sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Sol de chuva

                                                                                            Para Rossini, meu pai

naquele dia acordou na sua própria cama um pouco antes do amanhecer como sempre fizera em toda a sua vida no céu ainda muitas estrelas e um azul profundo clareando muito devagar
soube que a hora era aquela porque o silêncio da cidade era ainda envolvente e terno sabendo a coisas antes de nascer fatos que principiariam a existir logo pálidos como qualquer aurora
ficou imóvel mantendo os olhos fechados de pálpebras cerradas até ouvir o pio do primeiro pássaro pouco depois o primeiro galo cantou

só então teve certeza
 estava vivo outra vez

era uma certeza calada uma certeza de amanheceres entre lençóis mornos na penumbra de quartos esquecidos da infância de pais dormindo do outro lado do corredor de lamparina boiando em óleo numa luz pequena cálida para espantar todas as aflições da noite

tinha medo de abrir os olhos medo de registrar nas pupilas de seus olhos recém abertos seu antigo quarto sua mulher deitada como sempre estivera ao seu lado
e foi dessa maneira
pensando bem devagar tomando consciência dos sons da casa um a um o relógio de pêndulo da sala a geladeira barulhenta da cozinha do pássaro preto chamando o dia dos ônibus que começaram a descer a ladeira da última casa em que morara com rapidez e entre uma e outra buzina sentindo o perfume do roseiral debaixo da janela do seu quarto mais antigo que teve certeza
voltara

não deveria se levantar descer passo a passo as escadas e entrar na cozinha para fazer seu primeiro café do dia
não poderia fazer isso porque dessa maneira pensou tornaria a morrer como havia morrido em tempo tornado por demais impreciso
assim tornaria a cair no ladrilho frio sentindo um grande incômodo uma dor aguda e sem volta tornaria a perder a respiração a sentir latejar as veias do pescoço disparar o coração
depois acordar cercado do vazio do hospital através dos tubos que impediam os lábios tão secos de se umedecerem em si mesmos com sua própria saliva
cercado pelas enfermeiras do dia da sua morte que o ouviram cantar

então resolveu nada fazer ficaria ali deitado de lado na maciez dos lençóis com os olhos bem fechados como se ainda dormisse
muito longe algumas recordações imprecisas de um início de novembro chuvoso das tempestades de final de tarde de seus amigos do clube da pesca uns mais outros menos bêbados chorando seu enterro sua mulher chegando cercada dos filhos dos netos pequenos assustados com a súbita existência da morte
sempre inesperada

era tranquilizador ouvir sua mulher ressonando ao seu lado quando o relógio da sala deu as seis horas e ouviu o sino do leiteiro chamando a empregada na bruma da manhã
mas então já se encontrava em outra casa outro lugar anos atrás mais magro o cabelo escuro curto
antes mesmo de acordar em meio a um sonho confuso numa estrada movimentada ouviu o vento nas mangueiras depois o galo índio chamando o dia
apurou as narinas no deleite das recordações e era assim do lado de fora da janela de onde vinha a claridade da manhã
quase podia sentir o cheiro da uva amadurecendo lenta nas parreiras que seu pai havia plantado quantas décadas atrás
estavam ali e ele podia sentir no ar do quarto a presença das enormes roseiras que ele mesmo cuidara por tantos anos provar outra vez seu inesquecível perfume

o tempo havia recuado muito mais

era milagroso sair pelas ruas orvalhadas andando rápido em meio à neblina fria inacreditável chegar à padaria dar os bons dias como se ontem mesmo estivesse estado ali fazendo a memória concretizar hora a hora esse dia nunca vivido mas tão exatamente igual a outros sabendo mais ou menos o que faria a seguir mas não tudo
estar ali com seu cão que já havia ele também morrido há tanto tempo sorriu em silêncio era mesmo uma vida danada de bonita quem poderia imaginar que uma coisa dessas pudesse acontecer?
 incrível voltar da morte sem poder contar sem que se soubesse que aquilo estava acontecendo voltar para lugares e pessoas já perdidos sem no entanto nada repetir da mesma e exata maneira de antes da outra vez
comprar o pão quente subir assobiando a ladeira da rua Antônio Gaiotto ouvir o apito do trem chegando na velha estação envolta na neblina da manhã

quantos anos teria como estariam seus filhos teria já seus filhos?

precisava calcular tudo muito depressa pensou com um certo frio no estômago não seria difícil saber em que ano estariam era só comprar o jornal
só então percebeu que rapidamente se esquecia de sua antiga vida ou que vinha se esquecendo conforme aqueles estranhos dias recomeçavam diferentemente do que haviam sido em passado que cada vez mais se distanciava
constatou também que os anos não se sucediam ou pelo menos os dias não se sucediam com a devida rotina pareceu-lhe que havia saltos que de uma hora para outra havia um filho nascendo sem que sua esposa estivesse ficado grávida pelo tempo suficiente e outras particularidades assim como de repente entrar no próprio quarto e olhar os cobertores na cama ou os vidros fechados coisa só acontecida em inverno rigoroso e pensar começando a duvidar continuamente que dia seria aquele que estação do ano de que ano seria aquela estação
com esses pensamentos subia a rua e tudo nele era sobressalto e admiração era uma revelação essa de que não tinha mais o passado vivido a guiá-lo nessa segunda vida
de que não se lembraria de nada
de que as surpresas se sucederiam entremeadas de novas canções novos amigos paisagens já esquecidas casas já demolidas onde tornava a entrar como se nada houvera a habitar com seus pertences roupas gaiolas de passarinhos anzóis e redes de pescar

