sábado, 22 de outubro de 2016

A trajetória de Pedro



 Escrevi esse pequeno texto durante as rebeliões da febem em 1999; foi montado algumas vezes por grupos amadores e eu gosto demais dele. É uma trajetória simples de um adolescente que não teve chance.








A TRAJETÓRIA DE PEDRO




Sônia de Azevedo










A trajetória de Pedro
Introdução explicativa

O texto pretende mostrar momentos da vida de um certo menino chamado Pedro, de 17 anos .
A ação se passa no Brasil, época atual.

O texto não pretende ser realista ( embora possa vir a sê-lo em determinados instantes) e é composto de momentos que tentam falar dessa nossa personagem central, para que possamos, através de sua trajetória de vida, refletir sobre problemas que dizem respeito a cada um de nós, de uma forma ou de outra .

O texto busca levar a uma reflexão, não exatamente sobre o problema dos entorpecentes e seu tráfico, nem sobre a marginalidade ou violência atuais, mas sobre nós mesmos, pais, mães e filhos de todas as classes, cidadãos comuns desse país . O que é que nós estamos fazendo em relação a isso ou deixando de fazer?

O que podemos fazer para fugir à escravidão decorrente do uso das mais diversas drogas ? Como escapar da solidão e da falta de perspectiva, da falta de solidariedade e de afeto ? Como enfrentar o desemprego e o desamparo dele decorrente? Como conviver com uma realidade que se mostra cada vez mais dura e difícil ?

Qual é afinal a parte que nos cabe assumir nesse problema tão complexo e vital ?


Como podemos estar fortes e criar filhos fortes que possam reconhecer o espaço de sua liberdade, aprendendo a viver " limpos ", aprendendo a exercer com dignidade seu direito à escolha, às muitas escolhas que a vida oferece, como aprender a dizer "não "?

O álcool e a nicotina, drogas lícitas, e as drogas ilícitas, especialmente a maconha, a cocaína e o crack ,são, hoje em dia , de fácil acesso para crianças e adolescentes .
Apesar da proibição de venda das duas primeiras para menores e da ilegalidade de todas as outras, sabemos que seu consumo pelo usuário começa muitas vezes na própria infância ou pré - adolescência . Ou seja, começa muito antes de haver, por parte desse consumidor desprotegido , qualquer poder de escolha ou força para dizer não.

Além disso, as drogas estão cada vez mais fortes, mais sedutoras, mais baratas.
E a vida dos meninos e meninas mais difícil nesse final de século, mais vazia.
Há os que se viciam e adoecem.

E nessa doença que não é vista ainda como tal, porque não é tratada desse modo pela sociedade, todos adoecem.
Adoecem os dependentes, suas famílias, seus vizinhos.
Adoece uma cidade.
Adoece um país.

A quem isso interessa?



A trajetória de Pedro

personagens:

Pai
Mãe
Pedro
Maria
Professora
Psiquiatra
Psicóloga
Vítima
Jovens



Momento 1.

                                              Mãe ( na boca de cena ) _ Eram quatrocentos e estavam nus naquele pátio imundo, todos com as mãos postas na cabeça. Durante toda a minha vida, por mais que eu viva essa vida infeliz , eu não vou poder me esquecer: eram quatrocentos e estavam nus.
                                    Como é que eu podia, olhando todos eles , encontrar o meu filho?
                                            E como é que eu não podia reconhecer o meu filho ali no meio dos outros?
                                            Eu fiquei olhando e depois já não podia ver mais nada , eram todos, pareciam todos tão pequenos , todos pareciam com ele , indefesos ali, nus, deitados no chão imundo.
                                            E como, meu Deus , como é que eu não reconhecia o meu filho no meio de todos aqueles meninos deitados?

                                            Não são meninos, me disseram, são menores infratores. Podem acabar com a minha vida , com a sua, são bandidos perigosos.
                                            Mas prá mim não eram , eram meninos deitados no chão .

                                            São drogados, me disseram, traficantes, vagabundos, viciados.
                                             Mas prá mim não eram , não eram não , eram apenas meninos sem mãe .

corte : gritos de jovens , barulho de grades que vêm abaixo e de coisas que se quebram.



