trezentos e
sessenta graus
como amanhecer em pleno mar com horizontes
azuis à toda volta
era um desejo luminoso abrupto necessário de marcar seu
corpo inteiro riscá-lo de fora a fora pela pele pele adentro até que todos os
seus contornos desaparecessem numa névoa seca
desejo de marcar seus braços pernas seios do vermelho mais
vivo do seu próprio sangue e era mais ainda
quis tatuar-se por dentro pelo avesso nas camadas finas
abaixo da pele entre os traçados dos músculos enfiando-se na carne muito funda
à procura do tempo em que não conseguiu viver do tempo que parecia escorregar
corpo afora entre os corpos que julgou amar entre unhas sedentas de vazio
imersa em madrugadas de neblina
um tempo que rodopiava em torno de si mesma em temporais de
areia invisível como tornados princípios de incêndio horas em que nem gritar
nada é possível
mais riscos na pele
mais riscos traçados como rios rasos tatuagens que nunca
chegarão a nenhum mar discretas em desenho em matizes em margens talvez sem
nenhuma cor em contornos sem contorno
pensou poder dissolver-se numa luminosa dor de outono numa
dor sem limites visíveis numa dor viscosa e escorregadia que não poderia ser
tocada por ninguém
dor que atravessaria paredes deslizando entre vidros foscos
de velhas janelas luminosas transparências de finais incompletos de alguma
tarde esquecida demais
tarde sequer pensada
desenhos cortes recortes sulcos afundados rachaduras buracos
ossos carne esmigalhada desvios de coisas muito materiais nas gretas assustadas
de qualquer rua de qualquer país um território mais que imaginário
num desejo sem pensamentos seu olhar percorre o azul onde as
gaivotas passam brancas plenas de si mesmas no incontrolável nada etéreo ar do
dia
mais um dia
um dia no qual não haveria horas para se viver nem rumos a
traçar com o olhar nem fome qualquer querer desejos simples que iriam se
apagando uns aos outros
mais um dia aflito como só um dia pode ser enorme solitário
entre máscaras carros corpos inconsistentes inconstantes atravessando seu peito
enluarado
então ela desejou rosas mais que rosas seus espinhos duros
dilacerantes que percorressem seu ventre de menina que rasgassem enfurecidos
seu sexo obscuro farto de existir prosaico e inacabado
sexo de menina crescida antes da hora antes de saber-se
grande antes de conseguir haver-se inteiramente em si em cada poro transparente
em seus sentidos perplexos de que houvesse tanto de que fosse tão difícil
apenas deixar que o tempo marcasse seu caminho tão apenas deixar-se ficar
quieta firme forte como qualquer das coisas existentes pode ser
como amores que se esgotavam em si mesmos deixando um vazio
de depois que não seria nunca preenchido nenhuma palavra canto nada
como um retrato de um desconhecido esquecido na parede de
uma casa abandonada retrato descrito em linhas de quem nunca existiu como as
outras coisas de alguém em estado de choque
espinhos que arrebentassem sua pele sua carne que a pudessem
despedaçar devagar quase carinhosamente como se permitisse que a desmanchassem
num gozo interminável sem nomes sem donos
que desmanchassem até mesmo o vazio de depois o branco de
seus olhos perplexos e suas enormes pupilas
que dessem nome a cantos obscuros perguntas nunca
respondidas mais que essas as que jamais havia conseguido formular porque não
conseguia encontrar as palavras que as fossem nomeando que as parissem enquanto
os pensamentos se desviavam uns dos outros em minúsculas avenidas ruas estreitas
demais
quis filetes frios caminhos recortados na terra escura com
todos os tons na crueldade do vermelho e atrás do vermelho as outras cores do
rubro até lilases e roxos
quis desconhecer para sempre quem tinha sido não encontrar
mais seu próprio rosto refletido em qualquer lugar desfigurá-lo parte a parte
até o limite em que deixasse de ser rosto nunca recuperado impossível de ser
reconstruído
que tudo pudesse virar lago sangüíneo sem nenhuma memória
porque as coisas vividas iriam se dispersar no vento das
horas seguintes trazidos na entrada da noite iriam tingir-se entre o fim do dia
e nenhum momento mais permanecendo em espaços limites em fronteiras esmaecidas
que contudo nunca se apagassem como faróis tardios em lugares tão distantes do
mundo em que ela havia vivido distantes de sentir pena solitários para sempre
abrir cada uma das suas grandes veias sem poder mais ver
jorrar o sangue abrupto libertar o sangue de seus caminhos obtusos sempre os
mesmos caminhos tortuosos desde que nascida para sentir-se incandescente e una
esmigalhar os caminhos estreitos das veias pequenas como se
as rasgassem uma a uma com as próprias mãos
meticulosamente
para que ninguém pudesse fitá-la depois de morta
e pudesse partir sem deixar murmúrios desavenças intrigas desconfianças
perguntas só o choro desesperado o susto rápido e definitivo de todos numa
noite gelada sem nenhuma esperança viajando assim sem histórias cartas
mensagens inúteis despedidas
decidindo-se assim definitivamente
atrás de si um silêncio inesquecível de cidades amanhecendo
em confins nublados onde nenhum galo cantasse silêncios como devem ser os de
antes de nascer quando apenas muito ao longe se escuta no emaranhado que é
despertar vozes como curtas canções como memórias ainda não conhecidas
nenhuma explicação
para que deixasse com sua partida um vazio de histórias ou
muitas imaginárias histórias que quando inventadas pudessem explicar um pouco
do que havia acontecido tingindo as tardes de domingo de uma morna aflição
desses hiatos aonde ela se esquecia de respirar desses
