Escrevi esse pequeno texto durante as rebeliões da febem em 1999; foi montado algumas vezes por grupos amadores e eu gosto demais dele. É uma trajetória simples de um adolescente que não teve chance.
A TRAJETÓRIA DE PEDRO
Sônia de Azevedo
A
trajetória de Pedro
Introdução
explicativa
O texto pretende mostrar momentos da vida de um certo menino
chamado Pedro, de 17 anos .
A ação se passa no Brasil, época atual.
O texto não pretende ser realista (
embora possa vir a sê-lo em determinados instantes) e é composto de momentos que tentam falar dessa nossa
personagem central, para que possamos, através de sua trajetória de vida,
refletir sobre problemas que dizem respeito a cada um de nós, de uma forma ou
de outra .
O texto busca levar a uma reflexão, não
exatamente sobre o problema dos entorpecentes e seu tráfico, nem sobre a
marginalidade ou violência atuais, mas sobre nós mesmos, pais, mães e filhos de
todas as classes, cidadãos comuns desse país . O que é que nós estamos fazendo
em relação a isso ou deixando de fazer?
O que podemos fazer para fugir à
escravidão decorrente do uso das mais diversas drogas ? Como escapar da solidão
e da falta de perspectiva, da falta de solidariedade e de afeto ? Como
enfrentar o desemprego e o desamparo dele decorrente? Como conviver com uma
realidade que se mostra cada vez mais dura e difícil ?
Qual é afinal a parte que nos cabe
assumir nesse problema tão complexo e vital ?
Como podemos estar fortes e criar
filhos fortes que possam reconhecer o espaço de sua liberdade, aprendendo a
viver " limpos ", aprendendo a exercer com dignidade seu direito à
escolha, às muitas escolhas que a vida oferece, como aprender a dizer "não
"?
O álcool e a nicotina, drogas lícitas,
e as drogas ilícitas, especialmente a maconha, a cocaína e o crack ,são, hoje
em dia , de fácil acesso para crianças e adolescentes .
Apesar da proibição de venda das duas
primeiras para menores e da ilegalidade de todas as outras, sabemos que seu
consumo pelo usuário começa muitas vezes na própria infância ou pré -
adolescência . Ou seja, começa muito antes de haver, por parte desse consumidor
desprotegido , qualquer poder de escolha ou força para dizer não.
Além disso, as drogas estão cada vez
mais fortes, mais sedutoras, mais baratas.
E a vida dos meninos e meninas mais
difícil nesse final de século, mais vazia.
Há os que se viciam e adoecem.
E nessa doença que não é vista ainda
como tal, porque não é tratada desse modo pela sociedade, todos adoecem.
Adoecem os dependentes, suas famílias,
seus vizinhos.
Adoece uma cidade.
Adoece um país.
A quem isso interessa?
A
trajetória de Pedro
personagens:
Pai
Mãe
Pedro
Maria
Professora
Psiquiatra
Psicóloga
Vítima
Jovens
Momento
1.
Mãe ( na boca de cena
) _ Eram quatrocentos e estavam nus naquele pátio imundo, todos com as mãos
postas na cabeça. Durante toda a minha vida, por mais que eu viva essa vida
infeliz , eu não vou poder me esquecer: eram quatrocentos e estavam nus.
Como é que
eu podia, olhando todos eles , encontrar o meu filho?
E
como é que eu não podia reconhecer o meu filho ali no meio dos outros?
Eu fiquei
olhando e depois já não podia ver mais nada , eram todos, pareciam todos tão
pequenos , todos pareciam com ele , indefesos ali, nus, deitados no chão
imundo.
E
como, meu Deus , como é que eu não reconhecia o meu filho no meio de todos
aqueles meninos deitados?
Não
são meninos, me disseram, são menores infratores. Podem acabar com a minha vida
, com a sua, são bandidos perigosos.
Mas
prá mim não eram , eram meninos deitados no chão .
São
drogados, me disseram, traficantes, vagabundos, viciados.
Mas
prá mim não eram , não eram não , eram apenas meninos sem mãe .
corte : gritos de
jovens , barulho de grades que vêm abaixo e de coisas que se quebram.
