Sol de chuva
Para
Rossini, meu pai
naquele
dia acordou na sua própria cama um pouco antes do amanhecer como sempre fizera
em toda a sua vida no céu ainda muitas estrelas e um azul profundo clareando
muito devagar
soube
que a hora era aquela porque o silêncio da cidade era ainda envolvente e terno
sabendo a coisas antes de nascer fatos que principiariam a existir logo pálidos
como qualquer aurora
ficou
imóvel mantendo os olhos fechados de pálpebras cerradas até ouvir o pio do
primeiro pássaro pouco depois o primeiro galo cantou
só
então teve certeza
estava vivo outra vez
era
uma certeza calada uma certeza de amanheceres entre lençóis mornos na penumbra
de quartos esquecidos da infância de pais dormindo do outro lado do corredor de
lamparina boiando em óleo numa luz pequena cálida para espantar todas as aflições
da noite
tinha
medo de abrir os olhos medo de registrar nas pupilas de seus olhos recém
abertos seu antigo quarto sua mulher deitada como sempre estivera ao seu lado
e foi
dessa maneira
pensando
bem devagar tomando consciência dos sons da casa um a um o relógio de pêndulo
da sala a geladeira barulhenta da cozinha do pássaro preto chamando o dia dos
ônibus que começaram a descer a ladeira da última casa em que morara com
rapidez e entre uma e outra buzina sentindo o perfume do roseiral debaixo da
janela do seu quarto mais antigo que teve certeza
voltara
não
deveria se levantar descer passo a passo as escadas e entrar na cozinha para
fazer seu primeiro café do dia
não
poderia fazer isso porque dessa maneira pensou tornaria a morrer como havia
morrido em tempo tornado por demais impreciso
assim
tornaria a cair no ladrilho frio sentindo um grande incômodo uma dor aguda e
sem volta tornaria a perder a respiração a sentir latejar as veias do pescoço
disparar o coração
depois
acordar cercado do vazio do hospital através dos tubos que impediam os lábios
tão secos de se umedecerem em si mesmos com sua própria saliva
cercado
pelas enfermeiras do dia da sua morte que o ouviram cantar
então
resolveu nada fazer ficaria ali deitado de lado na maciez dos lençóis com os
olhos bem fechados como se ainda dormisse
muito
longe algumas recordações imprecisas de um início de novembro chuvoso das
tempestades de final de tarde de seus amigos do clube da pesca uns mais outros
menos bêbados chorando seu enterro sua mulher chegando cercada dos filhos dos
netos pequenos assustados com a súbita existência da morte
sempre
inesperada
era
tranquilizador ouvir sua mulher ressonando ao seu lado quando o relógio da sala
deu as seis horas e ouviu o sino do leiteiro chamando a empregada na bruma da
manhã
mas
então já se encontrava em outra casa outro lugar anos atrás mais magro o cabelo
escuro curto
antes
mesmo de acordar em meio a um sonho confuso numa estrada movimentada ouviu o
vento nas mangueiras depois o galo índio chamando o dia
apurou
as narinas no deleite das recordações e era assim do lado de fora da janela de
onde vinha a claridade da manhã
quase
podia sentir o cheiro da uva amadurecendo lenta nas parreiras que seu pai havia
plantado quantas décadas atrás
estavam
ali e ele podia sentir no ar do quarto a presença das enormes roseiras que ele
mesmo cuidara por tantos anos provar outra vez seu inesquecível perfume
o
tempo havia recuado muito mais
era
milagroso sair pelas ruas orvalhadas andando rápido em meio à neblina fria
inacreditável chegar à padaria dar os bons dias como se ontem mesmo estivesse
estado ali fazendo a memória concretizar hora a hora esse dia nunca vivido mas
tão exatamente igual a outros sabendo mais ou menos o que faria a seguir mas
não tudo
estar
ali com seu cão que já havia ele também morrido há tanto tempo sorriu em
silêncio era mesmo uma vida danada de bonita quem poderia imaginar que uma
coisa dessas pudesse acontecer?
incrível voltar da morte sem poder contar sem
que se soubesse que aquilo estava acontecendo voltar para lugares e pessoas já
perdidos sem no entanto nada repetir da mesma e exata maneira de antes da outra
vez
comprar
o pão quente subir assobiando a ladeira da rua Antônio Gaiotto ouvir o apito do
trem chegando na velha estação envolta na neblina da manhã
quantos
anos teria como estariam seus filhos teria já seus filhos?
