto um presente.
Era preciso aprisionar o tempo, deter na tarde a sua passagem sangrenta, estilhaçar o medo da morte que passa montada na passagem disfarçadamente tênue das horas.
Prender o medo como a um barco, sempre ao contrário, erguendo com força a pesada âncora que o impede de partir.
Como haveria ela de guardar as memórias e guardá-las para que, para quem?
A tarde cai devagar, essa tarde como nenhuma outra, como todas, e o céu hoje se mostra de um tom opaco, de um azul misturado ao cinza, de um azul frágil, desistente de ser azul, querendo ser uma outra cor, sem saber qual, qualquer cor desencontrada, que nunca houvesse existido, antes desse exato agora.
Procuro nos meus pensamentos guardados outra cor, como aquela de outra tarde qualquer, guardada entre os restos de fatos que presenciei, mas nenhum, nem de longe parece chega perto desse que se desmancha e já foge quando um escuro mais forte vem.
Busco nas fendas, entre uma e outra dobra das cortinas, um não azul, essa outra cor que não se mostra uma palavra, o nome dessa cor que nunca vi.
Mas o céu me traz a primeira estrela e com ela uma nova noite, quieta, parda, inquieta e absurda, como todas as que até agora eu vivi.
Outra noite única.




Boiçucanga e Cerquilho

As nuvens se acumularam nas montanhas mais ao norte e Boiçucanga deixou-se anoitecer mais devagar, assim como quem não quer.
Em Cerquilho o sino da igreja chamou sem muita convicção a noite, tangendo cansado as Ave – Marias. Padre Arthur se levantou com preguiça da rede em que cochilava.
Ondina sentiu uma fisgada em seu coração e pensou bandos de gaivotas sobrevoando barcos em linhas sempre horizontais; sentiu-se então um pouquinho mais só nessa noite que existia em Cerquilho, entre tachos de polenta postos ao relento e vozes chamando crianças.
E em Boicuçança, ao mesmo tempo, com seus homens nos barcos em seus pequenos remansos de areia, onde meninos caiçaras ainda brincavam. Ondina, com o passar dos anos desenvolvera essa habilidade: estar em dois ou mais lugares, ao mesmo tempo. Assim fazia para se livrar do insuportável tédio que por vezes a assolava.
As vacas mugiram longe no pasto perto do rio e ela ouviu sua filha Terê fechando a porta da sala. Anoitecia.
Na bruma indefinida e crua feita só de estrelas ela pôde perceber que o mundo penetrava pela janela e viu flores roxas nascendo em desalinho pelo quintal afora na praia deserta até tocar a areia longa e mais pra longe o fundo mar. Pode enxergar o fundo do mar e suas conchas pequenas, viu os cardumes brilhando nos últimos raios que o sol derramava na água.
Confundiu-se.
O sol se afogava num céu que só Boiçucanga sabia envolver em seus braços.
A vida era isso: Tereza fechando a porta cantarolando, o sol se pondo em Cerquilho e pelo mundo afora em horas tardias e diversas.
E ela vivendo num tempo absorto, que poderia ser qualquer um, num tempo de qualquer cidade, de qualquer parte do mundo ou numa hora qualquer.














Na atmosfera da casa

E vovó se pôs a costurar palavras, sentada perto da janela, alinhavava casas de telhados azuis a barcos branquinhos, cosendo com linhas de todas as cores.
Mesmo enquanto dormia vovó sonhava com palavras e cores das linhas que usaria para uni-las; vovó usando palavras rendadas, perfume com renda de bilro, com rendas meninas, e outras palavras elegantemente tecidas.
Às vezes tinha que usar linhas duras como metal, com elas prendia a morte em cestos bem fechados e a doença em quartinhos de crochê.
Quando não bordava vovó ligava as palavras no ar da sala, de modo que suas paredes e para além delas o ar pleno do meio dia, se fartavam de versinhos à deriva ligados por linhas invisíveis, remendados ao sabor de suas lembranças, como colchas de retalho.
Vovó sentada ao sol de inverno da tarde podia então reviver sua vida, só de olhar as palavras que brincavam pelo ar. E quando eu, sua neta, bulia com uma ou outra, separava ou juntava as letras criando novas histórias, só então vovó sorria:
_Ah! Noninha ela dizia ah! Noninha!







Sobre todos os teus cheiros

Acordei com o silêncio mais absoluto, era um vácuo das coisas prosaicas de toda manhã, os carros passando na rua o vento nos coqueiros, a voz de alguém falando baixinho, um barco que se afastava deixando no ar um pequeno ruído de motor, nada disso, um vazio de madrugadas que eu não tivesse vivido em nenhuma como vivo agora, percebendo o calor que me abraça na cama, muito longe nenhuma onda, nem o mais distante som de mar.
Num fiapo de sonho ainda sigo correndo de alguém, ainda te persigo tentando te inventar, para que fiques comigo para sempre; como gosto disso: para sempre. Como havia de te querer e que vivesses comigo num tempo de mares ao acaso ou que saíssemos num barco que não soubesse voltar, no rastro frio do sol na baia para um futuro sem volta, nem despedidas, cantos, outros amores inventados na fumaça do incenso ou do cigarro.
E é só mais um verão, com seus peixes que brilham no ar cálido da tarde, com suas velas e meninos bonitos cruzando atentos a areia com suas horas que se espreguiçam molengas, como horas que deslizam sobre ondas, horas que se escondem nas praias desertas, entre os contornos das pedras e os desenhos dos mariscos, nas pedras tocadas pela maré baixa.
E de vez em quando a pontada aguda e fina do medo que todo verão traz, de impossíveis vidas, de tudo tão impossível e precário, como a toalha branca na janela e uma voz que canta e vem de não sei onde, de um violão e do cheiro de café fresco que nasceu da parede das casas trazendo consigo muitos outros, de leite fervido, ovos mexidos, pão torrado na chapa de ferro e polenta frita na beira do fogão e o mormaço que nos traz de muito longe outras notícias das coisas simples de todas as manhãs.
Um cheiro de banho e gel para barba com o perfume que chega bem antes do teu corpo que nesse momento já brilha ao sol de janeiro doce e inteiro derretido e besuntado de protetor solar caminhando rumo ao mar. Pela varanda vejo seus cachos loiros brilhando ao sol do verão de Ipanema.
















No anoitecer.

Abriu os olhos assustado, sentindo-se estranho como nunca.
Uma dor forte no estômago, um enjoo brutal, uma sensação de calor que subia pela garganta tornando o ar irrespirável.
Tentou gritar. Não conseguiu. Queria pedir ajuda. Não tinha voz.
Então ficou ali deitado na calçada ouvindo as conversas dos taxistas bem ao lado e a freada dos carros na esquina da Heitor Penteado. Tentando mover-se viu que um lado do seu corpo não respondia e pela primeira vez em sua louca vida teve a certeza de que ia morrer.
Por volta do meio dia a dor ficou ainda mais forte e ele sentia que respirar era um ato doloroso. Falar não podia enquanto a tarde seguia seu curso e tudo piorava nele hora a hora.
Foi uma longa tarde na qual ele pode se lembrar de seu pai dando de comer às galinhas e ouvir a voz de sua mãe chamando para a janta. Nesse tempo que parecia não ter fim ouviu o trem passando perto da pequena casa em que moravam no interior de São Paulo e viu a fumaça que se erguia majestosa para os céus, numa tarde de um azul inesquecível.
A dor foi se tornando contínua e companheira enquanto ele, pequeno, aprendia a pescar no ribeirão com seu pai, olhando os rabos prateados dos peixinhos brilhando no sol inclinado do outono e tendo pena deles.
Mais tarde soube que estava anoitecendo, porque os pés das pessoas passavam mais e mais apressados perto do seu rosto e os carros começaram a acender seus faróis. Então soube: a vida não era nada além de um longo dia, no qual as coisas mais lindas pudessem ser listadas e tornadas de novo realidade.
Quando Jonas estava há um dia sem se mover, alguém deduziu: deve estar morto. E ele estava morto e sozinho, como sempre em sua curta vida nas ruas de São Paulo.




















O cafezal

Rita sentou-se ali mesmo na escadaria e mirou a imensidão verde do café; mais além o azul do céu daquele dia, mais que todos, intensamente azul.
Acomodou-se melhor, abrindo um pouco as pernas fortes, levantando a saia para sentir o calor do sol enquanto a ama contava uma história de homens valentes, mulheres corajosas, meninos e borboletas e ela esperava o seu homem; e como era bom esperar por ele assim largada nesse varandão, esperar por seus passos pesados, por suas botas sujas de barro vermelho e deixar as crianças, quantas crianças, com as amas, quantas amas!
E se esfregar com seu homem por quartos e corredores, sem descanso e sem limite fazendo outros filhos tantos, quantos e pari-los!
Rita sorriu lembrando-se de como era bom pari-los sem qualquer constrangimento deixando que os gritos e gemidos invadissem salas e dispensas; depois acompanhar de olhos fechados a correria da casa, o vai e vem das visitas e adivinhar as flores do quarto, sem sequer precisar enxergá-las.
Era isso então, era tudo isso, a vida filhos crescendo por entre os pés de café descalços e sujos de terra, com os rostinhos amarelados pela manga!
E desejou sem pressa e para sempre uma vida com filhos e homem e amas e mangueiras carregadas de fruta. E cafezais, a perder de vista.
Erguendo-se de súbito disparou a correr pelos terreiros onde o café esturricava no calor das três da tarde, o coração enlouquecido no peito de uma alegria quase infernal, os pés afundando no barro do chão, os cabelos livres das grossas tranças.
Ela era uma mulher livre.
E o dia agora era um dia incandescente e o sol ardia o e as construções de tijolo e telha, nítidas de se querer gritar e gritar jogando a voz no longo azul que envolvia o mundo.



















Marta vê o novo dia

No frio da cozinha, na obscuridade da manhã, Marta percebeu uma xícara passando solene na altura da sua boca e talheres que boiavam no ar turvo do outono, em posições e alturas tão variadas, que o espaço se talhou entre madeira e metal.
Beto pendurado na janela olhava as coisas fora de seus lugares, como se aquela fosse uma manhã qualquer e o fogo se acendeu e a água logo começou a ferver, alguns dedos suspensa do fundo da chaleira e o pó de café se espalhava pelo ar em torno do coador, como um desenho.
Sentada à mesa Marta teve certa dificuldade em fazer parar o requeijão na torrada, a torrada no prato, o prato na mesa, a mesa no chão.
Só quando chegou a hora de sair para o trabalho foi que ela percebeu o apartamento todo navegando entre portas e paredes e não pôde deixar de sorrir ao ver passar sua escova de dente dançando entre as obras completas de Machado de Assis.








Enquanto o dia se apruma

Dona Rosália sente a sandália nova apertando um pouco o dedo mindinho, mas agora não dá tempo de trocar o sapato, há toda aquela roupa por lavar e a máquina que...Rosália não quer acreditar: a máquina paira um pouco acima do chão, mas tão pouco, que ela tem que se agachar e passar por debaixo dela a vassoura de piaçava.
O fio elétrico dá trabalho brincando no ar até encontrar a tomada e fica a se mover numa dança inquieta e lerda, de um lado a outro da lavanderia, enquanto Rosália tenta segurar o sabão em pó, que esvoaça e brilha solto no ar etéreo do outono.
As roupas maiores se deixam levar lentas, traçando caminhos curvos pela cozinha, enquanto as cuecas e as meias já estão quase chegando à sala.
Dona Rosália dispara na direção da porta a tempo de ver todos os seus lençóis brancos e limpos de morrer saírem bailando em desordem pela Madalena afora, pela porta envidraçada da varanda.








As estações

O inverno é nítido quando eu percorro as ruas, especialmente se a noite vem e as janelas das casas e dos prédios firmam-se claras e retas na escuridão que começa a crescer em torno.
O frio deixa ao redor de tudo um halo gelado, formal, como uma pedra de muitos ângulos e histórias; no inverno tudo precisa ficar agarrado à sua própria história, pois a nitidez do mundo transtorna as almas como um cantil vazio de toda sombra ou sentido.
No inverno tudo é, simplesmente, e essa simplicidade das coisas firmando-se com a noite em sua retidão momentânea são de um não sentido em si mesmo arrasador.
Sigo inquieta pela rua, como quem caminhasse suspensa por pedras permanentemente pisadas, sem sossego, sem descanso, sem qualquer alternativa.
Chegar sempre em casa e olhar as coisas de sempre com uma felicidade generosa de espaços quentes, vinhos e banhos lembrando, porque é impossível esquecer que havia um homem.
E o recorte desse homem na paisagem finca um ponto de exclamação dolorido, como deve ser um estilete, um homem subindo a rua machucado, com as pernas tortas e o peso de sua carroça; esse homem que eu vi antes que a escuridão do frio me trouxesse aqui junto a essa sempre minha intolerável privacidade, a essa intimidade tonta e delicada, com minhas tantas permanências, em algum ponto próximo ou dentro de mim mesma, um ponto incerto, onde não há como se instalar qualquer apego.
Esse homem ficará comigo na lembrança daquela ladeira, numa intermitente lembrança que tremula com os carros que buzinam, com seu rosto resignado, com seus olhos marejados de familiares fantasmas, das dobras das suas calças, daquilo que não sei, que nunca saberei.
Nada saberei dele que passou por um longo instante em minha vida e talvez nem de ninguém; o inverno é um tempo em que o coração não precisa de muito para sentir-se aquecido, mas nunca se aquece, pois quando braços magros estendem os ossos de mãos pálidas e longas tolhendo o tempo dos meus passos e se abrem pétalas ocas e tão tristes é como morrer um pouco ao seguir andando, o olhar numa vitrine, num carro que passa numa nuvem.
O inverno é um carro refletido numa nuvem.
O ritmo de uma caminhada forte como uma nuvem e cada passo um risco na tarde, o desenho de um abismo.
O inverno é nítido, mesmo dentro de casa, e as paredes e as portas resignam-se com o tempo a se tornarem história de si mesmas no traçado da sua imobilidade, só eu não posso nem quero me resignar.
No verão o coração traça outras histórias, plenas de lua e correntes quentes.
No mar, no calor onde tudo se derrete, o amor é fácil, como nem saber rezar, como seguir só vivendo e fincando nos momentos do viver esse travo sempre esquecido, de que tudo vem apenas passando e nós indo a lugar nenhum, como as borboletas que enchem a sala, que entram pelas janelas, pela porta, por todo o canto e o mar canta a noite toda e os corpos nus se procuram com desespero no desespero das horas que não passam, que demoram a passar.
No verão o tempo se dilata, como se no âmago das coisas só restasse um vazio em permanente rodopio, um vazio sem conversa.
E entre esses dois mundos há uma arrasadora sequência de meses coloridos ou cheios de pequenos dias acinzentados, onde uma brisa fria lembra de longe o que se vem esquecendo e outros, quando subitamente se dá conta de um ipê amarelando, o céu sob as nuvens ou um canteiro de flores do campo alargando as avenidas com suas cores berrantes.
E são essas duas primeiras estações tão perfeitas em si indicando como exatamente, ,como se deve pensar e sentir, sem admitir descaminhos. Durante a primavera e o outono o coração da gente se sente inseguro e não sabe bem se se alegra ou se detém a pensar pequenos pensamentos de passagem entre um ou outro sentimento passageiro.
