Momento
2
Mãe ( continuando ) _Faz
dias que ele não aparece. Prá te falar a verdade hoje já faz uma semana. Mas
não conta prá ninguém ...ele é um menino tão bom, de coração tão grande, o que
estraga ele.... você sabe. (para a platéia ) Com dez anos ele fumou maconha
pela primeira vez, e eu só soube disso muito tempo depois, mas foi ele mesmo
que me contou. E me disse assim: fica tranquila mãe que é só de vez em quando,
só de vez em quando .E eu acreditei. Olhando prá trás hoje eu sei, foi apenas o
começo , depois disso veio a cocaína , quando ele tinha dinheiro , e depois o
maldito do crack que ele começou a fumar porque era barato. Então o dinheiro
que eu dava prá ele pro lanche virava veneno, como é que eu ia adivinhar? E
isso ele ainda estava no ginásio.
Eu bem que
achei esquisito , ele passou a ficar violento de vez em quando.Ficava irritado
à toa. Mas o pai achou que eram coisas da adolescência.E eu não achei nada .
Foi aí que eu errei , não foi?
Porque desde
que isso tudo aconteceu eu não paro de tentar entender aonde foi que eu errei.
corte: gritos de homem
e barulho de copos quebrados.
Momento 3
Pai (bêbado)_Porra , será que nessa casa não tem nada no lugar?
Mulher, cadê você sua vagabunda , será que já foi dormir? Mulher vem cá me
servir , eu quero um prato quente que sou eu que ponho a merda da comida na
mesa dessa casa!
Pedro (entra esfregando os olhos de sono ) _ Pai a mãe tá
dormindo, ela tava tão cansada quando chegou. (reparando melhor)_ Pai, você
bebeu de novo? Ô pai porque que você bebe tanto?
Pai ( furioso ) _ Cala a boca seu puto que eu te cubro de
porrada. (avança para o filho tentando bater e no caminho cai estatelado no
chão.)
A luz
recorta a figura do filho debruçado por sobre o corpo do pai caído no chão
tentando ajudar.
corte :um assobio distante e repetido,
monotonamente se repetindo no ar.
Momento 4
Psiquiatra
_Ele
chegou aqui machucado, não sei se havia apanhado de alguém ; a mãe , que veio
com ele , só chorava e não conseguiu me dizer nada. O menino aparentava uns 13
anos e
tinha os
olhos injetados . Mesmo antes de qualquer exame percebi que ele estava bem
dopado. Uma mistura de duas ou três drogas talvez. Mas depois disso foram
embora e só o vi muitos anos depois já em estado ainda mais lastimável.
Lembro-me que na época a mãe andou procurando um lugar para interná-lo,
sem muito sucesso. No nosso trabalho vivenciamos nessas situações uma enorme
frustração: pouco podemos ajudar. Quando
esses meninos vêm até nós já estão dependentes e precisariam de um apoio
intensivo nosso e mais ainda da família. Um apoio incondicional e em tempo
integral.
Mas isso
quem é que pode oferecer hoje em dia?
corte _ buzinas
frenéticas, sirenes de ambulância, de carros de bombeiro e de carros de
polícia.
Momento
5
Maria
e Pedro ( sentados
na boca de cena olham fundo um nos olhos do outro )
Pedro ( para Maria )_ Meu, nem pensá, precisa tirá mina, eu te
disse que era prá se cuidá. Pô, isso nem pensá, nem brinca com essas coisas ,
tá ligada?
Maria ( para Pedro )_ Cê
tá maluco cara? Como é que eu vou fazer? Isso de tirá filho custa dinheiro, tá
ligado ? E eu não tenho nada. E tem mais, se meu pai sabe me mata meu, ele me
mata!
Pedro ( olhando prá frente ) _ Grana, é, é ela que dá o recado
falô, ela que diz tudo, o que a gente é, o que a gente não é, o que a gente
pode ser. ( sonhador ) Se eu tivesse grana, mina , deixava aí o menino nascê
que era mais um prá torcida do Coríntians, mas assim, prá vivê na merda feito o
pai e a mãe, feito eu e tu, não. Não, tá falado tudo já, tu tira o bichinho
daí, te vira que eu já tô ferrado demais prá poder te ajudá.