então parou em frente ao portão de entrada pintado de verde já um pouco envelhecido o cachorro ao seu lado o pacote de pães aquecendo sua mão e o coração aos saltos ao ouvir os passos de sua mulher caminhando em direção à porta
e ao vê-la redonda em sua gravidez se perguntou quem estaria para vir mas no momento mesmo da pergunta esta foi sendo esquecida lentamente relegada a um canto qualquer de seu cérebro enquanto o ato de pensar se misturava ao seu olhar sobre o orvalho nos bagos de uva nos tijolos limpos do corredor ao lado das janelas cuja tinta também começava a desbotar
estava novamente em Cerquilho

e não se lembrava mais quantos tinham sido seus filhos nomes idades

teve assim a certeza de que dali em diante tudo seguiria no ritmo natural das vidas normais rumo a incertos futuros com fatos se intercalando com o mundo nunca seguindo numa seqüência de dias e noites com o tempo dando saltos e voltas de modo tão inexplicável como o amanhecer daquele dia inesquecível

se havia voltado
se essa era uma nova vida
se já havia morrido uma vez
sorriu
uma única sua vez

nem há data para registrar a primeira das incontáveis vezes que se seguiram a outras tantas quando percebi todo o verde intenso dos cafezais suas pequenas flores os grãos verdes depois vermelhos do café as tardes longas de sol forte paradas de terra vermelha sem nenhum vento
não posso me recordar de todos os dias vividos nem de minha mãe cantando enquanto estendia nos varais a roupa branca das camas tenho só imagens que se sentam ao meu lado precisas e nítidas quase como se eu pudesse entrar nelas novamente viver nelas para sempre
eu era muito pequeno assim me lembro de pés sempre vermelhos do barro dos quintais por onde passava correndo atrás de pipa perdida fugindo de vaca brava
mas ainda assim ouço a flauta de meu pai que havia morrido logo que nasci ouço o choro de minha irmã caçula deitada num cesto perto do fogão de lenha minha mãe presa às suas costuras intermináveis

Batatais era quieta e pequena nas manhãs de todos os anos em que lá vivi com suas ruas gaiolas de passarinhos penduradas nas varandas das casinhas pequenas e mulheres varrendo a calçada antes que o dia esquentasse
e havia o colégio com suas alamedas floridas sua escadaria suas janelas altas seu piso de madeira encerada seu caramanchão onde nos sentávamos cansados das correrias da tarde no aguardo da noite que demorava muito a chegar enquanto a cidade escurecia pequena desconhecendo o tamanho do mundo deliciando-se com seus telhados vermelhos com o cheiro do ensopado no fogo e a polenta que lentamente se preparava tarde afora com a bruma que vinha de longe do meio dos matos já quase escuros como se tudo no mundo se resumisse a esse lugar a essa cidade plantada sozinha no topo da terra

mas agora não agora estou numa pequena vila num entardecer preciso de maio

sei que é assim porque o calor já não castiga tanto e o mar tem uma cor diferente de todas as outras conhecidas
sem saber como cheguei e comigo a noite rápida rasteira enlouquecendo as fronteiras entre céu e água inquieta por existir

fiquei parado na areia os pés descalços frios em vida tão raros esses pés no chão e o silêncio era pesado como uma caixa fechada que o ar carregasse mas o ar era leve e era líquido porque nele as lembranças navegavam passando umas pelas outras como folhas perdidas no meio de uma ventania ou peixes esmagando-se de terror nas redes duras de sal e sol
e nas lembranças passantes flutuantes eu via meu passado todo ali inteiro mas via também o futuro que iluminava estradas percorridas casas vividas como que pela primeira vez

como na morada de lembranças que não eram minhas eu estava precisamente acordado esperando que me chamassem que alguém chegasse pedindo com urgência reconhecimento
eu o bisavô falecido há tantas décadas todos os pés atolados no mundo real no mundo objetivo das horas contadas no relógio enquanto o tempo outro corria em cavernas escondidas nos rios ruidosos do meu próprio coração
não era Fernando de Noronha que eu via era uma outra praia pequena numa vila de casas e quintais cercada de serras de mares de morros
praia tão única tão de mar revolto tão inteiramente selvagem com suas encostas verdes refrescadas pela brisa

foi aqui que me encontrei de repente entre o musgo criado nos cascos dos barcos nas marolas dos fins de tarde sem sol nas marolas cansadas cheias de preguiça
aqui me encontrei nas imensas frondosas pitangueiras nas mangueiras velhas que depois das flores mais nada aqui entre ventos imprevistos e coisas assando no forno entre chuvas no de repente das tardes quietas quando mais nada devo esperar a não ser andar pelas esquinas olhar o olhar cansado do pescador em sua pele crestada pelo sol que possui um cheiro impreciso de mar cheiro de antanho cheiro perdido há tanto perfume nunca sentido porque morava junto no de muito dentro que havia se tornado parte pétala transparência de ser só meu na minha infância ensombrada nos dias perdidos de inesquecíveis horizontes que o sol enfeitiçava dia após dia com estupores calores desaforados e vadios