momentos sombrios em que a angústia afundava seu peito como uma mão de ferro
que a quisesse esmagar lenta profundamente
para deixar de andar sozinha pela cidade falando com desconhecidos
procurando o que nem existia uma saída para o que nem ela mesma sabia para a
excessiva luz que atrapalhava os mesquinhos pensamentos que a vida do mundo
exigia essa luz que pedia respostas para as quais não havia tempo para uma alma
trêmula como a sua sempre prestes a desfazer-se em pó pólen perfume
ocultar-se em plátanos sem qualquer história era seu desejo
para que desse vazio repentino pudessem surgir outros
enredos que importava explicações para encher o tempo daqueles que pensariam
nela entre um e outro cigarro ou que a deixariam aparecer entre as páginas de
um livro uma mulher passando rápida num aeroporto qualquer algum rosto parecido
com a lembrança dela que um ou outro guardara só para si para que se tornasse
somente isso: imagem tão passageira que não pudesse ser captada jamais
rosto moldado como não pudemos pressentir em vidas que não
poderíamos jamais conhecer em algo que se interpunha entre
entre os dias sua seqüência vez ou outra tão previsível
entre a fina camada que divide o que somos daquilo que poderíamos ser ter sido
para que olhando a volta toda fossem diferentes os retratos o trajeto
nossa própria tão exclusiva e única pesada história
que talvez nem lembrassem olhando a espuma da cerveja o ar
quente aparecendo de bocas em pleno frio desenhando redondas sutilmente o ar
Sofia soube que teria que ser assim
para isso teria que rasgar-se em muitos pedaços em todas as
direções
para que a boca deixasse de ser boca para que nunca mais
ousasse definir-se para que perdesse suas linhas para que deixasse de ser túnel
molhado à espera de beijos que não aconteceram para que tudo se tornasse uno
íntegro para que enfim misturada à terra dos canteiros da calçada pudesse ser
massa orgânica ser sem nome verdejando pura pulsação entre a grama e as flores
mais pequenas
a regar com seu sangue essas mínimas flores que o gramado
escondia à espreita de existirem visíveis em algum futuro
as flores mais miúdas
para que pudesse ser muitas outras que não ela mesma pouca
em sua imensidão na descabida forma que sua vida tinha se delineado na
insipidez de outonos inviáveis nas diversas tardes cinzentas onde se
acabrunhava com vergonha de ser tanta com revolta pelo desperdício de farturas
desmedidas que em si mesma continha
quis regar o tronco das árvores que começavam a florir no
calor do verão
espalhada nas pedras do calçamento nunca mais juntar-se ser
juntada deixando apenas o não sabido o não vivido o que não se saberia dela
jamais
que ficasse para um ou outro inventar motivos para sua
partida dolorosa para que restasse um espaço a ser preenchido com o que não era
ela com o que não teria nunca sido ela
espaço irrecuperável
para que finalmente fosse esquecida
quem sabe algum dia um traço mínimo de sua alma jovem
pudesse ser desvendado quem sabe
em braços que já não existiam e que caíram desencontrados de
si mesmos em pleno ar de pernas e pés que não mais podiam caminhar sem guia sem
sua sombra ao lado caminhando
e se deixasse ficar salpicada uma gota que fosse a mais nas
asas de uma borboleta descuidada numa formiga que passasse para que se esvaísse
do mundo da memória de todos para que pudesse ser inventada quem sabe como
gostaria de ter sido talvez mesmo como houvera sido sem que ninguém notasse nas
alamedas do sono em penumbras entre as manhãs e os finais de noite
queria sossegar entre pétalas macias das rosas vermelhas
esquecer seus pensamentos seus próprios pensamentos sobre quem teria sido sobre
quem deveria ter sido sobre o que esperavam que ela pudesse ter sido
tivessem querido que ela fosse
amortecer a vertigem que era viver para sempre
era apenas uma vontade de aquietar a aflição continuada que
lhe perseguia desde menina para transformar-se em ar fogo água e terra escura
penetrando camada após camada entre pedras películas
redondas bolsas de ar liqüefazendo-se em pequenas tormentas
ser escura antes de ser nascida
naquela manhã quando abriu os olhos não viu não pôde saber
aonde estava
seu quarto era um mosaico líquido de coisas variadas como se
em cada traço de parede cada objeto fixado no teto ou colocado sob os móveis
nada dissesse de si
porque tudo isso que chamava seu quarto não fazia mais
sentido algum
enquanto passava o tempo de olhar cada objeto o rosto de um
possível homem deitado ao seu lado os riscos luminosos que o sol punha entre as
frestas da persiana enquanto o dia ia amanhecendo
em tudo ficava um mundo que se despedia que já se
distanciava dela como que para sempre mais que em todos os outros dias
mas um mundo que se despedia especialmente diretamente dela
que começava a partir para outro lugar num jeito de coisas tons ruídos talvez
antes nunca notados a essa hora da manhã cheiros sabores muitos todos
misturados
que mesmo sem disso saber já havia decidido partir
algumas horas depois desses primeiros pensamentos alguém
gritou horrorizado
então foi como se ela se afogasse devagar como se dançasse
pequenina como se pudesse saber como se estivesse embriagada do oxigênio de
altas solitárias montanhas
nada disso pensou tudo ia sendo construído pelo ar pelos
poucos sons do dia pela retidão do muro em seus contornos sólidos e seus
ângulos
o ar era leve demais ela pensou no entanto os pássaros e os
aviões
um avião cortou o céu de fora a fora enquanto ela descalçava
as sandálias de salto
alto o horizonte era um traço tão longo longe redondo que