precisava
calcular tudo muito depressa pensou com um certo frio no estômago não seria
difícil saber em que ano estariam era só comprar o jornal
só
então percebeu que rapidamente se esquecia de sua antiga vida ou que vinha se
esquecendo conforme aqueles estranhos dias recomeçavam diferentemente do que
haviam sido em passado que cada vez mais se distanciava
constatou
também que os anos não se sucediam ou pelo menos os dias não se sucediam com a
devida rotina pareceu-lhe que havia saltos que de uma hora para outra havia um
filho nascendo sem que sua esposa estivesse ficado grávida pelo tempo
suficiente e outras particularidades assim como de repente entrar no próprio
quarto e olhar os cobertores na cama ou os vidros fechados coisa só acontecida
em inverno rigoroso e pensar começando a duvidar continuamente que dia seria
aquele que estação do ano de que ano seria aquela estação
com
esses pensamentos subia a rua e tudo nele era sobressalto e admiração era uma
revelação essa de que não tinha mais o passado vivido a guiá-lo nessa segunda
vida
de que
não se lembraria de nada
de que
as surpresas se sucederiam entremeadas de novas canções novos amigos paisagens
já esquecidas casas já demolidas onde tornava a entrar como se nada houvera a
habitar com seus pertences roupas gaiolas de passarinhos anzóis e redes de
pescar
então
parou em frente ao portão de entrada pintado de verde já um pouco envelhecido o
cachorro ao seu lado o pacote de pães aquecendo sua mão e o coração aos saltos
ao ouvir os passos de sua mulher caminhando em direção à porta
e ao
vê-la redonda em sua gravidez se perguntou quem estaria para vir mas no momento
mesmo da pergunta esta foi sendo esquecida lentamente relegada a um canto
qualquer de seu cérebro enquanto o ato de pensar se misturava ao seu olhar
sobre o orvalho nos bagos de uva nos tijolos limpos do corredor ao lado das
janelas cuja tinta também começava a desbotar
estava
novamente em Cerquilho
e não
se lembrava mais quantos tinham sido seus filhos nomes idades
teve
assim a certeza de que dali em diante tudo seguiria no ritmo natural das vidas
normais rumo a incertos futuros com fatos se intercalando com o mundo nunca
seguindo numa seqüência de dias e noites com o tempo dando saltos e voltas de
modo tão inexplicável como o amanhecer daquele dia inesquecível
se havia
voltado
se
essa era uma nova vida
se já
havia morrido uma vez
sorriu
uma
única sua vez
nem há
data para registrar a primeira das incontáveis vezes que se seguiram a outras
tantas quando percebi todo o verde intenso dos cafezais suas pequenas flores os
grãos verdes depois vermelhos do café as tardes longas de sol forte paradas de
terra vermelha sem nenhum vento
não
posso me recordar de todos os dias vividos nem de minha mãe cantando enquanto
estendia nos varais a roupa branca das camas tenho só imagens que se sentam ao
meu lado precisas e nítidas quase como se eu pudesse entrar nelas novamente
viver nelas para sempre
eu era
muito pequeno assim me lembro de pés sempre vermelhos do barro dos quintais por
onde passava correndo atrás de pipa perdida fugindo de vaca brava
mas
ainda assim ouço a flauta de meu pai que havia morrido logo que nasci ouço o
choro de minha irmã caçula deitada num cesto perto do fogão de lenha minha mãe
presa às suas costuras intermináveis
Batatais
era quieta e pequena nas manhãs de todos os anos em que lá vivi com suas ruas
gaiolas de passarinhos penduradas nas varandas das casinhas pequenas e mulheres
varrendo a calçada antes que o dia esquentasse
e
havia o colégio com suas alamedas floridas sua escadaria suas janelas altas seu
piso de madeira encerada seu caramanchão onde nos sentávamos cansados das
correrias da tarde no aguardo da noite que demorava muito a chegar enquanto a
cidade escurecia pequena desconhecendo o tamanho do mundo deliciando-se com
seus telhados vermelhos com o cheiro do ensopado no fogo e a polenta que
lentamente se preparava tarde afora com a bruma que vinha de longe do meio dos
matos já quase escuros como se tudo no mundo se resumisse a esse lugar a essa
cidade plantada sozinha no topo da terra
mas
agora não agora estou numa pequena vila num entardecer preciso de maio
sei
que é assim porque o calor já não castiga tanto e o mar tem uma cor diferente
de todas as outras conhecidas
sem
saber como cheguei e comigo a noite rápida rasteira enlouquecendo as fronteiras
entre céu e água inquieta por existir
fiquei
parado na areia os pés descalços frios em vida tão raros esses pés no chão e o
silêncio era pesado como uma caixa fechada que o ar carregasse mas o ar era
leve e era líquido porque nele as lembranças navegavam passando umas pelas
outras como folhas perdidas no meio de uma ventania ou peixes esmagando-se de
terror nas redes duras de sal e sol
e nas
lembranças passantes flutuantes eu via meu passado todo ali inteiro mas via
também o futuro que iluminava estradas percorridas casas vividas como que pela
primeira vez
como
na morada de lembranças que não eram minhas eu estava precisamente acordado
esperando que me chamassem que alguém chegasse pedindo com urgência
reconhecimento
eu o
bisavô falecido há tantas décadas todos os pés atolados no mundo real no mundo
objetivo das horas contadas no relógio enquanto o tempo outro corria em
cavernas escondidas nos rios ruidosos do meu próprio coração
não
era Fernando de Noronha que eu via era uma outra praia pequena numa vila de
casas e quintais cercada de serras de mares de morros
praia
tão única tão de mar revolto tão inteiramente selvagem com suas encostas verdes
refrescadas pela brisa
foi
aqui que me encontrei de repente entre o musgo criado nos cascos dos barcos nas
marolas dos fins de tarde sem sol nas marolas cansadas cheias de preguiça
aqui
me encontrei nas imensas frondosas pitangueiras nas mangueiras velhas que
depois das flores mais nada aqui entre ventos imprevistos e coisas assando no
forno entre chuvas no de repente das tardes quietas quando mais nada devo
esperar a não ser andar pelas esquinas olhar o olhar cansado do pescador em sua
pele crestada pelo sol que possui um cheiro impreciso de mar cheiro de antanho