quando apenas te penso morto entre algas na solidão mais profunda das madrugadas quando o mar geme em rochas longínquas quando te penso frio tão mais que esse mar de inverno de quando escrevo a ti porque toda minha vida tem sido apenas isso prender-me cada vez mais a ti conforme os anos e as distâncias vão nos perdendo cada vez mais um do outro do que pudéramos talvez um dia ter sido
quando te persigo te inventando em mim através das histórias que crio e conto te querendo de novo mesmo calado mesmo trancado nos teus tantos segredos
se me visses ainda bem pequena se pudesses quando os beija-flores se perduram no bebedouro quando os bem te vis e as aranhas se arrastam entre as vigas do telhado as lagartixas e as horas ficam pregadas no teto da varanda numa imobilidade sangrenta e morna enquanto a ventania vai se aquietando enquanto as horas prosseguem passo a passo como senhoras discretas
se me visses no barco solto no meio dos temporais se pudesses sentir o vento alongar o pôr do sol sentir a areia escorrendo entre os dedos fina devagar se pudesses me ajudar a fechar as janelas um segundo antes das tremendas tempestades com gosto de sal que o mar traz para depois correr ao vento encharcar-me ao tempo desafiando o gosto das tormentas gritando para os trovões dançando para os raios que despencam entre as ondas
se eu te pudesse trazer de volta desses lugares aonde nunca mais te encontrarei lugares escuros de perpétua névoa esgarçada fluída se quisesses voltar desse poço mais fundo da saudade da morte mais espessa se eu pudesse

os dias foram passando tão depressa
eles se foram muito depressa enquanto nos pólos da terra o gelo derrete lento despencando de alturas impensadas mais as ondas
e os tubarões deslizam silenciosos solitários ignorando a própria morte em espaços abissais

as ondas rolavam umas escorregando sobre as outras erguendo-se redondas no ar quieto como se também o ar fosse um ser infinitamente outro em si mesmo se fossem muitos quase todos tudo
então súbito parastes e era ali aonde o cheiro da pitanga morava nos vãos entre as pedras antigas cheiro muito velho de dentro tingindo de roxo o fim da manhã e entre os beija-flores e abelhas teus olhos como duas pessoas distintas caminharam cautelosos entre os encaixes dos muros reinventado passo a passo o instante o dia o traçado de cada coisa existente
mas eu não podia te ver apenas sentir tua presença eu conseguia andando muito quieta pelas ruas como se virasse lentamente apenas um risco uma linha transparente em vielas sonolentas mas tentava no nada do ar na falta de textura das coisas ver tuas mãos tocando a terra de um jardim imaginário teus pés andando com os meus entre os ramos recém-nascidos do jasmim nos seus sapatos velhos sempre os mesmos os sapatos folgados de couro que rangiam um pouco quase molhados da última chuva teu vulto sem nenhuma vaidade como a terra
mas uma terra sabida senhora de si mesma de seu peso sua tangível e absoluta permanência
tua presença ai como eu queria tua presença que essa ausência de anos vai materializando como o pão sobre a mesa o cheiro do feijão as pequenas coisas que trazias da feira e colocavas sobre a pia como o jiló e as folhas do almeirão
nunca estive tão junto de ti como hoje nessa praia nesse mundo nunca olhamos juntos a primeira estrela nem vimos surgir iluminando o mar a lua crescente a espalhar na noite seu brilho pequeno

pudesse voltar atrás eu queria tanto um dia infindável uma luz depois outra se acendendo e a bruma outonal que chegasse mansa envolvendo as coisas uma a uma com mãos tão delicadas de fada chegando da mata profundíssima por fim a orla iluminada como em pequenas lâmpadas firmes tremulando juntos em meio às folhas do coqueiro riscando ríspidas o ar numa melodia sem sossego

porque espantar a noite pedir mais uma vez porque perguntar se foi mesmo assim e tudo que se passou ilumina minha vida pairando pela sala com o perfume das jacas que se esborracharam no quintal de trás que se esborracham todos os dias nas ruelas de pedra nas calçadas onde o musgo habita num perfeito silêncio
desliza entre ossos pele músculos uma dor impossível quase insuportável do não vivido do que não tem retorno do que nunca
e esse nunca
enquanto as crianças fazem estrelas nas dunas que o mar formou à espera da noite sem saber do tempo do túnel que vai se fechando estreito numa noite após a outra e sempre após numa seqüência inapelável de quilômetros