Um canto para Maria

Engravidou ali mesmo no ponto de ônibus de forma brutal e inesquecível quando voltava do trabalho e seguiu perdida pelas ruas da cidade grande, como bicho machucado, tropeçando em nada, chorando à toa nos orelhões ao longo dos meses, sem nunca discar pra ninguém, sem contar, sem pedir ajuda.
Aprendeu a caminhar de olhos baixos e a falar medindo com régua as palavras pinçando-as uma a uma do fundo negro da dor. A barriga crescendo nas roupas cada vez mais justas e o sorriso menor a cada dia, a pedir desculpas de tudo, de já não sei quê.
Por fim, num sábado bem cedo, Maria exausta de caminhar com suas pernas inchadas, se sentou entre os restos da noite e os primeiros caminhões de lixo que passavam estouvados. Bem na sarjeta, onde achou que era um bom lugar, o seu lugar.
Não aguentava mais andar e a dor era intensa.
Um pequeno fio de sangue nascia do cimento e uma garoa fina começava a impregnar o mundo de uma tristeza sem fim nem começo.
E parindo ali sozinha, no frio e na chuva, Maria pensava que era assim mesmo que tinha que ser que toda sua vida tinha sido isso, uma solidão sem fim.





Objeto de desejo

Sempre bem de manhã, quando a avenida escorria lerda rumo ao dia, as bancas de flores acordando, o cemitério ainda no ostracismo das madrugadas, quando não se enterra ninguém.
Ele, menino ainda, sentado esperando a condução, ela, uma mulher envelhecida passando por ele, como se nada, como se não o tivesse visto. Sem perceber o que faz ela ergue a saia e apruma o corpo e, ao se sentar cruza com languidez as pernas.
O menino com seus olhos compridos nas pernas dela, ela em sua pose altaneira olhando as árvores floridas da avenida, sempre florindo antes da hora, quando ainda nem era primavera.
De repente chegam os guardas com seus cassetetes; o menino é acuado, começa a ser agredido na manhã azul: um maníaco escondendo, por sob o casaco, a mão criminosa que afagava seu corpo em ato libidinoso, foi o que disseram.
Ela parada ao longe olhando sem coragem para chegar perto, defender o jovem que ia sendo machucado, com gestos terríveis e palavras. Ela imóvel, com seus olhos assustados mirando ao longe as flores sem nome, pedindo um mudo auxilio sem nenhuma resposta.
O que havia acontecido? Nada, nada, apenas na manhã azul corria pelo ar um desejo intenso sem nome que era dele, mas também era dela, quando as maritacas sobrevoavam agitadas o céu da cidade, em que a vida se desperdiçava entediada, entre os muitos carros que passavam, entre os passos comportados das pessoas no tempo em que ele se acariciava discreto, olhando o vulto dela totalmente encoberto por uma capa de frio com as pernas cruzadas, deixando ver um pedaço de pele muito branca e intocada.
Quando seu ônibus chegou ela foi andando bem devagar e o menino, agora olhando para o chão sentiu a passagem dela, desejando-a mais do que antes. Ela seguiu para o trabalho sabendo-se desejada e triste na avenida encoberta pela névoa.



















Prova de amor

Maria assim se explica quando lhe perguntam: não sabia o que fazer com ele sempre na rua, chegando muito tarde, nem chegando às vezes, ficando dias e dias fora, tão pequeno ele era, ele só tinha treze anos.
Eu procurei ajuda, ela dizia olhos baixos, postos nas mãos uma segurando a outra, procurei onde eu podia, na polícia, no posto de saúde, em todos os lugares por onde andei, não consegui. Em hospital, até em hospital eu fui nem sei quantas vezes, deixava de ir trabalhar, avisava a patroa.
Eu tenho só esse filho, ele é fechado, não fala nada, não sei quando está triste, nem sei quando tem medo, não sei nada do meu próprio filho.
Então foi que eu tive a ideia, primeiro acorrentei ele no batente da porta e fui trabalhar, deu trabalho porque ele não queria, tive que bater nele, mas, pelo menos, eu saí sossegada.
Depois, aos domingos tive que acorrentar ele à minha própria perna, para que ele tivesse que ficar colado a mim e não pudesse sair por aí e correr perigo, só que então nenhum de nós dois podia ir a lugar nenhum e ele me batia enquanto estávamos os dois ali acorrentados e me chamava de louca e eu acho que eu era.
Os vizinhos chamaram a polícia, eu de pé nem ficava mais e para conseguir fazer comida era muito difícil e nem podia trabalhar.
Onde, por Deus, foi que eu errei? Eu pergunto isso todo dia e ele não está mais perto de mim, agora ele não está mais aqui.
Disseram pra esperar que logo chega o dia de visita, mas faz tempo isso e até agora não me avisam de nada, levaram ele com um papel do juiz que um homem me entregou, eu olhei todas as letras e tudo se embaralhou, não sei ler, mas me explicaram.
Onde ele está não o acorrentam, a assistente me disse, lá eles sabem cuidar de meninos desse jeito, eles ficam calmos, ficam bem. Isso me disseram, mas eu não acredito neles, pois se nem eu, que era mãe, dava conta.
Ele é meu filho, senhor, toda a minha vida.















Um livro é como um rio

Depois que o vendaval do esquecimento dispersou todas as coisas agrupadas sobre a terra; depois que o planeta foi varrido por uma poeira morna e cósmica de lembranças circulares, quando vagos pensamentos de outras eras já andavam permeando o vão das portas é que essa história aconteceu.
E conto porque numa tarde clara eu passeava junto ao rio.
E era um tempo transparente no azul pleno de maio.
E uma dor pequena incomodava em mim o lugar onde eu menina ainda morava.
E pela primeira vez pensei que outros poderiam sentir algo assim como eu sentia.
Pela primeira vez.
Era a hora da tristeza que chegava mansa e amorosamente às seis da tarde.
Uma tristeza que eu sempre aguardava assim como esperar no fim do dia um hóspede inevitável.
Desde pequena fui assim, minha mãe dizia, ser triste era de família.
Vinha de um momento do passado que minha mãe não podia recordar, nem eu.
Vinha de um momento onde o mundo das recordações se partira no vão oco da noite e sumira com o vento para um lugar improvável.
Escrevo isso assim porque é domingo e me atrevo a ir continuando mais e mais longe do que nunca fui levada pelas mãos suspensas dessa ventania incontrolável que dentro de mim habita entre árvores de pesadelo que me jogam no passado.
Sou menina agora.
Na China, ou na França, no que havia restado da Califórnia, na América Central, em todos os pontos mais afastados do mundo crianças como eu andavam encantadas procurando o elo perdido, a outra dimensão.
Foi nesse dia mágico, em meio à neve e à areia, em meio aos prédios semidemolidos das grandes cidades que todas encontraram o segredo, abrindo a caixa, desencontradas de si mesmas.
Sem saber. Sem nem poder evitar.
No vazio da mais pura insensatez.
Na caixa aberta simultaneamente nas várias partes do planeta foram encontrados sinaizinhos pequenos e desconhecidos.
Sinais inúteis quem sabe, mas curiosos.
Agrupados assim por encanto ou por acaso.
Então ela pensou (elas pensaram ao mesmo tempo assim):
Era uma vez todas as letras existentes embaralhadas na vaguidão de um mundo morno cujo significado desconhecemos.
E sem significado as coisas permanecerão para sempre apenas coisas, que se olha sem sentimento algum e que podem existir ou não, tanto faz.
E não existia o medo nem a dor, tampouco havia a violência ou a paz.
Não havia o amor, nem o desejo, pois as fantasias todas haviam sido extintas da mente das pessoas incapazes de sonhar.
Havia antes disso só a vida e o vazio da vida.

Sendo assim os pássaros cantavam, as pessoas andavam e o tempo passava no silêncio enorme, no fosso fundo sem fundo que restara com o desaparecimento de todas as palavras.
E essa história se interrompe aqui, sem poder continuar a se escrever sozinha, à espera que essas crianças descubram as palavras esquecidas ao brincar com tantos sinais e, outra vez reinventem histórias e recriem outros livros no lugar daqueles há muito desaparecidos com sua multidão pacífica de tontas imagens; e que os livros, assim reinventados, novamente voltem a ocupar o lugar vazio das estantes.
E que novas bibliotecas sejam inventadas para guardá-los e esperar que essas crianças cresçam e se coloquem nesses espaços onde o sagrado brinca no ar desde o mais longínquo dos tempos e assumam, com uma alegria recém-descoberta, a de que suas vidas só tem sentido no traçado das palavras, e que existem casos a serem contadas no fio reto das frases e que o mundo está para ser escrito.
Pronto para ser reinventado.
E para que seu calor aqueça nossos corações vazios e nossas mentes exaustas de não pensar o mundo.
Para que sejam salvos nossos corpos inquietos por não saber de fato o que é o amor.
Para que se salvem nossas vidas tão cansadas sempre de tanto não serem vividas.





A lua chegará pra ti

No fim da tarde, logo que o sol mergulhar no mar, sairemos as duas a passeio.
Sei que serás pequenina ainda e que o mar talvez seja só um som assustador, um som entre silêncios mais amenos, entre uma onda e outra.
Andaremos juntas pela areia sem nada pensar e o céu irá se tingindo, pouco a pouco, de vermelho e depois virão devagarinho as primeiras estrelas e enquanto seguimos caminhando eu pensarei um desejo.
Mas pensar o que na proximidade da noite negra subindo do mar e só os respingos d' água voando em nossa direção?
Então irei só te contando histórias minúsculas, sem falar, porque o silêncio, de tão grande, abraçará nós duas.
E seguirei pisando por mim e por ti as conchinhas e pedrinhas da praia e os cães vadios nos acompanharão sem latir porque então já estarás dormindo linda, tão menina!
E no teu sonho .....que sonhos será sonharás? sem dúvida ouvirás minha voz, cujo coração bate tão rente ao teu, que é quase um só coração e todas as estrelas que irão estrelando os céus desse lugar brilharão por nós e saberás de um mundo sem palavras, que pode conter peixes, ares, mares e verões tardios.
Só nós duas na noite, nós duas bem silenciosas, como gaivotas estreladas.
Que silêncio enorme minha menina.
Ah minha menina, um silêncio de fazer sonhar!

De noite

Era como no silêncio do lago, de um lago qualquer de quando a noite cai.
E no rosa das coisas e casas perdidas na neblina na noite, quando as luzes dos outros carros passam lentamente por aonde nossos olhos vão calmamente, você disse.
E eu me admirei que essas palavras pudessem passear no ar fechado do carro, entre os vidros embaçados, na noite roída pelo frio que vinha encomendado pela peregrinação do vento.
O vento, você disse.
As folhas e os lagos apareciam brilhando na luz das estrelas e as luzes das estrelas eram cálidas, eretas, eram quadros na escuridão quieta da noite sem história, datas, horas nos ponteiros dos relógios abandonados em salas escondidas.
Passamos já, eu disse sem querer ter dito e minha memória queria pensar meninos, pensar estrelas que não essas pensar, o cimento das escadas, imensos e verdes gramados, iluminados cafezais.
Mas não enquanto a noite permanecia fincada na estrada como se existisse só noite por todo o mundo além daqui. E em nós o mundo seguia entre as teias, cantos, histórias nas estradas por onde nunca passara ninguém e me sentei olhando sombras, ruído de água correndo na mais doce lembrança de outros riachos, trechos de vida escorrendo por outros dedos, teu rostinho curioso no amanhecer de uma longa manhã, onde de repente me percebia tua mãe e tão pequena e frágil, tão sem lugar onde pedir apoio, sem caminhos por onde prosseguir, sem tréguas.
E de súbito o rosto masculino ao meu lado era só um rosto e as noites perdidas de amor se sombreavam com o vento, desde sempre, para sempre diluídas nessa neblina que envolve o mundo, como uma renda que sai de entre os troncos escuros das árvores, como se brotasse do musgo mudo do chão.


















Os dias eram assim

Ficou o sorriso enorme pendurado no retângulo luminoso da janela, enquanto barcos despencavam-se nos abismos azuis do não esquecimento.
Não esquecer, procurar nunca mais esquecer, para nunca mais esquecer.
Mas os dias eram assim e ela se fora antes de nós que a olhamos tão calada no caixão, tão séria, como se outra pessoa fosse, uma que nenhum de nós conhecera.
Fora-se olhando por uma fresta de janela, por uma fresta num retângulo qualquer, onde brilhava longe o amarelo de um ipê.
Partira de nós no exato instante em que o brilho nas flores e folhas era tanto, eram como vagalumes do dia clareando a escuridão que dentro dela ia se fazendo insidiosa e má.
Os vagalumes também começaram a despencar cachoeira abaixo enquanto ela morria e um ar morno se fazia tranca no seu peito, água morta, lodaçal.
Imóvel ali entre os cetins e rosas vermelhas, nada combinava com ela, tudo parecia cenário de filme ruim.
Duas mulheres, lembrei-me agora, duas janelas por onde avistar os últimos dias e horas de suas vidas, o tempo parado enquanto as constelações trocavam suas posições no céu verões e invernos se sucediam, animais deslocavam-se em bandos e pássaros voavam para muito longe.
Um peixe saltou fora da superfície verde do mar, não poder mais ver o mar, sonhar tantas vidas, nem poder relar outras vidas vivíveis, não conseguir abrir na escuridão seus olhos nos olhos abertos de uma gaivota, nem sentir o vento de outono, nada, nem mais o medo de enlouquecer.
Não ter mais vidas como barcos, de todas as tantas cores que os barcos possam ter, vidas que pudessem se deslocar no mar aberto, que não se conformassem com caminhos prontos, que imaginassem seus próprios caminhos como as maritacas podem fazer no ar.
Duas mulheres olhando no quadrado reto das janelas e a vida como um dia interminável em que sequer uma hora parou de chover, a vida como um único dia interminável.
Como ser a força inclemente das águas, o desânimo das chuvas finas e constantes, a rotina dos pingos pequenos, que molham tanto e tão devagar, que o desespero demora muito a começar sem que se saiba por quê. Ou como.
Os dias possuíam aquela enormidade das pequenas coisas que se faz e que não levam a lugar nenhum. Dias vazios, não como barcos, nunca como barcos.