Momento 2

Mãe ( continuando ) _Faz dias que ele não aparece. Prá te falar a verdade hoje já faz uma semana. Mas não conta prá ninguém ...ele é um menino tão bom, de coração tão grande, o que estraga ele.... você sabe. (para a platéia ) Com dez anos ele fumou maconha pela primeira vez, e eu só soube disso muito tempo depois, mas foi ele mesmo que me contou. E me disse assim: fica tranquila mãe que é só de vez em quando, só de vez em quando .E eu acreditei. Olhando prá trás hoje eu sei, foi apenas o começo , depois disso veio a cocaína , quando ele tinha dinheiro , e depois o maldito do crack que ele começou a fumar porque era barato. Então o dinheiro que eu dava prá ele pro lanche virava veneno, como é que eu ia adivinhar? E isso ele ainda estava no ginásio.
                                  Eu bem que achei esquisito , ele passou a ficar violento de vez em quando.Ficava irritado à toa. Mas o pai achou que eram coisas da adolescência.E eu não achei nada . Foi aí que eu errei , não foi?
                                  Porque desde que isso tudo aconteceu eu não paro de tentar entender aonde foi que eu errei.

corte: gritos de homem e barulho de copos quebrados.

     

 

 

Momento 3


Pai (bêbado)_Porra , será que nessa casa não tem nada no lugar? Mulher, cadê você sua vagabunda , será que já foi dormir? Mulher vem cá me servir , eu quero um prato quente que sou eu que ponho a merda da comida na mesa dessa casa!

Pedro (entra esfregando os olhos de sono ) _ Pai a mãe tá dormindo, ela tava tão cansada quando chegou. (reparando melhor)_ Pai, você bebeu de novo? Ô pai porque que você bebe tanto?

Pai ( furioso ) _ Cala a boca seu puto que eu te cubro de porrada. (avança para o filho tentando bater e no caminho cai estatelado no chão.)

A luz recorta a figura do filho debruçado por sobre o corpo do pai caído no chão tentando ajudar.

corte :um assobio distante e repetido, monotonamente se repetindo no ar.

Momento 4

Psiquiatra               _Ele chegou aqui machucado, não sei se havia apanhado de alguém ; a mãe , que veio com ele , só chorava e não conseguiu me dizer nada. O menino aparentava uns 13 anos                                                                                       e tinha os                                                                                              olhos injetados . Mesmo antes de qualquer exame percebi que ele estava bem dopado. Uma mistura de duas ou três drogas talvez. Mas depois disso foram embora e só o vi muitos anos depois já em estado ainda mais lastimável.
                                       Lembro-me que na época a mãe andou procurando um lugar para interná-lo, sem muito sucesso. No nosso trabalho vivenciamos nessas situações uma enorme frustração:  pouco podemos ajudar. Quando esses meninos vêm até nós já estão dependentes e precisariam de um apoio intensivo nosso e mais ainda da família. Um apoio incondicional e em tempo integral.
                                      Mas isso quem é que pode oferecer hoje em dia?

corte _ buzinas frenéticas, sirenes de ambulância, de carros de bombeiro e de carros de polícia.



Momento 5

Maria e Pedro ( sentados na boca de cena olham fundo um nos olhos do outro )

Pedro ( para Maria )_ Meu, nem pensá, precisa tirá mina, eu te disse que era prá se cuidá. Pô, isso nem pensá, nem brinca com essas coisas , tá ligada?

Maria ( para Pedro )_ Cê tá maluco cara? Como é que eu vou fazer? Isso de tirá filho custa dinheiro, tá ligado ? E eu não tenho nada. E tem mais, se meu pai sabe me mata meu, ele me mata!

Pedro ( olhando prá frente ) _ Grana, é, é ela que dá o recado falô, ela que diz tudo, o que a gente é, o que a gente não é, o que a gente pode ser. ( sonhador ) Se eu tivesse grana, mina , deixava aí o menino nascê que era mais um prá torcida do Coríntians, mas assim, prá vivê na merda feito o pai e a mãe, feito eu e tu, não. Não, tá falado tudo já, tu tira o bichinho daí, te vira que eu já tô ferrado demais prá poder te ajudá.