mais tarde nessa mesma tarde o menino passou afogado com seus grandes olhos abertos afogado pelas encostas onde os mariscos cresciam batidos e alimentados pelas ondas
passou pelos corais resvalou na espuma das rochas pelas paisagens de mares de morros muito verdes
sempre muito afogado
como nunca em sua vida agora navegava ao sabor do tempo e das marés enquanto na praia o esperavam
passou quieto frio repousado nos lençóis salgados como convém a um menino morto despojado de todos os seus desejos
muito quieto
eu pensava nele seguindo seu destino como nunca havia antes pensado em nada pensava como se pensa num filme antigo num romance lido muitos anos atrás e que já virou um pedaço desse nosso ser gente que já se alojou parte que é do que somos fomos seremos

mais uma página que se vira súbita  num de repente do que já nem sei

era minha aquela hora na noite plena meu plantão naquela guerra que eu nunca entendi e o canhão seguidor enorme frio endurecia meus braços tensos pelo medo da morte sua luz ofuscava a luz da lua
no céu eram mais que milhões de estrelas cintilando em diferentes distâncias
eu pensei nisso enquanto o canhão olhava o céu com seu olho enorme metálico e vazio pensei que seria incapaz de matar alguém mesmo que fosse um inimigo e sorri
o que ou quem seriam os inimigos?
era um silêncio tão imenso que eu podia ouvir o sonho dos pequenos animais sob a terra os pios muito longe de corujas solitárias o respirar abafado dos golfinhos

e foi nesse vazio que reconheci o ronco sinistro do motor

não quis que fosse verdade fingi que amanhecia e fechei meus olhos a cabeça latejou pesando sob o peso da responsabilidade do dever não cumprido da traição à pátria à tudo que eu aprendera desde pequeno
mas eu não podia matar era só isso
eu não podia
o seguidor iluminava enorme sua faixa redonda de céu à espreita
então eu pensei o homem que ia dentro do avião e aquele homem desconhecido tão jovem com certeza como eu mesmo era tremia no frio da possibilidade da morte eu podia sentir sua respiração acelerando-se mais e mais com a visão de uma luz sua boca seca de medo sua saliva amarga misturando o oxigênio do seu corpo ao ar de céus desconhecidos quase sem conseguir respirar
o homem desconhecido era o outro eu um eu que não teria futuro então pensei nos olhos dele olhando o céu como eu ardidos de noite e neblina senti seus olhos cansados de quase menino da sua saudade de casa da segurança entre quatro paredes sua tristeza ali solto no ar sobrevoando um país inimigo
mais ainda
enxerguei através de seus olhos o canhão cá embaixo procurando o avião e senti seu profundo intenso terror

quis não ter ouvido pensado nada disso e depois muito devagar como numa dança que nunca me foi ensinada fui iluminando o outro lado da ilha acordando os bichos em suas tocas despertando pássaros e borboletas sem pensar deixando o ar correr entre folhas e distâncias esquecendo-me do céu seus seres suas luzes a vida que por lá circulava tão distante entre nuvens e imaginários abismos

ainda hoje passados tantos anos abro os olhos e se a noite é alta posso ver todas as estrelas então pressinto a luz pequena do avião posso ouvir a respiração acelerada do homem que eu não matei posso sentir no escuro denso do quarto o acelerar do seu próprio coração junto com o meu confinado ardente no meu peito a espera de que só restasse em nós velando como a um filho morto para sempre o vento morno de todas as manhãs não vividas de céu baixo pesado de chuva

depois o mar da ilha trouxe dias de calmaria e desassossego e nas horas mais caladas um cadáver solitário assomou na linha mais reta do horizonte
soube que esse não era o homem que não conheci nem matei esses olhos que ainda carrego no meu rosto recolheram a imagem esfacelada daqueles olhos apagados sem poder ver o céu de um azul inenarrável a boca inchada da imensidão dos oceanos a pedir um socorro que não viria jamais
era o menino morto que o mar levara para devolver dias depois o que eu via e o fato de não responder pela sua morte era triste porque naqueles olhos de há muito deixara de existir qualquer esperança e isso era só o que eu podia ver

quando o mar te trouxe menino fez-se em nós todos um barulho oco do que não tem volta do que se partiu do não retorno que nada disso conhecíamos tão jovens largados numa guerra interminável
o que restou de ti foi mandado para o colo de quem te trouxe ao mundo assim imaginei minha mãe recebendo meus sonhos destroçados chorando sobre meus olhos distraídos de tudo sem poder afagar mãos onde o sangue duro se colara para nunca mais onde cada um dos pequenos ossos iriam se descolando uns dos outros tornando tudo irreconhecível

senti falta de casa minha mãe de teus passos miúdos pelos corredores afora com teus sapatos de salto baixo indo e vindo magra sem medo nenhum dos ruídos de fora pensando em mim com uma saudade de bolos e festas não feitas de sucos não servidos de doces aguardando minha volta em potes hermeticamente fechados no armário da cozinha ao lado da pia de mármore sempre tão limpa
depois lembrei da outra mãe do homem que não explodi nos ares em seus braços quentes no aconchego do seu beijo na felicidade do seu sorriso imenso nas noites em que se levantaria para ver tornar a ver registrar a hora boa de saber seu filho dormindo entre lençóis que ela mesma secara ao sol de tantos dias nos quais simplesmente esperara a volta dele numa desesperada certeza
e nos dias subsequentes eu podia enxergar nas madrugadas sem sono fitando o mar escuro com meus olhos secos as duas mães nas trajetórias tão diversas de suas vidas e depois a minha que me esperava dia e noite tecendo colchas e mais colchas de remendos coloridos e camisas para o dia da minha volta enviando latas de leite condensado sementes de tomate alface almeirão para que seu filho não ficasse sem comer daquilo que ela mesma prepararia para ele no seu retorno