nos caminhos da sua mente pensar nele era como se afogar muito lenta intoxicada
de beleza como se essa beleza de tardes e manhãs sem conta se sobrepusessem
delirantes entre os dedos de seus pés descalços que pisavam com cautela o muro
frio
antes de começar a andar reparou que o ar tinha um brilho
diluído de pequenas definidas desiguais luzes que tudo em volta pássaros ciscos
que correm no vento nem percebemos uma folha desgarrada tudo rodopiando no
espaço uma pena de pássaro migalhas de coisas iluminadas pelo sol pequenos
seres brilhantes que povoavam o ar
pensou Sofia com um meio sorriso que ela também poderia
os aviões cortam todo o tempo o céu de fora a fora o piso do
chão as travas da porta trancadas por dentro tudo pela última vez no fim de
tarde último que se ia para sempre
equilibrando-se lembrou de quando desejava saber para onde
ia o sol quando se punha em que lugar exato em que ponto delicado do mundo ele
imediatamente começava a nascer enquanto morria aqui
nada mais tinha importância mas o trajeto do sol ela não
conheceria como conhecia o frio e o calor a dor e o prazer
como coisa conhecida na pele reconhecida pelo própria carne
do corpo
nada além daquilo subir na mureta caminhar como num arame de
circo afinar o passo um pé atrás do outro as lágrimas começariam a atrapalhar o
olhar cauteloso inevitável seria chorar mas com a mesma cautela que os
equilibristas devem ter cada passo o movimento de cada um dos pés os dedos se
aprontando curvando-se arranhando o chão desligando-se da aspereza do concreto
deslizando mais uma vez
cada um dos pés todos os dedos juntos se contraindo que
depois se alongavam abraçando cada uma das partículas parecia engraçado isso que
descansavam no chão abandonadas a si mesmas indefesas tão pequenas
a primeira pessoa que a viu disse que tinha os braços
abertos lado a lado retos em plena harmonia um com o outro as palmas das mãos
voltadas para cima equilibrista em corda bamba que devia conversar com alguém
que não se via enquanto caminhava talvez cantasse tão calma se sustentava na
exata distância na finita retidão do muro
e que acariciava o ar
a brisa mais fresca da tarde tirava as pessoas da praia
então ela viu e ouviu uma ou outra mãe chamando seu filho um balão que subia a
asa delta num silêncio de outras formas alguém deslizando numa bicicleta
moldada em ares úmidos salinos inacreditáveis e aéreos
sem mover os lábios sem mover os braços envolvendo a brisa
com cada um dos dedos numa suavidade que principiava a conhecer entremeando-se
terna em todas as linguagens da ternura as conhecidas e as que inventava no
exato momento de caminhar metro a metro
quase sem respirar enquanto previa um passo depois outro sem
pensar sem sofrer sem qualquer desejo de qualquer tamanho
a multidão já se formava olhando para cima tão sozinha agora
ela ficara muito mais ainda que antes sem nem como tirar o cabelo que o vento
trazia até os olhos as pálpebras inquietas não havia nada e o nada era um corredor
sem fim nem destino era uma ponte aguda que não começava e não terminaria em
lugar nenhum ponte suspensa
era um caminhar em linha reta nenhuma dúvida mais nenhuma
escolha a impossibilidade de se enganar novamente nem como voltar atrás
uma hora a reta simplesmente terminaria na quina do prédio e
ela seguiria em frente sem titubear sem estancar o ritmo um segundo sequer
foi então que no imenso azul que escurecia Sofia viu a
gaivota branca
era uma gaivota pequena e atrás dela um céu de beleza
insuportável por demais insuportável a primeira estrela aparecia enquanto o sol
se punha a sombra da beleza de suas asas sobre o mar
insuportável a clareza nítida de cada uma dessas coisas
vistas a transparência etérea do ar o silêncio enorme das avenidas paradas como
se o tempo estivesse suspenso limitando o ar que ela podia tragar muito pouco
como se já não houvesse tempo nada a passar ou a acontecer num intervalo como
dos filmes quando a luz se acaba ou a televisão sai do ar em ininterruptos
chuviscos
braços traços nítidos de volumes que se recolhem são braços
que querem a si mesmos em abraços intermináveis
um barco chega de longe vem vindo ainda na névoa distante
que principia a tomar conta de ilhas e coqueiros muito distantes dali
por um instante Sofia é o barco submergindo safando-se
assustado da liquidez do mar subindo e descendo nas marolas é o pescador que
cansado esfrega os braços doloridos as mãos lanhadas é a água imensa aturdida
de si mesma de sua incansável grandeza de seus abismos de peixes
e pode sentir as mãos ásperas de tanto puxar as redes girar
o timão erguer as latas da água que entra sem querer e esvaziá-las nas ondas
um barco arrastando-se em pleno ar
quase pode sentir o suor do rosto que o homem enxuga o
cheiro desse suor ácido salgado cozido pelo sol de altos mares altas horas
e na distância de tudo que viu no mais longe de tudo
lembrar-se pequena tão pequena acabada de nascer engasgando entre líquidos
escuros
ouve seu próprio choro confundido esquecido de parar sempre
em frente um pé depois o outro os braços mantém o equilíbrio não escuta as
sirenes o megafone do bombeiro as pancadas na porta de segurança travada na sua
passagem
nenhum grito
lembra de si mesma olhando o mundo com um olhar sem medo com
um olhar que simplesmente olhava cada coisa simples inteiramente caminhando
passo a passo entre canteiros floridos no meio dos lodaçais em dias longos
compassados abismados de que fossem tantas as horas de uma vida
mas se não era isso viver cumprir riscos afagar delírios
encomendar prováveis futuros não saber do depois?
