em sua última noite acordada Odete inventou o mar
penteou seus cabelos pintou seus velhos lábios do batom mais claro e se deitou para morrer
sabia que isso aconteceria porque estava cansada demais para seguir vivendo estava farta de sentir saudades
terça-feira, 31 de março de 2009
em cada um de nós
sentada no banco reservado aos idosos Adriana chorava sozinha
chorava num silêncio que sequer disfarçava as lágrimas que escorriam simétricas se encaixando na gola branca da blusa de frio
Adriana chorava em silêncio com a mais constrangedora dignidade e o sofrimento que ela não escondia nem mostrava flutuou no ar parado no ar cansado entre os vidros cerrados pela chuva
seguíamos todos juntos e a Heitor Penteado era uma alameda agora de lembranças que cada um de nós sem desejar recuperava
todas elas tristes
chorava num silêncio que sequer disfarçava as lágrimas que escorriam simétricas se encaixando na gola branca da blusa de frio
Adriana chorava em silêncio com a mais constrangedora dignidade e o sofrimento que ela não escondia nem mostrava flutuou no ar parado no ar cansado entre os vidros cerrados pela chuva
seguíamos todos juntos e a Heitor Penteado era uma alameda agora de lembranças que cada um de nós sem desejar recuperava
todas elas tristes
pés em pétalas
quando as lembranças saíam pelas ruas
e eram lembranças de folhas e terra no outono elas encontravam outras histórias que iam ocupando pequenos espaços de vento ou pedaços de ar parado à beira de troncos ou postes
e quando uma ou outra lembrança povoava o amanhecer das ruas quietas
quando o movimento da cidade ainda não tinha se atrevido a espantar a quietude dos paralelepípedos é que essas lembranças de orvalho pela manhã em cafezais já tão distantes encontravam-se com fiapos de outras memórias atrevidas todas como nós a perambular
tudo isso acontecia antes que o barulho das coisas começassem sôfregas a cavar suas próprias e temporárias histórias
eram obscuras certas formas que sobrevoavam o ar limpo da madrugada
eram lembranças às vezes luminosas outras nem tanto que escapavam no ar azul que acompanhava o sol da manhã trazido por detrás do nítido contorno de cada prédio
me lembra sempre o sitio você me disse uma vez pela tela do computador
e apesar da distância em mares e terras que separa meu outono e tua primavera existe como que um tempo no qual existimos meninas e o cheiro de mato queimado que te percorre o pensamento não é o mesmo que talvez percorra o meu mas é cheiro e de matos por certo iguais ou quase
enquanto caminhas segurando a beira do casaco comprido no frio de Londres essa luminosidade que também é minha me percorre a pele fina que surge escorregadia por debaixo da saia curta
bem rente numa proximidade fresca e quase abrupta nossos corações podem cantar baixinho ou mesmo não mas percebem ambos brotos nascendo em canteiros em qualquer parte do mundo
em todos nas quais passeiem nossos pés
e o ar se tingindo de um rosa tão delicado como você me disse blossoms
tão delicadas as duas seguindo por essa estrada da vida afora pousando nossos olhos quem sabe distraídos por sobre flores miúdas num rosa de pétalas que teimarão em seguir nossos pensamentos
ando agora um pouco mais depressa e a madrugada já se tornou mais um dia comum
minhas memórias aceleradas desconhecem a realidade desse sol poluído da cidade teimando em se mostrar juntas com pressa tão exibidas todas de sua existência autônoma
e então vão se deixando ficar pelas esquinas onde outras lembranças se mesclam em conversas ouvidas de passagem em frases entreouvidas nos metrôs
são não minhas mas tão minhas essas histórias parcialmente ouvidas
como me aproprio delas descarada vadia como se eu fosse um ladrão
ou talvez já sigam sem dono existindo quase matéria sem consistência nenhuma tão como se nunca tivessem sido vividas