todos os lugares talvez sejam o mesmo e único lugar só hoje sei

ninguém pode dizer que conhece um lugar se não viveu nele cada amanhecer  anoitecer e entre esses dois momentos toda a série de horas mortas longas vadias nas quais qualquer dia escorrega vazio
pouco
quase nulo
ninguém pode dizer que conhece um lugar se não prevê a hora em que as folhas secas baterão na janela dançando nos ventos do outono se não viveu ali as noites quentes do verão ouvindo o coração tremer pelo medo imenso do infinito
ninguém
se não conheceu a morte violenta dos insetos batendo contra vidraças cerradas esvoaçando em torno dos postes de luz para morrer na ardência plena da maior claridade se não ouviu na tarde os ovos das mariposas estalando sob os troncos
podres das árvores as minhocas deslizando nos vão escuros da terra
ninguém pode
se não viveu o inverno tombando súbito sobre os montes desfazendo-se em neblina sobre as coisas todas do mundo que misturam terra e céu nem a primavera quando as flores vão se abrindo entre os arbustos e os botões gemem nascendo como se fossem os últimos se não ouviu a chuva quieta noite a dentro
nada ninguém
porque o outono estação entre todas as outras carrega em si ventos tristes tardes tristonhas antigas nas quais os mortos interrompem nossa vida de viver a cada dia com suas rotinas escuras interrogando o tempo e sua própria passagem ninguém conhece ninguém que não tenha passado lá um outono prenhe de saudades de todas as outras estações
e é tudo como se fosse um prisma delicado do brilho fosco de horas incontáveis horas que sabem que serão pouco mais que o escorrer dos pingos da chuva sobre a areia cavando pequenas fossas miúdas redondas exatas
só porque
sem nenhuma explicação são lugares de todos os lugares são assim como se nada existisse nenhum prá que nem porque a palidez da tarde deixando pontas de tédio só ocorre no outono com suas nuvens grossas muito longe sem que se saiba aonde em distâncias que se medem no cansaço em quilômetros azuis nos quais as gaivotas se atiram à procura dos peixes distraídos na doçura de viver
e quando o sol sai e a água se mostra transparente como tudo fica tão como não somos como não seremos nunca com nossos pobres pensamentos atrelados a tantas coisas pequenas uma atrás da outra depois da outra
e num dia de maio impossível como esse de viver
porque nele a beleza plena completa estala como um sino cansado de chamar alguém que não virá nunca
um dia assim de beleza insuportável onde tudo é tarde demais para tudo
tudo muito tarde muito longe como uma tarde de outono intolerável

num final de tarde róseo na areia encharcada morna ele caminhava menino ouvindo as tatuíras correndo como loucas rumo ao mais fundo fugindo dos seus pés um após o outro pesando fundos de mar
podia ouvir no silêncio que espalhava suas teias os cardumes densos passando devagar atentos ao pequeno movimento das águas transparentes
ao menor
demorava a noite demorada e uma vela crescia em tanta distância azul de céu e mar tão só devia vir o homem que conduzia o barco
do frio infinito de seus pensamentos ele pressentiu
depois capturou por inteira a dor de existir dor diferente das outras dor que misturava o rosa das poças de água salgada e um tempo suspenso no ar em torno
como gaivotas na liberdade do azul
o tempo boiando no vento umedecido pelo ar cada vez mais umedecendo tudo
como gaivotas tatuíras muito misturadas nos mais longe possíveis nos muito longe do mundo
e ele não se lembrava que ano era aquele posto que os anos cada vez mais se pareciam a ele na memória esvaziada das coisas mais supérfluas tentando se agarrar a um só acontecimento que marcasse seu calendário de dentro

ano do nascimento de Pedro ano em que meu pai se foi ano em que a geada matou o café ainda em flor ano em que a onça fugiu do circo e deixou suas pegadas imensas na lama do quintal ano em que minha mãe soube da própria morte e olhou o mundo através de um vidro embaçado que nunca mais limpou

mas os anos não queriam mais se deixar capturar iam se dando ao acaso com fastio no tédio imenso de serem naturalmente sucessivos na infinita chatice de se dirigirem mais e mais rumo a eternidades improváveis
e ele não sabia que ano era aquele nem quem seria ele quantos anos teria em que cidade estaria vivendo
como

