segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

viagem à Patagônia

a vida escorre por uma janela quadrada enquanto olhas para fora um novo mundo, um mundo onde não se vê ninguém, nenhuma luz, nenhuma casa, ninguém

escurece mas não é o escuro que conheces, há silencio e o navio desliza como em sonho mergulhando em outra vida que não a que conheces; em tudo um tempo sem tempo, uma ausência plena da qual não sabias a existência, uma não necessidade de horas, relógios, papéis, uma falta de desejos, um apenas estar agora aonde um desejo enorme e inexplicável te levou, a luta, tantos aeroportos, aviões, trajetos, sustos, medo de não conseguir...... mas conseguistes

e o que és então?

e o que mais desejas senão apenas estar ali naquela janela por onde escorre um mundo, um fim de mundo onde parece tudo começou

e és apenas uma mulher sentada à janela em tempo algum, agora, bebendo paisagens e se iluminando da poesia das coisas mais simples: do mar, do vento, das ondas que molham o vidro grosso, uma mulher que se espanta com a imensa e ainda pura beleza do mundo

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

silêncio

remo devagar sem fazer força nenhuma
o caiaque desliza em silêncio
os remos entrando com muita suavidade na água sem nenhum som
passo por lugares conhecidos que agora vejo de um outro lugar e o dia ainda nem amanheceu
esse lugar líquido e azul numa superfície que espelha ora o verde da mata ora as nuvens brancas escorrendo pelo ar

simplesmente passo
nem sinto o coração e a respiração se afunda em mim como se eu estivesse muito lentamente nascendo outra vez e outra e mais outra

sempre nascendo olho pasma o mundo incansável e belo sou um ser entre tantos na diversidade de todas as coisas vivas

passa uma borboleta voando baixo rente ao mar estou chegando a um grande costão rochoso pedras imensas grutas que o mar invade com estrondo
chego o mais perto delas que minha coragem permite
no alto céu azul passam carapirás com suas asas negras seus longos bicos de apanhar peixes em pleno mar

decididamente não consigo mais pensar quero ir cada vez mais longe sempre em frente rumo à imensidão de barcos distantes e navios levados pela névoa
navios abandonados no vento no ar em meio ao gelo nas regiões mais distantes e inexploradas

rede de cerco

mar de lago dia azul nenhum vento
saio remando para ir até a Praia Brava e tenho medo
medo porque desejo
medo de ter que voltar por medo de não conseguir

o tempo no mar é uma sensação
tenho uma sensação de quase hora inteira e ainda nem cheguei na metade do caminho...passei por três barcos pesqueiros e uma lancha
o espaço é enganoso como o tempo, o costão parece perto e remo e remo sem chegar

o costão bóia numa distância que não diminui embora passem os minutos um a um

aprendi a não olhar para trás olho esse lugar imaginado que fica depois do nada depois da rede de cerco que visitei tantas vezes bem depois muito mais que meia hora depois um lugar do desejo
desejo simples de chegar

e quando se vai assim ocorre perguntar pensar não esquecer que há que haver a volta há que se guardar forças para voltar mas chego
a praia está mansa nesse dia e parece perto vista na lonjura do mar na curva das pedras molhadas
sei há muita água ainda a percorrer
depois, um minuto após fico sabendo que não será hoje o dia de chegar lá pisar na areia tão intocada desembarcar tomar banho de cachoeira com medo das onças
mas haverá uma vez

mais além Ilha Bela em meio à luminosidade clara da manhã enorme e silenciosa

na volta o vento começa a soprar forte
o mar muda rápido e vagas maiores começam.....estou ainda no primeiro saco e serão três até a minha praia
sigo rente às rochas observando a floresta escura onde algum bicho grita
não há nenhum pensamento em mim que sobreviva a essa beleza quieta pasma de si mesma

paro de remar e deixo que o mar me leve
passo por cima do cerco e posso sentir os peixes nadando em círculos abaixo do meu corpo posso sentir com eles o medo da morte
há um certo medo de toda aquela vida da insana fartura do mar verde tão verde esse mar da cor da mata