na brisa do outono é bom caminhar entre árvores aflitas vazia do que fui e até do que serei deixando que pensamentos alheios cubram minha própria vida e passem a me pertencer ou de fato a ninguém
vejo que a liberdade das lembranças viaja numa territorialidade que também a mim atiça cavalga e amedronta
num mundo só de mundos sem nenhuma materialidade que projetam incansavelmente suas eternas e recorrentes imagens de coisas plantas e viajantes
crio agora imagens sem nenhuma forma enquanto caminho respirando bem fundo prá não chorar pois as lágrimas não choradas e apenas elas conhecerão o orvalho que não tece o dia como quando era bem cedo e chegava alguém abrindo bem de leve a porta como quem não quer ser percebido
outono de 2.000
e eram lembranças de folhas e terra no outono elas encontravam outras histórias que iam ocupando pequenos espaços de vento ou pedaços de ar parado à beira de troncos ou postes
e quando uma ou outra lembrança povoava o amanhecer das ruas quietas
quando o movimento da cidade ainda não tinha se atrevido a espantar a quietude dos paralelepípedos é que essas lembranças de orvalho pela manhã em cafezais já tão distantes encontravam-se com fiapos de outras memórias atrevidas todas como nós a perambular
tudo isso acontecia antes que o barulho das coisas começassem sôfregas a cavar suas próprias e temporárias histórias
eram obscuras certas formas que sobrevoavam o ar limpo da madrugada
eram lembranças às vezes luminosas outras nem tanto que escapavam no ar azul que acompanhava o sol da manhã trazido por detrás do nítido contorno de cada prédio
me lembra sempre o sitio você me disse uma vez pela tela do computador
e apesar da distância em mares e terras que separa meu outono e tua primavera existe como que um tempo no qual existimos meninas e o cheiro de mato queimado que te percorre o pensamento não é o mesmo que talvez percorra o meu mas é cheiro e de matos por certo iguais ou quase
enquanto caminhas segurando a beira do casaco comprido no frio de Londres essa luminosidade que também é minha me percorre a pele fina que surge escorregadia por debaixo da saia curta
bem rente numa proximidade fresca e quase abrupta nossos corações podem cantar baixinho ou mesmo não mas percebem ambos brotos nascendo em canteiros em qualquer parte do mundo
em todos nas quais passeiem nossos pés
e o ar se tingindo de um rosa tão delicado como você me disse blossoms
tão delicadas as duas seguindo por essa estrada da vida afora pousando nossos olhos quem sabe distraídos por sobre flores miúdas num rosa de pétalas que teimarão em seguir nossos pensamentos
ando agora um pouco mais depressa e a madrugada já se tornou mais um dia comum
minhas memórias aceleradas desconhecem a realidade desse sol poluído da cidade teimando em se mostrar juntas com pressa tão exibidas todas de sua existência autônoma
e então vão se deixando ficar pelas esquinas onde outras lembranças se mesclam em conversas ouvidas de passagem em frases entreouvidas nos metrôs
são não minhas mas tão minhas essas histórias parcialmente ouvidas
como me aproprio delas descarada vadia como se eu fosse um ladrão
ou talvez já sigam sem dono existindo quase matéria sem consistência nenhuma tão como se nunca tivessem sido vividas
na brisa do outono é bom caminhar entre árvores aflitas vazia do que fui e até do que serei deixando que pensamentos alheios cubram minha própria vida e passem a me pertencer ou de fato a ninguém
vejo que a liberdade das lembranças viaja numa territorialidade que também a mim atiça cavalga e amedronta
num mundo só de mundos sem nenhuma materialidade que projetam incansavelmente suas eternas e recorrentes imagens de coisas plantas e viajantes
crio agora imagens sem nenhuma forma enquanto caminho respirando bem fundo prá não chorar pois as lágrimas não choradas e apenas elas conhecerão o orvalho que não tece o dia como quando era bem cedo e chegava alguém abrindo bem de leve a porta como quem não quer ser percebido