existências previsíveis não seriam para ela nem as
insuportáveis noites de mormaço os domingos em famílias todas as tolas
preocupações contas a pagar conversas vazias em chuvosas tardes
para ela haveria um único último dia de sol
ela pensa em beija-flores incontáveis sobrevoando extensos
laranjais floridos nos meses de todos os junhos de sua vida pensa em cardumes
de peixes pequenos enlouquecendo as águas dos rios em borboletas amarelas
voando em bando desenhando o ar enfumaçado de cada um dos outonos de sua curta
vida
num esbanjamento das coisas naturais das vidas que não têm
nenhum medo
coisas que foram memorizadas nas células foscas do seu
cérebro nas camadas cristalinas de seus olhos
cardumes de peixes num dia inteiro azul dia de ilhas mar
aberto caiaques virando trechos de mar coisas flutuantes sargaços sem histórias
mas se a morte não existe ela falou sorrindo
ele olhou seus olhos negros redondos enormes
olhou de frente
negros como duas jabuticabas redondas eram os olhos dela
como precipícios que se ofereciam rochedos intransponíveis flores aveludadas
pareceu a ele que ela tinha partido para lugares distantes
ao falar aquilo terras ainda inexploradas povoados a espera de serem conhecidos
e ele pareceu tão sozinho a ela tão frágil como se tivesse
sido abandonado ao nascer seus olhos eram sonâmbulos fitavam as coisas do mundo
com um desvalido carinho com uma atenção distraída como se não se detivessem em
lugar nenhum
enfim voltaram-se para olhar o pôr do sol e os brincos dela
brilharam enfileirados ele reparou que eram três em sua orelha esquerda um sol
uma lua e um pássaro pousado num fino galho de uma árvore seca
um pássaro que cantava para a lua cheia algum dia ela havia
explicado
dessa forma ele
descobriu que nunca a conheceria que caminharia ao seu lado como que sozinho
tangenciando suas próprias lembranças amarrando-as umas nas outras como restos
de um naufrágio
tentando todo o tempo compreender
ao longo dos anos sempre o mesmo relato de alguém que afirma
ainda tê-la visto voar
outro podia ter certeza do que ia acontecer mesmo sem
acreditar que a moça olhando reta o horizonte como se o horizonte e seus olhos
estivessem unidos por fios transparentes fios de ouro fino fios etéreos quase
como nuvens pudesse pular
mesmo de longe pôde essa pessoa que a viu sentir o levíssimo
impulso que elevou seus pés em meia ponta transferindo assim o peso como se
fosse dançar e reparou quando um deles forçou um pouco mais a textura oblíqua
do ar empurrando o corpo delicadamente para a frente do mesmo modo que faria
quem se debruça numa janela para olhar o dia forçando o mínimo fatal
desequilíbrio
essa pessoa ainda afirma que viu quando Sofia vasculhou pela
última vez todo o céu quem sabe à procura da lua nascente quem alguma vez
saberá?
e foi essa a última coisa que pareceu fazer antes do gesto
final
olhou da altura onde se encontrava o céu à toda volta num
horizonte em trezentos e sessenta graus
alguns afirmam que seu gesto derradeiro foi um movimento
pequeno dos dedos das duas mãos um leve retesar que mesmo na distância naquela
altura enorme do prédio se podia perceber
como a bailarina antes do salto medindo a distância
aprontando cada músculo prolongando a respiração num último grande alento
tomando impulso retendo o fôlego para soltar-se a si mesma
com a maior delicadeza como a trapezista que mira o alvo já
calculando todos os riscos
para então saltar desmedida
como um canto de ninar em que a voz sai na exata medida para
ser ouvida mas que não desperta quem já dormiu
dessa vez como se pensasse o último pensamento que se partiu
em si mesmo um pensamento que em nenhum dos casos seria uma dúvida mas uma
constatação carinhosa que seu olhar claro transmitia sorriu um sorriso menor
que qualquer outro
lembra ainda como encantado acompanhou seu vulto braços
abertos dançando no ar rodopiando em si mesma como se se transformasse muito
rapidamente em um ser qualquer ser que não fosse apenas humano qualquer vida
que se protegesse a si mesma de todos os perigos como um anjo um traço uma vela
um incenso de jasmim uma onda do mar foi assim mesmo diriam naquele momento em
que a noite chega uma noite como qualquer outra qualquer uma
em que o horizonte se avermelhando acolhe o sol em sua
descida vaga lenta decisiva definitiva e o outro lado de um azul já muito
escuro no qual se adivinha a lua sonolenta cada vez mais nítida que está para
chegar como se viesse caminhando de muito longe de estradas poeirentas e
cansadas
enquanto alguém entediado liga o televisor e nos movemos com
um cansaço que não é do dia mas da hora com passos que não desejam pisar com um
peso que não é preguiça
entretanto era também um desamparo de praias frias que o
vento das manhãs percorre em sucessivas rajadas ondulando em todas as direções
a superfície do mar que deixa assim de ser uno para multiplicar-se em tantos
mares quanto nosso olhar possa registrar mares desarvorados exaustos talvez de
sempre serem mar
solta ali estagnada nessa flutuação sem fim eu ficava
imaginando como seria nascer muito mais tarde ainda como seria nem existir ou
ter nascido há séculos atrás ter percorrido outras histórias ter tido algum
abrigo nesse instante eu queria tanto um abrigo nesse perene constante
desassossego de muitos modos de se me faltar o ar
nessas travas que o tempo deixa passar por entre os fios dos
cabelos estar anoitecendo de pavor de ser noite de existir a noite de existir
na noite de já ser muito tarde quase madrugada do primeiro dia impossível dia
esse de não viver dia de ser náufraga de já ser morta de pensar a chuva sendo
apenas chuva intempestiva forte violenta
um não desejo
ninguém
ser ninguém sem ter que se haver com ser gente com sofrer
qualquer sofrimento humano nenhum deles que se estendem entre a espera e o
pavor que se espalham entre o almoço e as horas que se arrastam até o sono
chegar
quis o nada etéreo de ventos neblina e abismos
como quando entardece e o silêncio pesa como um corpo em
queda livre sem nada que o segure nada aonde segurar que mesmo que houvessem
instantes de arrependimento e mãos buscassem um apoio esse apoio não existiria
e mesmo que um beiral de varanda se avizinhasse os dedos não
conseguiriam segurá-lo segurando o imenso peso de um corpo que vem caindo de
muito longe em distâncias e alturas
há uma impossibilidade presa nos futuros escuros que cada
vez mais se aproximam da superfície das coisas visíveis na imobilidade total
escuridão inexorável e profunda
então ela pensou incontáveis lonjuras cada uma delas
rastreando um lugar nenhum medições inevitáveis perdidas nalgum tempo sem
qualquer nitidez
viu a imensa noite chegando rodeando cada coisa do mundo
penetrando em fendas poros superfícies vazias de mistério e em como mesmo que
luzes se acendessem de nada adiantaria porque o que assombrava era o pânico de
que o ar faltasse de respirar pedir socorro sem nenhum som
era o mais completo abandono
ainda que vivesse centenas de anos incontáveis anos ela não
se esqueceria era não ter a quem recorrer quando os laços escuros da morte a
envolvessem nem para aonde estender seus braços aflitos nos tremores sincopados
instantes antes de a morte chegar
seriam seus olhos os que primeiros se fechariam sem
conseguir mais ficarem abertos depois sua boca e por fim seu peito iria se
esmagando em si mesmo sem nenhuma dor será como seria?