na escuridão da mata depois que o sol sumiu na montanha à direita os bichos correm voam rastejam
sei da existência deles sua existência escura sobretudo sem vê-los como ao meu coração que em momentos assim é um pequeno ser trêmulo independente de mim
a quem escuto viver
de há muito pouco tempo comecei a ouvir meu próprio coração bater paro na fria madrugada ouvindo seu som que cresce quanto maior o silêncio da cidade que dorme ele nunca
então penso em sua solidão imensa dentro do meu peito cuidando para que eu o escute ainda esta noite ouça os pássaros que trazem a primavera e a luz a cada dia mais cedo
e depois após uma pausa longa em que o pensamento se aquieta em branco imagino outros corações batendo à minha volta pela cidade inteira pelo mundo afora o coração de todas as pessoas o coração do tigre solto na mata do lobo que uiva chamando a companheira o coração dos peixes de todos os peixes de um imenso cardume o coração das gaivotas que mergulham para pegar o coração dos peixes que brilham intermináveis na transparência do mar seu derradeiro brilho sem sorte
ao final exausto percebo a respiração das plantas seu silêncio abismado a respiração das anêmonas das maritacas que escondem sua cabeça em pescoços aquecidos dos seres mais obscuros e pequenos
é quando sinto que estou perdendo a razão que toda a vida que me envolve vai se misturando ao que sou ou fui antes de morrer e nesse minuto quando acordo e me sei novamente entre os vivos hora em que tudo é muito
a pulsação do mundo a troca intensa inevitável entre minha respiração e a tua que dorme calma ao meu lado o pulsar das lembranças de quem já não vejo há muito mas que no entanto ainda existe
no entanto cantam no silêncio seus corações em ritmos uns mais acelerados outros menos uns batendo com mais vigor outros de insuspeitada leveza a lembrança das suas vozes que nem precisam mais serem ditas para que eu as escute ficam em alguma dimensão pressentida os dias que se sucedem e se sucedem os atos que se repetem e repetem e então estás minha mãe ainda tão jovem escolhendo o feijão com suas magras longas mãos que escorrem na mesa de mármore da cozinha enquanto meu pai toca flauta na varanda apreciando o cair perfumado da noite em Batatais
assim ele dizia a ti
Emília
como me lembro de sua voz pausada grave desenhando formas na redondez sem fim do ar
aí vem o cair da noite rega a horta antes que venha a chuva que a noite traz
porque era assim que ele dizia mesmo que eu desconheça o som da sua voz
minhas irmãs passeiam pela casa aflitas olham entre os batentes das portas sopram as brasas do fogão espreitam a noite da porta da sala para ver se mais uma geada virá depois saem comportadas e ligeiras para cobrir o café que seca nos terreiros descansados sob estrelas
finalmente trancam a porteira do curral
e eu
de novo sem saber quando onde estou quantos anos tenho teria enquanto as formigas invadem o açucareiro de quando eu era pequeno é preciso soprá-las e o vento sacudia violento todas as janelas da casa
eu olhando os raios riscando o céu encantado pela vidraça da copa que não fechava nunca e os escorpiões nos frascos de vidro no alto da prateleira imersos em formol vendo perto da cerca a sombra dos cavalos brilhando entre relâmpagos macios pressentindo os galhos da primavera seus espinhos sua dança ressequida no meio de um mundo cada vez mais escuro
esperando a sopa de couve feijão do que tiver que ser atento ao mundo à primeira estrela a pressentir qualquer futuro sem sequer precisar saber que existem futuros
enquanto as ruas vão se calando mais e mais ensombradas nos túneis das mangueiras enormes as mangas maduras achatando-se nas pedras do chão as mangas quase prontas quase pendurando-se na ponta cada vez mais fina dos galhos prestes a cair as mangas verdes as que ainda não nasceram as que nem nascerão as mangas ainda na flor
um insólito terror do tempo quando passando quando parecendo parado na imobilidade absoluta de tardes sem nenhum vento onde nada se move

eu morava num lugar feito de horizontes e cada casa se via em distâncias de pastos e currais era assim que quando o anoitecer começava uma ou outra luz se acendia pequena entre os bambus no meio do canavial à beira da estrada no fim dos eucaliptos
da varanda se podia ver muito longe e vultos passavam com suas enxadas e chapéus desmanchando-se na névoa embrenhando-se em milharais dourados de sol enquanto pela estrada poeirenta carroças voltavam puxadas por velhos cavalos cansados
depois sumiam simplesmente desapareciam em pleno ar
desfaziam-se no encanto da tarde
então sabíamos que era hora de fechar todas as janelas antes que o lobisomem chegasse com sua sombria cauda peluda e escura rondando a casa farejando as crianças assustadas
fazia-se como dizer uma espécie de imensa ausência depois que o sol se punha como se tudo houvesse se dissolvido para sempre e tínhamos medo de olhar as janelas envidraçadas embaçadas pelo leve frio que o sereno sempre trazia e por acaso ver o que não era permitido o outro mundo
ficávamos então pela cozinha cercando nossa mãe atarantada com o jantar
me lembro que as paredes adquiriam nessa hora uma espessura maior para nós eram mais largas e seguras as paredes que durante o dia não existiam e eu checava disfarçado os fechos de cada uma das muitas janelas os trincos os cadeados e trancas das portas pensava na grossura das madeiras na invencibilidade do aço enquanto a água esfriava na banheira
era como se
não sei mas a escuridão lá de fora sabida mesmo se não vista tornava o mundo assustador o ar difícil de ser respirado como se estivéssemos numa caverna sem saídas enquanto pelas frestas das telhas nada se via
então imaginávamos a vida noturna que habitava o imenso telhado e a tulha imersa na escuridão suas teias de aranha enormes hirtas na ausência do vento à espreita dos insetos que esvoaçavam em torno dos postes de fora
depois aos poucos o terror se diluía quando passávamos a habitar a casa da noite como se sempre fosse isso uma noite sem fim nossa enorme casa passava então a existir na noite como parte dela separando apenas nós que estávamos dentro e o resto que muito lentamente deixava de existir o pasto enorme os currais os animais dentro deles as incontáveis árvores o enorme galinheiro a estrada ondulante a mata de eucaliptos que nos era proibida assustadora em seus imensos cipós em sua sombra eterna numa umidade perigosa