Repouso entre rosas

Eu te pensava tanto!  Eu te pensava e te queria, não como exatamente como tivesses sido para mim enquanto estávamos mais ou menos perto um do outro.
Eu te sonhava tanto e mergulhava rindo no teu sorriso, sorrindo do teu riso torto, te buscando nas manhãs luminosas da infância, na lua nova da adolescência, quando os prados todos se enchiam de luz e cores encantadas. E as formas inconclusas dos objetos mágicos que criavas povoavam meus pensamentos, colavam-se ao meu corpo como roupas que nunca mais pudessem ser tiradas.
E nesse inesgotável manancial de linhas combinadas em que traçavas tua obra um pouco fico. Em mim, nunca te disse isso, pois naquela época eu ainda não sabia, todas as sensações viram imagens que só as palavras e os gestos podem possuir, enquanto em ti traços e cores elas são.
Eu te pensava tanto vida afora e agora, enquanto espero nesse silêncio tumultuado eu te penso quando éramos só nós dois, o sítio todo enluarado, a varanda ao longe iluminada e uma lua que só enquanto podíamos ser pequenos existisse tão imensa.
Na brisa leve daqueles tempos, os pés de milho balançavam seus braços pelo ar e nós ficávamos quietos, um com o outro, disso me lembro bem, talvez que tecesses já traços casuais de coisas, a que só mais tarde darias vida e eu pequena tentava, sem saber descobrir no universo das palavras conhecidas, algumas que fossem delicadas embalando a noite, o verão, o odor das mangas penduradas nas mangueiras, tua presença ao meu lado.
Como será te encontrar nesse momento, eu que há tanto tempo não te vejo?
As sombras da casa do sítio nos encontravam brincando ou correndo por todos os cantos onde não andamos nunca mais, nem separados e enquanto todos te esperam, agora que és famoso, como e quando será que virás?
Eu te esperava tanto, queria tanto que viesses só pra me ver e que nos sentássemos numa varanda e eu pudesse viajar no tempo te vendo pintar enquanto o sol se derrama sobre todos os telhados, de todas as casas do mundo e eu pudesse te escrever como um pouco faço agora e tentasse te prender nas linhas, nas curvas dos pontos, na eternidade das palavras que definem o momento que passa, enquanto os sinos chineses dão conta do vento que encanta a madrugada que logo se aproximará.
Antes embalávamos nossas vidas sentados no terreiro de café e ao redor era tudo muito escuro; desde aquela época, me lembro muito bem, já temíamos a morte, não essa de cada dia, a morte que nos leva hoje um sorriso, depois um perfume que ninguém mais possui, um tom de voz que move o ar como os sinos, uma risada que clareia as madrugadas, um olhar.
Essa que vai nos levando pelos sempre assustadores caminhos da não consciência, do esquecimento e da perda.
Mais uma noite de primavera chega sobre a cidade e embora estejas longe, nem sei onde,
sei que estamos vivos os dois e isso é o quanto basta.





É tão bom pensar assim

Estava caído na calçada, os sapatos jogados no asfalto; de lábios fechados olhava sem ver o céu cinzento de março.
Março era um mês do qual ele não gostava nem um pouco, era engraçado poder ver, sem poder olhar e ter certeza das coisas agora tornadas de repente de uma tal simplicidade, mesmo sem abrir os olhos.
Tentou pedir água e não conseguiu.
Sentindo um frio desconhecido subindo do cimento da calçada. soube então amargurado que havia chegado a hora da sua morte.
Havia chegado a hora e não podia repartir isso com ninguém, nem podia mais falar e assim sentir-se menos sozinho; o ar em volta era morno, sua pele ainda podia sentir o calor, mas por quanto tempo até que tudo se transformasse num deserto gelado do mais completo vazio? O vazio que ele sempre temera, desde menino, vinha caminhando ao seu encontro e ele não podia contar isso a ninguém.
Que estranho era ouvir a sirene da ambulância e ser colocado numa maca por mãos profissionais; aquela aflição à sua volta e por quê?
Quero só ficar aqui ouvindo os passos passando, ele pensou consigo mesmo, um pouco sem graça por esse pensamento que não podia ser comunicado, mas que era o seu desejo: queria ficar ali só ouvindo os passos passando sem nenhum som, só ficar ouvindo.
Os outros seguiriam seus caminhos e iriam a lugares, para eles o tempo passaria e fariam coisas e reclamariam da falta de tempo e ele não seguiria mais, nem iria, nem faria.

Que difícil momento era aquele, como era ruim ter que ficar vivendo só mais um pouco sem poder terminar logo com tudo aquilo, porque sim, nem pedir que a vida se dilatasse por mais um dia ou que por piedade se extinguisse de uma vez só.
Finalmente saber tudo e não poder dividir, isso era solidão, o medo o profundo medo de saber e já não poder fazer nada a respeito.
Nos passos que passavam pensou ter ouvido os leves passos de sua mãe, tão leves como quando ele dormia febril e ela chegava de manso.
O vulto que se abaixou solícito viu apenas alguém desamparado, alguém triste que acabara de morrer no mais concreto abandono.












E tudo era muito escuro

E quando a noite mal se aproximava Rita ia até a varanda recolher a filharada e tocava o sino de chamar o vento três vezes; os moleques apareciam correndo de todos os lados do mundo, sujos e felizes, enquanto a ama acendia os lampiões.
Mas naquela tarde Belarmino não chegou e a noite desceu antes que Rita subisse ligeira as escadas da varanda.
Olhando as paredes da casa que se fechavam sobre todos, ela sentiu no peito um estremecimento, uma falta, um vazio, um mau presságio, um não sei quê que não a abandonou enquanto a casa seguia seu ritmo de todos os dias.
E mandou chamar Machado estivesse ele ainda errando pelos cafezais, pois que viesse logo sem perder tempo. Logo a noite fez-se a mais escura das noites e tochas improvisadas vasculharam a escuridão, entre tulhas, terreiros, toneladas de café secando ao sol de cada dia, mas ninguém foi encontrado.
Nas horas da madrugada em que nem o sono podia vir Rita ficou sentada no escuro do quarto para não incomodar ninguém e não conseguiu sequer chorar; seu peito era uma jaula apertada na qual o ar lidava para entrar de quando em quando, diminuto, com muito pouca serventia.
Fez café antes que as criadas acordassem e saiu silenciosa assim que raiou o dia deixando-se guiar por um sofrimento que não tinha nome nem tamanho.
Ao pé do riacho lá estava ele, seus olhos abertos num susto sem fim, chamando aconchego, um corpo retesado e frio, num corpo desistido para sempre de viver.

Os gestos de Rita se tornaram lentos, como se dançassem no ar à procura do que não sabia bem, à procura de nunca terem existido, para viver aquele momento de procurar e encontrar o xale no qual embrulhar Belarmino com seu corpinho pequeno tornado escuro pelo mistério da morte.
Mergulhada no poço sem fim da aflição Rita soube que seu colo de mãe de doze filhos era inútil, ela nunca reparara nisso, como toda ela era inútil e desajeitada quando seu filho morto não necessitou mais do calor que seu peito trazia, de um vão amor desesperado, de total inutilidade.














Numa esquina

Ela sentiu no olhar dele um misto de medo e vergonha e desejou estar ao seu lado por vários sinais fechados, fechada em sua ilha pequena de solidão, tentando destravar uma timidez que agora só fazia crescer e se atirar em seus braços.
Ele pediu um cigarro.
Ela lamentou, ele havia de compreender não havia bares por perto e ela não fumava, enfim, ela havia deixado de fumar, que pena.
Ela sorriu sem jeito na tarde escura e pensou pequenas bobagens envergonhadamente, desejou poder resolver todos os problemas daqueles enormes olhos azuis entregando-lhe sua casa, seu carinho, sua cama, seu colo árido de solteira, mas atravessou correndo a rua, como se fosse tirar o pai da forca.










Por pouco

Ele chegou devagar e sentou-se em frente a ela, pousou as mãos no colo, quietas como duas aves selvagens.
Ela pediu licença: havia ainda algumas coisas a fazer.
Ele entendia, não havia problemas, ficasse à vontade.
Ela arrumou a gaveta, folheou mais uma vez a agenda.
Ele olhou a planta seca, as luzes mortiças, as paredes amareladas.
Desesperada, sem saber o que fazer ela viu, por debaixo da mesa, os dedos dele metidos numa sandália havaiana cor de mel.
Ele semicerrou os olhos, como se fosse dar só um cochilo.
Ela começou a sufocar, com o calor imenso que de repente enchia seu peito.
Os olhos dele se abriram e um sorriso enorme e bom inundou o rosto fino.
Ela foi retribuir ficando de pé, mas tropeçou no cesto de lixo e sumiu atrás da mesa.








Que desespero Meu Deus!

O ônibus corria na névoa da cidade, embalado por uma música esquisita, enquanto Inês reclinava o banco e olhava distraída a paisagem cinzenta.
Pessoas corriam e se abrigavam da garoa pesada, pessoas tão pequeninas como aquelas de desenho de animação, como as que imaginava morando dentro do rádio, de quando era pequena.
Suas lágrimas teimavam em sair e ela apertou ainda mais os olhos; tudo era inacreditável no inverno, a cidade ficava como que possuída por uma luz irreal e difusa, como se tudo não acontecesse de fato, como se cada dia vivido fosse mesmo para ser assim, totalmente completo em sua total desnecessidade.
Tudo ficava escuro, dentro e fora era uma escuridão cinzenta e meio impessoal, como se nossas vidas fossem insignificantes e arbitrárias.
Sendo assim Inês deixava-se ficar com o vazio invernal e cinzento percorrendo seu corpo jovem, à procura de espaços onde o tédio se instalasse sem nenhuma emoção.
E o vento derrubava as lembranças uma a uma aos seus pés, lembranças que chegavam sem mistérios, sem tampouco terem sido convidadas.
Por trás dos seus olhos surgiam um a um os momentos de sua infância, tão inexpressivos todos e cobertos pela geada do esquecimento.
Inês a princípio lutou contra essas imagens que sempre vinham cercadas de tristeza, era uma tristeza sem motivos, uma tristeza apenas reservada às coisas que passaram e não voltam mais.
Em Orlândia as laranjeiras estavam carregadas de fruta, ela pensou sem querer e bastou que esse traço de pensamento traiçoeiro chegasse sem aviso, para que sua alma menina voltasse a desejar insensatamente, com um desejo insano e próprio do inverno, poder voltar atrás.
Era julho em sua alma e ventos distantes de dias azuis teimavam em permanecer desmanchando seus cabelos; sem querer viu sua avó perto do fogão cortando a couve, com seu coque pequeno e seu vestido de flores miúdas.
E sua avó arrumou um pouco os óculos, olhando curiosa sua neta que surgira de repente; era julho e a cozinha era grande e boa, com a chaleira enchendo a casa de vapor e um cheiro amigo de bolo de fubá permanecia no ar, como um presente.













São tantos os que se foram!

Ele sentiu a noite chegando na gritaria das galinhas procurando os galhos altos das mangueiras e percebeu que o sol já se fora, quando chegou à varanda e sentiu o vento frio do anoitecer.
Soube assim que estava irremediavelmente perdido.
Então caminhou até a porta e apoiou o rosto no batente áspero, a noite trouxe grilos e sons longínquos de pássaros chegando apressados aos ninhos, um gavião papa passarinhos gritou no alto da montanha.
Apurando ainda mais seus ouvidos ele pressentiu o namoro dos sapos na lagoa fria do pasto.
O silêncio cresceu nos sons do mato que aumentavam.
Bateu nele, sem aviso, uma saudade que não cabia no peito, em algum lugar tocavam as ave-marias, em algum lugar onde agora ele jamais estaria.
Olhou sem ver os telhados das casas dos sítios próximos e soube que Dona Augusta talhava o queijo e que Seu Rico tomava seu bom copo de vinho, esperando a polenta frita.
Soube que na casa deles as meninas ligeiras temperavam a salada.
Soube por que era assim, sempre fora assim.
O cheiro do limão espremido subiria pelas paredes da sala, Dona Ondina serviria os pratos de seus netos um a um, a sopa fumegante o fubá a couve rasgada, os pedaços de linguiça caseira, as vacas mugiriam no curral lenta repetidamente.
Na cidade as luzes se acenderiam com método, de muitas em muitas, comadres tão pequeninas.
Então ele não ouviu dentro de si o chamado da janta e não sentiu o cheiro forte do limão no tempero da alface, nem colocou sal nos tomates cortados ao meio.
Ele estava para sempre perdido, de si tinham partido todos, não sobraram vozes, risos, nem o canto de sua mulher espantando com incenso os fantasmas da casa.
Não haveria mais o cheiro do café ao amanhecer, nem o crepitar das achas no fogão de lenha, não haveria o choro das crianças, nem haveria a enxada ou os campos pra carpir.
Respirou fundo, mas o ar não veio, dentro dele o medo se enroscou feito urutu vinda do cafezal; no silêncio de depois pôde ver, saída da escuridão que adivinhava, sua mãe menina que lhe sorria.













Toda a candura da morte

Vó Rita viu, da varanda, Amélio passar correndo vermelho de sol e de grito.
Amélio girando no ar um chicote invisível.
E viu a vida morando nele, num nunca acabar de fartura e delícia, viu a imensa vida ensolarada. Depois olhou na direção da tulha, movida por escuros pressentimentos.
Amélio, na janela mais alta, golpeava seres imaginários.
Num átimo de segundo, num átimo, seus olhares se encontraram no ar quente da tarde de Nuporanga e o olhar dele rindo viu no negro olhar dela, a oculta sombra da morte, que ela mesma não via.
Tio Amélio morreu menino, menino.
Vó Rita sentou-se por anos sem fim à varanda, calada; anos e anos sempre calada.
Quando tio Amélio passa correndo afogueado pelo sol de tanto tempo, ela ainda tenta impedir, mas não vem o gesto e a voz não sai.
Vó Rita apenas olha na direção da janela, onde o olhar de tio Amélio criança está sempre sorrindo um segundo antes da queda.
Foram-se varanda, tulha e gritos de criança. Mesmo assim vó Rita e tio Amélio lá estão vivendo eternidade afora, esse instante antes do fim.




Vasto mundo

Em Cela a noite ficou gelada e imensa de estrelas, no céu recortado pela silhueta escura dos montes.
O rio D 'Ouro deixou-se levar pesado e lento num silêncio iluminado.
De sua cozinha ela sabia isso, sabia o céu, sabia os montes, sabia o rio.
Ali sentada quieta, junto ao fogo, ela apurou os ouvidos: as vacas já dormiam aquecidas pela palha e havia prenúncio de neve.
Mais um vazio, mais um espaço branco.
Maria se ergue avivando as brasas.
Nessa noite a neve chegaria silenciosa e doce, impedindo estradas e destinos e ela estaria só, só em Cela, sem mais ninguém.
Pensou a aldeia vazia, todas as casinhas frias e, ao redor de Cela, a neve e o D 'Ouro com suas águas geladas.
Levantou-se e a barriga cedeu fisgada pela gravidade; meu Deus seria hora nessa noite opaca?
Medo da solidão em Cela, dos telhados brilhando por sobre as casas de pedra vazias, do céu estrelado, por cima dos vultos noturnos, das casas, das casas de pedra nascendo do chão, como se existissem ali desde que o mundo fora criado e Deus colocara com os próprios dedos, como num desenho, aquele rio majestoso, correndo lá embaixo no vale, deliciado de sombras.
No escuro da noite Maria desceu as escadas puxando a manta de lã, os animais dormiam e porão estava quente, então ela se deitou entre eles bem devagar, para não acordá-los e antes de fechar os olhos sentiu os flocos finos da neve chegando no telhado e o coração do seu bebe batendo solidário e atento dentro dela.




















Viagem

Ele ergueu os olhos e viu New York iluminada para o Natal, fechou o sobretudo segurando entre as mãos aquecidas pelas luvas sua mala a tiracolo.
Dali a algumas horas o avião ergueria voo rumo a casa, à sua terra aquecida pelo sol e rumo aos braços dela.
Ela olhou a noite escura, o céu que os relâmpagos cobriam de fora a fora e teve medo; sem saber se tão longe dali chovia, ela limpou as lágrimas e procurou sorrir.
Perto do calor do corpo dele quando teria medo?
Sentou-se frente ao computador e conectou - se às escalas dos voos.
Passaria assim sua última noite sem ele, enquanto passageiros subiriam em todas as conexões do mundo, em rotas cruzadas perfeitas, ou adversas quem sabe?
Mas não ele, ele seguraria com displicência sua bagagem de mão e subiria no avião sem olhar pra trás.
Quando a luz do dia entrasse em seu quarto ela saberia que ele já tomara seu café a bordo e que possuído por um vago desespero já tirara o cachecol, sobretudo e gravata.
Ele olhou pela última vez o aeroporto Kennedy e a viu frente ao computador do quarto com seu pijama branco e seus chinelinhos de urso esperando por ele.