outono de 2.000
momento de peixes
bem pouco antes de morrer Ana viu vindo do fundo lodoso e frio do lago o peixe vermelho que se colaria deslizante à sua retina para sempre
houve tempo também para se perguntar por que nunca reparara nos peixes desse lugar nem tampouco nos barcos que cediam seu peso doces ao balanço das marolas num silêncio inquieto de pássaros
Ana até o momento de morrer não reparara jamais nas andorinhas que sugavam rápidas a água com uma doçura de bicos pequenos
que voavam juntas sem nenhuma linearidade nessa manhã de setembro
que não percebiam o quanto ela se debatia gritando num abandono sem ecos seu terror inútil
o peixe parou um instante na água com seus grandes olhos abertos talvez fitando seus olhos talvez
um anu piou longe e o céu amanhecendo ia descendo sobre a terra um azul inesquecível e completo
havia pencas de flores amarelas tão pequenas na beirada do lago aonde ela jamais chegaria notou um pouco debruçadas sobre a água
Ana reparou naqueles caules longos finos frágeis de leve acompanhando a brisa que chegava agora de algum lugar com olhos que se apagariam daqui a pouco
e sabia que seus olhos estavam se despedindo do mundo porque reparou como em nenhum outro momento de sua vida antes desse nas pétalas tão frágeis das flores numa só e menor flor no ar perfumado que nunca mais seria dela
agosto de 2000
houve tempo também para se perguntar por que nunca reparara nos peixes desse lugar nem tampouco nos barcos que cediam seu peso doces ao balanço das marolas num silêncio inquieto de pássaros
Ana até o momento de morrer não reparara jamais nas andorinhas que sugavam rápidas a água com uma doçura de bicos pequenos
que voavam juntas sem nenhuma linearidade nessa manhã de setembro
que não percebiam o quanto ela se debatia gritando num abandono sem ecos seu terror inútil
o peixe parou um instante na água com seus grandes olhos abertos talvez fitando seus olhos talvez
um anu piou longe e o céu amanhecendo ia descendo sobre a terra um azul inesquecível e completo
havia pencas de flores amarelas tão pequenas na beirada do lago aonde ela jamais chegaria notou um pouco debruçadas sobre a água
Ana reparou naqueles caules longos finos frágeis de leve acompanhando a brisa que chegava agora de algum lugar com olhos que se apagariam daqui a pouco
e sabia que seus olhos estavam se despedindo do mundo porque reparou como em nenhum outro momento de sua vida antes desse nas pétalas tão frágeis das flores numa só e menor flor no ar perfumado que nunca mais seria dela
agosto de 2000
de uma extrema delicadeza
anoitecia muito muito devagar
e a noite anoitecendo ia entrando pelas janelas entranhando nas frestas dos móveis e nos vãos esquecidos das gavetas
esse anoitecer ia brincando lentamente com as folhas do amor perfeito rastreando os passos de Gigi tentando bem de leve invadir o espaço entre almofadas e talheres
o noturno ar escuro preenchia devagar o vazio das panelas e mesmo debaixo dos lençóis a noite havia se insinuado deslizante
tudo ia sendo tomado por um silêncio aconchegante num vazio dos sons que conduziram o dia ao seu final e que agora também haviam desaparecido na penumbra
Sofia regando as plantas foi notando distraída que entre os vasos e mesmo a terra dos vasos e por debaixo dos móveis uma delicada escuridão a tudo envolvia com mil olhinhos de seda
e ela pensou a noite com seus passos pequenos de espuma e não fechou as janelas
com seus olhos a escuridão da noite parecia uma menina dormindo
tão linda
tão tranqüila a linda menina dormindo antes de a noite chegar
primavera de 1999
e a noite anoitecendo ia entrando pelas janelas entranhando nas frestas dos móveis e nos vãos esquecidos das gavetas