mas nos verões nos esquecíamos do perigo e corríamos na faixa clara do de fora que as janelas iluminavam nos verões a vida era tanta tão desmedida que nem o medo nada éramos parte do escuro esgueirados atrás de cercas resvalando o corpo nos espinhos rastejando entre tijolos gastos
e no arame farpado gemendo baixinho a dor que era só nossa
porque quando havia lua as silhuetas das grandes árvores não nos assustavam mais nem o deslizar melífluo das cobras sempre presentes e invisíveis

estou aqui correndo na grama macia escutando as conversas na cozinha mas não sei quantos anos tenho e quem são os que conversam é como se eu me encontrasse num entre num intermédio
num espaço entre o que é real e o lembrado de algo que pode de repente se romper me levando para longe para outra hora outro tempo outro lugar então ergo os olhos e a lua cheia me espanta enquanto as mariposas traçam círculos suicidas em volta da luz perto do tanque de lavar roupa inevitável recortar os contornos retos dos telhados as esguias quinas das paredes contra o resto de luminosidade que rapidamente se esvai
então fico sabendo nesse momento exato a inquietude que é viver a possibilidade rente inexorável sempre de um fim que escorre sem limites nem abismos
então mesmo sabendo que na sala jogam bingo e a sopa se aquece em panelas de ferro um leve tremor torna frio tudo que me cerca e toca
há um hiato onde nada compreendo nada sei nada conheço um interminável momento que gela qualquer coisa que se aproxime nem o vento mal o ar a pronta espreita
uma escuridão asfixiante

mas uma vez foi assim parei na rua marcada pelo sol entre a sombra e a extrema claridade
estou com as verduras na mão direita e a sacola de compras na outra
vizinhos passam como se não me vissem e o dia escorre como sempre
assim fico
sou intermitente
pulso
não consigo saber mais quase nada a não ser que estou numa rua numa ladeira que as laranjeiras devem estar floridas em algum lugar pois seu perfume existe como todo o resto como eu existo assim parado mergulhado em seu perfume que revivo na memória
sou um homem imerso na delicada flagrância dos laranjais preso na imobilidade do dia que me ignora enquanto posso sentir a ininterrupta passagem do tempo
passa entre músculos pele carne minha a sensação do nunca mais que o tempo traz nunca mais laranjais montanhas semi-ocultas na neblina da noite nunca mais minha mãe cantando na caída cálida do crepúsculo
é assim nesse momento em que existo como uma planta um bicho que dorme um ser que não pode escutar

corro desabalado montado no cavalo mais veloz através dos veios de uma floresta sem nenhum movimento não há vento nada apenas esse som que vem de cascos patas terra pedregulhos e pó
a tarde desmonta devagar sei do fogão de lenha aceso da fumaça do cheiro do milho cozinhando lento na panela de ferro sei da espera em Nuporanga na praça da igreja matriz onde os sinos da pequena escola ainda tocam espantando morcegos atrasados para o contorno da lua
lua fina que deve estar entre os galhos mais altos das árvores
nem a primeira estrela

estou parado meus olhos no correr de um veio d’água limpa por baixo dela a argila mole pedras pequenas uma espécie de limo que apenas constato criança e gravo para nunca mais esquecer
momento de sol silêncio a água deslizando o verde claro do musgo uma goiaba que se espatifa de repente traçando no dia um ponto uma pergunta por demais impossível exausta mesmo de qualquer resposta
fico ali escorrendo líquido na manhã acompanhando o ziguezague das lavadeiras em torno do pequeno lago em que me debruço devagar fascinado de viver encantado pelas sombras das folhas dançando na água que as carpas agitam
mudo na transparência do ar

pequeno eu era sou ainda sem saber de futuros vidas mares remotos do perigo de existir preso num tempo que me pareceu naquela época sem fim
sem saber que chegará um dia depois outro e mais além épocas nas quais a dor me trespassará inteiro por inteiro pulsando engasgada no estreito vão do peito dia virá em que não me lembrarei mais do olho d’água nem desse sol que o outono traz com a delicadeza do frio
irei assim vivendo como todos vivem quase sem perceber
passarei noites de pânico quando o medo da morte suspenderá todo o ar amargará minha boca fará falsear meu tonto coração
e depois seguirei novamente em pé olhando aqui e ali procurando uma estrela ou outra lembrando-me desse dia único portanto inesquecível que
como posso dizer
embalei a vida nas mãos