Maria ( suspirando apaixonada) _ Mas que havia de sê bonitinho o danadinho, filho de um sem vergonha feito tu, isso havia de sê. Ia tê esse teu jeito canalha , esses teus olhos que me deixam assim feito boba.

                               Pedro ( constrangido ) _ Mas a gente já resolveu, não tem bichinho nenhum e pronto. Tu tira e acabou.

Maria ( triste ) _ Mas e a grana Pedro? Isso de tirá filho custa dinheiro.

Pedro (muito bravo ) _ Sempre isso, meu, sempre isso. Não tem grana prá nada, não tem grana prá deixar ele nascê, não tem grana prá tirá êle daí. Te vira Maria, te vira.

corte: sinal tocando para o início das aulas, vozerio de crianças chegando.

Momento 6

Professora ( incomodada com o assunto ) _Em pequeno ele era um dos nossos melhores alunos, mas começou a faltar bastante no 2º grau. São muitos os alunos por classe e a meninada falta mesmo hoje em dia. A gente avisou a família, a mãe dele trabalha demais, sustenta a casa coitada, que o pai de tanto beber perdeu o emprego e, com o tempo bebia da manhã até a noite, ficava largado pelas ruas, Isso o menino mesmo me contou um dia. Sabe, a mãe dele é muito esforçada, não queria que os filhos trabalhassem para poder estudar e ser alguém nessa vida. Sendo assim ela não tinha hora prá vir conversar aqui na escola. E nós também, a nossa                                                                                                                                                 vida não é fácil, temos nossos horários, muitos de nós trabalham em vários lugares ao mesmo tempo para sobreviver.
                                      É isso, quando soubemos que ele estava envolvido com tráfico acho que foi tarde demais . Ele me disse uma vez qualquer coisa que estava jurado de morte, imagine um menino como ele jurado de morte! Mas isso foi entre uma                                                                                                                aula e outra, no corredor, e eu nem pude perguntar muita coisa.
Depois não o vimos mais.
Ele está bem ?

corte : ouve-se um tiroteio e carros em alta velocidade.

Momento 7

Maria (assustada ) _ É sempre assim a minha vida, quando eu escuto tiro penso nele, penso se ele conseguiu fugir ou se tá por aí caído num lago de sangue. E então já não posso mais dormir. E toda noite eu escuto tiro, pelo menos um tiro eu escuto toda noite, e então não durmo esperando a notícia ruim chegá.
Porque um dia o tiro vai sê prá ele, isso eu sei e ele já me avisou. Mas eu rezo sempre que ele possa ficar vivo até o filho dele nascê que eu quero vê aquela cara de mau fazê bico prá chorá.
E faz muito tempo que eu não sei nada dele.
Será que ele tá bem? Será que ele já morreu e eu não sei?

Psicóloga ( um pouco aborrecida )_ Ele me contou que ia ser pai. Daquele jeito que ele falava, numa gíria que acho ,( sorri ) nem ele mesmo parecia entender. E eu notei nos olhos dele orgulho e também muita bondade. Ele se preocupava com a namorada e com o filho; ele se preocupava em não ser um homem decente de quem o filho pudesse se orgulhar. Não, não falo só como psicóloga, falo também como mulher acostumada a observar o comportamento humano, a tentar entender a alma humana....... E eu também tenho filhos.
Não posso dizer que Pedro fosse mau. Poderia ser tudo esse jovem, mas nele a maldade não existia. Pelo menos essa maldade que se imagina existir num criminoso.