esse anoitecer ia brincando lentamente com as folhas do amor perfeito rastreando os passos de Gigi tentando bem de leve invadir o espaço entre almofadas e talheres
o noturno ar escuro preenchia devagar o vazio das panelas e mesmo debaixo dos lençóis a noite havia se insinuado deslizante
tudo ia sendo tomado por um silêncio aconchegante num vazio dos sons que conduziram o dia ao seu final e que agora também haviam desaparecido na penumbra
Sofia regando as plantas foi notando distraída que entre os vasos e mesmo a terra dos vasos e por debaixo dos móveis uma delicada escuridão a tudo envolvia com mil olhinhos de seda
e ela pensou a noite com seus passos pequenos de espuma e não fechou as janelas
com seus olhos a escuridão da noite parecia uma menina dormindo
tão linda
tão tranqüila a linda menina dormindo antes de a noite chegar
primavera de 1999
agosto entre os carros
todas as pessoas tem um secreto pacto com a poesia
sei disso porque quando setembro aponta no horizonte com suas madrugadas dia a dia um minuto mais claras elas se olham pelas ruas a caminho do trabalho nessa precariedade ardente que a morte das coisas traz com uma ardência sem limites como se quisessem dizer tudo que nunca poderá ser dito
e há um punhado de sorrisos que nunca foram dados palavras impossíveis que nunca foram faladas e que se deixam ver bailando no ar sujo que o inverno largou pelas ruas por onde passo cada manhã abismada de que tudo ainda seja assim tão desajeitadamente pequeno
e mesmo que a sujeira das ruas essa sujeira quase inacreditável e dura exista chamando a atenção de meus olhos já tão cansados de reparar em tudo que o mundo não deveria ser
mesmo que a realidade apareça agora nessa hora da manhã em que a vejo com seus braços de estrela seus corpinhos de nuvens afogadas no meio do pó frio das calçadas
mesmo assim seguirei pensando o quanto é inevitável estar aqui perambulando por um bairro ou outro passando pelo centro com seus antigos edifícios seus cinemas onde numa lembrança muito distante velhos pianistas tocavam
e os homens que por esses mesmos lugares passam olham para dentro de seus peitos em perdidos primaveris pensamentos
por toda a parte há um desejo no ar de que por fim alguma coisa aconteça que não essas de todos os dias todos os dias lamentavelmente
quem poderá algum dia saber o que pensam as pessoas que passam ?
mesmo quando não sabem sobretudo quando não vêem nada disso que vejo
e quando um ou outro olhar cruza o meu olhar então se faz no ar uma forma oblíqua porque são sempre assim essas formas no ar
figuras que não se pode tocar
figuras que sequer terão existência quando o pleno dia chegar
instantâneas e muito pouco perceptíveis formas essas que em vão tento abraçar com meu corpo de sol cheirando a sabonete e lavanda
mas são cansados os gestos que se arrastam no luminoso oxigênio do dia e o velho que agora passa carrega em seus ombros uma imensa melancolia
essa que atrasa as estações que prolonga o inverno que nos torna a todos um pouco mais tristes e inevitavelmente perdidos entre os postes lojas esquinas entre tudo o que nunca será
é preciso registrar aqui de modo drástico e definitivo a importância daquilo tudo que nunca será e que percorre a cidade em percursos invisíveis
é preciso afirmar essa dolorosa e fotográfica constatação de que os prédios se diluem na massa de inevitáveis desencontros de que o sangue resta ressecado na ponta aguda dos becos dos tiros dos gritos das crianças torturadas na periferia dos abortos feitos nas tardes mortas de cansaço entre os executivos apressados nos metrôs que escondem o calor da Paulista em espaços da mais perfeita ordem em vãos livres de museus cujos fetos entopem as privadas dos escritórios elegantes descobertos apenas e tão somente pelo cheiro insuportável que navega tenso entre os micros
importa registrar num registro impossível tudo o que nunca será