eram momentos quando todos à sua volta mortos para ela
mortos em suas cadeiras conversando banalidades na pia lavando a louça levando
o cão para passear
eram os mortos das músicas ouvidas no rádio
nas risadas do portão
então ela não se movia com medo deles todos eles mortos para
ela que percorria paisagens brancas de silêncio que desejava longe da rotina um
silêncio para sempre
depois muito devagar começava a respirar em silêncio no
morno mundo morto escondida embaixo da cama enquanto a procuravam pela casa
as mãos ficando menos geladas a cada inspiração afugentando
a neve que ainda embalava seu coração que havia sido depositada cautelosamente
pá a pá para afugentar algum calor que nele ainda haveria
seu pequeno morno quase morto coração
que bateria cada vez mais desenfreado até calar-se mais
ainda que barcos cansados de navegar dias inteiros sem chegar a qualquer porto
prendendo a respiração fingindo que podia matar-se a si mesma apenas com as
duas mãos uma na boca outra no nariz
mas hoje não hoje ela desejava viver completa e inteiramente
foi numa tarde de um dia assim que Sofia virou pássaro
um pássaro pequeno que contam ter de imediato procurado
seguir o rastro que o sol poente deixava no mar mas que a maioria afirma ter
visto voar ao contrário para cima sempre muito para cima na direção da lua que
adivinhada ainda nem surgira e era cheia
depois disso o que houve foi um corpo que não se reconhecia
em si como o corpo que havia sido houve as marcas na calçada na guia da calçada
na sarjeta
houve as marcas líquidas reluzentes nas flores do canteiro
da avenida no asfalto ainda quente como ela havia previsto dissolvendo-se em
tanto em tantas marcas incontáveis irrecuperáveis todas elas uma a uma
tênues transtornadas
não o pássaro
esse voava cada vez mais alto tão longe já do mundo das ruas
e avenidas tão distante da tristeza de existir do desespero das tardes de
abandono da solidão crescente que é viver
do medo ininterrupto de morrer
tão alto e etéreo assombrando-se de que finalmente
finalmente sim
luminoso seguiria
houve acasos e lembranças mas nenhuma saudade dos seus
tempos aflitos de ser gente que o sofrimento ia comendo dia a dia liqüefazendo
as beiradas da pele perfurando cicatrizes desigualando os contornos cálidos da
alma emudecendo cauterizando paralisando os melhores momentos do porvir
e o ar era uma névoa clara iluminada o ar era uma luz sem
sombras sem curvas sem esquinas dúvidas sem nenhum cuidado
o ar era um para sempre um que nem terminaria nunca
uma nem necessidade de aconchego ou precaução um
desligamento rumo ao de onde nunca mais retornaria
um desapego de tudo profunda definitiva impermanência
a lua estava lá nas sombras das montanhas nos contornos
espúrios dos prédios iluminando-se mais e mais nas janelas que se abriam
súbitas no desespero de continuarem suas vidas de janela conforme mais e mais a
noite vinha vindo
mas ela
iluminando-se a si mesma com uma luz tão própria tão nova
tão coisa de outros mundos à medida que caía
uma luz em que o fora e o dentro não se mediam mais no que
cada poro se dilacerava em pesada velocidade em difusa longa claridade em
miríades de luzes pequeninas pelo ar de ar envoltas numa névoa de não mais de
todas as pequenas luminosas coisas que não tem retorno pirilampos perdidos casa
adentro ao invés de ficarem resguardados no meio desumano da mata farto meio
correndo o risco de queimarem-se em lâmpadas e luminárias
sem conta
ao acaso de si mesmos ao acaso de tudo
era assim no quintal escuro de quando a noite descia inteira
que os mortos perambulavam com suas caras de estátua rostos sem expressão
fixados no de para sempre no que não mudava nunca porque ela sabia podia vê-los
senti-los com um arrepio intenso e demorado
o tempo havia parado para eles e mesmo seus movimentos
porque se moviam sem cessar eram movimentos pesados lerdos sem mudanças
abruptas eram coisa previsível vala comum de seres inconsistentes de absurda
existência
ela abria seus olhos na imensidão dura do quarto de quando
os lampiões de querosene se apagavam e o escuro penetrava nela pelas pupilas
tomando-se inevitável
não era medo o que ela sentia era um frio pungente e agudo
que começava e logo ficava intenso um terror vindo de dentro de lugares nela
sem nenhuma sombra ou som um tremor invisível que percorria seus músculos muito
fundamente dilacerando tecidos ocultos dos seus braços que faziam tremer seu
próprio coração
porque seu coração tremia como se treme quando a temperatura
de súbito abaixa ou se sente ventar de lugares imprevistos
lugares de silêncio absoluto onde os sons se tornam pedra
tronco paredes de gelo desaparecendo carcomidos em si mesmos
era assim que ela se via
numa imobilidade gelada sem poder mais se mover
eram canteiros sem plantas o que ela podia ouvir roendo
entre os tijolos da parede do quarto eram momentos de um obscuro passado era um
chamado sem frestas o ar corria calado
em suas entranhas fechadas como um vento gelado que chega afastando portas de
mansinho balançando cortinas envolvendo a pele num poderoso invólucro invisível
durante muitos anos tinha sido assim acordar abrir temerosa
os olhos e só a imensidão escura sufocante se fechando sobre ela em telhados
paredes de um futuro inevitável assim como quando chega a primavera e pássaros
