sábado, 19 de dezembro de 2015

Carta de Rossini

Carta de meu pai

Não me lembro de ter estado aqui nessa vila enquanto vivia, mas nesse entardecer preciso de maio olhei o mar e soube que estamos no outono porque o calor já não castiga e a água tem uma cor diferentes das todas as conhecidas.

Cheguei, não sei como, e comigo a noite rápida enlouquecendo as fronteiras entre o céu e o mar. Fiquei parado com meus pés descalços ( em vida tão raro meus pés descalços) na reia morna vendo os meus filhos, netos, bisnetos em meio à névoa salgada da praia.

Uns nadando, outros olhando o sol sumir no mar.

Lembro que o silêncio era pesado como uma caixa muito pesada que o ar carregasse, mas o ar era leve e líquido, porque nele as lembranças navegavam passando umas pelas outras como folhas ao vento ou peixes fugindo de redes.

E nas lembranças passantes navegantes flutuantes eu via o meu passado mas via tambem o futuro que iluminava estradas percorridas, coisas vividas como pela primeira vez como numa morada dessas recordações que eram minhas, precisas, únicas.

Eu esperava que algum daqueles meninos chegasse pedindo para ser reconhecido, conhecido por esse bisavô que partiu há tanto e tanto tempo e que os esperava descalço nessa praia inesquecível. Tão única, tão de mar revolto, inteiramente selvagem como mares nunca navegados.

E então, absorto nesse momento perfeito e impossível te vi caminhando em minha direção, jovem como quando te conheci; eras Gilda, minha mulher e na soma das nossas memórias compartilhadas ficamos silenciosos, lado a lado, como garotinhos saudosos do futuro que não seria nosso.

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