Maria ( suspirando apaixonada) _ Mas que havia de sê bonitinho o
danadinho, filho de um sem vergonha feito tu, isso havia de sê. Ia tê esse teu
jeito canalha , esses teus olhos que me deixam assim feito boba.
Pedro ( constrangido )
_ Mas a gente já resolveu, não tem bichinho nenhum e pronto. Tu tira e acabou.
Maria ( triste ) _ Mas e a grana Pedro? Isso de tirá filho custa
dinheiro.
Pedro (muito bravo ) _ Sempre isso, meu, sempre isso. Não tem
grana prá nada, não tem grana prá deixar ele nascê, não tem grana prá tirá êle
daí. Te vira Maria, te vira.
corte:
sinal
tocando para o início das aulas, vozerio de crianças chegando.
Momento
6
Professora ( incomodada com o assunto ) _Em
pequeno ele era um dos nossos melhores alunos, mas começou a faltar bastante no
2º grau. São muitos os alunos por classe e a meninada falta mesmo hoje em dia.
A gente avisou a família, a mãe dele trabalha demais, sustenta a casa coitada,
que o pai de tanto beber perdeu o emprego e, com o tempo bebia da manhã até a
noite, ficava largado pelas ruas, Isso o menino mesmo me contou um dia. Sabe, a
mãe dele é muito esforçada, não queria que os filhos trabalhassem para poder
estudar e ser alguém nessa vida. Sendo assim ela não tinha hora prá vir
conversar aqui na escola. E nós também, a nossa
vida não é fácil, temos nossos horários, muitos de nós trabalham em
vários lugares ao mesmo tempo para sobreviver.
É isso,
quando soubemos que ele estava envolvido com tráfico acho que foi tarde demais
. Ele me disse uma vez qualquer coisa que estava jurado de morte, imagine um
menino como ele jurado de morte! Mas isso foi entre uma
aula e outra, no corredor, e eu nem pude perguntar muita coisa.
Depois não o vimos
mais.
Ele está bem ?
corte
: ouve-se
um tiroteio e carros em alta velocidade.
Momento
7
Maria (assustada ) _ É sempre assim a minha vida, quando eu escuto
tiro penso nele, penso se ele conseguiu fugir ou se tá por aí caído num lago de
sangue. E então já não posso mais dormir. E toda noite eu escuto tiro, pelo
menos um tiro eu escuto toda noite, e então não durmo esperando a notícia ruim
chegá.
Porque um dia o
tiro vai sê prá ele, isso eu sei e ele já me avisou. Mas eu rezo sempre que ele
possa ficar vivo até o filho dele nascê que eu quero vê aquela cara de mau fazê
bico prá chorá.
E faz muito tempo
que eu não sei nada dele.
Será que ele tá
bem? Será que ele já morreu e eu não sei?
Psicóloga ( um pouco aborrecida )_ Ele me contou
que ia ser pai. Daquele jeito que ele falava, numa gíria que acho ,( sorri )
nem ele mesmo parecia entender. E eu notei nos olhos dele orgulho e também
muita bondade. Ele se preocupava com a namorada e com o filho; ele se
preocupava em não ser um homem decente de quem o filho pudesse se orgulhar.
Não, não falo só como psicóloga, falo também como mulher acostumada a observar
o comportamento humano, a tentar entender a alma humana....... E eu também
tenho filhos.
Não posso dizer que Pedro fosse mau. Poderia ser
tudo esse jovem, mas nele a maldade não existia. Pelo menos essa maldade que se
imagina existir num criminoso.
Momento
8
Pedro ( sentado numa cadeira no meio da cena. ; de costas para a
platéia estão os outros personagens que olham para ele.)_ Meu nome é Pedro e eu
uso de tudo e já me disseram que eu sou um dependente. A vida que eu vivo não é
vida.
Mas hoje, falô,
faz 24 horas que eu tô limpo. Nem acredito cara que eu tô conseguindo ficá
limpo todo esse tempão.
