No coração do mundo
De há muito pouco tempo
comecei a ouvir meu próprio coração bater; paro na fria madrugada ouvindo seu
som que cresce quanto maior o silêncio da cidade que dorme.
Ele nunca para.
Então penso em sua solidão
imensa dentro do meu peito cuidando para que eu o escute e ainda esta noite
ouça os pássaros que trazem a primavera e a luz a cada dia mais cedo.
E depois, após uma pausa
longa em que o pensamento se aquieta em branco imagino outros corações batendo
à minha volta, pela cidade inteira, pelo mundo afora, o coração de todas as
pessoas o coração do tigre solto na mata, do lobo que uiva chamando a
companheira, o coração dos peixes, de todos os peixes de um imenso cardume, o
coração das gaivotas que mergulham para pegar o coração dos peixes que brilham
intermináveis na transparência do mar seu derradeiro brilho sem sorte.
Ao final exausto percebo a
respiração das plantas, seu silêncio abismado, a respiração das anêmonas, das
maritacas que escondem sua cabeça em pescoços aquecidos, escuto até mesmo a
respiração dos seres mais obscuros e pequenos, aqueles invisíveis.
Cantam no silêncio todos os
corações do mundo em ritmos uns mais acelerados outros menos, uns batendo com
mais vigor outros de insuspeitada leveza, ficam em alguma dimensão pressentida
do espaço os dias que se sucedem e se sucedem, se repetem e se repetem num
tempo que parece não ter fim.
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