cheiro perdido há tanto perfume nunca sentido porque morava junto no de muito
dentro que havia se tornado parte pétala transparência de ser só meu na minha
infância ensombrada nos dias perdidos de inesquecíveis horizontes que o sol
enfeitiçava dia após dia com estupores calores desaforados e vadios
quando
apenas te penso morto entre algas na solidão mais profunda das madrugadas
quando o mar geme em rochas longínquas quando te penso frio tão mais que esse
mar de inverno de quando escrevo a ti porque toda minha vida tem sido apenas
isso prender-me cada vez mais a ti conforme os anos e as distâncias vão nos
perdendo cada vez mais um do outro do que pudéramos talvez um dia ter sido
quando
te persigo te inventando em mim através das histórias que crio e conto te
querendo de novo mesmo calado mesmo trancado nos teus tantos segredos
se me
visses ainda bem pequena se pudesses quando os beija-flores se perduram no
bebedouro quando os bem te vis e as aranhas se arrastam entre as vigas do
telhado as lagartixas e as horas ficam pregadas no teto da varanda numa imobilidade
sangrenta e morna enquanto a ventania vai se aquietando enquanto as horas
prosseguem passo a passo como senhoras discretas
se me
visses no barco solto no meio dos temporais se pudesses sentir o vento alongar
o pôr do sol sentir a areia escorrendo entre os dedos fina devagar se pudesses
me ajudar a fechar as janelas um segundo antes das tremendas tempestades com
gosto de sal que o mar traz para depois correr ao vento encharcar-me ao tempo
desafiando o gosto das tormentas gritando para os trovões dançando para os
raios que despencam entre as ondas
se eu
te pudesse trazer de volta desses lugares aonde nunca mais te encontrarei
lugares escuros de perpétua névoa esgarçada fluída se quisesses voltar desse
poço mais fundo da saudade da morte mais espessa se eu pudesse
os
dias foram passando tão depressa
eles
se foram muito depressa enquanto nos pólos da terra o gelo derrete lento
despencando de alturas impensadas mais as ondas
e os
tubarões deslizam silenciosos solitários ignorando a própria morte em espaços
abissais
as
ondas rolavam umas escorregando sobre as outras erguendo-se redondas no ar
quieto como se também o ar fosse um ser infinitamente outro em si mesmo se
fossem muitos quase todos tudo
então
súbito parastes e era ali aonde o cheiro da pitanga morava nos vãos entre as
pedras antigas cheiro muito velho de dentro tingindo de roxo o fim da manhã e
entre os beija-flores e abelhas teus olhos como duas pessoas distintas
caminharam cautelosos entre os encaixes dos muros reinventado passo a passo o
instante o dia o traçado de cada coisa existente
mas eu
não podia te ver apenas sentir tua presença eu conseguia andando muito quieta
pelas ruas como se virasse lentamente apenas um risco uma linha transparente em
vielas sonolentas mas tentava no nada do ar na falta de textura das coisas ver
tuas mãos tocando a terra de um jardim imaginário teus pés andando com os meus
entre os ramos recém-nascidos do jasmim nos seus sapatos velhos sempre os
mesmos os sapatos folgados de couro que rangiam um pouco quase molhados da
última chuva teu vulto sem nenhuma vaidade como a terra
mas
uma terra sabida senhora de si mesma de seu peso sua tangível e absoluta
permanência
tua
presença ai como eu queria tua presença que essa ausência de anos vai
materializando como o pão sobre a mesa o cheiro do feijão as pequenas coisas
que trazias da feira e colocavas sobre a pia como o jiló e as folhas do
almeirão
nunca
estive tão junto de ti como hoje nessa praia nesse mundo nunca olhamos juntos a
primeira estrela nem vimos surgir iluminando o mar a lua crescente a espalhar
na noite seu brilho pequeno
pudesse
voltar atrás eu queria tanto um dia infindável uma luz depois outra se
acendendo e a bruma outonal que chegasse mansa envolvendo as coisas uma a uma
com mãos tão delicadas de fada chegando da mata profundíssima por fim a orla
iluminada como em pequenas lâmpadas firmes tremulando juntos em meio às folhas
do coqueiro riscando ríspidas o ar numa melodia sem sossego
porque
espantar a noite pedir mais uma vez porque perguntar se foi mesmo assim e tudo
que se passou ilumina minha vida pairando pela sala com o perfume das jacas que
se esborracharam no quintal de trás que se esborracham todos os dias nas ruelas
de pedra nas calçadas onde o musgo habita num perfeito silêncio
desliza
entre ossos pele músculos uma dor impossível quase insuportável do não vivido
do que não tem retorno do que nunca
e esse
nunca
enquanto
as crianças fazem estrelas nas dunas que o mar formou à espera da noite sem
saber do tempo do túnel que vai se fechando estreito numa noite após a outra e
sempre após numa seqüência inapelável de quilômetros
mais
tarde nessa mesma tarde o menino passou afogado com seus grandes olhos abertos afogado
pelas encostas onde os mariscos cresciam batidos e alimentados pelas ondas
passou
pelos corais resvalou na espuma das rochas pelas paisagens de mares de morros
muito verdes
sempre
muito afogado
como
nunca em sua vida agora navegava ao sabor do tempo e das marés enquanto na
praia o esperavam
passou
quieto frio repousado nos lençóis salgados como convém a um menino morto
despojado de todos os seus desejos
muito
quieto
eu
pensava nele seguindo seu destino como nunca havia antes pensado em nada
pensava como se pensa num filme antigo num romance lido muitos anos atrás e que
já virou um pedaço desse nosso ser gente que já se alojou parte que é do que
somos fomos seremos
mais
uma página que se vira súbita num de
repente do que já nem sei
era
minha aquela hora na noite plena meu plantão naquela guerra que eu nunca
entendi e o canhão seguidor enorme frio endurecia meus braços tensos pelo medo
da morte sua luz ofuscava a luz da lua
no céu
eram mais que milhões de estrelas cintilando em diferentes distâncias
eu
pensei nisso enquanto o canhão olhava o céu com seu olho enorme metálico e
vazio pensei que seria incapaz de matar alguém mesmo que fosse um inimigo e
sorri
o que
ou quem seriam os inimigos?