A minha vida fica
podre com a droga mano, pode crê. Eu topo tudo erva, pó, pedra, pico. E então
depois eu sento num boteco e tomo uma cerva. Quando dá tempo eu corro pro
banheiro e vomito, quando num dá é ali mesmo cara.
Tem hora que eu
quero morrer. Quero morrer de verdade mano. Mas isso também passa. E eu entro
de novo na fissura.
Eu tô tentando
largá isso tudo aí. Mas é difícil demais e eu não sei se eu vô conseguir . Por
isso que eu venho aqui. Faz 24 horas que eu tô limpo cara. É isso ai, 24 horas
limpo! ( levanta-se )
Psiquiatra: _ Vejam bem, para mim que sou médico
,ele é um doente que precisa de cuidados . É um dependente de drogas que
precisa ser assistido. Por isso insisto que ele possa ficar respondendo ao
crime que cometeu em clínica especializada onde possa ser realmente tratado.
Não questiono o fato de que precisa ficar retido .Isso é da alçada da justiça.
O que eu digo é que ele precisa ficar longe das drogas das quais depende. Nesse
momento é disso que ele precisa.
Professora: _ Volto a dizer, ele era um menino
como os outros, com um pai alcoólatra que, às vezes batia na mãe e nas crianças
. Pedro era um bom menino que se preocupava com o futuro, que queria crescer,
aprender um ofício, começar cedo a trabalhar e ajudar a família. Ele tinha muita
pena da mãe dele , do pai e dos irmãos.
Vítima 1 (revoltado )_O que é isso afinal? Meu filho era da idade
dele. E o meu filho tá morto. Eu não vou permitir que tratem esse criminoso
como um menino bonzinho . Será que estão todos loucos e ninguém enxerga mais
nada ? Eu vi meu único filho morrer na minha frente e não pude fazer nada,
nada!
Esse bandido
apareceu do meio da escuridão quando eu desci para abrir a porta da garagem e
encostou um revólver na cabeça do meu filho. Eu só percebi o que estava acontecendo
quando ouvi os gritos : " Passa logo a chave do carro que eu tô muito loco
porra e faço uma besteira " Meu filho me olhou . Ele estava com os olhos
muito abertos e eu vi medo no rosto dele. Depois já não sei, quando eu vi meu
filho estava caído dentro do carro sangrando e gemendo. Isso eu não vou
esquecer. Ele é um bandido sim. É só o que ele é .Um bandido que matou
cruelmente meu único filho.
Depois minha
mulher saiu de dentro de casa. Era hora do jantar e ela vinha com um pano de
prato na mão. Quando viu tudo aquilo ela ficou parada e as mãos largaram o pano
assim mesmo ( faz um gesto absurdo ) e foram boiando no ar como umas coisas as
mãos dela.( escondendo o rosto nas mãos )_ Meu Deus!
Mãe _ Eu , por mim, o que vou falar? Não posso depor a favor
dele. Só quero saber quem nos julga, e, se há aqui quem se sinta superior e
acima do bem e do mal que atire a
primeira pedra no meu filho. Tão dizendo que ele fez muita bobagem, que
roubou, que até matou. E eu sou só a mãe que sofre por ele. E nas noites que eu
passo velando eu penso: o que é que fez ele mudar tanto assim? Mas isso sou só
eu que penso, sou só eu que tento compreender o lado dele. Foi a droga sim. Mas
eu sei de muita gente que usa drogas. Não como as dele, mas que toma remédio
todo tempo, fuma sem parar, se entope de remédio sem receita nenhuma. Tem tanta
gente tomando remédio para perder o apetite e dando antibióticos pros filhos
sem nem ter levado ao médico.
E da maldita
cerveja então, quanta gente tem o vício ?Será que tudo isso não vicia também? O
erro do meu filho foi ter entrado nesse caminho da droga pesada, como eles
falam. Essas, prá mim, são piores porque são proibidas . Até prá comprar se
corre perigo. E depois elas são mais fortes e deixam a pessoa mais violenta.