voam muito alto juntos ou descompassados em seus ritmos próprios bandos de
andorinhas em alvoroço nas manhãs ou maritacas
medo de descobrir-se encurralada sem nunca mais poder se
mover
ela pensava que um dia teria que ser um dia assim como hoje
que um dia haveria de acontecer o que estava acontecendo sem
mais nem menos isso ela em plena
liberdade no imenso espaço azul
como eles pássaros envolta numa luz dourada própria dos que
estão para partir
num lugar sem cantos porões portas rotina corredores
ela não se esgueiraria sozinha de tudo perseguida entre
visões de mãos calçando luvas para mais e melhor punir entre olhares frios
cercados pela palidez de um rosto pela disfarçada maldade de um rosto
não percorreria mais corredores estreitos sem saber se das
molduras dos quadros sairiam bocas aflitas implorando por socorro
nunca mais teria que acordar em espaços sórdidos portas
entreabertas luminosidades azuis e a fumaça de um cigarro esquecido no cinzeiro
não mais o cheiro do cigarro dele de suas mãos de veias azuis que procuravam
sôfregas as pernas dela no cheiro disfarçado entre a pasta dental e o álcool
como se não estivesse nunca ali sendo sombra fantasma perdição
nem o desejo proibido dele nem os segredos nem as trevas da
sua garganta de seus pequenos dentes perfilados num disfarçado sorriso de
assassino
nunca mais caminhar pelas alamedas temendo as mãos que a procurariam
dos arbustos que a forçavam a olhar sempre para trás desconfiando de um rosto
uma sombra um menino
fugir do futuro era o que ela mais queria do futuro negro
que a esperava na porta entreaberta na janela da sala sem nenhuma proteção dos
fantasmas que só ela via
dos rigores gelados de cada um dos invernos falidos no qual
não poderia imaginar-se dançando no ar luminosa envolta na luz macia desse
entardecer que viveria por fim livre de tudo de todos tão leve tinha se tornado
muito mais leve que o ar
não seria esse apenas um desejo de desligamento de cortar
amarras uma visceral necessidade de se livrar do peso do corpo no qual a vida
se fazia diária previsível apequenada era um experimento definitivo arrojado do
qual ela sabia que não poderia se arrepender era tocar no sem volta no fundo
denso do mistério de não haver mais tempo era navalhar o tempo dilacerando-o
sem pudor nem culpa
era vislumbrar o segredo do infinito infringir todas as
regras desobedecer a seqüência clara das coisas do mundo suas leis
dessa maneira tudo se tornaria claro informe indolor abrindo
pontos de luz onde o horror se instalara ano após ano onde o sentido da
existência e da não existência das coisas mostrar-se-ia enfim por inteiro
de novo a gaivota voa boiando sobre o mar
num vôo lento que não toca nada apenas a levíssima espessura
que a sustenta desenha solta a textura do oxigênio
de novo o barco deriva-se no balanço grande das marolas
enquanto o domingo continua cumprindo o destino de todos os domingos suas
notícias a preparação para mais uma segunda-feira mais uma semana
o homem que conseguiu chegar perto dela conta que seus
olhares se cruzaram no ar claro que seu sorriso não o deixou dormir um sorriso
de tudo o que não dizia o mais ardente como fogo antes de estar aceso um fogo
que existe apenas na memória de uma existência que ainda se prepara para ser
um vir a ser de um hipotético futuro
de seres que ainda não vieram à luz
uns olhos em chamas como se derretidos por cansaço da tanta
paixão de estarem vivos iluminados iluminando-se a si mesmos pela própria força
nem era um sorriso de gente ele repetia era mais
era mais
era um sorriso que sem se decidir já estava decidido a se
diluir no vento tornar-se parte do momento de voar exato momento antes da chuva
cair do cheiro da terra começar tão seca a receber a chuva ainda pouco antes de
chover antes dos ventos raios e trovões
sorriso que era memória de outros nunca acontecidos à mercê
do que não existia era tentativa de ser
algo ainda sem invenção vivendo apenas na memória de seres
futuros
e os olhos eram olhos que já não queriam mais sentir nada
logo olhavam diretamente sem desejo sem orgulho nem qualquer curiosidade
olhos que desmedidamente olhavam límpidos enormes
vazios de si mesmos como os olhos de um recém-nascido muito
velho pouco antes de ir embora retornando ao morno útero da terra
ela era uma velha encostada no parapeito da porta de uma
casa pequena de rosto esmigalhado pelas linhas intermitentes das rugas
uma velha de olhar de vidro que tivesse sobrevivido a muitas
vidas que vivera ali sempre ali sem mesmo saber o que existia para além da
curva da estrada
era uma velha ela sabia que chorava dentro de si mesma como
uma fonte ininterrupta que viraria pó na beira de uma rua que nunca pudera
percorrer eram muitas as vidas que se preparava para abandonar
esta era a não ela a que ela não seria em lugar rua trajeto
nenhum
antes rasgar seus olhos para que não se tornassem baços
cegos falsamente tranqüilos como os dela velha que mesmo sem enxergar
continuariam a se abrir cada manhã para nada
sem nem mesmo saber porquê
depois sonha com ralos abertos coisas quebradas alucinações
que sua mão empurra lembra de mãos inúmeras mãos que a procuravam no escuro de
quartos imaginados ruas desertas madrugadas assombradas
via dentro de si mesma o coração bombear o sangue podia
fazer isso do mesmo modo como via os livros enfileirados na estante as