era um
silêncio tão imenso que eu podia ouvir o sonho dos pequenos animais sob a terra
os pios muito longe de corujas solitárias o respirar abafado dos golfinhos
e foi
nesse vazio que reconheci o ronco sinistro do motor
não
quis que fosse verdade fingi que amanhecia e fechei meus olhos a cabeça latejou
pesando sob o peso da responsabilidade do dever não cumprido da traição à
pátria à tudo que eu aprendera desde pequeno
mas eu
não podia matar era só isso
eu não
podia
o
seguidor iluminava enorme sua faixa redonda de céu à espreita
então
eu pensei o homem que ia dentro do avião e aquele homem desconhecido tão jovem
com certeza como eu mesmo era tremia no frio da possibilidade da morte eu podia
sentir sua respiração acelerando-se mais e mais com a visão de uma luz sua boca
seca de medo sua saliva amarga misturando o oxigênio do seu corpo ao ar de céus
desconhecidos quase sem conseguir respirar
o
homem desconhecido era o outro eu um eu que não teria futuro então pensei nos
olhos dele olhando o céu como eu ardidos de noite e neblina senti seus olhos
cansados de quase menino da sua saudade de casa da segurança entre quatro
paredes sua tristeza ali solto no ar sobrevoando um país inimigo
mais
ainda
enxerguei
através de seus olhos o canhão cá embaixo procurando o avião e senti seu
profundo intenso terror
quis
não ter ouvido pensado nada disso e depois muito devagar como numa dança que
nunca me foi ensinada fui iluminando o outro lado da ilha acordando os bichos
em suas tocas despertando pássaros e borboletas sem pensar deixando o ar correr
entre folhas e distâncias esquecendo-me do céu seus seres suas luzes a vida que
por lá circulava tão distante entre nuvens e imaginários abismos
ainda
hoje passados tantos anos abro os olhos e se a noite é alta posso ver todas as
estrelas então pressinto a luz pequena do avião posso ouvir a respiração
acelerada do homem que eu não matei posso sentir no escuro denso do quarto o
acelerar do seu próprio coração junto com o meu confinado ardente no meu peito
a espera de que só restasse em nós velando como a um filho morto para sempre o
vento morno de todas as manhãs não vividas de céu baixo pesado de chuva
depois
o mar da ilha trouxe dias de calmaria e desassossego e nas horas mais caladas um
cadáver solitário assomou na linha mais reta do horizonte
soube
que esse não era o homem que não conheci nem matei esses olhos que ainda
carrego no meu rosto recolheram a imagem esfacelada daqueles olhos apagados sem
poder ver o céu de um azul inenarrável a boca inchada da imensidão dos oceanos
a pedir um socorro que não viria jamais
era o
menino morto que o mar levara para devolver dias depois o que eu via e o fato
de não responder pela sua morte era triste porque naqueles olhos de há muito
deixara de existir qualquer esperança e isso era só o que eu podia ver
quando
o mar te trouxe menino fez-se em nós todos um barulho oco do que não tem volta
do que se partiu do não retorno que nada disso conhecíamos tão jovens largados
numa guerra interminável
o que
restou de ti foi mandado para o colo de quem te trouxe ao mundo assim imaginei
minha mãe recebendo meus sonhos destroçados chorando sobre meus olhos
distraídos de tudo sem poder afagar mãos onde o sangue duro se colara para
nunca mais onde cada um dos pequenos ossos iriam se descolando uns dos outros
tornando tudo irreconhecível
senti
falta de casa minha mãe de teus passos miúdos pelos corredores afora com teus
sapatos de salto baixo indo e vindo magra sem medo nenhum dos ruídos de fora
pensando em mim com uma saudade de bolos e festas não feitas de sucos não
servidos de doces aguardando minha volta em potes hermeticamente fechados no
armário da cozinha ao lado da pia de mármore sempre tão limpa
depois
lembrei da outra mãe do homem que não explodi nos ares em seus braços quentes
no aconchego do seu beijo na felicidade do seu sorriso imenso nas noites em que
se levantaria para ver tornar a ver registrar a hora boa de saber seu filho
dormindo entre lençóis que ela mesma secara ao sol de tantos dias nos quais
simplesmente esperara a volta dele numa desesperada certeza
e nos
dias subsequentes eu podia enxergar nas madrugadas sem sono fitando o mar
escuro com meus olhos secos as duas mães nas trajetórias tão diversas de suas
vidas e depois a minha que me esperava dia e noite tecendo colchas e mais
colchas de remendos coloridos e camisas para o dia da minha volta enviando
latas de leite condensado sementes de tomate alface almeirão para que seu filho
não ficasse sem comer daquilo que ela mesma prepararia para ele no seu retorno
todos
os lugares talvez sejam o mesmo e único lugar só hoje sei
ninguém
pode dizer que conhece um lugar se não viveu nele cada amanhecer anoitecer e entre esses dois momentos toda a
série de horas mortas longas vadias nas quais qualquer dia escorrega vazio
pouco
quase
nulo
ninguém
pode dizer que conhece um lugar se não prevê a hora em que as folhas secas
baterão na janela dançando nos ventos do outono se não viveu ali as noites