Vítima ( interrompendo ) _ Depois que esse monstro sumiu na
escuridão eu corri até o carro e fiquei segurando a cabeça do meu filho. Ele
estava morrendo e eu daria qualquer coisa para que ele não morresse, eu daria
minha vida ali naquele momento, porque ele só tinha 17 anos e eu já tinha
vivido demais. E era meu filho muito amado, que nunca nunca havia feito mal prá
ninguém.
Eu teria matado
esse assassino sem pensar um segundo se eu tivesse um revólver nas mãos!
Maria _Ele só quer viver, o meu Pedro, só isso. Eu sei também aqui
dentro de mim que ele é bom. Então eu fico me perguntando , por que alguém ,
sendo bom, pôde roubar e ser tão violento, e eu sei que êle roubou e foi
violento . Tão dizendo aí que ele até matou . Eu acredito. Acredito mas não
posso entender.
Se uma pessoa como
ele fez tudo que fez então não sei também eu, aonde vou parar. E eu sinto uma
tristeza enorme agora que ele não está mais perto de mim. Não sei o que será da
minha vida.
Momento
9
Pai ( agressivo)_O que que vocês querem que eu fale ? A
gente não deu conta de cuidar dele sempre largado aí pelas ruas, sozinho. É
duro criar filho assim hoje em dia, eles somem, a gente não tem nem autoridade
que eles não aceitam. Esse ai desde pequeno me enfrentava, e é claro, às vezes
eu perdia a paciência. Cansei de dá bronca e até bater eu bati, bati bastante
nele. Mas deu jeito deu? Não. E agora eu é que sou o culpado? Só faltava isso. A mãe dele acha isso que eu
sei. Mas, prá mim , ela é que deu moleza demais prá ele.( tornando-se de
repente terno ) É, mas teve um tempo que o meu menino foi feliz. Eu saia
cedinho prá trabalhar e ele ficava da porta me dando tchau. Era pequenino ele .
E eu queria voltar logo prá casa de tarde, antes que escurecesse , prá gente
bater uma bola que ele era bom nisso. Tinha um belo chute o danado. (
emocionado ) Às vezes eu imagino que ele poderia ter sido um bom jogador de
futebol. ( pensativo ) E naquela época eu não bebia.
corte: som de rock
pesado, barulho de copos e risadas.
Momento 10
Pedro ( na boca de cena, olhando desesperado para o fundo da
platéia ) _ Tem uma pedra aí prá mim
meu? Pô, tô na maior fissura, quebra essa , chega aí mano.
Grana? Não mano,
hoje não rola grana nenhuma, não rola não, essa tem que sê por conta.
Tu marca aí na tua
escrita que eu acerto tudo. Pô cara, tu me conhece. Num me deixa assim na mão.
corte : uma voz doce de mulher canta uma canção de ninar .
Maria ( ao lado do palco distraída, não vê quando Pedro vem se
aproximando devagar e tapa os olhos dela ) _ Ai que susto! Pedro, você é louco!
Você fugiu?
Pedro (rindo e girando Maria no colo)_ Não fico mais lá não mina,
não sô passarinho prá ficá preso em gaiola.
Quero ficá por
aqui e contigo. Prometo ficá mocosado, na tua , só na tua!
Maria ( entre feliz e preocupada ) _ Você é doido de tudo! Doido
mesmo de dá pena!
Momento
11
Maria _No dia das mães eu fui visitá ele. Era tudo merda lá cara ,
tudo merda , só falando assim.
Ele chorou e eu
chorei. Ele pôs a mão na minha barriga dizendo prá eu cuidá bem do nenê que ele
era um cara morto.
Escreveu uma
cartinha pro pai e pra mãe dele se despedindo que termina assim ( tira do bolso
um papelzinho amassado e lê ) "Eu tô errado, eu acho que já nasci errado.
Eu não posso sê bom tendo feito tudo que eu fiz. Mas eu não queria morrê assim
moço. Nem queria matá. Ajudem a Maria com o bichinho que ela vai tê. Eu tenho
pena dele com um pai traste assim como eu. Mãe , te amo. Pai , te amo -. Adeus."