nossa existência de rostos vincados pela dor por sorrisos pequenos que nos aprisionam em nossa realidade de horários supermercados escolas e bancos
por todo esse tempo que vai escorrendo de nossos corpos exaustos de nunca viver a vida nesse ir e vir sem sentido na rotina amarga imposta pelos quarteirões fechados em si mesmos como grutas nos trens que se sucedem nos aviões que sobrevoam o céu azul de quando a noite começa a cair
o lixo amontoado ao longe na calçada é uma criança dormindo ao relento mais uma delas dessa São Paulo colorida com o perverso sacrifício sempre tão sem inocência dos inocentes
como quem não sabe como quem mente no escuro os fantasmas não existem meu menino só meninos que morrem sozinhos no poço escuro das drogas existem aqueles fantasmas que no escuro espremem o coração descem o frio à boca do estômago caras remelentas nos faróis meninas meninos estupradas estuprados pelos pais enquanto outros meninos de bicicleta passam paralelos exageradamente anônimos completamente desconhecidos de ti que também desperdiçavas teu tempo pelas ruas ouvindo tudo que todas as densas imagens têm prá contar sem uma palavra sequer nenhuma letra
as flores na Doutor Arnaldo os ipês amarelos de agosto o rosa súbito das enormes árvores que surgem encantadas no cinza das casas velhas os passarinhos pois cantam pássaros em muitos dos teus cantos vagos minha cidade e até borboletas se avista em plena Av. Sumaré voando desesperadas entre os carros dos fins de tarde de enquanto passeava contigo
queria te dizer que amo esses seres anônimos que cruzam opacos meu caminho
esses homens e mulheres com suas casas na periferia seus desejos de uma televisão melhor até mesmo de um carro seus rostos pálidos seus olhos fundos
queria poder te dizer que amo os camelôs que armam suas barracas no circuito das Clínicas e as pessoas que param sorriem ainda podem ser felizes em qualquer manhã
amo com um amor infeliz e doloroso as crianças doentes especialmente aquelas sem cabelo de olhos fundos e faces encovadas que compram um macaquinho de corda na bicicleta talvez um algodão doce e lambem os lábios de satisfação sorrindo seus sorrisos tristes
pudesse eu te dizer do olhar de amor que essas pessoas têm do tempo para parar e agradecer e lembrar de um outro dia passando ali de uma toalha bordada do gosto bom do beiju feito na hora
hei de conseguir contar mais tarde de uma tarde na Santa Casa e de como a lua cheia se deixava ver de repente por trás dos prédios dos ambulatórios e dos centros cirúrgicos do mesmo modo altaneiro como entre coqueiros muito distantes
como pessoas famílias inteiras horas e horas de espera uma transfusão de sangue uma fratura um tiro uma sessão de quimioterapia olhavam devem olhar ainda para a lua como se nunca caminhando até o ponto do ônibus e se despedem agradecidas de que haja a vida haja a noite e exista ainda o caminho da casa
te contar do meu desejo eu queria tanto
de uma vida enfim como essas vidas parecem ser
que seja completa em si mesma que possa se parecer com outras vidas
não como as que enxergamos ávidos pelo vidro dos carros entre os carros uma vida
o menino manco caminha no cruzamento os carros buzinam uma mulher bem vestida fala um palavrão horrível mas o menino não sabe não pode correr
o homem negro sobe a Teodoro Sampaio puxando a carroça de sucata o suor escorre por suas pernas tortas uma mais curta que a outra
o Esquadrão Resgate salva um motoqueiro enquanto o gordo no Audi reclama do atraso do trânsito da vida infernal dos estúpidos que se deixam atropelar enquanto escarra na avenida
na frente do IML as maritacas passam gritando cortando o céu de fora a fora
amanheceu de todo e em São Paulo um novo dia já vai longe
nos cemitérios todos as árvores estão floridas meu amor e eu não consigo mais te contar nenhuma outra história entre tantas que nunca consegui contar