Momento 8

Pedro ( sentado numa cadeira no meio da cena. ; de costas para a platéia estão os outros personagens que olham para ele.)_ Meu nome é Pedro e eu uso de tudo e já me disseram que eu sou um dependente. A vida que eu vivo não é vida.
Mas hoje, falô, faz 24 horas que eu tô limpo. Nem acredito cara que eu tô conseguindo ficá limpo todo esse tempão.
A minha vida fica podre com a droga mano, pode crê. Eu topo tudo erva, pó, pedra, pico. E então depois eu sento num boteco e tomo uma cerva. Quando dá tempo eu corro pro banheiro e vomito, quando num dá é ali mesmo cara.
                               Tem hora que eu quero morrer. Quero morrer de verdade mano. Mas isso também passa. E eu entro de novo na fissura.
Eu tô tentando largá isso tudo aí. Mas é difícil demais e eu não sei se eu vô conseguir . Por isso que eu venho aqui. Faz 24 horas que eu tô limpo cara. É isso ai, 24 horas limpo! ( levanta-se )

Psiquiatra: _ Vejam bem, para mim que sou médico ,ele é um doente que precisa de cuidados . É um dependente de drogas que precisa ser assistido. Por isso insisto que ele possa ficar respondendo ao crime que cometeu em clínica especializada onde possa ser realmente tratado. Não questiono o fato de que precisa ficar retido .Isso é da alçada da justiça. O que eu digo é que ele precisa ficar longe das drogas das quais depende. Nesse momento é disso que ele precisa.

Professora: _ Volto a dizer, ele era um menino como os outros, com um pai alcoólatra que, às vezes batia na mãe e nas crianças . Pedro era um bom menino que se preocupava com o futuro, que queria crescer, aprender um ofício, começar cedo a trabalhar e ajudar a família. Ele tinha muita pena da mãe dele , do pai e dos irmãos.

Vítima 1 (revoltado )_O que é isso afinal? Meu filho era da idade dele. E o meu filho tá morto. Eu não vou permitir que tratem esse criminoso como um menino bonzinho . Será que estão todos loucos e ninguém enxerga mais nada ? Eu vi meu único filho morrer na minha frente e não pude fazer nada, nada!
Esse bandido apareceu do meio da escuridão quando eu desci para abrir a porta da garagem e encostou um revólver na cabeça do meu filho. Eu só percebi o que estava acontecendo quando ouvi os gritos : " Passa logo a chave do carro que eu tô muito loco porra e faço uma besteira " Meu filho me olhou . Ele estava com os olhos muito abertos e eu vi medo no rosto dele. Depois já não sei, quando eu vi meu filho estava caído dentro do carro sangrando e gemendo. Isso eu não vou esquecer. Ele é um bandido sim. É só o que ele é .Um bandido que matou cruelmente meu único filho.
Depois minha mulher saiu de dentro de casa. Era hora do jantar e ela vinha com um pano de prato na mão. Quando viu tudo aquilo ela ficou parada e as mãos largaram o pano assim mesmo ( faz um gesto absurdo ) e foram boiando no ar como umas coisas as mãos dela.( escondendo o rosto nas mãos )_ Meu Deus!

Mãe _ Eu , por mim, o que vou falar? Não posso depor a favor dele. Só quero saber quem nos julga, e, se há aqui quem se sinta superior e acima do bem e do mal que atire a                                                                                                     primeira pedra no meu filho. Tão dizendo que ele fez muita bobagem, que roubou, que até matou. E eu sou só a mãe que sofre por ele. E nas noites que eu passo velando eu penso: o que é que fez ele mudar tanto assim? Mas isso sou só eu que penso, sou só eu que tento compreender o lado dele. Foi a droga sim. Mas eu sei de muita gente que usa drogas. Não como as dele, mas que toma remédio todo tempo, fuma sem parar, se entope de remédio sem receita nenhuma. Tem tanta gente tomando remédio para perder o apetite e dando antibióticos pros filhos sem nem ter levado ao médico.
E da maldita cerveja então, quanta gente tem o vício ?Será que tudo isso não vicia também? O erro do meu filho foi ter entrado nesse caminho da droga pesada, como eles falam. Essas, prá mim, são piores porque são proibidas . Até prá comprar se corre perigo. E depois elas são mais fortes e deixam a pessoa mais violenta.