quentes do verão ouvindo o coração tremer pelo medo imenso do infinito
ninguém
se não
conheceu a morte violenta dos insetos batendo contra vidraças cerradas
esvoaçando em torno dos postes de luz para morrer na ardência plena da maior
claridade se não ouviu na tarde os ovos das mariposas estalando sob os troncos
podres
das árvores as minhocas deslizando nos vão escuros da terra
ninguém
pode
se não
viveu o inverno tombando súbito sobre os montes desfazendo-se em neblina sobre
as coisas todas do mundo que misturam terra e céu nem a primavera quando as
flores vão se abrindo entre os arbustos e os botões gemem nascendo como se
fossem os últimos se não ouviu a chuva quieta noite a dentro
nada
ninguém
porque
o outono estação entre todas as outras carrega em si ventos tristes tardes
tristonhas antigas nas quais os mortos interrompem nossa vida de viver a cada
dia com suas rotinas escuras interrogando o tempo e sua própria passagem
ninguém conhece ninguém que não tenha passado lá um outono prenhe de saudades
de todas as outras estações
e é
tudo como se fosse um prisma delicado do brilho fosco de horas incontáveis
horas que sabem que serão pouco mais que o escorrer dos pingos da chuva sobre a
areia cavando pequenas fossas miúdas redondas exatas
só
porque
sem
nenhuma explicação são lugares de todos os lugares são assim como se nada
existisse nenhum prá que nem porque a palidez da tarde deixando pontas de tédio
só ocorre no outono com suas nuvens grossas muito longe sem que se saiba aonde
em distâncias que se medem no cansaço em quilômetros azuis nos quais as
gaivotas se atiram à procura dos peixes distraídos na doçura de viver
e
quando o sol sai e a água se mostra transparente como tudo fica tão como não
somos como não seremos nunca com nossos pobres pensamentos atrelados a tantas
coisas pequenas uma atrás da outra depois da outra
e num
dia de maio impossível como esse de viver
porque
nele a beleza plena completa estala como um sino cansado de chamar alguém que
não virá nunca
um dia
assim de beleza insuportável onde tudo é tarde demais para tudo
tudo
muito tarde muito longe como uma tarde de outono intolerável
num
final de tarde róseo na areia encharcada morna ele caminhava menino ouvindo as
tatuíras correndo como loucas rumo ao mais fundo fugindo dos seus pés um após o
outro pesando fundos de mar
podia
ouvir no silêncio que espalhava suas teias os cardumes densos passando devagar
atentos ao pequeno movimento das águas transparentes
ao
menor
demorava
a noite demorada e uma vela crescia em tanta distância azul de céu e mar tão só
devia vir o homem que conduzia o barco
do
frio infinito de seus pensamentos ele pressentiu
depois
capturou por inteira a dor de existir dor diferente das outras dor que
misturava o rosa das poças de água salgada e um tempo suspenso no ar em torno
como
gaivotas na liberdade do azul
o
tempo boiando no vento umedecido pelo ar cada vez mais umedecendo tudo
como
gaivotas tatuíras muito misturadas nos mais longe possíveis nos muito longe do
mundo
e ele
não se lembrava que ano era aquele posto que os anos cada vez mais se pareciam
a ele na memória esvaziada das coisas mais supérfluas tentando se agarrar a um
só acontecimento que marcasse seu calendário de dentro
ano do
nascimento de Pedro ano em que meu pai se foi ano em que a geada matou o café
ainda em flor ano em que a onça fugiu do circo e deixou suas pegadas imensas na
lama do quintal ano em que minha mãe soube da própria morte e olhou o mundo
através de um vidro embaçado que nunca mais limpou
mas os
anos não queriam mais se deixar capturar iam se dando ao acaso com fastio no
tédio imenso de serem naturalmente sucessivos na infinita chatice de se
dirigirem mais e mais rumo a eternidades improváveis
e ele
não sabia que ano era aquele nem quem seria ele quantos anos teria em que
cidade estaria vivendo
como
na
escuridão da mata depois que o sol sumiu na montanha à direita os bichos correm
voam rastejam
sei da
existência deles sua existência escura sobretudo sem vê-los como ao meu coração
que em momentos assim é um pequeno ser trêmulo independente de mim
a quem
escuto viver
de há
muito pouco tempo comecei a ouvir meu próprio coração bater paro na fria
madrugada ouvindo seu som que cresce quanto maior o silêncio da cidade que
dorme ele nunca
então
penso em sua solidão imensa dentro do meu peito cuidando para que eu o escute
ainda esta noite ouça os pássaros que trazem a primavera e a luz a cada dia
mais cedo
e
depois após uma pausa longa em que o pensamento se aquieta em branco imagino
outros corações batendo à minha volta pela cidade inteira pelo mundo afora o
coração de todas as pessoas o coração do tigre solto na mata do lobo que uiva
chamando a companheira o coração dos peixes de todos os peixes de um imenso
cardume o coração das gaivotas que mergulham para pegar o coração dos peixes
que brilham intermináveis na transparência do mar seu derradeiro brilho sem
sorte
ao
final exausto percebo a respiração das plantas seu silêncio abismado a