Pedro ( sozinho ) _Quando eu vi o cara caindo prá fora do
carro eu pirei. O que foi que eu tinha feito meu Deus? Eu tinha apagado um
carinha como eu! Então joguei o revólver na rua mesmo e sai correndo. Eu não
corria por nada não cara, corria de mim, de mim mano, que eu tinha agora um
puta medo de mim . Eu queria me arrebentar, me estourar prá tirá aquela
lembrança ruim de mim mas não dava mano, nunca mais vai dá, tá ligado?
Corri até que as pernas
não deram mais conta. Então apaguei. Quando acordei tava aqui, em cana.
Mas num ligo não ,
gente como eu não merece tá vivo. Nem pode ficá por aí que acaba fazendo
besteira .As vezes eu fico parado pensando porque foi que eu nasci.
Momento
12
Mãe ( enlouquecida pela dor, com a movimentação alterada e a
fala difícil ) _ Eram quatrocentos e estavam nus deitados num pátio imundo com
as mãos postas na cabeça. Mas agora eu não vou mais pensar nisso nunca mais
porque ele já se foi prá sempre.
Maria ( aproximando-se lentamente da Mãe quase a se fundir com
ela e cantando bem alto um canto doloroso e sombrio ) _ Onde ele está minha mãe
nenhum risco corre mais. Num passa fome nem frio, nem dor, nenhum mal estar.
Onde ele está minha mãe nenhuma bala maldita o encontra, nem nenhuma perdição.
Onde ele está
minha mãe já nenhum sofrimento chega, nem lágrimas, desespero, nem nenhuma
perdição.
(o canto vai
crescendo e se propaga pelo outros jovens que também começam a cantar cada um
no seu tempo e do seu modo , enquanto o momento final começa)
Momento
final: o que faremos de nós ?
( a solidão, a solidão, a solidão )
Adolescentes em roupa de trabalho branca, todos com uma
mesma expressão vazia , vão saindo dos vários espaços do teatro, incluindo a
platéia, e depositando uma flor vermelha no centro do palco onde está o vulto
de Pedro deitado .Se houver possibilidade deve-se, na montagem, trabalhar com
eco em toda essa cena.
Jovem 1_ Pedro morreu numa madrugada qualquer quando as pessoas de
bem estão todas protegidas em suas casas.
Jovem 2 _Pedro morreu numa briga de rua, aos 17 anos , por causa de
droga.
( sai pela platéia
perguntando quantos anos você tem? quantos anos você tem ? quantos anos você
tem ? )
Jovem 3 _Pedro tinha uma dívida grande demais prá pagar e foi desse
jeito que pagou.
( sai , como os
jovens 1e 2 perguntando :quantos anos você tem ? )
Mãe e Maria ( juntas ) _ Eram quatrocentos só
naquela ala e estavam nus.
Eram quatrocentos e estavam nus.
Eram quatrocentos
só naquela ala e estavam nus.
Jovem 1 ( da platéia )_Mas Pedro também ele, e mesmo ele, foi
durante parte de sua vida uma pessoa de bem.
Jovem 2 _E agora morto é apenas alguém que não conseguiu viver
nesse mundo esquisito .E que morreu antes da hora.
Jovem 3 _Resta a nós uma pergunta, esse Pedro que conhecemos aqui,
poderia ter tido um destino diferente? E o que, na vida dele, teria que ter
sido diferente?
Jovem 1 _ É isso ai mano, a morte dele poderia ter sido evitada? E
se poderia, qual teria sido o melhor caminho?
Jovem 2 _A vida dele não poderia ter sido melhor? E afinal o que
faltava na vida de Pedro?
Jovem 3 _ Tem alguém por aqui que saiba a resposta?
É isso ai, há alguém que possa nos ajudar?
Alguém que tenha
uma resposta?
As personagens vão saindo devagar e
desaparecendo , silenciosamente.
O palco vai escurecendo .
Fica um foco de luz num vulto enrolado
no chão, vestido com um uniforme do Coríntians, em posição fetal.
Um soluço de mulher se escuta nítido no
meio do silêncio.
Um soluço que não pára, mesmo quando se
fecham as cortinas e o público começa a sair.
Sônia
de Azevedo
Inverno
de 1999
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