tomo tuas mãos geladas nas minhas mãos toco cada um dos teus dedos pequenos infinitamente longe teus pequenos dedos
lá fora as maritacas gritam e gritam mas não ouves mais o som contínuo que essa cidade tem
um som que parece o mar de que gostavas tanto meu menino
enquanto eu aqui morta em vida para sempre
morta em vida para sempre olhando teu corpo tão coberto pelo frio
sei disso porque quando setembro aponta no horizonte com suas madrugadas dia a dia um minuto mais claras elas se olham pelas ruas a caminho do trabalho nessa precariedade ardente que a morte das coisas traz com uma ardência sem limites como se quisessem dizer tudo que nunca poderá ser dito
e há um punhado de sorrisos que nunca foram dados palavras impossíveis que nunca foram faladas e que se deixam ver bailando no ar sujo que o inverno largou pelas ruas por onde passo cada manhã abismada de que tudo ainda seja assim tão desajeitadamente pequeno
e mesmo que a sujeira das ruas essa sujeira quase inacreditável e dura exista chamando a atenção de meus olhos já tão cansados de reparar em tudo que o mundo não deveria ser
mesmo que a realidade apareça agora nessa hora da manhã em que a vejo com seus braços de estrela seus corpinhos de nuvens afogadas no meio do pó frio das calçadas
mesmo assim seguirei pensando o quanto é inevitável estar aqui perambulando por um bairro ou outro passando pelo centro com seus antigos edifícios seus cinemas onde numa lembrança muito distante velhos pianistas tocavam
e os homens que por esses mesmos lugares passam olham para dentro de seus peitos em perdidos primaveris pensamentos
por toda a parte há um desejo no ar de que por fim alguma coisa aconteça que não essas de todos os dias todos os dias lamentavelmente
quem poderá algum dia saber o que pensam as pessoas que passam ?
mesmo quando não sabem sobretudo quando não vêem nada disso que vejo
e quando um ou outro olhar cruza o meu olhar então se faz no ar uma forma oblíqua porque são sempre assim essas formas no ar
figuras que não se pode tocar
figuras que sequer terão existência quando o pleno dia chegar
instantâneas e muito pouco perceptíveis formas essas que em vão tento abraçar com meu corpo de sol cheirando a sabonete e lavanda
mas são cansados os gestos que se arrastam no luminoso oxigênio do dia e o velho que agora passa carrega em seus ombros uma imensa melancolia
essa que atrasa as estações que prolonga o inverno que nos torna a todos um pouco mais tristes e inevitavelmente perdidos entre os postes lojas esquinas entre tudo o que nunca será
é preciso registrar aqui de modo drástico e definitivo a importância daquilo tudo que nunca será e que percorre a cidade em percursos invisíveis
é preciso afirmar essa dolorosa e fotográfica constatação de que os prédios se diluem na massa de inevitáveis desencontros de que o sangue resta ressecado na ponta aguda dos becos dos tiros dos gritos das crianças torturadas na periferia dos abortos feitos nas tardes mortas de cansaço entre os executivos apressados nos metrôs que escondem o calor da Paulista em espaços da mais perfeita ordem em vãos livres de museus cujos fetos entopem as privadas dos escritórios elegantes descobertos apenas e tão somente pelo cheiro insuportável que navega tenso entre os micros
importa registrar num registro impossível tudo o que nunca será
nossa existência de rostos vincados pela dor por sorrisos pequenos que nos aprisionam em nossa realidade de horários supermercados escolas e bancos
por todo esse tempo que vai escorrendo de nossos corpos exaustos de nunca viver a vida nesse ir e vir sem sentido na rotina amarga imposta pelos quarteirões fechados em si mesmos como grutas nos trens que se sucedem nos aviões que sobrevoam o céu azul de quando a noite começa a cair