Velório

O frio subia do chão como navalha e o vulto deitado no caixão estava só, só e frio, só e imóvel, para sempre imóvel.
Deitada no banco gelado a menina se encolheu mais um pouco com nojo, por que justo ela tinha ficado ali? Tantos adultos em casa e onde estariam todos agora? Com que desculpa não estavam ali naquela madrugada?
Pensou em dormir e sonhar com coisas prosaicas, mas não conseguiu, ficou a vigiar a morta olhando paralisada seu rosto, com o terror profundo de perceber uma respiração ou talvez um movimento que ela não pudesse evitar, uma vela que de súbito se apagasse.
E se sua tia resolvesse enfim se levantar voltar da morte, sair do caixão desajeitadamente, jogando longe as rosas que a cobriam, pedindo ajuda para descer na mesa alta onde fora colocada, tirando o pó do conjunto de lã tão novo?
Mesmo assustada a menina velou a noite toda em silêncio, olhando a morta com olhos ardentes e cheios de fantasmas. Só na claridade do dia, quando por fim todos chegaram, foi que ela notou aquela rosa vermelha, que ela não tinha visto antes, tão fresca e orvalhada, uma rosa presa entre as mãos entrelaçadas de sua tia, que parecia sorrir um pouco mais que à noite.
Uma solidão danada de aguentar, uma solidão sem explicações tomou conta dela, uma solidão de doer muito e doer sem remédio.
Ela não queria morrer nunca, mas não queria mesmo!


As cercas eram de arame farpado

Foi quando ela sentiu a mão de seu pai a conduzi-la pela noite estrelada e havia tantas estrelas como nunca mais.
Ao longe, muito longe mesmo na neblina, um trem desafiava as horas lentas daquilo que nunca mais haveria de ser vivido; seu pai e ela caminhavam devagar na noite estrelada entre um ou outro latido de cães e o frio daquelas noites mora ainda em seu rosto, enquanto a alma afugenta pensamentos da mais sombria desesperança, pensamentos que pertencem à realidade das casas, das ruas, das coisas de agora, das pequenas infelicidades, dos atropelos diários, das portas dos apartamentos, das contas, dos dias que correm rápido demais rumo ao abismo do tempo.
Seu pai e ela na infinita noite estrelada.
E havia naquela época um silêncio de quintais adormecidos pela névoa e era bom passar rente às cercas, deixando a mão escorregar entre os bambus, levando o sereno guardado entre os fiapos da madeira.
Na estação a neblina escondia o fim dos trilhos e ela sempre ficara abismada de que o ar pudesse ser assim tão concreto, tão visível, tão cheio de pressentido esquecimento. À espera do trem eles ficavam e entre uma conversa e outra de homens, no repente mais inquietante e surpreso da madrugada, a locomotiva apontava rompendo a massa líquida do ar e a escuridão, que envolvia as luzes quietas da estação, luzes que apenas se deixavam ficar.
Uma voz de alguém que se despedia e depois a viagem e os campos que passavam, sem tomar conhecimento de outras existências, tampouco de si mesmos fincados no chão, daquele mundo e os laranjais que começavam a amarelar o despertar da manhã.
O ônibus deslizava estrada afora, um velho tossiu no bando de trás, o motorista praguejava vem ou outra, mas ela nem ligava flutuando nas brumas do passado e deslizando seu olhar pela dança imensa dos cafezais, que seguiam encantados pela tarde, confundidos com o despertar de outras manhãs, com outras viagens, com uma saudade que nem poderia ter esse nome, porque trazia o passado de volta inteiro, inquieto, colorido pela mais perene realidade.
E transformava o presente numa cadeia de acontecimentos adormecidos, numa sequência de fatos, sem a menor importância.












Quem eram eles?

Como seria possível contar?
Os olhos calmos curiosos esperavam atrás dos óculos.
Ela ia começar a explicar, mas então um mundo de lembranças, recortes, cheiros, sons e palavras, com pedidos e medos e sustos e intensos desesperos e horas felizes ficaram bailando no ar em torno e ela quase podia agarrá-los, com uma só mão, de tão materiais que eram.
As chuvas de verão e toda a sua insensatez e as mangas batendo nos galhos e depois no chão e de novo tudo e a cozinha e gritos e cores e dores e medos, os terríveis medo da escuridão comendo em silêncio as paredes, depois que todos dormiam e a morte rastejando atenta pelos quartos, farejando, perseguindo a morte das coisas todas que ela amara que ela amava ainda.
A morte.
Ela voltou a olhar os olhos que esperavam, não havia pressa neles, só um brilho indagador.
Como contar?
E a tarde seguia lenta e em algum lugar desperdiçava suas horas, sem nenhuma pressa.
Sem nem fechar os olhos ela viu a sexta-feira caminhando solene para o abismo, com suas vestes de seda vermelha, na moldura do horizonte.
Um raio rasgou o céu sobre o mar.
Delicadamente.
Quem era ela? Um punhado de....não....um momento....nada.
Ela olhou suas mãos queimadas pelo sol, as unhas curtas, suas pernas fortes, seus pés acostumados a percorrer longas distâncias.
Sim, isso era ela sentada um instante antes de se abandonar à brisa morna da tarde, num bar qualquer à beira mar, tentando se explicar a um desconhecido, que sorria para ela, um desconhecido que parecia já saber dela e de sua vida, sem ouvir palavra nenhuma, um homem que parecia ter lido no ar seus pensamentos espalhados.
Nesse instante Vera percebeu que as palavras, mesmo as que iam sendo pensadas, não permaneciam mais que um segundo no ar, iam se desfazendo com o vento que se encarregava de jogá-las fora e longe como convém às palavras, ao léu.
E era engraçado vê-las se desmanchando, primeiro na areia, depois mais alto no ar iluminado e também nas gotinhas brilhantes que cada onda deixava no ar; então ela se viu desejando uma noite pesada, sem sonhos, na qual ela também pudesse morrer, se desmanchar e renascer outra com o sol.
Os olhos por trás dos olhos já sabiam: ela seria dele.










Injustiça

Não era possível, ele pensou, nem era justo, não podia ser.
Com dificuldade buscou chegar à janela, a cidade seguia na rotina das manhãs, como se ele não estivesse ali olhando por trás dos vidros os carrinhos de feira.
Os barulhos de sempre, como eram tantos os sons do dia começando; um sol espesso, ferino iluminava ardente a rua em frente da sua casa. O asfalto brilhava sob os pneus dos carros que passavam como sempre.
Mas o quê estava acontecendo com ele?
O quadrado da janela foi sumindo, mas não era hora, era muito cedo ainda!
Sentiu no ar parado um tom de folhas caindo, devia ser brincadeira o que estava acontecendo.
Um enorme frio foi se ocupando dos móveis, então seu Matias foi despencando devagar, suspenso num desejo imenso de ficar. Tentou ainda se segurar na ponta da mesa de jantar, mas sua mão escorregou e trouxe junto a toalha de crochê.
O mundo já era uma sombra distante recortada no vão da porta, onde o sol esturricava a tinta que ele não podia mais ver.






Enquanto Rute se esquece

E todos os mares do mundo rastejando por praias desertas, enquanto a noite anoitece; em pequenas cidades ruas se acendem de repente, espantando o medo da morte e os fantasmas que se refugiam nos cantos mais escuros.
Em todas as pequenas cidades com suas luzinhas iluminando aflitas mais uma noite escura.
Em sua sala ela tateia no escuro os óculos e arrasta os chinelos pelos tapetes macios.
É muito tarde, tarde pra tudo, pra qualquer coisa tão impossível mais agora ainda do que antes.
O tempo tardio corre por sua pele, desliza suave por seu peito pressionando só um pouco, como um bandido, como um amante, que antes odeia, que ainda ama; e tudo que restou de sua vida precária e limitada cavalga por seus ombros cansados e sussurra dor em seus ouvidos.
Ela escuta atenta o tempo, mas não o ouve passar.
A escuridão agora é menos escura por aonde vai caminhando, a distância entre as portas é tão grande agora que os anos aumentam e aumentam sem parar. O dia se extingue numa doçura mansa que já nem tem nome.
Estendendo a mão para afastar as cortinas ela pode ver uma réstia de noite entrando azul aos seus pés, parece ter visto uma pequena estrela firmando-se entre seus dedos, mas já não pode ter certeza.




Gabriela olha o dia

Quando abriu os olhos Gabriela viu o longo domingo azul sentado à sua espera aos pés da cama.
Um domingo como uma gota que a observava calado, como convém a um dia assim importante.
Mesmo deitada de lado, com os dois olhos fechados, ela podia vê-lo com as pernas cruzadas, como um perfeito cavalheiro.
Rendeu-se então àquele fato iminente: precisava se levantar.
O domingo sorriu então um sorriso pálido e se afastou educado e discreto, enquanto ela se vestia.
Quando abriu as janelas a luz deslumbrante da primavera bateu em seus olhos, como um chicote, era luz demais, era uma luminosidade quase insuportável para um dia como aquele e foi só isso que naquela hora ela pensou.
Depois se sentou à varanda e sem ter o que fazer começou a tirar de seus pensamentos, delicada menina que era, suas melhores lembranças, aquelas das quais nem mais se lembrava tão haviam se entranhado na doce calma do seu peito.
E era preciso que começasse logo, que iniciasse longa e delicadamente seu domingo luminoso; a dor já nem poderia existir e por causa disso ela cantava baixinho velhas canções de ninar, enquanto trabalhava.
Canções que vinham se espremendo alvoroçadas pelas curvas do seu corpo e depois, quando ganhavam o ar límpido desse dia inesquecível, disparavam mundo afora, livres por fim da tristeza de existir; assim aprisionadas causavam só um pouco de medo.
Sua alma tremia pequenina agora posta assim em suas mãos; ela a olhou encantada, nunca havia pensado: era uma coisinha miúda essa alma, como Gabriela às vezes imaginava em seus pensamentos de nuvem.
Com medo que sua alma voasse pela janela, tão levezinha que era, enroscou-se feito concha no parapeito de ferro.
Essa espera que ela agora inventara era uma agonia gostosa, como um afago jamais recebido; isso ela não conhecera em sua vida solitária, era uma sensação que ela havia precisado inventar.
Ventava um pouco, foi depois que ela percebeu, pois as roupas do varal da vizinha batiam alegres nos vidros de correr, quase querendo voar e nesse vento domingueiro, que também não sabia de si mesmo ventando, ela foi lançando uma a uma as pétalas de sua alma, devagar para que não se ferissem no voo.
Lá pelo meio da tarde (que ela soube que era assim porque o silêncio do domingo ficou ainda maior e se ouvia apenas no apartamento de baixo um programa de auditório na TV) quase todo o seu trabalho já estava terminado.
As coisas de sua vida haviam partido lindas em revoada, um pouco embaraçadas com a súbita liberdade em suas atrapalhadas vidas de cor; então Gabriela tornou a colocar sua alma no lugar, bem guardada junto ao coração e tão leve agora de tudo sorrindo constatou a ausência completa de qualquer mágoa, a inexistência de saudades o vazio absoluto.
Lembrou-se de uma rua, de uma casa, de uma roseira pendurada no terraço, das flores do limão, quando mal raiava o dia, dos trens que passavam velozes, antes que a noite caísse, da dor aguda do amor.
Enrolou-se um pouco mais no parapeito da varanda, para se proteger do nada.
Um sino tocou as ave-marias e um cachorro uivou longe se abismando da noite que vinha chegando delicada, ouviu alguém que cantava e a chuva escorregando nas janelas imaginárias da sua infância.
Uma estranha felicidade tomou conta do mundo e Gabriela ouvindo a cantoria dos pássaros em busca do ninho soube que havia chegado a hora: foi se sentindo lentamente brilho, no ar quente que se insinuava de algum lugar e já não tinha nenhum medo.
Lançada à escuridão pespontada, aqui e lá, por vidros iluminados e faróis dos carros na avenida, percebeu-se em pleno ar misturada aos grilos da noite, ao orvalho e ao enorme silêncio que tudo por fim revelava.
Sorrindo bem de leve cumprimentou a morte que vinha vindo envergonhada e constrangida, como uma velha amiga que fora chamada às pressas e sem nenhum aviso.







Na lentidão da avenida

De tudo ela vinha se esquecendo; no começo era engraçado se perguntar que dia era hoje, o que mesmo que ela precisava fazer amanhã e coisas prosaicas assim.
Mas, às vezes, isso podia se tornar assustador como quando a campainha tocava e ela não podia sequer imaginar quem poderia ser ou como naquela manhã não conseguir saber onde estariam os bancos que se espalhavam nesse caminho tão diariamente percorrido e depois lembrar que não, não havia bancos por essas ruas, nem nunca houvera bancos pelas calçadas dessa cidade.
Havia sim bancos à beira mar, no mar de quando ela era menina e se podia ficar à tardinha olhando as velas sem pressa, num tempo onde nada parecia ter urgência e o tempo ficava sentado junto dela, olhando também ele o horizonte raiado de azul.
Com a idade as distâncias se tornavam compridas, tão compridas, mas não havia bancos decerto porque prefeitos não envelheciam, nem suas mães, nem irmãs, ninguém de suas famílias.
As meninas pulavam amarelinha na manhã enlouquecida pelo sol e Perdizes misturava o silêncio do domingo aos latidos dos cachorros; enquanto andava ela sentiu nos pés calçados a areia molhada e fria e a sensação de pisar em conchas, um barco vazio balançava na água morna e ela sentiu uma vontade grande de chorar.
Ouviu com clareza sua mãe chamando longe, lá no fim da praia, perto da ilha Porchat.
Ah! Lembrou-se, então era domingo!
E ela sentiu cheiro de peixe assado e salada de batata. Era um velho e bom domingo a beira mar. Como ela pudera se esquecer, era domingo e havia bolo de chocolate de sobremesa.




















Situações inexplicáveis

Era, na verdade, um mundo muito pequenino o seu, mas, nesse tamanho diminuto, cabiam imensos espaços que ela gostava de observar e nunca se cansava.
Ele cabia em qualquer canto onde Marina o quisesse e seus seres de espécies variadas, como formigas, aranhas ou tatus bolinha eram tão dispensáveis e anônimos, que quase nos dava dó.
Marina organizava montanhas e mudava lagos de lugar, com a mesma naturalidade com que escovava seus dentes cada manhã e destinava a cada um de seus habitantes suas atribuições, ora complicadíssimas, ora simples como que.
Também provocava pequenas, mas avassaladoras tempestades, maremotos de perder o fôlego e incontáveis furacões quando a monotonia de tudo se tornava insuportável e via impressionada como as formigas e os outros bichos se agarravam às folhas secas, para não serem levados pelas águas, coitadinhos.
Marina, conforme o dia e seu humor, era tomada de repentina bondade e salvava a todos com tal simplicidade e urgência, que logo estavam novamente postos a reconstruir o mundo.
Era como se o sol voltasse a brilhar forte e a manhã ressuscitasse nova e luminosa.
Mas hoje havia um fato chato estragando a brincadeira, um pequeno bicho morrera nos tumultos que se seguiram, o que não deveria ser raro nas grandes tempestades e ela pôs-se a olhá-lo com sua curiosidade de menina.
Mas então, e isso fugiu totalmente ao seu controle, seu pequeno mundo de repente ficou muito escuro, como se aquele bicho morto, aquela forma lívida estendida bem à sua frente, sem qualquer perspectiva, lembrasse alguma coisa que ela ainda desconhecia, como um frio na espinha, uma súbita falta de ar ou uma vontade grande, grande mesmo de chorar.




