persianas fechadas antes de dormir
poderia pintar essa cor antecipada do próprio sangue se
preciso fosse desenhando cada uma das veias seus trajetos as pequenas as
maiores como pintaria ruas avenidas parapeitos cercas a mesa da própria casa
via suas entranhas o ar que se apertava nos pulmões a saliva
que engolia os músculos que se alongavam e encurtavam a cada passo o coração
disparado bombeando sangue cada vez num ritmo mais louco crescendo diminuindo
num ruído seco de pequenos esguichos assustados
via a grama do pasto numa certa manhã antes ainda do dia
nascer molhada pelo sereno da noite dizendo a si mesma isso desse modo mesmo
como escrevo orvalho enquanto seus pés percorriam a aspereza seca do cimento
eram as casas que ela via na distância mas entremeando-se
umas às outras como se recortassem pedaços de vidas dias mais felizes uma hora
num fim de tarde qualquer quando o sol entrando por uma janela embaçada traça
pontos isolados sobre os móveis brancos da cozinha
casas entrecortando-se no fio de dias azuis dias fechados
pela neblina quando o mundo se envolve em si mesmo como numa concha esquecida
para proteger-se do futuro para fingir esquecer que não se detém o tempo danado
de estar toda hora passando todo minuto sempre
Sofia via as casas em que morara não as casas propriamente
via de um lado no qual nunca estivera em outras perspectivas como posta de um
modo que negava os outros que se contrapunha às manchas delicadas nas paredes à
tinta branca que se deixava ficar entre riscas desbotadas pelo sol
como se as visse pelo avesso
via as casas como se morasse no fundo de cada um dos tijolos
como se já estivesse oculta nos canos nos fios elétricos nos fios telefônicos
no estuque nos caibros no cimento
emparedada na idéia que alguém teria tido dessas casas antes
de construí-las
muito antes
enquanto eram um projeto de casas sem paredes nem nenhum
utensílio nem desenho pensamento que principia a se esboçar sem nenhum papel
mais que isso como se pudesse ver como seria uma casa em sua
extraordinária mudez nua no arranjo de seus móveis entre os quais alguém
passaria distraído do passar do tempo sobre ele sobre as coisas
mais
via a casa debaixo dos diversos assoalhos quentes frios
grandes esparramados sobre o chão apoiados em vigas incompletos antes ainda de
que pudessem existir
podia ver
como se os anos se acavalassem loucos em torno do seu corpo
como se os anos se tornassem matéria viva como se pulsassem de novo trazendo
tudo luzes cores cheiros sons estuque cal cimento argila
tudo de novo
entre seu corpo equilibrando-se no céu de um único evidente
perfeito dia azul
contam aqueles que vieram a depor que ela parecia um ser
encantado nunca uma mulher tão nítida ao mesmo tempo enfumaçada contra o céu
opaco tão difusa como a luz do outono um ser que olhar humano algum conseguiria
fixar
nenhuma foto uma pequena menina
afirmam que seu olhar muito depois de ter tido olhos era um
olhar ainda olhava plácido terno inesquecível sobre a baia sobre cada gaivota
como se tivesse se protegido em algum lugar desse mundo mas num mundo sem o
tempo que permanecesse como as lembranças que continuam as mesmas mesmo quando
se lembra delas dezenas de anos depois como imagens que existem de modo
independente em algum recanto de nosso corpo nem propriamente nas células mas
numa resplandecência num halo natural das coisas mais constantes e
imateriais
antes disso
eram pedaços de um só horizonte eram nuvens esgarçadas eram coisas que não
nunca se juntavam eram vozes que não se queriam ouvir eram rostos em desarmonia
que não a amavam sequer sabiam amar
eram peles que não poderiam ser tocadas naquela tarde que
não se acabava nunca peles crestadas amortecidas sem brilho algum como de cera
como pertencentes a anônimos velhos cadáveres
o futuro estava ali na brisa que resvala nas quinas nas
retas do concreto na murada do edifício
Sofia fechou os olhos só um pouco escorrendo um dos pés para
a beirada bem fina do pequeno muro quase como num carinho era um lugar ela
sabia onde nenhum pé humano havia pousado nessa desfaçatez em que se via nesse
ato que poderia ser o último nesse espaço entre fazer e pensar o que fazia
sozinha de tudo de todos sentir a brisa leve
estava cada vez mais consigo mesma sendo puxada para idades
imemoriais e ardentes idades lugares entre o gelo as crostas de gelo de uma
neve sem fim
bem no princípio de todas as coisas
ele olhava minhas pernas eu era ainda pequena depois os
seios eu não gostava
mais tarde no vão das portas entrando no banheiro quando eu
ainda me vestia perguntando se queria ajuda com seu sorriso de cão suas
bochechas de cão seus olhos caninos sem brilho
ele me perseguia silenciosamente pelo apartamento fazendo um
café quando eu estava na cozinha encostando-se em meus ombros quando eu lavava
a louça tocando minha cintura com suas patas macias perfumadas
nem sei nem para que me lembro bem disso eu olhava o mapa
mundi da parede do meu quarto e imaginava um bem longe um tão longe para ir que
o desconcertasse que ele não conseguisse me seguir que o fizesse ficar pelas
esquinas lambendo-se desavergonhadamente
ir eu queria para lugares desolados onde ninguém ainda
pudesse ter chegado lugares de fronteira entre muitos lugares pedaços trechos