o lixo amontoado ao longe na calçada é uma criança dormindo ao relento mais uma delas dessa São Paulo colorida com o perverso sacrifício sempre tão sem inocência dos inocentes
como quem não sabe como quem mente no escuro os fantasmas não existem meu menino só meninos que morrem sozinhos no poço escuro das drogas existem aqueles fantasmas que no escuro espremem o coração descem o frio à boca do estômago caras remelentas nos faróis meninas meninos estupradas estuprados pelos pais enquanto outros meninos de bicicleta passam paralelos exageradamente anônimos completamente desconhecidos de ti que também desperdiçavas teu tempo pelas ruas ouvindo tudo que todas as densas imagens têm prá contar sem uma palavra sequer nenhuma letra
as flores na Doutor Arnaldo os ipês amarelos de agosto o rosa súbito das enormes árvores que surgem encantadas no cinza das casas velhas os passarinhos pois cantam pássaros em muitos dos teus cantos vagos minha cidade e até borboletas se avista em plena Av. Sumaré voando desesperadas entre os carros dos fins de tarde de enquanto passeava contigo
queria te dizer que amo esses seres anônimos que cruzam opacos meu caminho
esses homens e mulheres com suas casas na periferia seus desejos de uma televisão melhor até mesmo de um carro seus rostos pálidos seus olhos fundos
queria poder te dizer que amo os camelôs que armam suas barracas no circuito das Clínicas e as pessoas que param sorriem ainda podem ser felizes em qualquer manhã
amo com um amor infeliz e doloroso as crianças doentes especialmente aquelas sem cabelo de olhos fundos e faces encovadas que compram um macaquinho de corda na bicicleta talvez um algodão doce e lambem os lábios de satisfação sorrindo seus sorrisos tristes
pudesse eu te dizer do olhar de amor que essas pessoas têm do tempo para parar e agradecer e lembrar de um outro dia passando ali de uma toalha bordada do gosto bom do beiju feito na hora
hei de conseguir contar mais tarde de uma tarde na Santa Casa e de como a lua cheia se deixava ver de repente por trás dos prédios dos ambulatórios e dos centros cirúrgicos do mesmo modo altaneiro como entre coqueiros muito distantes
como pessoas famílias inteiras horas e horas de espera uma transfusão de sangue uma fratura um tiro uma sessão de quimioterapia olhavam devem olhar ainda para a lua como se nunca caminhando até o ponto do ônibus e se despedem agradecidas de que haja a vida haja a noite e exista ainda o caminho da casa
te contar do meu desejo eu queria tanto
de uma vida enfim como essas vidas parecem ser
que seja completa em si mesma que possa se parecer com outras vidas
não como as que enxergamos ávidos pelo vidro dos carros entre os carros uma vida
o menino manco caminha no cruzamento os carros buzinam uma mulher bem vestida fala um palavrão horrível mas o menino não sabe não pode correr
o homem negro sobe a Teodoro Sampaio puxando a carroça de sucata o suor escorre por suas pernas tortas uma mais curta que a outra
o Esquadrão Resgate salva um motoqueiro enquanto o gordo no Audi reclama do atraso do trânsito da vida infernal dos estúpidos que se deixam atropelar enquanto escarra na avenida
na frente do IML as maritacas passam gritando cortando o céu de fora a fora
amanheceu de todo e em São Paulo um novo dia já vai longe
nos cemitérios todos as árvores estão floridas meu amor e eu não consigo mais te contar nenhuma outra história entre tantas que nunca consegui contar
tomo tuas mãos geladas nas minhas mãos toco cada um dos teus dedos pequenos infinitamente longe teus pequenos dedos
lá fora as maritacas gritam e gritam mas não ouves mais o som contínuo que essa cidade tem
um som que parece o mar de que gostavas tanto meu menino
enquanto eu aqui morta em vida para sempre
morta em vida para sempre olhando teu corpo tão coberto pelo frio
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