Não é possível morrer!

Então ela se sentou num canto, no canto mais oculto da casa, como um canto primeiro, antes mesmo de nascer quando tudo que se sabe da vida e do mundo são confusos sentimentos, arrepios e uma indiscreta surpresa.
Sentada ali, bem quieta, ela pouco percebeu dos passar das horas e mergulhou num mundo sem palavras, um frio esparso, uma bruma nas manhãs de infância de uma infância qualquer.
Ela já era, de repente, pequena, tão pequena, apenas um ponto na manhã de sua tristeza.
Nem havia como chorar, sua respiração deixou de respirar muito aos poucos e cessou.













Receita de sábado à tarde

Porque talvez o sábado seja um dia insípido, saio recolhendo a poesia espalhada nas coisas do mundo, enquanto vou ao mercado.
E pelas ruas, como lixeiro por infinitas calçadas, eu trago objetos atrevidos, que me saltaram aos olhos, exigindo serem percebidos.
Não, eu não invento nada disso, as coisas se atropelam em sua tranquilidade e se atravessam no caminho que percorro às vezes com fastio.
Não é minha culpa se trago umas e deixo outras à mercê da própria sorte, pois mesmo seres inanimados sentem a passagem dos meus passos e avançam cheios de si rumo às minhas mãos.
Exausta de caminhar e de prestar tanta atenção ao que ocorre em meu caminho, passo a recolher a poesia solta nas gavetas da cozinha, com suas colheres, facas, garfos, conchas,
por que essas coisas delicadas e prosaicas também pedem aconchego e guarita.
Tão indefesas e tontas são agora, que me enchem os olhos de lágrimas, como se fossem pessoas pequeninas pedindo colo.
A vida nessa casa ganha então uma desmedida fartura, com as coisas saindo de seus cantos e navegando no ar translúcido da tarde; apenas cerro os vidros para que não se percam além das paredes, para que eu não as perca de vista, porque é bonito olhá-las enquanto dançam livres de sua rotina diária.
E depois, quando se cansam, regressam aos seus lugares de origem e passam a existir novamente como coisas de todo o dia.
Mas é nessa hora então, que uma enorme compaixão toma conta de mim e passo a armazená-las também nas palavras, como arrumo as verduras e frutas na geladeira, uma a uma, com toda a delicadeza.



















Lili observa o fax

E fica um instante parada entre o filtro e a máquina de Xerox.
Em volta desse quadro de escritório o espaço se tinge de uma incredulidade rósea e distante, enquanto que ao longe, na Avenida Mutinga canta um galo.
O fax aberto está ali, como um cadáver abandonado sobre a mesa, escancarado aos olhos curiosos, envolto naquela estática absurda que só a morte traz.
O fone deitado de costas lembra uma criancinha largada em desamparo, numa cama qualquer de hospital.
Lili observa a cena e pensa nas suas roupas penduradas no armário de seu apartamento e não quer o som do fax no desalento da tarde, pois um imenso feriado se aproxima e ela fará as unhas dos pés e das mãos e vai tingir os cabelos daquela cor estranha que só o namorado dela parece gostar.
Enquanto olha o fax com seu olhar de mormaço Lili sonha pequenas bobagens e delicadas sem-vergonhices.







Coitadinho do mundo

Lá vai mais um, gritou minha avó. E nós largamos pás e baldes e saímos na correria. Eu pego, não! Eu! Só o Gabriel mesmo, que é bem pequeno, a gente precisava esperar! Eu quero pegar, eu quero pegar, ele gritava!
O saco de lixo voava rápido. Corram crianças, minha avó dizia, o saco vai cair no mar! E veio correndo com a gente. Você não sabe, minha avó é velhinha, mas é muito rápida. Só a minha Bisa é que não ia conseguir correr mesmo.
Era um dia bem bonito de sol, e era bem cedo, porque minha mãe não deixa a gente ficar depois das dez horas na praia, diz que é perigoso. Ela diz que as pessoas destruíram a proteção natural que o sol tinha, e que agora ele faz mal. Isso eu acho muito chato!
E nós corríamos e corríamos atrás do saco que voava. Então o Fefê gritou bem alto que até as gaivotas escutaram: _ Cuidado gente, o lixo tá indo pro mar! Foi então que a gente pôs sebo nas canelas (Por sebo nas canelas é correr bem rápido mesmo, na “vula", isso foi meu avô que me ensinou) porque se o lixo caísse no mar.......
Era uma vez um peixe que saiu cedinho da toca com sua mãe num domingo como hoje para passear pelo fundo do mar. Era um dia de tanto sol que se enxergava tudo debaixo d'água e o peixinho viu uma coisa que brilhava, ele nunca tinha visto uma coisa assim, e então saiu de fininho de perto da sua mãe que conversava com umas amigas e foi lá xeretear. Era um saco plástico e ele não sabia o que era isso....então minha avó conta... e quando ela conta.....ela conta de um jeito assim que nós três choramos.....o peixinho vermelho se entalou no lixo e se debatia dentro dele com a boquinha já cheia de plástico, sufocando, os olhinhos muito abertos, assustado. A mamãe peixe tentou tirar seu filhinho de dentro daquilo, suas amigas também, mas ele acabou morrendo entalado. Minha avó conta que também os peixes choram. E nesse dia choraram muito. Só que a gente não vê porque as lágrimas deles se misturam logo com a água do mar.
O saco caiu no mar. Então eu me lembrei da história. A gente precisava nadar, tirar o lixo de lá. Mas tinham umas ondas grandes, eu fiquei com medo, era preciso respeitar o mar, minha avó sempre dizia. Então ela mesma pulou, a gente viu que ela estava com um pouquinho de medo, mas ela foi, mesmo assim. O Fefê pulava e batia palmas, Viva Viva! O Gabriel abriu uma boca desse tamanho!
E lá foi nossa avó, tão valente; de repente veio uma ondona assim enorme e ela desapareceu de uma vez. Então eu assustei de verdade, meu irmão parou de pular e meu primo abriu ainda mais a boca. Mas logo lá vem ela o saco na mão, nadando no mar bravo. Nossa avó é o máximo, e eu grito VÓOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!
E ela chega rindo.
Vamos brincar, ela diz, respirando depressa. Eu vou lá em casa pegar um saco bem grande e nós quatro vamos recolher todo o lixo da praia.
Da praia toda? Eu pergunto, porque a nossa praia é bem grande. E ela diz: até nós ficarmos muito cansados. Então foi assim, recolhemos muito lixo, eu corria para um lado, meu irmão pro outro, meu primo se distraia um pouco do trabalho correndo atrás de siris e tatuíra, trazendo conchas para minha avó ver. Ela é engraçada, tem pena de minhoca, formiga, pernilongo até, nem acredito.
Minha mãe, que é veterinária explica assim, nós também somos bichos e todos os bichos tem direito de viver....Mesmo as baratas? (então eu pergunto isso porque eu sou já um pouco chata) e ela, fazendo uma careta de nojo, responde um pouco irritada: mesmo as baratas.....mas se elas entrarem aqui em casa eu toco elas para fora! Minha mãe não mata nem barata, nada. Ela só espanta com a vassoura.
Então levamos o saco inteiro para casa, e na varanda, enquanto a Bisa fazia o almoço, nós fomos separando. Minha avó tem tudo arrumadinho na casa dela, lata para vidro, lata para lata, para plástico, papel e papelão, cada coisa no seu lugar. As latas tem até etiqueta, imagina! Antes tem que lavar tudo, a gente separa e ela, que é grande, vai lavando.
Minha avó tem pena também dos catadores de lixo, ela conta que se a gente não limpa direito as embalagens, eles podem pegar doença e até se machucar. Então ela lava mesmo de verdade. Se ela tem pena até de barata, imagine de uma pessoa então!
A Bisa, para comemorar aquela manhã diferente, foi fazer brigadeiro. E então era uma festa só, nós três trabalhávamos, porque meu primo pequeno só fazia arte, olhando ela mexer a panela de brigadeiro, já sentindo água na boca. Ela, sorrindo, de vez em quando, olhava e dizia “Adoro ver meus três bisnetos trabalhando juntos! O mundo vai ficar tão feliz!”.
E nós, juntos, separamos tudo imaginando como seria o mundo ficar feliz...um dia eu quero desenhar o mundo feliz, todo limpo, com um sol bom de novo, como antigamente.
Então nossa avó sentou na rede, e contou essa história:
Quando eu era pequena na casa da minha avó (eu tentei imaginar a avó da minha avó, velhíssima, eu pensei, porque se a mãe dela, imagina, já era tão velha!) quase não tinha lixo assim como agora. O leiteiro trazia o leite num galão grande e despejava direto na leiteira de casa para ser fervido. O homem do peixe trazia o peixe numa carrocinha, pesava e a avó da minha avó punha direto numa vasilha da cozinha, o padeiro também: o pão saía da sacola dele para o porta pão, não tinha tanto recipiente, tanta embalagem como agora. Se nem supermercado tinha! Tinha umas latas, de óleo, de leite condensado (leite condensado minha avó adora até hoje), mas a avó da minha avó reciclava tudo (essa palavra eu aprendi hoje) quando acabava o óleo ela lavava a lata, enchia de terra e plantava uma planta bonita, uma flor, o jardim dela era lindo minha avó contou, ela tinha também uma horta, nas latas pequenas ela fazia muda. Reciclar, minha mãe disse, é transformar uma coisa em outra, eu achei isso tão bonito! Mas o melhor é que a horta dela era adubada com o lixo (restos de comida, cascas das coisas, sobras dos pratos de todo mundo). Ela tinha cachorro, gato e tartaruga. Então ela não jogava nada fora: o que os bichos não comiam, ela dava para a terra comer. Ela dizia que a terra ficava feliz, e agradecia com verduras gostosas, tomates bem vermelhos, jabuticabas muito docinhas.
O Fefê então falou bem alto: o meu pai já passou remando no meio de um cardume de peixes grandes assim! 
Meu pai já foi para a Antártica, o Gabriel falou de repente. E nadou junto com os pinguins! (Nós ficamos quietinhos só olhando a cara dele). E deitou na neve com um leão marinho, bem pertinho do leão.
E então ele completou: Coitadinho do mundo! Coitadinhos dos pinguins!
E pensando no que ele, tão pequeno, tinha dito, é que nós fomos comer os brigadeiros da nossa bisavó.
Ele tinha entendido tudo!
Encontro.

O olhar topou com a moça parada no ponto de ônibus.
Num gesto atrevido atravessou a rua, ignorando os carros e chegando tão junto dela que ela, assustada, recuou um passo.
Ele reparou em seus brincos vermelhos, seus cabelos soltos, sua boca pintada de batom vermelho.
Ela viu seus pés descalços, sua bermuda suja seus dentes da frente partidos, seus olhos verdes que enfrentavam o mundo com completo despudor.
Ele ia falar, mas a voz não veio.
Ela ia fugir e não conseguiu.
O tempo criou entre eles um hiato impossível, longo, arriscado.
Então ela viu seu ônibus surgindo na curva cinza da rua e subiu nele entre aflita e aliviada.
Pela vidraça ainda olhou o rosto dele queimado pelo sol, com aqueles olhos que a perseguiriam enfim para sempre, e a mão que muito lenta desenhava no ar um adeus.







Sinfonia de todas as cores.

