sexta-feira, 9 de outubro de 2015

no coração do mundo

No coração do mundo

De há muito pouco tempo comecei a ouvir meu próprio coração bater; paro na fria madrugada ouvindo seu som que cresce quanto maior o silêncio da cidade que dorme.
Ele nunca para.
Então penso em sua solidão imensa dentro do meu peito cuidando para que eu o escute e ainda esta noite ouça os pássaros que trazem a primavera e a luz a cada dia mais cedo.
E depois, após uma pausa longa em que o pensamento se aquieta em branco imagino outros corações batendo à minha volta, pela cidade inteira, pelo mundo afora, o coração de todas as pessoas o coração do tigre solto na mata, do lobo que uiva chamando a companheira, o coração dos peixes, de todos os peixes de um imenso cardume, o coração das gaivotas que mergulham para pegar o coração dos peixes que brilham intermináveis na transparência do mar seu derradeiro brilho sem sorte.
Ao final exausto percebo a respiração das plantas, seu silêncio abismado, a respiração das anêmonas, das maritacas que escondem sua cabeça em pescoços aquecidos, escuto até mesmo a respiração dos seres mais obscuros e pequenos, aqueles invisíveis.

Cantam no silêncio todos os corações do mundo em ritmos uns mais acelerados outros menos, uns batendo com mais vigor outros de insuspeitada leveza, ficam em alguma dimensão pressentida do espaço os dias que se sucedem e se sucedem, se repetem e se repetem num tempo que parece não ter fim.

Nenhum comentário:

Postar um comentário