respiração das anêmonas das maritacas que escondem sua cabeça em pescoços
aquecidos dos seres mais obscuros e pequenos
é
quando sinto que estou perdendo a razão que toda a vida que me envolve vai se
misturando ao que sou ou fui antes de morrer e nesse minuto quando acordo e me
sei novamente entre os vivos hora em que tudo é muito
a
pulsação do mundo a troca intensa inevitável entre minha respiração e a tua que
dorme calma ao meu lado o pulsar das lembranças de quem já não vejo há muito
mas que no entanto ainda existe
no
entanto cantam no silêncio seus corações em ritmos uns mais acelerados outros
menos uns batendo com mais vigor outros de insuspeitada leveza a lembrança das
suas vozes que nem precisam mais serem ditas para que eu as escute ficam em
alguma dimensão pressentida os dias que se sucedem e se sucedem os atos que se
repetem e repetem e então estás minha mãe ainda tão jovem escolhendo o feijão
com suas magras longas mãos que escorrem na mesa de mármore da cozinha enquanto
meu pai toca flauta na varanda apreciando o cair perfumado da noite em Batatais
assim
ele dizia a ti
Emília
como
me lembro de sua voz pausada grave desenhando formas na redondez sem fim do ar
aí vem
o cair da noite rega a horta antes que venha a chuva que a noite traz
porque
era assim que ele dizia mesmo que eu desconheça o som da sua voz
minhas
irmãs passeiam pela casa aflitas olham entre os batentes das portas sopram as
brasas do fogão espreitam a noite da porta da sala para ver se mais uma geada
virá depois saem comportadas e ligeiras para cobrir o café que seca nos terreiros
descansados sob estrelas
finalmente
trancam a porteira do curral
e eu
de
novo sem saber quando onde estou quantos anos tenho teria enquanto as formigas
invadem o açucareiro de quando eu era pequeno é preciso soprá-las e o vento
sacudia violento todas as janelas da casa
eu
olhando os raios riscando o céu encantado pela vidraça da copa que não fechava
nunca e os escorpiões nos frascos de vidro no alto da prateleira imersos em
formol vendo perto da cerca a sombra dos cavalos brilhando entre relâmpagos
macios pressentindo os galhos da primavera seus espinhos sua dança ressequida
no meio de um mundo cada vez mais escuro
esperando
a sopa de couve feijão do que tiver que ser atento ao mundo à primeira estrela
a pressentir qualquer futuro sem sequer precisar saber que existem futuros
enquanto
as ruas vão se calando mais e mais ensombradas nos túneis das mangueiras
enormes as mangas maduras achatando-se nas pedras do chão as mangas quase
prontas quase pendurando-se na ponta cada vez mais fina dos galhos prestes a
cair as mangas verdes as que ainda não nasceram as que nem nascerão as mangas
ainda na flor
um
insólito terror do tempo quando passando quando parecendo parado na imobilidade
absoluta de tardes sem nenhum vento onde nada se move
eu
morava num lugar feito de horizontes e cada casa se via em distâncias de pastos
e currais era assim que quando o anoitecer começava uma ou outra luz se acendia
pequena entre os bambus no meio do canavial à beira da estrada no fim dos
eucaliptos
da
varanda se podia ver muito longe e vultos passavam com suas enxadas e chapéus
desmanchando-se na névoa embrenhando-se em milharais dourados de sol enquanto
pela estrada poeirenta carroças voltavam puxadas por velhos cavalos cansados
depois
sumiam simplesmente desapareciam em pleno ar
desfaziam-se
no encanto da tarde
então
sabíamos que era hora de fechar todas as janelas antes que o lobisomem chegasse
com sua sombria cauda peluda e escura rondando a casa farejando as crianças
assustadas
fazia-se
como dizer uma espécie de imensa ausência depois que o sol se punha como se
tudo houvesse se dissolvido para sempre e tínhamos medo de olhar as janelas
envidraçadas embaçadas pelo leve frio que o sereno sempre trazia e por acaso
ver o que não era permitido o outro mundo
ficávamos
então pela cozinha cercando nossa mãe atarantada com o jantar
me
lembro que as paredes adquiriam nessa hora uma espessura maior para nós eram
mais largas e seguras as paredes que durante o dia não existiam e eu checava
disfarçado os fechos de cada uma das muitas janelas os trincos os cadeados e
trancas das portas pensava na grossura das madeiras na invencibilidade do aço
enquanto a água esfriava na banheira
era
como se
não
sei mas a escuridão lá de fora sabida mesmo se não vista tornava o mundo
assustador o ar difícil de ser respirado como se estivéssemos numa caverna sem
saídas enquanto pelas frestas das telhas nada se via
então
imaginávamos a vida noturna que habitava o imenso telhado e a tulha imersa na
escuridão suas teias de aranha enormes hirtas na ausência do vento à espreita
dos insetos que esvoaçavam em torno dos postes de fora
depois
aos poucos o terror se diluía quando passávamos a habitar a casa da noite como
se sempre fosse isso uma noite sem fim nossa enorme casa passava então a
existir na noite como parte dela separando apenas nós que estávamos dentro e o