Vítima ( interrompendo ) _ Depois que esse monstro sumiu na escuridão eu corri até o carro e fiquei segurando a cabeça do meu filho. Ele estava morrendo e eu daria qualquer coisa para que ele não morresse, eu daria minha vida ali naquele momento, porque ele só tinha 17 anos e eu já tinha vivido demais. E era meu filho muito amado, que nunca nunca havia feito mal prá ninguém.
Eu teria matado esse assassino sem pensar um segundo se eu tivesse um revólver nas mãos!

Maria _Ele só quer viver, o meu Pedro, só isso. Eu sei também aqui dentro de mim que ele é bom. Então eu fico me perguntando , por que alguém , sendo bom, pôde roubar e ser tão violento, e eu sei que êle roubou e foi violento . Tão dizendo aí que ele até matou . Eu acredito. Acredito mas não posso entender.
Se uma pessoa como ele fez tudo que fez então não sei também eu, aonde vou parar. E eu sinto uma tristeza enorme agora que ele não está mais perto de mim. Não sei o que será da minha vida.







Momento 9

Pai ( agressivo)_O que que vocês querem que eu fale ? A gente não deu conta de cuidar dele sempre largado aí pelas ruas, sozinho. É duro criar filho assim hoje em dia, eles somem, a gente não tem nem autoridade que eles não aceitam. Esse ai desde pequeno me enfrentava, e é claro, às vezes eu perdia a paciência. Cansei de dá bronca e até bater eu bati, bati bastante nele. Mas deu jeito deu? Não. E agora eu é que sou o culpado?  Só faltava isso. A mãe dele acha isso que eu sei. Mas, prá mim , ela é que deu moleza demais prá ele.( tornando-se de repente terno ) É, mas teve um tempo que o meu menino foi feliz. Eu saia cedinho prá trabalhar e ele ficava da porta me dando tchau. Era pequenino ele . E eu queria voltar logo prá casa de tarde, antes que escurecesse , prá gente bater uma bola que ele era bom nisso. Tinha um belo chute o danado. ( emocionado ) Às vezes eu imagino que ele poderia ter sido um bom jogador de futebol. ( pensativo ) E naquela época eu não bebia.

corte: som de rock pesado, barulho de copos e risadas.

 

 

 

Momento 10


Pedro ( na boca de cena, olhando desesperado para o fundo da platéia ) _ Tem uma pedra aí prá mim meu? Pô, tô na maior fissura, quebra essa , chega aí mano.
Grana? Não mano, hoje não rola grana nenhuma, não rola não, essa tem que sê por conta.
Tu marca aí na tua escrita que eu acerto tudo. Pô cara, tu me conhece. Num me deixa assim na mão.

corte : uma voz doce de mulher canta uma canção de ninar .

Maria ( ao lado do palco distraída, não vê quando Pedro vem se aproximando devagar e tapa os olhos dela ) _ Ai que susto! Pedro, você é louco! Você fugiu?

Pedro (rindo e girando Maria no colo)_ Não fico mais lá não mina, não sô passarinho prá ficá preso em gaiola.
Quero ficá por aqui e contigo. Prometo ficá mocosado, na tua , só na tua!

Maria ( entre feliz e preocupada ) _ Você é doido de tudo! Doido mesmo de dá pena!

Momento 11

Maria _No dia das mães eu fui visitá ele. Era tudo merda lá cara , tudo merda , só falando assim.
Ele chorou e eu chorei. Ele pôs a mão na minha barriga dizendo prá eu cuidá bem do nenê que ele era um cara morto.
Escreveu uma cartinha pro pai e pra mãe dele se despedindo que termina assim ( tira do bolso um papelzinho amassado e lê ) "Eu tô errado, eu acho que já nasci errado. Eu não posso sê bom tendo feito tudo que eu fiz. Mas eu não queria morrê assim moço. Nem queria matá. Ajudem a Maria com o bichinho que ela vai tê. Eu tenho pena dele com um pai traste assim como eu. Mãe , te amo. Pai , te amo -. Adeus."