Nasceu numa manhã luminosa.
Era muito cedo ainda para alguém querer nascer, mas mesmo assim ela chegou, empurrando as pessoas para fora de suas camas e deixando sem fôlego a médica jovem que chegava apressada em seu tailleur elegante.
Veio de olhos bem abertos, curiosos olhos de menina, que a tudo examinaram dilatando para sempre e pela eternidade afora, os primeiros instantes em que a contemplamos pelo vidro do berçário.
Com ela inauguramos a era dos bisavós na família, uma era nova para todos, uma fase cheia de um estranho orgulho onde as horas tinham agora outro tamanho, e o tempo se regulava por histórias antigas, que todos repartíamos de outros avós e bisavós antiquíssimos. Nunca foi tão bom viver entre nós antes desse acontecimento estrelado e tem sido assim desde então.
O tempo passou a ser outro, um tempo intenso de se poder fazer coisas que eram as que importavam nessa nova era da casa e, cada vez mais espaçado, tornou-se regido por receitas trocadas em voz alta, bolos, chás para dorzinha de barriga, mingaus para a mamãe que amamentava pela primeira vez, correntes de ar que fazem mal e quartos ventilados de modo adequado, que são imprescindíveis para a boa saúde do nenê.
Surgiram na família, trazidos pelas tantas memórias de outros dias felizes, seres longínquos, desconhecidos e encantados, renovados pelas lembranças dos mais velhos, dos quais nós, os mais jovens, nunca havíamos ouvido falar.
Essas personagens chegavam a cavalo, de charrete ou mesmo a pé, com seus chapéus e guarda-chuvas e as mulheres com seus vestidos de anquinha.
As pessoas lembradas desenhavam rostos e demarcavam cidades, até mesmo países no espaço restrito da varanda, pessoas cujos nomes soavam estranhos, enquanto nos entreolhávamos curiosos vendo o biso cercado pelas três bisas examinando sabiamente cada qual a passagem do tempo, com indisfarçável orgulho, trazendo para o presente fatos de eras distantes, como quatro cientistas à beira de fantásticas descobertas.
Havia, como que suspenso no ar da sala tudo o que havíamos vivido e o que havíamos ainda de viver.
Nós nos encantávamos de que a vida pudesse ser tão rica e tão farta, e as experiências pudessem ser assim compartilhadas e discutidas entre um e outro gole de chá e bolinhos de chuva ainda quentes.
As tias mais velhas, enfileiradas no sofá, trocavam lembranças de viagens que nada tinham a ver com bebês e falavam de namorados de há muito esquecidos, enquanto suspiravam e pediam mais chá de jasmim.
Falava-se de literatura e de pontos de crochê com a mesma naturalidade de outras épocas, quando crianças nasciam em casa, trazidas ao mundo por parteiras experientes e carinhosas, que chegavam a qualquer hora do dia ou da noite, fizesse sol ou caísse a mais furiosa das tempestades de verão.
As crianças mais crescidas, entre um ou outro jogo de computador, e entre os "chats" com amigos de vários cantos do mundo, circulavam um pouco por ali a caminho dos quartos, como quem não quer nada, observando a reunião daquelas pessoas de tão diferentes histórias que estavam se encontrando agora e que falavam palavras esquisitas, palavras que pareciam estar sendo trazidas de muito longe, de lugares inventados. Palavras que apenas eles entre si pareciam entender, e que ficavam pairando no ar em torno causando entre nós um misto de curiosidade e alegria porque havia tanto a aprender com eles, que haviam vivido por mais tempo e conhecido coisas por certo desaparecidas no inquieto passar dos anos.
Havia tanto a ser vivido por nós, se tivéssemos sorte e saúde para aguentar o tranco das décadas, o trabalho nosso de cada dia, a difícil batalha de viver nossas vidas, como eles haviam vivido e estavam vivendo impávida e corajosamente as suas.
Havia um enorme respeito agora por eles, os mais velhos, que haviam sobrevivido a perigos que não conhecêramos e que talvez nunca enfrentássemos em nossas vidas presentes e nem sequer em dias vindouros.
Era bonito ver como aquelas pessoas queridas, de repente tornadas muito mais que importantes, projetavam futuros para si, enquanto destacavam fatos da vidinha recém-nascida de Catharina, planejando para ela a primeira festa de aniversário, a formatura do primário, quem sabe mais longe o primeiro amor.
Com ela tornaríamos a desvendar os mistérios do mar e falaríamos de como a luz do sol nasce e cresce no horizonte, e comentaríamos, com novo interesse, os motivos de a lua se apresentar às vezes pequenina e outras noites redondas, como um queijo de Minas.
Falaríamos de suas crateras e de como o homem descera lá e o mundo aqui embaixo olhara os aparelhos de televisão, entre a emoção profunda e alguns desconfiando de que havia ali alguma encenação, tão magnífico lhes parecia esse feito. E isso acontecera já há tanto tempo atrás. E pertencia à história recente da humanidade!
Sim, o que observávamos é que havia no vocabulário dos nossos velhinhos, termos que nunca tínhamos ouvido e que pareciam ter sido guardados em caixinhas de surpresa para quando Catharina chegasse trazendo o futuro, para que se pudesse aconchegar a ele um passado rico de encantamento e mistérios, uns explicáveis outros nunca.
Sem essa arquitetura protetora de carinho e energia ela teria nascido sem história, sem ser reconhecida por nós nem por ninguém como parte, sem poder sequer recordar seus traços de sangue e o trajeto de ternura, e até mesmo de desencontros e acasos, que haviam forjado sua amada existência na terra.
As noites de agora teciam serenatas ao luar, ao som digitalizado dos CDs que os adolescentes das várias famílias unidas sabiamente orquestravam chamando na lembrança fatos misturados, festas de aniversário ao ar livre em praias e casas que não havíamos conhecido, momentos que haviam sido destruídos, que não existiam mais no ritmo frenético dos microcomputadores, das secretárias eletrônicas e dos aviões a jato, mas que a partir de então estavam sendo ressuscitados nas cores vivas de um passado que se recusava a morrer em definitivo e que chegava para os jovens agora como uma sinfonia de todas as cores nunca antes imaginada.
Falava-se de ruas tranquilas iluminadas a lampiões a gás e do som do mar em São Vicente, enquanto os mais velhos sentavam-se à varanda aguardando o anoitecer, acompanhando o surgimento das estrelas, num céu sem qualquer poluição.
Contavam-se causos de lobisomem e saci Pererê das fazendas de café, falava-se da dificuldade de se tirar fotografias na primeira guerra mundial e dos grandes sinos que se tocava das varandas chamando as pessoas na hora do jantar.
O tempo na família tornou-se circular como no livro de Garcia Marquez, onde as idades misturadas vão formando rodas de todos os tamanhos e temperamentos confundidos a fatos históricos, de grande ou média importância, que flutuam entre pequeninas disputas caseiras deixando a vida um imenso quintal de cores e sons que antes não podíamos escutar ou perceber.
Tinham sido também chamados, talvez por aquela interseção do tempo e do espaço que conhecemos nos filmes de ficção, sem sequer precisar de convite aqueles que há muito tinham partido e dos quais raramente nos lembrávamos em nossa faina diária de viver a vida do nosso tempo, em nossas tolas conversas ao redor da televisão e outros acontecimentos sem nenhuma importância.
Sentavam-se à mesa, vindos de várias épocas e lugares bebericando um vinho do porto e faziam-se eles mesmos as apresentações, após o que se debruçavam no berço admirando-se todos daqueles traços miúdos que Catharina portava com uma elegância natural e singela, entre uma e outra mamada ou entre as trocas de fralda.
Os meninos assustados paravam nas beiradas das portas a observar esses seres brincalhões que jamais poderiam se parecer com os fantasmas dos desenhos animados, muito menos com aqueles que se via nos filmes de terror e que após um ou dois copinhos disputavam entre si o temperamento do bebê relembrando uma tetravó portuguesa ou italiana, fazendo apostas sobre qual exatamente se tornaria a cor dos olhos dela, se teria o corpo mais roliço ou longilíneo se se parecesse com...não se sabia quem.
Tudo isso que relembro hoje aconteceu nos dias subsequentes ao nascimento dela.
Nesses dias de que falo, e minha memória de avó é bastante nítida, o mundo se transformou de tal modo que as andorinhas voavam baixo quase ao alcance da mão e os carros passavam sem buzinar com seus motoristas parando aqui e ali para admirar os canteiros de flores e outros encantos triviais que as novas gerações não têm mais tempo de notar. As notícias do jornal à noite pareciam tão longínquas, se eram más e parecia estarem acontecendo em outro planeta, nunca aqui.
Nas primeiras horas Catharina ficou deitada no meu colo e no quarto branco o tempo parou da mesma maneira mágica que o fez no quarto de Melquíades, o sábio de Cem Anos de Solidão.
Eu olhava os olhos dela como se antes eu não tivesse vivido nem visto coisa alguma nesse mundo, como se também eu acabasse de nascer e me espantasse de que o mundo fosse tão bom, tão cristalino e nítido, tão pleno de harmonia em suas formas, tão perfeitamente integrado em sua variedade de cores, de que a vida se tornasse, a cada minuto mais e mais perfeita, num nunca mais acabar de fartura e de delícia.
Nos olhos de Catharina, e naquele olhar que me marcou para sempre, conheci a eternidade, não pelas teorias dos livros nem pela ação mágica de ciganos, como acontecera em Macondo com o sábio, mas por uma sensação tão clara e simples quanto inexplicável, de apenas estar olhando para olhos que simplesmente olhavam.
Soube então que eu permaneceria nela e nos que dela nasceriam, e que outros olhos olhariam as coisas do mundo e, sobretudo se olhariam uns nos olhos do outro como nós agora, e isso seria para sempre.
Nada nunca tomaria de nós, por mais difícil que se tornasse o porvir, nada nos tiraria essa possibilidade de exercitar a compreensão do outro, a descoberta de uma profunda e duradoura compaixão por sermos todos simplesmente gente.
Eu olhava os meninos dormindo: meu filho e minha menina mãe que também agora chegava trazida pelo destino a mim que não havia tido filhas.
Ambos dormiam exaustos da excitação, felizes porque no fim tudo havia dado certo e porque, mais uma vez no velho mundo, o milagre da vida acontecia, e dessa vez, para eles que eram ainda tão jovens, da mesma forma que acontecem todos os milagres: porque sim, do mesmo modo maravilhoso por que sempre se manifestara a presença da divindade: nas coisas mais belas e mais simples.
Catharina me olhava com um olhar que eu não havia visto nos meus três filhos, talvez porque estivesse também eu exausta da emoção desconhecida dos milagres e repousasse longe deles nas primeiras horas do primeiro dia de suas vidas, talvez porque na idade em que eu os tivera esse silêncio grande que trago hoje no peito ainda não morasse comigo.
Catharina me olhava sem perguntas, sem qualquer necessidade e o quarto parecia povoado e vazio ao mesmo tempo, pois nele havia uma calma de séculos, uma recente paz feita de antigos sofrimentos e muitas alegrias que resultara nela linda, como só pode ser linda uma primeira filha, uma primeira neta, uma menina bisneta que espantava com seus olhinhos tão claros todos os medos da morte, todas as maldades do mundo, todas as preocupações com o dia de amanhã, com a materialidade mesquinha dos objetos que nos enganam com sua aparente realidade.
Naquele dia a família chegou com a tarde deixando os corredores da maternidade intransitáveis, com crianças pequenas dançando e cantando e flores que se traziam em braçadas e bandejas de frutas que se organizava aqui e ali como se só houvesse no mundo esse momento em que tudo se atropelava e pessoas desconhecidas até poucos momentos atrás se apresentavam umas às outras trocavam confidências e conselhos, tudo se perdendo num amor desencontrado de onde se ia tirando novos nomes dos baús, procurando fotos nas caixinhas de retratos porque parecia impossível que não se recolhesse do passado uns olhos como os dela, de onde viera aquela cor de sol quando escurece que seus cabelos tinham, o tom daquela pele que não era apenas rosado, que trazia manhãs brilhando em meio aos roseirais ou às parreiras entontecidas pela brisa da tarde.
Mas tudo isso em qual cidade, em qual país, no quintal de quem?
De fato os fatos daquele dia se compunham como um quebra cabeças gigante que fosse sendo completado por tantas mãos, em tantos lugares diversos que o universo dos olhares compartilhados se perdia numa distância de barcos quando ainda é de tardezinha e a noite demora a vir por preguiça, porque nada há a fazer para tornar maior ainda um bocadinho a imensa harmonia que povoa nossos corações e olhares, quando nada mais há no mundo que desejar e a vida está completa e se reconhece a existência do divino na porta que se fecha devagarinho sem bater, na enfermeira que entra sorridente, no telefone que toca e alguém fica feliz lá longe, só porque nossa menina chegou nesse mundo louco e sem sentido.
Mas nós que estamos ali reconhecemos o sentido das coisas e mutuamente nos olhamos compreensivos, pois nos foi dado agora tudo compreender, apenas nos debruçando em olhos que olham o mundo sem ansiedade, medo ou atropelo, em olhos que simplesmente olham.


De onde os ventos vêm.

Nana sabia agora que não havia perdido nada, tudo ficara colado aos vidros da cozinha e aos batentes das portas, tudo que ela pensara transparente e volátil estava aderido às coisas.
Camada após camada, ela notava a si mesma grudada ao resto de gordura, que alguém se esquecera de limpar, ao pó que se espalhara na vidraça, um pouco em tudo, entre as coisas esquecidas, que não faziam falta a ninguém, nem seguiam o ritmo diário das coisas que importam.
Em tudo restava aderida essa pura energia sem sofrimento, tédio, nem remorsos que já não pertence a ninguém, que se cola à alma das coisas; nas flores pequeninas da janela, no chão frio, nos giros, no suor das danças incompletas, ainda mais naquelas que nunca puderam sequer ser dançadas.
Na respiração da casa, na tinta das paredes, nas lâmpadas da sala, no forro das poltronas, na lareira, onde às vezes cozinhava ouvindo os trens passando lá embaixo na estação do metrô.
Ela permanecia nas coisas, mesmo quando buscava espaços e sóis, mesmo quando pensava vidas impensáveis ela continuava ali, ela continuava no cheiro das noites de Lisboa e em infinitos cerejais, mais ao norte, no começo do verão.
Era necessário permanecer, mas nunca um permanecer para sempre, era bom caminhar pelas ladeiras, entre o aconchego das casas com suas roupas penduradas nos varais das janelas, tão sem intimidade essas roupas, era bom parar numa esplanada e tomar um copo.
Acabar-se-iam as paredes velhas, águas furtadas e batentes.
Acabar-se-iam os gestos gastos pela poeira dos anos, mas não a terra, nem os lagos, menos ainda o amor dentro da noite fria, naquelas horas nas quais nem o bonde escorria pelos trilhos.
E no Tejo suas lágrimas restariam diluídas cada vez mais e mais diluídas, num nunca acabar mais de coisas compartilhadas, com estranhas criaturas, outras gentes e os céus de Alfama guardariam seu olhar pra sempre encantado, deslizando pela alma das paredes, pela tinta das janelas antigas, pelas portas das igrejas.
Era assim: o olhar restaria mesclado à água, à terra, à areia, ao sol e finalmente ao azul inexistente de todas as tardes, de todos os dias de céu profundamente azul, de um azul inesquecível.













Quase sempre aos domingos.

A feira de domingo trazia pequenos acontecimentos transparentes e ensolarados e
com uma confiança absoluta e irrestrita, vigorando no mormaço calado do meio dia.
Era preciso confiar na japonesa gorda do peixe, nas datas de validade do frango e acreditar que a verdura não havia jamais boiado, nas águas podres das enchentes.
Bom era poder guardar as moedas do troco, sem nunca conferir, perguntando pela saúde da família do feirante e outras coisas triviais.
Depois sentar-se largada em plena rua tomando caldo de cana sem pressa, enquanto o sol vai saltando por cima dos viadutos e lá embaixo na Sumaré o trânsito aumentando devagar.
Às vezes armar uma discussão com a moça que vende bananas, só para poder levantar um pouco a voz dizendo leves desaforos e chegar em casa e cantar Caetano e olhar a geladeira cheia com um carinho quase indecorosos.









No meio do vasto mundo

Seu olhar sobre as casas se escondia, um pouco entre a gola do casaco e a aba do chapéu e a tarde era como uma criança, um pouco malvada, que teimava, tonta que era em não escurecer de vez.
Tudo estava mergulhando devagar numa irrealidade sem fim e Natália olhava os olhinhos amarelos das janelas que saltavam das casas de pedra.
Ali na Escócia era assim mesmo, ela sabia desde pequena pelos livros, havia gaitas de fole e homens tocando gaitas de fole em imensidões tão geladas com engraçadas saias de pregas.
Nesse momento o Brasil era quase uma temperatura dentro do seu corpo e se afirmava no lusco fusco de buzinas e faróis como um lugar talvez onde ela nunca houvesse estado, num lugar fixado por conjecturas em algum canto perdido da sua pele.
Havia um vento sim, mas devia vir de longe, de algum lugar secreto e distante dos seus olhos, de onde viria mesmo esse vento? Ela pensou um pensamento um pouco solitário, que logo se deixou girar no ar sumindo, sem nenhuma importância na bruma da noite.
Mas não havia bruma na noite, essa era só uma forma de tentar dizer o que não podia ser dito, que só havia essa cidade sim, por onde ela passava, como se somente naquele instante o mundo fosse real e ali era só um pequenino povoado, solto no meio do mundo.
Agora ela ouve uma flauta ou seria talvez um oboé prolongando no ar um som que era quase um desenho, traçando-se solto no oxigênio líquido do tempo.
Ela estava chegando quase no final de uma rua iluminada com essas luzes pequeninas que ela via nos filmes onde havia neve e os sons que ouvia quase poderiam vir de uma caixinha de música ou até mesmo de uma ilusão trazida pela sutil passagem das horas.
No garoto que passava na bicicleta, com seu cachecol de franjas escuras, ela pensou ver um velho amigo; mas não, ela não havia visto ninguém era só um menino numa bicicleta chegando em sua casa ou em outra casa qualquer.
Em qualquer casa sim estaria sendo esperado, mas era esse um tipo de espera como aquela de passar o tempo falando do tempo e de outras coisas banais.
Para ela nessa tarde o mundo era o frio, era o outro lado do lado de lá.
No outro lado do lado de lá era mais um verão e vozes familiares que ela não podia escutar, naquela lonjura de Deus meu, onde havia se metido.
Um pouco desses pensamentos varreu seus olhos numa melancolia passageira, talvez num canto distante algo indefinível ficou escondido pelas sombras que pouco a pouco, bem de manso, vieram povoar a terra; pouco a pouco, como seus passos, agora um pouco mais aflitos do que antes e suas botas esmagando distraídas as folhas secas das calçadas, pudessem ser ouvidos à distância.






Anjos e meninos são apressados ou a verdadeira história da vinda de Gabriel.