resto que muito lentamente deixava de existir o pasto enorme os currais os
animais dentro deles as incontáveis árvores o enorme galinheiro a estrada
ondulante a mata de eucaliptos que nos era proibida assustadora em seus imensos
cipós em sua sombra eterna numa umidade perigosa
mas
nos verões nos esquecíamos do perigo e corríamos na faixa clara do de fora que
as janelas iluminavam nos verões a vida era tanta tão desmedida que nem o medo
nada éramos parte do escuro esgueirados atrás de cercas resvalando o corpo nos
espinhos rastejando entre tijolos gastos
e no
arame farpado gemendo baixinho a dor que era só nossa
porque
quando havia lua as silhuetas das grandes árvores não nos assustavam mais nem o
deslizar melífluo das cobras sempre presentes e invisíveis
estou
aqui correndo na grama macia escutando as conversas na cozinha mas não sei
quantos anos tenho e quem são os que conversam é como se eu me encontrasse num
entre num intermédio
num
espaço entre o que é real e o lembrado de algo que pode de repente se romper me
levando para longe para outra hora outro tempo outro lugar então ergo os olhos
e a lua cheia me espanta enquanto as mariposas traçam círculos suicidas em
volta da luz perto do tanque de lavar roupa inevitável recortar os contornos
retos dos telhados as esguias quinas das paredes contra o resto de luminosidade
que rapidamente se esvai
então
fico sabendo nesse momento exato a inquietude que é viver a possibilidade rente
inexorável sempre de um fim que escorre sem limites nem abismos
então
mesmo sabendo que na sala jogam bingo e a sopa se aquece em panelas de ferro um
leve tremor torna frio tudo que me cerca e toca
há um
hiato onde nada compreendo nada sei nada conheço um interminável momento que
gela qualquer coisa que se aproxime nem o vento mal o ar a pronta espreita
uma
escuridão asfixiante
mas
uma vez foi assim parei na rua marcada pelo sol entre a sombra e a extrema
claridade
estou
com as verduras na mão direita e a sacola de compras na outra
vizinhos
passam como se não me vissem e o dia escorre como sempre
assim
fico
sou
intermitente
pulso
não
consigo saber mais quase nada a não ser que estou numa rua numa ladeira que as
laranjeiras devem estar floridas em algum lugar pois seu perfume existe como
todo o resto como eu existo assim parado mergulhado em seu perfume que revivo
na memória
sou um
homem imerso na delicada flagrância dos laranjais preso na imobilidade do dia
que me ignora enquanto posso sentir a ininterrupta passagem do tempo
passa
entre músculos pele carne minha a sensação do nunca mais que o tempo traz nunca
mais laranjais montanhas semi-ocultas na neblina da noite nunca mais minha mãe
cantando na caída cálida do crepúsculo
é
assim nesse momento em que existo como uma planta um bicho que dorme um ser que
não pode escutar
corro
desabalado montado no cavalo mais veloz através dos veios de uma floresta sem
nenhum movimento não há vento nada apenas esse som que vem de cascos patas
terra pedregulhos e pó
a
tarde desmonta devagar sei do fogão de lenha aceso da fumaça do cheiro do milho
cozinhando lento na panela de ferro sei da espera em Nuporanga na praça da
igreja matriz onde os sinos da pequena escola ainda tocam espantando morcegos
atrasados para o contorno da lua
lua
fina que deve estar entre os galhos mais altos das árvores
nem a
primeira estrela
estou parado
meus olhos no correr de um veio d’água limpa por baixo dela a argila mole
pedras pequenas uma espécie de limo que apenas constato criança e gravo para
nunca mais esquecer
momento
de sol silêncio a água deslizando o verde claro do musgo uma goiaba que se
espatifa de repente traçando no dia um ponto uma pergunta por demais impossível
exausta mesmo de qualquer resposta
fico
ali escorrendo líquido na manhã acompanhando o ziguezague das lavadeiras em
torno do pequeno lago em que me debruço devagar fascinado de viver encantado
pelas sombras das folhas dançando na água que as carpas agitam
mudo
na transparência do ar
pequeno
eu era sou ainda sem saber de futuros vidas mares remotos do perigo de existir
preso num tempo que me pareceu naquela época sem fim
sem
saber que chegará um dia depois outro e mais além épocas nas quais a dor me
trespassará inteiro por inteiro pulsando engasgada no estreito vão do peito dia
virá em que não me lembrarei mais do olho d’água nem desse sol que o outono
traz com a delicadeza do frio
irei
assim vivendo como todos vivem quase sem perceber
passarei
noites de pânico quando o medo da morte suspenderá todo o ar amargará minha
boca fará falsear meu tonto coração
e
depois seguirei novamente em pé olhando aqui e ali procurando uma estrela ou
outra lembrando-me desse dia único portanto inesquecível que
como
posso dizer
embalei
a vida nas mãos
hora
das galinhas voarem para o alto das mangueiras hora de encanto quando o
mistério da noite se aproxima hora de luzes pequenas que vão se acendendo ao
muito longe quase nas fronteiras com lugares que nunca conhecerei horas maduras
