terça-feira, 31 de março de 2009

agosto entre os carros

todas as pessoas tem um secreto pacto com a poesia
sei disso porque quando setembro aponta no horizonte com suas madrugadas dia a dia um minuto mais claras elas se olham pelas ruas a caminho do trabalho nessa precariedade ardente que a morte das coisas traz com uma ardência sem limites como se quisessem dizer tudo que nunca poderá ser dito
e há um punhado de sorrisos que nunca foram dados palavras impossíveis que nunca foram faladas e que se deixam ver bailando no ar sujo que o inverno largou pelas ruas por onde passo cada manhã abismada de que tudo ainda seja assim tão desajeitadamente pequeno
e mesmo que a sujeira das ruas essa sujeira quase inacreditável e dura exista chamando a atenção de meus olhos já tão cansados de reparar em tudo que o mundo não deveria ser
mesmo que a realidade apareça agora nessa hora da manhã em que a vejo com seus braços de estrela seus corpinhos de nuvens afogadas no meio do pó frio das calçadas
mesmo assim seguirei pensando o quanto é inevitável estar aqui perambulando por um bairro ou outro passando pelo centro com seus antigos edifícios seus cinemas onde numa lembrança muito distante velhos pianistas tocavam
e os homens que por esses mesmos lugares passam olham para dentro de seus peitos em perdidos primaveris pensamentos
por toda a parte há um desejo no ar de que por fim alguma coisa aconteça que não essas de todos os dias todos os dias lamentavelmente
quem poderá algum dia saber o que pensam as pessoas que passam ?

mesmo quando não sabem sobretudo quando não vêem nada disso que vejo
e quando um ou outro olhar cruza o meu olhar então se faz no ar uma forma oblíqua porque são sempre assim essas formas no ar
figuras que não se pode tocar
figuras que sequer terão existência quando o pleno dia chegar
instantâneas e muito pouco perceptíveis formas essas que em vão tento abraçar com meu corpo de sol cheirando a sabonete e lavanda
mas são cansados os gestos que se arrastam no luminoso oxigênio do dia e o velho que agora passa carrega em seus ombros uma imensa melancolia
essa que atrasa as estações que prolonga o inverno que nos torna a todos um pouco mais tristes e inevitavelmente perdidos entre os postes lojas esquinas entre tudo o que nunca será

é preciso registrar aqui de modo drástico e definitivo a importância daquilo tudo que nunca será e que percorre a cidade em percursos invisíveis
é preciso afirmar essa dolorosa e fotográfica constatação de que os prédios se diluem na massa de inevitáveis desencontros de que o sangue resta ressecado na ponta aguda dos becos dos tiros dos gritos das crianças torturadas na periferia dos abortos feitos nas tardes mortas de cansaço entre os executivos apressados nos metrôs que escondem o calor da Paulista em espaços da mais perfeita ordem em vãos livres de museus cujos fetos entopem as privadas dos escritórios elegantes descobertos apenas e tão somente pelo cheiro insuportável que navega tenso entre os micros

importa registrar num registro impossível tudo o que nunca será

nossa existência de rostos vincados pela dor por sorrisos pequenos que nos aprisionam em nossa realidade de horários supermercados escolas e bancos
por todo esse tempo que vai escorrendo de nossos corpos exaustos de nunca viver a vida nesse ir e vir sem sentido na rotina amarga imposta pelos quarteirões fechados em si mesmos como grutas nos trens que se sucedem nos aviões que sobrevoam o céu azul de quando a noite começa a cair

o lixo amontoado ao longe na calçada é uma criança dormindo ao relento mais uma delas dessa São Paulo colorida com o perverso sacrifício sempre tão sem inocência dos inocentes
como quem não sabe como quem mente no escuro os fantasmas não existem meu menino só meninos que morrem sozinhos no poço escuro das drogas existem aqueles fantasmas que no escuro espremem o coração descem o frio à boca do estômago caras remelentas nos faróis meninas meninos estupradas estuprados pelos pais enquanto outros meninos de bicicleta passam paralelos exageradamente anônimos completamente desconhecidos de ti que também desperdiçavas teu tempo pelas ruas ouvindo tudo que todas as densas imagens têm prá contar sem uma palavra sequer nenhuma letra

as flores na Doutor Arnaldo os ipês amarelos de agosto o rosa súbito das enormes árvores que surgem encantadas no cinza das casas velhas os passarinhos pois cantam pássaros em muitos dos teus cantos vagos minha cidade e até borboletas se avista em plena Av. Sumaré voando desesperadas entre os carros dos fins de tarde de enquanto passeava contigo

queria te dizer que amo esses seres anônimos que cruzam opacos meu caminho
esses homens e mulheres com suas casas na periferia seus desejos de uma televisão melhor até mesmo de um carro seus rostos pálidos seus olhos fundos
queria poder te dizer que amo os camelôs que armam suas barracas no circuito das Clínicas e as pessoas que param sorriem ainda podem ser felizes em qualquer manhã
amo com um amor infeliz e doloroso as crianças doentes especialmente aquelas sem cabelo de olhos fundos e faces encovadas que compram um macaquinho de corda na bicicleta talvez um algodão doce e lambem os lábios de satisfação sorrindo seus sorrisos tristes
pudesse eu te dizer do olhar de amor que essas pessoas têm do tempo para parar e agradecer e lembrar de um outro dia passando ali de uma toalha bordada do gosto bom do beiju feito na hora
hei de conseguir contar mais tarde de uma tarde na Santa Casa e de como a lua cheia se deixava ver de repente por trás dos prédios dos ambulatórios e dos centros cirúrgicos do mesmo modo altaneiro como entre coqueiros muito distantes
como pessoas famílias inteiras horas e horas de espera uma transfusão de sangue uma fratura um tiro uma sessão de quimioterapia olhavam devem olhar ainda para a lua como se nunca caminhando até o ponto do ônibus e se despedem agradecidas de que haja a vida haja a noite e exista ainda o caminho da casa

te contar do meu desejo eu queria tanto
de uma vida enfim como essas vidas parecem ser
que seja completa em si mesma que possa se parecer com outras vidas
não como as que enxergamos ávidos pelo vidro dos carros entre os carros uma vida
o menino manco caminha no cruzamento os carros buzinam uma mulher bem vestida fala um palavrão horrível mas o menino não sabe não pode correr
o homem negro sobe a Teodoro Sampaio puxando a carroça de sucata o suor escorre por suas pernas tortas uma mais curta que a outra
o Esquadrão Resgate salva um motoqueiro enquanto o gordo no Audi reclama do atraso do trânsito da vida infernal dos estúpidos que se deixam atropelar enquanto escarra na avenida
na frente do IML as maritacas passam gritando cortando o céu de fora a fora
amanheceu de todo e em São Paulo um novo dia já vai longe
nos cemitérios todos as árvores estão floridas meu amor e eu não consigo mais te contar nenhuma outra história entre tantas que nunca consegui contar
tomo tuas mãos geladas nas minhas mãos toco cada um dos teus dedos pequenos infinitamente longe teus pequenos dedos
lá fora as maritacas gritam e gritam mas não ouves mais o som contínuo que essa cidade tem
um som que parece o mar de que gostavas tanto meu menino
enquanto eu aqui morta em vida para sempre
morta em vida para sempre olhando teu corpo tão coberto pelo frio

Nenhum comentário:

Postar um comentário