hora das galinhas voarem para o alto das mangueiras hora de encanto quando o mistério da noite se aproxima hora de luzes pequenas que vão se acendendo ao muito longe quase nas fronteiras com lugares que nunca conhecerei horas maduras de fogo cozinhando tudo bem devagar horas de se recolher diziam por aquelas bandas de onde eu vim

então eu me recolhia ao silêncio do em volta respirando fundo e devagar para que nenhum ruído rompesse o encantamento o próximo passo um próximo momento que já vinha caminhando muito devagar no rastro das pegadas de meu pai

estou à varanda envidraçada sentado na janela ainda aberta e os sítios ao longe vão se perdendo uns dos outros tornando-se cada um deles únicos e solitários lugares com suas casas escuras
sou menino ainda mas pareço me lembrar de um futuro que ainda não vivi luzes vozes gritos me cercam na solidão do entardecer um ou outro rosto se desenha muito perto e parte quando tento vê-lo melhor como um fiapo de sonho que em vão se persegue sempre em vão enquanto o sonho se esconde com as primeiras luzes os primeiros sons da casa
sou gelado como se estivesse morto respiro o cheiro do capim respirando na garoa que o escuro trouxe um instante sou tão simplesmente como isso que me envolve um menino que já sabe

era um dia de chuva muito forte e tudo acontecia assim como conto como se estivéssemos vivendo dentro de um filme

as flores apareceram de súbito eu disse enquanto esperávamos o trem

meu pai disse para o ar de domingo a cada momento um pouco mais frio as flores apareceram de súbito sim
depois nos dissemos isso mesmo olhando pela janela a árvore amarela que não existia na história da minha infância nem da dele
as flores apareceram de súbito
dissemos tudo sem palavras ditas em voz alta para não machucar o profundo silêncio da tarde um pouco com tédio um pouco com medo de a noite chegar

tudo rápido demais medo de me esquecer da tua morte e procurar-te pelos enormes quartos no fundo do quintal entre as bananeiras abacateiros e pés de caqui
medo de ter-te de novo mas não te reconhecer entre as mangueiras espiando mais uma vez o céu para ver se há prenúncio de tempestade medo pequeno talvez apenas um leve receio de constatar o breve fio da vida esticado por demais em meio ao silêncio quase desesperado de cada uma das coisas de todas elas em sua excessiva mudez
não te sei de há muito os anos rolaram sem que fossem percebidos e temo ainda que estejas por aí rindo seu riso maroto de quando eras jovem muito mais do que eu mesma sou nesse mesmo instante
medo pai de repetir coisas como

apenas repetir

medo de reconhecer nas flores súbitas subitamente aparecidas a precariedade da existência o raso córrego da vida
como tarde céu mar imenso cor de barro ventos incessantes noite a dentro no escuro dos coqueirais
pavor fino e prolongado que vai se estirando reto como a tarde reto fino repetido intenso sentindo o tempo que passa todo o tempo e o futuro das coisas acontecendo à volta toda as frutas que se apodrecerão o mato que crescerá novamente os dias que se sucederão como todas as horas uma a uma vividas ou nem percebidas no acaso que cerca a tudo em destinos pequenos passageiros em rotinas sem nenhuma importância
como desejar romper a seqüência dos anos qualquer seqüência que vá se repetindo ao infinito ponto a ponto onda a onda brumas que se fazem e desfazem no horizonte crespo do mar
mergulhar quadro a quadro no anoitecer fotografá-lo sem cessar segundo a segundo para não ter a sensação exata fluida e asfixiante do nada que um dia chegará de um nada escuro sem sol de tudo que irá se desmanchando para nunca mais voltar a ser

não dormir mais não desejar nenhuma outra vida depois dessa não querer mais saber o que virá depois estacionar em meio ao fluir do mundo num para sempre de histórias imemoriais nunca contadas
não ser mais menino não caminhar mais para outro lugar outra vida outro futuro nenhum outro
não ter mais nenhuma lembrança para temer sua perda para temer seu desconhecimento futuro para não saber mais

preciso então te dizer
nunca mais ser terra como a terra chuva como a chuva ser apenas mar enquanto a bruma caminha com seus passos de estrela sobre o mundo
nem ser nada mais
só pensar gaivotas sobrevoando a água que o vento eriça solta no ar nenhum tempo nenhum fim
apenas espaços muito antigos espaços plenos de futuros prováveis sons redemoinhos furacões

e enquanto vagas tuas tantas vidas para cá e para lá tentando entender o significado o sentido da existência te escreverei quieta como andorinha sem bando como se o mundo fosse só garoa numa tarde de nunca mais se acabar

o imenso silêncio foi interrompido por um longo som de flauta doce
depois no ar da tarde uma música começou muito de leve desenhando o ar parado eternizando o tempo num sem fim novembro apenas se vestia de novas flores para o antes do verão que quase chegava para as longas tardes em horizontes de todos os tons do vermelho que logo mais logo se mostrariam faceiras
o tempo era esse quando ele saltou ligeiro nos braços da parteira e em meio a tudo aquilo esqueceu-se de vez das outras tantas todas vidas
agora era apenas o começo do começo
o começo de todos os começos

Sônia Machado de Azevedo

outono de 2009

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