de fogo cozinhando tudo bem devagar horas de se recolher diziam por aquelas
bandas de onde eu vim
então
eu me recolhia ao silêncio do em volta respirando fundo e devagar para que
nenhum ruído rompesse o encantamento o próximo passo um próximo momento que já
vinha caminhando muito devagar no rastro das pegadas de meu pai
estou
à varanda envidraçada sentado na janela ainda aberta e os sítios ao longe vão
se perdendo uns dos outros tornando-se cada um deles únicos e solitários
lugares com suas casas escuras
sou
menino ainda mas pareço me lembrar de um futuro que ainda não vivi luzes vozes
gritos me cercam na solidão do entardecer um ou outro rosto se desenha muito
perto e parte quando tento vê-lo melhor como um fiapo de sonho que em vão se
persegue sempre em vão enquanto o sonho se esconde com as primeiras luzes os
primeiros sons da casa
sou
gelado como se estivesse morto respiro o cheiro do capim respirando na garoa
que o escuro trouxe um instante sou tão simplesmente como isso que me envolve
um menino que já sabe
era um
dia de chuva muito forte e tudo acontecia assim como conto como se estivéssemos
vivendo dentro de um filme
as
flores apareceram de súbito eu disse enquanto esperávamos o trem
meu
pai disse para o ar de domingo a cada momento um pouco mais frio as flores
apareceram de súbito sim
depois
nos dissemos isso mesmo olhando pela janela a árvore amarela que não existia na
história da minha infância nem da dele
as
flores apareceram de súbito
dissemos
tudo sem palavras ditas em voz alta para não machucar o profundo silêncio da
tarde um pouco com tédio um pouco com medo de a noite chegar
tudo
rápido demais medo de me esquecer da tua morte e procurar-te pelos enormes
quartos no fundo do quintal entre as bananeiras abacateiros e pés de caqui
medo
de ter-te de novo mas não te reconhecer entre as mangueiras espiando mais uma
vez o céu para ver se há prenúncio de tempestade medo pequeno talvez apenas um
leve receio de constatar o breve fio da vida esticado por demais em meio ao
silêncio quase desesperado de cada uma das coisas de todas elas em sua
excessiva mudez
não te
sei de há muito os anos rolaram sem que fossem percebidos e temo ainda que
estejas por aí rindo seu riso maroto de quando eras jovem muito mais do que eu
mesma sou nesse mesmo instante
medo
pai de repetir coisas como
apenas
repetir
medo
de reconhecer nas flores súbitas subitamente aparecidas a precariedade da
existência o raso córrego da vida
como
tarde céu mar imenso cor de barro ventos incessantes noite a dentro no escuro
dos coqueirais
pavor
fino e prolongado que vai se estirando reto como a tarde reto fino repetido
intenso sentindo o tempo que passa todo o tempo e o futuro das coisas
acontecendo à volta toda as frutas que se apodrecerão o mato que crescerá
novamente os dias que se sucederão como todas as horas uma a uma vividas ou nem
percebidas no acaso que cerca a tudo em destinos pequenos passageiros em
rotinas sem nenhuma importância
como
desejar romper a seqüência dos anos qualquer seqüência que vá se repetindo ao
infinito ponto a ponto onda a onda brumas que se fazem e desfazem no horizonte
crespo do mar
mergulhar
quadro a quadro no anoitecer fotografá-lo sem cessar segundo a segundo para não
ter a sensação exata fluida e asfixiante do nada que um dia chegará de um nada
escuro sem sol de tudo que irá se desmanchando para nunca mais voltar a ser
não
dormir mais não desejar nenhuma outra vida depois dessa não querer mais saber o
que virá depois estacionar em meio ao fluir do mundo num para sempre de
histórias imemoriais nunca contadas
não
ser mais menino não caminhar mais para outro lugar outra vida outro futuro
nenhum outro
não
ter mais nenhuma lembrança para temer sua perda para temer seu desconhecimento
futuro para não saber mais
preciso então te
dizer
nunca mais ser
terra como a terra chuva como a chuva ser apenas mar enquanto a bruma caminha
com seus passos de estrela sobre o mundo
nem ser nada mais
só pensar gaivotas
sobrevoando a água que o vento eriça solta no ar nenhum tempo nenhum fim
apenas espaços
muito antigos espaços plenos de futuros prováveis sons redemoinhos furacões
e enquanto vagas
tuas tantas vidas para cá e para lá tentando entender o significado o sentido
da existência te escreverei quieta como andorinha sem bando como se o mundo
fosse só garoa numa tarde de nunca mais se acabar
o imenso silêncio
foi interrompido por um longo som de flauta doce
depois no ar da
tarde uma música começou muito de leve desenhando o ar parado eternizando o
tempo num sem fim novembro apenas se vestia de novas flores para o antes do
verão que quase chegava para as longas tardes em horizontes de todos os tons do
vermelho que logo mais logo se mostrariam faceiras
o tempo era esse
quando ele saltou ligeiro nos braços da parteira e em meio a tudo aquilo
esqueceu-se de vez das outras tantas todas vidas
agora era apenas o
começo do começo
o começo de todos
os começos
Sônia Machado de
Azevedo
outono de 2009
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