Estava começando a ficar apertado ali, e calmo demais, ele pensou, naqueles pensamentos sem a existência de palavras que às vezes lhe ocorriam.
Os sons lá fora serenaram e ele desconfiou que já anoitecera, porque os papagaios haviam parado faz tempo de gritar e os cachorros não latiam mais, só alguns barulhos costumeiros de toda noite, uma música, um telefone que tocava, o micro-ondas desligando.
Havia um pouco de vento nos coqueiros, uma conversa a dois, uma risada.
Vez ou outra ouvia com nitidez a voz que aprendera a reconhecer como uma parte dele mesmo, voz aveludada, voz daquela que o acolheria e teria muita paciência com ele, quase todo o tempo, que o alimentaria e o aconchegaria, nas noites escuras em seu colo delicado.
Voz do homem que respondia à primeira voz, em tons diversos, todos gostosos de ouvir, que lhe ensinaria como conhecer as coisas do mundo, como olhar as estrelas, sair ao sereno, fazer coisas divertidas, como tomar banho de chuva nas chuvas de verão.
Era assim desde sempre, quando meninos com nome de anjos nasciam; com os outros meninos também aconteciam fatos semelhantes, mas com esses de que tratamos ocorria de terem pressa, de se sentirem apertados, de desejarem vir à luz antes da hora, desejando demais a liberdade para farrear bastante, para aproveitar o tempo dessa vida que sempre parece ser muito curto.
Meninos como ele que de tudo um pouco já sabia.
Sabia de noites, amanheceres, dias azuis, sabia de florestas e riachos, de mares e bichos de montanhas brancas de tanta neve, sabia de sons, cheiros, cores, temperaturas, texturas e sabores, sabia de macacos e borboletas, de barro molhado de chuva em campos floridos, campos dourados por girassóis incontáveis, sabia até de carros, aviões, barcos, submarinos, foguetes, motocicletas.
Mas era um saber de sabedoria pequena, como lampejos de luz na noite escura, que não se sabe bem de onde vêm, um saber que era preciso confirmar com a experiência de cada um dos dias de toda sua vida.
E ele não podia mais esperar!
E como sabia? Sabia por que nesses meses todos sonhara muito e em seus sonhos o mundo vinha chegando trazido pelas histórias de seres muito antigos vestidos em roupas engraçadas, mulheres com vestidos compridos, homens de terno e chapéu; eram sonhos de cafezais e segredos de bondes deslizando ao pôr do sol.
Sonhos de elefantes e baleias, ursos, chuvas e vulcões, sonhos de fundo do mar.
Eram sonhos com pessoas com rostos conhecidos, ele que não conhecia nenhum rosto, de pessoas que moravam nas memórias de suas famílias, pessoas a quem cabia transmitir parte do mundo (a parte possível, porque todo o restante ele teria que aprender sozinho), bisavôs risonhos e tataravôs de bigodão, tataravós de coque no alto da cabeça, sérias com seus óculos, com suas mãos gordinhas, que sabiam tão bem enrolar brigadeiros, fazer fios de ovos, esperar a noite sentadas em cadeiras de balanço, em varandas de casarões de fazenda ou de casas junto ao mar fazendo intermináveis tricôs.
Era uma memória muito antiga essa que ganhava como um presente, enquanto crescia no ventre de sua mãe, uma memória ancestral de avôs e avós muito antigos, de parentes de várias gerações.
Ocorre que naquele começo de noite Gabriel decidiu conhecer o que havia cá fora, decididamente não queria mais estar ali fechado, pois se vinha de heranças arcaicas de anjos e arcanjos queria mais era dar no pé, viver, correr, comer, rir, chorar (já que não havia outro remédio) fazer bico, saber o nome de cada uma das coisas do mundo, aprender a puxar os cabelos das moças, subir nas coisas para depois cair, entrar em lugares proibidos, fazer arte, ouvir bronca, se assustar, levar picada de formiga e de agulha de injeção, chutar bola, fazer amigos, mamar no peito de sua mãe, fechar a mão na mão de seu pai, aprender a rolar, engatinhar, andar, falar as primeiras palavras, comer coisas gostosas, sentir nascer cada um dos dentes, babar muito quando cada dente estiver nascendo, dar beijos, arrotar, fazer xixi e cocô nas fraldas e fora delas, dormir, ouvir histórias, correr atrás dos cachorros, tentar comer a comida da tartaruga, nadar na piscina, conhecer o mar, cavar buraco nas areias mornas de Boiçucanga.
Então tomou suas primeiras providências: apurando com calma e vagar o lugar mais delicado da enorme bolsa que o envolvia o fez com tal poder de observação e síntese, utilizando-se da metodologia de pesquisa mais rigorosa, que cavou no melhor e exato lugar um pequenino furo; quem sabe pudesse espiar lá fora e espiando com astúcia fazer as horas que faltavam para nascer passarem mais rápidas.
O fato (para encurtar a história) é que nosso Gabriel pequenino chegou hoje e logo aprenderá nomes como mamãe e papai.



Ciúmes de Chico Buarque

Meu marido, imagine, tinha ciúmes de mim.
Disse isso e abaixou dengosa os olhos claros, fitando as pontas dos pés.
Em seguida olhou se o esmalte das unhas estava em ordem e puxou com cuidado a saia justa preta.
Delicadamente tirou da bolsa um espelhinho e retocou o batom cor de rosa.
Ficou esperando uns instantes uma pergunta que não veio de ninguém; então um pouco aborrecida com o descaso alheio continuou contando: e ele chegava em casa mais cedo sem fazer nenhum barulho entrando em sua própria casa como um bandido, na ponta dos pés. E fazia isso só pra ver se eu estava cantando alguma música DÊLE
Imagine, ela completou sonhadora, quem sou eu.....!










Curvas de impossibilidade

Dona Zulmira parada na frente do vidro olhava para dentro do Pet Shop.
Olhava sozinha, olhava sombria de si, de tudo, das horas cinzas do domingo que apenas começava.
Olhava o cãozinho lá dentro; com seus olhos de velhinha dona Zulmira olhava a vitrine e a porta fechada pensando sem pensar, sem nem saber que pensava se não viria alguém dar comida ao bichinho, tocar naquela coisa peluda, que olhava por dentro dela e antes de existir qualquer vidro separando assim tudo aquilo que vivia.
Ela queria aquelas patinhas fazendo festa no seu vestido, ela queria dar um pouco de água fresca a ele, acariciar aquela cabeça quieta, sem mais nada nenhum desejo, como agora, quando o tempo abriu uma cortina irreal enquanto se olhavam os dois e entre eles um vidro grosso que eu podia ver do outro lado da rua: um vidro à prova de carinhos, de todos os carinhos deles que nunca seriam trocados.








De não sombras e de abismos

São curvas de pedra, curvas todas duras, abruptas como punhais de lidar com o peixe, são curvas as daqui, mas lá longe, naquela praia distante, que sei feita de areia porque uma tarde me contaram, há só uma como a da lua cheia.
Uma só linha que plana cobrindo o azul de fora a fora nesse começo de noite que vou adivinhando um pouco antes de abrir os olhos e olhar; não na direção do sol atrás de mim, mas para essa praia que dia a dia percorro com o olhar mareado de um cansaço feito só das coisas mais imperecíveis, dos sonhos desfeitos assim que começo a acordar.
Um cansaço feito dos nós que o vento esquece nas pedras, lambe nas beiradas das rochas, deixa cair na espuma branca das ondas entre as conchas e mariscos.
Feito esquecimento, amor não correspondido.










A professora de português

Quando eu soube que íamos nos mudar olhei o quintal e era tudo tão extenso que doía, então corri pelo chão fofo e escuro onde as folhas secas se acumulavam, em muitas camadas, sem nunca terem sido mexidas; folhas virando adubo nos anos sem conta de suas existências de folha, folhas úmidas abrigando o molhado da terra de debaixo.
E contei as mangueiras, como forma de nunca mais esquecer, depois fui contando tudo, todas as árvores; contando para me agarrar, contando para ter alguma coisa para levar na despedida, para trazer para a cidade grande onde haveria de tentar esquecer a dor de nunca mais amanheceres entre cheiro de madeira queimando no fogão de polenta esquentando na chapa de ferro.
Eram vinte e três jabuticabeiras.
Eram cinco mangueiras, entre todas as árvores, que não conseguiria sequer contar.
Não gosto dos números, eles são parte de perdas irrecuperáveis, como ventos, antigos vendavais de encharcar o mundo.







A velhinha da Avenida Rebouças

Parado no ponto de ônibus ele viu quando a velhinha se sentou à beira da calçada do outro lado da avenida.
Na verdade ela havia praticamente desabado próxima à sarjeta e caíra sentada com um pé pra lá outro pra cá.
Ele viu a bolsa dela aberta e quando ela apoiou a cabeça no poste e fechou os olhos ele entendeu que deveria intervir e tentar ajuda-la naquele momento difícil.
Então, num ímpeto solidário, segurando forte sua maleta de médico começou a atravessar a larga avenida entre carros, ônibus e caminhões desafiando o final da tarde.
Notou que começava agora uma garoa fina, implicante e ele se lembrou, vagamente entediado, que não tinha capa nem guarda-chuva.
Caminhando apressado e aflito viu quando ela tirou vagarosamente de dentro da bolsa um saquinho de pipocas e sorriu na direção dele um sorriso amigo, sem nenhum dente.
Ele desviou os olhos dela, completamente constrangido e meteu o pé numa imensa poça d'água.
Do outro lado da avenida seu ônibus acabava de passar.






Da perda da roupa

Cartagena de Índias. Céu azul todo o tempo e mar por todo lado.
Certa manhã com um calor de quarenta graus ela saiu rumo ao porto; pegou um barco e foi conhecer as ilhas.
Agua turquesa e os corais, a Playa Blanca, plana, ao nível da água. Pequenas ondas, areia a se confundir com o mormaço da tarde e ela.
As casinhas de aluguel, os pequenos bares e o calor. Não havia como ficar com sua roupa: tirou a saia molhada, jogou em qualquer lugar e mergulhou naquelas águas inesquecíveis. E o tempo passou como sempre passa; ela ali boiando como antes de nascer, encantada com a imobilidade das coisas; nenhum vento e um mundo submerso de peixes silenciosos.
Então ouviu um chamado, hora de partir, nadou para a areia e ia caminhando para o barco quando notou que estava só de biquíni. Onde sua roupa?
Olhou a praia longa e brilhante com o sol, de uma brancura que poderia cegar. Uma saia preta poderia ser visível na distância luminosa, ela pensou. Mas nada, areia e mais areia. Assustou-se.
Como desembarcar em Cartagena só com trajes de banho? Fez um sinal ao capitão do barco pedindo que esperasse um pouco e saiu correndo pela praia a procura de sua saia. O sol deixava tudo pairando numa névoa esfumaçada, sem contornos.
Começou a ficar desesperada. O chamado do barco soou de novo. Então começou a correr pela areia como uma louca. Numa visão milagrosa, lá estava, pendurada num coqueiro, sua roupa.
Era ela, a velha saia preta balançando ao vento da tarde que no Caribe começava a soprar. Ela estava salva!




















A faxina

E daí ela decidiu que a reforma total do mundo começaria por vassouras, esfregões, panos, rodos e muita água com sabão.
Nesse dia mundial da limpeza todos limpariam um pedaço do mundo, havia sujeira demais lixo demais e a própria alma das pessoas andava distraída da beleza que havia à volta toda.
Após essa faxina, num segundo dia começar-se-ia a pintura irrestrita de tudo, pintura com cores fartas, vivas, alegres que as crianças poderiam do alto de sua imensa liberdade comandar.
Pintar as igrejas, as favelas, os grandes edifícios, os barcos a remo, os aviões;
pintar grades e troncos das árvores tristes das ruas, pintar o mundo.
Mas as pedras da calçada eram feias e quebradas, cheias de gretas fundas que seguravam um pó infinito, ela notou desanimada.
Bobagem.... havia coisas demais a fazer.
Era tempo de desistir.
Na sua pequenez ela resolveu apenas ir para casa, para sua segura e limpa casa e preparar um bom jantar.
Pensou também em como seria bom temperar a carne de amanhã.




O clube da pesca

Era uma casa de porta e janela afastada da rua por um pequeno jardim. Pelo que vi se entrava por uma espécie de garagem. No início o clube se identificava por uma placa, mas com o tempo tanto a placa, como a tinta das paredes, foram se soltando um pouco a cada ano e por fim sumiram.
Todas as tardes ele estava lá. Nem precisava dizer a ninguém quando saía e todos sabíamos seu destino. Voltava para jantar trazendo pão fresquinho.
Mesmo assim não parecia feliz. Um dia ao ser indagado respondeu que não, que não se pescava, não havia excursões, ninguém falava do assunto, não havia troféus ou quadros de pescarias memoráveis.
Deduzimos: ali ficavam apenas uns homens envelhecidos pela vida que sentavam e conversavam ou sentavam e bebiam quietos pensando no que já estava longe. Vez ou outra alguém sumia e então olhos mudos e ardentes se perguntavam o que havia acontecido com ele.
No dia do seu enterro chegaram dois ou três no cemitério com uma pequena coroa de flores miúdas; nela se podia ler em letras feitas com caneta hidrográfica: “saudades dos seus amigos do clube da pesca”.





Um dia para Vera

Ai como ela acordou cedinho!
Pela janela notou o mais doce amanhecer!
Era verão e havia tanta coisa a fazer: limpar, lavar, consertar, arrumar.
Nas mãos a água fria cantou como criança e menina começou a tirar gordura da cozinha.
À tarde, mais tarde, dançou sem parar girando leve seu corpo por uma casa inteiramente limpa. Totalmente perfumada.
Ao escurecer vestiu sua roupa mais linda e saiu pelas ruas sem medo de ladrões ou assassinos.
Já madrugada parou numa esquina a espera.
A cidade era só um latido de cães e poucos carros que passavam apressados.
Sorrindo num rodopio lançou-se entre rodas e freadas.
Para nunca mais.