Pedro ( sozinho ) _Quando eu vi o cara caindo prá fora do carro eu pirei. O que foi que eu tinha feito meu Deus? Eu tinha apagado um carinha como eu! Então joguei o revólver na rua mesmo e sai correndo. Eu não corria por nada não cara, corria de mim, de mim mano, que eu tinha agora um puta medo de mim . Eu queria me arrebentar, me estourar prá tirá aquela lembrança ruim de mim mas não dava mano, nunca mais vai dá, tá ligado?
Corri até que as pernas não deram mais conta. Então apaguei. Quando acordei tava aqui, em cana.
Mas num ligo não , gente como eu não merece tá vivo. Nem pode ficá por aí que acaba fazendo besteira .As vezes eu fico parado pensando porque foi que eu nasci.



Momento 12

Mãe ( enlouquecida pela dor, com a movimentação alterada e a fala difícil ) _ Eram quatrocentos e estavam nus deitados num pátio imundo com as mãos postas na cabeça. Mas agora eu não vou mais pensar nisso nunca mais porque ele já se foi prá sempre.

Maria ( aproximando-se lentamente da Mãe quase a se fundir com ela e cantando bem alto um canto doloroso e sombrio ) _ Onde ele está minha mãe nenhum risco corre mais. Num passa fome nem frio, nem dor, nenhum mal estar. Onde ele está minha mãe nenhuma bala maldita o encontra, nem nenhuma perdição.
Onde ele está minha mãe já nenhum sofrimento chega, nem lágrimas, desespero, nem nenhuma perdição.
(o canto vai crescendo e se propaga pelo outros jovens que também começam a cantar cada um no seu tempo e do seu modo , enquanto o momento final começa)

Momento final: o que faremos de nós ?
( a solidão, a solidão, a solidão )

Adolescentes em roupa de trabalho branca, todos com uma mesma expressão vazia , vão saindo dos vários espaços do teatro, incluindo a platéia, e depositando uma flor vermelha no centro do palco onde está o vulto de Pedro deitado .Se houver possibilidade deve-se, na montagem, trabalhar com eco em toda essa cena.

Jovem 1_ Pedro morreu numa madrugada qualquer quando as pessoas de bem estão todas protegidas em suas casas.

Jovem 2 _Pedro morreu numa briga de rua, aos 17 anos , por causa de droga.
( sai pela platéia perguntando quantos anos você tem? quantos anos você tem ? quantos anos você tem ? )

Jovem 3 _Pedro tinha uma dívida grande demais prá pagar e foi desse jeito que pagou.
( sai , como os jovens 1e 2 perguntando :quantos anos você tem ? )

Mãe e Maria ( juntas ) _ Eram quatrocentos só naquela ala e estavam nus.
Eram quatrocentos e estavam nus.
Eram quatrocentos só naquela ala e estavam nus.

Jovem 1 ( da platéia )_Mas Pedro também ele, e mesmo ele, foi durante parte de sua vida uma pessoa de bem.

Jovem 2 _E agora morto é apenas alguém que não conseguiu viver nesse mundo esquisito .E que morreu antes da hora.

Jovem 3 _Resta a nós uma pergunta, esse Pedro que conhecemos aqui, poderia ter tido um destino diferente? E o que, na vida dele, teria que ter sido diferente?

Jovem 1 _ É isso ai mano, a morte dele poderia ter sido evitada? E se poderia, qual teria sido o melhor caminho?

Jovem 2 _A vida dele não poderia ter sido melhor? E afinal o que faltava na vida de Pedro?

Jovem 3 _ Tem alguém por aqui que saiba a resposta?
É isso ai, há alguém que possa nos ajudar?
Alguém que tenha uma resposta?

As personagens vão saindo devagar e desaparecendo , silenciosamente.
O palco vai escurecendo .

Fica um foco de luz num vulto enrolado no chão, vestido com um uniforme do Coríntians, em posição fetal.

Um soluço de mulher se escuta nítido no meio do silêncio.

Um soluço que não pára, mesmo quando se fecham as cortinas e o público começa a sair.



Sônia de Azevedo

Inverno de 1999

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