Maria Flor das Meigas Ventarolas alça voo em meio à densa neblina

Sentou-se à mesa sozinha.
Seus braços lentos e gordos se derramando entre restos do jantar de ontem e migalhas de pão dormido; mais uma vez o reto olhar longínquo se perpetua nos portões da infância.
Portões sempre fechados e distantes, belos e claros como pequenas foices brilhando ou estrelas tardias do verão, como a boiada que sobe a rua e os longos domingos em pés descalços que desfilam em compasso acelerados por trás dos vidros embaçando seu quarto de mulher abandonada.
Não sei seu nome, mas vou chamá-la Jasmim, essa pequena flor perfumada e esquecida nos ensombrados arbustos.
Quero acompanhar sua vida, perpetuá-la se possível for, na oculta fenda entreaberta dos seus lábios; quem sabe um fundo vazio que lhe preencha os grandes seios que jamais amamentaram, quem sabe amaciar seu útero seco e púrpura de tanta espera e tantos desencontros, quem sabe tomar suas mãos nas minhas, talvez cantar.
Seus cabelos são manchas brancas, velas soltas, mechas fofas que se derramam num pranto suave pelos grandes ombros; são pequeninas e gordinhas suas mãos ao vento tateando a escuridão de mais um dia, em meio a cantos apertados da casa escura, costuras inacabadas; pilhas de roupas se avolumam nos armários, um cheiro de ferro passando a limpo as lembranças, uma fome menina prazeres de grinaldas e festas.
Coses bem Jasmim e desde cedo esse peso máquina Singer que se atrela a seus pés, brecando nas corridas, puxando para baixo nas subidas, a rua ensolarada e tanta pressa.
Assim em pontas de agulha, tua vida passou tão rápida, entre trincheiras de tesouras afiadas, roupas caras e remendo em rendas e cortinas. Pela cortina de tirinhas coloridas Jasmim já nada vê.
Um calor lá por dentro vem subindo, lava enorme, incontrolável enchendo de sol ou veneno seu tonto coração; uma moleza boa, um quase abandono.
Mas são tantas as entregas compromissos não há tempo agora, ela pensa sufocando! Essa coisa que me sobe são vertigens ou calores, sei lá junto um pouco de sono, e essas vidraças fechadas.
Furam seus olhos infinitas agulhas, pontas gigantes espalham alfinetes pelo chão, sobem-lhe pelas pernas, invadem seus olhos e na boca um sorriso moribundo vai crescendo minuto a minuto infeliz.
Escurece lentamente e não são horas. Pequenos pontilhados e nós atrelados a lugar nenhum, rezam muito além.
Espera Jasmim é sempre tempo! Deixa que venham as vertentes, as tantas aventuras, o lindo príncipe que até hoje não; estoura esse soluço preso, esse extenso grito, uma hora a mais, talvez um dia.
Quem sabe amanhã ou mesmo antes da noite teus portões se abram grande ventania, um toque, uma esperança ou a fuga de ladrões.
Dona Maria Flor das Meigas Ventarolas levanta seus leques à brisa matinal, colhe um jasmim na varanda e segue pisando leve.
Flutua entre canteiros, castelos e ondas suspensas. Corre feito menina.
Maria Flor tira seu chapéu de rendas, seus cabelos negros cobrem-lhe o vestido enquanto um manso vento chega. Cantam longe e dentro, olhos de brancos caminhos, olhos de sôfrego amante enchem-lhe as entranhas.
É primavera e Flor dança no azul à volta, rodopia brisa solta, perfume Jasmim que chega sempre e sempre, e mesmo antes da chegada do verão.

















Não se vive impunemente

Eram três da tarde quando o cego passou no andar torto das calçadas.
Eram três da tarde e as pessoas recuavam ao vê-lo em seu passo tímido.
Seu coração de mulher quedou frouxo, trêmulo, apertado ao vê-lo assim indefeso.
O cego percebia na escuridão o medo das pessoas e pode ouvir, entre elas, seu coração assustado.
Estende a mão procurando por ela, que recua um passo. Mas Clotilde então se arrepende, com vergonha de si mesma e toca de leve a mão que continua estendida no ar; sua voz treme como a de uma menina.
A tarde tomba apressada rumo aos becos úmidos da noite, enquanto os dois seguem agora reinventando passos pela avenida afora, num ritmo endurecido e quente.










Nos olhos do caramujo

Na verdade ser sozinha é a condição básica da minha existência, já que não sei existir junto, existir com os outros, andar, respirar, comer, morar, nada.
Então procurei viver sempre como agora, um caramujo envolto nesse xale de lã, que tenho comigo, desde quando nem me lembro mais, talvez desde quando minha filha ainda vivia correndo por entre as pernas da gente.
Sou um caramujo que deixou de há muito e para trás, o estado de desespero que enforma todas as vidas vazias, pois já não me desespero, não há necessidade disso e meus olhos estão secos.
Desconheço outro modo de viver e então sigo desse jeito porque só comigo, sozinha de tudo e de todos preservo um pequeno espaço de hábitos que conservo para prender o tempo intacto, entre meus punhos fechados;
Restam apenas as fotos que se perdem a me olhar de todos os cantos da casa, mas que evito todos os instantes.
As fotos, só elas me dizem do mundo o que não quero saber, que há sol ou vento e pessoas andando lentas por calçadas à beira mar, que me importa que existe lá fora, que me importa?
As fotos contam também que barcos se perdem na preguiça das marolas e adormecem em mares da mais sutil perplexidade, contam do sol vago e doce do outono, de carícias que nunca recebi.
Passeio sim às terças-feiras, às cinco da tarde, por dentro de minhas fotos.
E guardo essas imagens para me lembrar de que ainda vivo, preciso me lembrar do que fui.
Não gosto nada da realidade, pois ela é torturante, vai desenhando histórias que nunca quisemos viver, dias que era melhor ter morrido, trocado de existência por outras, tentado viver a vida de qualquer outra pessoa, desistido.
Nada no mundo pode ser melhor que isso, pois as fotos preservam toda a necessária segurança em seus imutáveis cenários e ao escolhê-las com cautela posso saber que não haverá surpresas ou acontecimentos imprevistos que mergulhem para dentro dos meus olhos.
Os passeios são então tranquilos e sem surpresas, como convém a um ser como eu, que com o passar dos anos me sinto menor e mais escondida, medrosa com bichos e pessoas, carros, multidão, todas as coisas vivas, com meus próprios pensamentos, que teimam em chegar quando mais os evito, com os mortos deitados dentro de seus caixões, com imagens de pessoas que sofrem, outras que nunca foram felizes, crianças das quais ninguém cuida e arrastam seu abandono pequenino entre os carros.
Quando não estou passeando dentro das fotos procuro passear por dentro do meu pobre corpo abandonado, imaginando viagens pequenas do coração até o que imagino ser meu estômago, da garganta até canais hipotéticos, do ouvido, da boca até o lugar da minha cabeça que cria os pensamentos para ordenar que se calem, que respeitem essa pobre velha que hoje sou, que deixem de me atormentar com seus desejos e lembranças de coisas que nunca vivi, de me cansar com mentiras.
Quando tenho mais coragem desço até meu útero para saber por que ali as coisas foram como foram, para tentar descobrir o que afinal aconteceu que fez a vida secar tão cedo que eu mal a conheci.
Por que o sangue foi interrompido e tudo apodreceu sem aviso, me deixando sozinha, mais que tudo de mim mesma, sem poder continuar, sem ter mais alguém além dela que me abandonou tão menina, quando eu apenas começava a caminhar nas circulares estradas do amor.
Nas fotos dela eu nunca tive vontade de passear, um dia conseguirei minha menina, passear naquelas fotografias de quando éramos felizes as duas, de quando eras linda, com suas faces rosadas e seus cabelos finos, quando através dos seus enormes olhos eu, quem sabe, apreenderia o mundo.
Mas hoje tenho vontade de fechar essas janelas e lacrá-las, para que não consiga mais enxergar por trás da janela da frente a sombra de alguém que se esconde atrás das vidraças ou atrás desse alguém.
E que pode nem estar olhando para cá, nem para ninguém, mas sei que existe que fica exibindo sua vida com essa desfaçatez que me enoja. Como me enojam todas as outras vidas, com suas pernas, seus caminhos e viagens, festas de aniversário e outras comemorações.
Não quero saber de outras vidas, hoje percebo que não me contenho no pobre escurecido invólucro em que o meu corpo se tornou depois de tudo.
Tento voltar sempre àquele exato instante em que.
Não.   
Ao instante imediatamente anterior ao do teu grito, enquanto ainda caminhavas de mãos dadas comigo, aquele momento que escondia de nós o fantasma escuro da morte, com seus ossos claros, com seus recortes que me seguem desde então; um fantasma que sempre nos acompanhava e que não pressenti na minha enorme cegueira.







Nos estilhados das ruas

Ele ficou ali parado olhando todas as letras dos cartazes; lá fora chovia um pouco e as pessoas passavam apressadas.
Ele restava entretido e feliz olhando o mural do metrô, um pouco curioso, me pareceu, um pouco talvez esperando a chuva passar, um pouco qualquer coisa assim pesando na paisagem.
Inexpressivo, ardente, imóvel, atento. Tão só!
Percebi que os sapatos apertavam seus pés, só um pouco, só um pouquinho.
Porque a todo o momento, como que um pé subia no outro, com carinho, buscando encompridar a ponta do tênis molhado.






O presente.

Na escola as meninas começaram a preparar o presente do dia das mães.
Naquele ano seria uma capa para liquidificador tecida, desenhada e bordada.
Irmã Sacramento, que ensinava artesanato, estava entusiasmada com sua ideia e todas pareceram gostar.
Menos ela.
Ela viu a cozinha pequena e suja da sua casa. Uma mesa com duas cadeiras, uma pia e um fogão. Tinha uma prateleira também, depois ela se lembrou. Liquidificador? Se nem geladeira tinha.
A menina sentiu o sangue subir às faces e, com vergonha não disse nada.
Naquele maio entregou uma linda caixa com a capa do liquidificador bem dobrada dentro dela. Junto vinha um cartão caprichado com uma letra trêmula.
Sua mãe, a princípio ficou atônita examinando a peça rara que ela, de início não identificou. Sorrindo disse: “Parece um vestido de boneca, mas não é.”.
Então, pelo canto dos olhos viu sua filha de cabeça baixa, com jeito de quem ia começar a chorar. Então falou: “Ah, vai ficar lindo pendurado ali (apontou) bem perto da porta do quintal”.
Durante anos, até que se mudaram dali, a capa tornada quadro enfeitou a cozinha e teve desse modo, um destino muito mais interessante que todas as outras feitas na mesma época: tornou-se objeto de contemplação.

A vida secreta de Gigi

Apenas hoje, muitos dias que ela se foi eu começo a perceber como foi essa vida que eu passo agora a chamar de nossa. Porque Gigi esteve em minha vida e eu na dela por longos dezoito anos.
Foram longos e digo isso não sei bem porque, já que me parecem tão rápidos!
Preciso começar longe no passado quando ela me foi entregue muito pequenina num ensolarado dia das mães. Eu, sem conseguir recusar o presente aceitei essa gatinha em minha vida.
E ela passou a ficar por ali, em todos os cantos e partes do apartamento, sempre quietinha, sem impor presença ou incomodar. Miar nem miava.
Desde o dia da sua chegada sabia como comer, beber e fazer suas necessidades sem alarde numa caixinha de areia na varanda.
Tenho fotos dela em diversos lugares, mas os seus prediletos eram as camas e as estantes de livros. Vou poupar ao leitor os cuidados diários que foram transformando nossa relação numa longa história jamais prosaica, mas após algum tempo, que não sei precisar, fui notando que Gigi, nome de minha avó materna, tinha certos comportamentos extraordinários.
O maior deles o de sumir. Podia ficar horas e horas desaparecida sem atender chamados dormindo entre travesseiros, embaixo de lençóis ou dentro do motor da geladeira. Com o passar do tempo comecei a considerar outras habilidades suas, como por exemplo, a de driblar a morte.
A primeira vez que caiu da janela do quarto andar do prédio onde morávamos foi encontrada no meio do mato coberta de terra e de sangue.
Foi sua primeira morte.
Mal trazida para casa pulou sobre um armário onde passou três dias curando sozinha as próprias feridas. E numa manhã qualquer lá estava ela bebendo água na cozinha, como se nada houvesse acontecido.
Da segunda vez que caiu foi amparada pela rede do campo de basquete e entrou mancando no apartamento do primeiro andar causando tremendo rebuliço. Considerei essa sua segunda morte. Mesmo depois desse fato inusitado chegou em casa e foi dormir entre as obras completas de Garcia Marquez como se aquele fosse um dia qualquer.
Durante os próximos anos deixou-se ver em todos os lugares onde um gato bem comportado se põe e pensei que tivesse criado juízo: no sofá da sala, perto do computador ou encima dele, no tapete.
Mas logo que telas de proteção foram postas nas janelas passou a morar nas beiradas dormindo refestelada ao sol das manhãs, tardes e no calorão do meio dia.
Tenho me lembrar de cada dia, cada noite que passamos juntas, mas houve tempos em que ela existia invisível até que me acostumei a passar horas e horas sem encontra-la em lugar algum.
Então mudamos de apartamento para um outro cercado de árvores e elas eram a morada de dezenas de maritacas barulhentas. Gigi se animou e passou a compartilhar com elas uma insana alegria de viver tentando caçá-las por entre o tecido da rede, fazendo piruetas equilibrada no batente da lavanderia.
Aprendeu a saltar alto: mesas, geladeira, estantes, armários de cozinha, janelas.
Mais tarde veio a casa de praia: os telhados, a varando, as redes, a lua cheia, os saruês que corriam na escuridão depois que o condomínio todo sossegava.
Foram muitos os sóis, muitos os verões, muitas noites longas, quentes, em que eu a via silenciosa passeando pelos telhados depois que todos na casa havia ido dormir. Gigi assuntava a noite, cuidava da imensidão estrelada e mantinha intensas conversas com a lua, quando havia lua.
Não desconfiei, a princípio, de sua vida oculta; aquela das horas de sumiço em que ela não estava em nenhum lugar da casa, nem fora dela. E de repente aparecia, não, ela simplesmente chegava e ficava ali me olhando onde segundos antes não havia ninguém. E, em seguida se aconchegava no meu peito deitando sua cabeça nos meus ombros. Sim, ela era dada a desaparecimentos, carinho e aconchego.
Muitas vezes brigamos. Muitas vezes nos consolamos da dificuldade que é viver. Cuidei dela, ela cuidou de mim. Não há como dizer de outro modo.
Gigi era uma gata aérea. Gostava do vento e não temia tempestades. Era selvagem. Quieta. Ciumenta. Muitas vezes chata e birrenta. Indomável.
Não era dada a carinhos de estranhos e desaparecia quando as visitas chegavam. Poucos a conheceram.
Nos últimos meses deixava-se ficar por ali, condescendente com as crianças e os conhecidos. Passeava sorrateira pela casa tentando parecer invisível e arrastando a barriga pelo chão. Estava envelhecendo.
E olhava os pássaros, olhava o mundo da minha janela que para sempre está marcada pela presença dela. Uma gata siamesa, o sol, uma janela. E as maritacas.
Em sua última manhã de vida a coloquei no parapeito. Era um dia luminoso de primavera e as maritacas faziam seu alvoroço costumeiro. Mas ela, pela primeira vez em sua longa vida não se interessou e voltou para o meu colo gemendo baixinho desconsolada.
Soube então que havia chegado a hora da despedida.

Gigi, a pequena, voou no céu azul de um domingo ensolarado. Pude vê-la ao longe enquanto perseguia as andorinhas, livre para sempre da dor e da força da gravidade.
Foi assim sua terceira e derradeira morte.














Era tão chato morrer

Deitada no asfalto quente ela tentou sorrir e se sentiu ligeiramente incômoda.
O sorriso que não quis sorrir ficou lá por dentro cutucando sua alma.
Nada doía.
Nada mexia.
Nada sentia nada.
Escutou ao longe uma ambulância; olhou o céu e tudo que podia ver era a vida virando lentamente espetáculo, nas nuvens em camadas superpostas, nas várias profundidades em que se moviam as nuvens.
No redondo das nuvens percebeu o redondo do céu do mundo, o redondo de todas as coisas redondas ou não.
Estranhamente profundo era o céu visto do asfalto quente dessa marginal às cinco da tarde.
Um pouco ansiosa ela pensou se estaria morrendo, enquanto olhava as nuvens em suas diversas camadas.
O tempo ralentou, então ela viu Madre Sacramento debruçada no piano corrigindo o ritmo de uma sonata que ela acabara de tocar.
E entre as notas e a pauta ela pensou na morte chegando vazia de dor, de medo, sem sequer um pingo de tristeza; e viu pela janela da sala de música uma só rosa vermelha, uma só balançando na brisa da tarde perfeita.
Tentou continuar pensando e não conseguiu, as nuvens pararam, o metrônomo no alto do piano marcou um staccato; então ela fixou um quadro imóvel e azul na retina.

Fixou um quadrado de céu e se esqueceu.