de estrada sem referência que não existissem nos mapas que sequer tivessem sido
nomeados
não só para fugir dele que isso ele aquelas coisas já eram
muito pouco
para ser só eu mesma ser sozinha ser uma coisa do mundo com
minha vida como as das outras vidas mato qualquer planta uma flor algumas
pedras a terra que se prende às raízes de todos os tamanhos e espessuras o limo
das pedras a umidade debaixo das folhas secas crestadas no sol de muitos verões
deixar-me cair deixar-me ser derrubada em abismos sem
ninguém ou que me derrubasse eu mesma tanto faria a paz do nada visões de
campos em flores miúdas de sementes brotando debaixo da terra de ermos da lama
de debaixo dos lagos do chão dos lagos do fundo dos mares e dos pântanos
ser como tudo que se oculta vivendo histórias de seres e
coisas muito escondidas
simplesmente glicínias com seus frágeis cabos como nesse
momento sem nenhum futuro ela via
esse filhos
um dia eu disse
não poderiam existir nesses anos improváveis nesses dias
incertos que por certo serão os meus
esses filhos não veriam luz nenhuma não teriam mãe que os
embalasse nem seio quente à espera de suas bocas famintas
nem existiriam filhos que eu pudesse portar pelas ruas
caminhando devagar nem ver crescer esperar pelas febres pelas noites mal
dormidas
ninguém
percebo-me tão fartamente viva que me sinto nunca como os
outros movida por uma assustadora fatal vitalidade como se não me coubesse em
mim mesma como se não me coubesse nesse mundo de todos como se sofresse mesmo
de um irrefreável excesso de desejos que não podem ser saciados
desejos brandos brancos de ser nada
sonho com a inexistência deles como se o futuro já tivesse
chegado e acordo com a boca seca arranhada por um gritar sem sons um suor
desconsolado esparramado pelo corpo
nenhum destino desditoso
o meu destino nenhum deles herdará
sonho com seus muitos olhos me olhando na mansidão das
tardes quentes querendo nascer com seus passos pequenos desequilibrando-se pelo
chão da casa ensolarada na qual jamais morarei com as palavras que nunca serão
ditas com tudo que não deverá existir
nenhuma mãe eu serei
pressenti o rosto dela esvaído de tudo pensei do improvável
futuro onde me encontro aonde nem existirei que talvez tenha sido melhor assim
a não vida a que não se desenhará nem encontrará caminhos para chegar crescer
desenvolver-se para então só então depois muito depois retornar ao nada aonde
me encontro ainda aonde me encontrarei sempre para poder ver como em filmes
muito antigos o futuro que nunca teria
a mãe que seria a minha um esboço qualquer de vida que se
preparasse e mais longe ainda nesse futuro branco que eu pudesse ter tido
uma luz sem calor uma luz difusa tênue macia como a de uma
estação inesquecível e eterna sem qualquer lembrança cuja memória nunca haveria
de ser preenchida de verdade
pois de tudo o que me parece mais estranho é essa não
existência incolor como que uma nostalgia rondando aquilo que nunca aconteceu
nem acontecerá
Sofia pode reconhecer
pela transparência das grossas paredes o louco que grita nas madrugadas um grito que se repete sempre o mesmo numa
desesperada monotonia pode niná-lo acalmar seus gritos que ouviu a vida toda em
pensamento olhar fundo nos seus olhos enxugar o suor de seu rosto sempre lívido
aquietar sua profunda solidão de morto em vida de excluído dos seus desde que
nascido
solidão de homem inexplicável
o homem tateia as paredes grossas do quarto escuro pressente
a presença dela do outro lado de tudo fareja a morna respiração acelerada
através dos grossos tijolos sente o calor que passa por debaixo da porta onde
uma luz de vela clareia só um pouco
seu rosto roça os tijolos escorrega suas unhas racha suas
mãos na emenda do cimento tropeça prossegue mas Sofia muito longe existe
pensando nele em todos os anos em que não o conheceu em que passou pela rua
esperando o arrepio do grito o pavor do grito como se o ar se povoasse de
minúsculas partículas de seu sangue emparedado e volátil
as janelas do quarto dele eram de madeira maciça sem nenhuma
fresta por onde entrasse alguma claridade ali a vida se escondia na escuridão
mais atroz e se enterrava num quarto sempre trancado
o passado o futuro vão se entremeando em diálogos nos quais
cada vez a voz vem de alguém impossível de alguém que nunca esteve perto
nada da realidade tem voz tem voz o que não foi possível ter voz como
encontros nunca acontecidos como se essas pessoas e lugares existissem em
paralelas do tempo tempos lugares onde seria sempre impossível ela continuando
ali numa vida sem fim nem começo como os mortos que não conheceu ou os filhos
que não teve nem terá que ainda esperam por ela em algum lugar do passado ou do
futuro
mas que nunca a encontrarão
saber do antes
antes de subir antes de pensar em subir antes de ter certeza
de que seria capaz de subir
depois saber o que do que para que as pessoas com suas
histórias seus depoimentos possam ter sua fala difícil controvertida assustada
desejosas de que tudo se acabe de uma vez para que se possa voltar ao de todo
dia aos problemas pequenos que nos consomem a vida à rotina que nos escravizará
até nosso último suspiro
o depois sem sentido visto que foi o que se viveu as flores
o choro o dia raiando entre os gritos de bandos de maritacas os olhares que não
se olhavam buscando respostas que nunca seriam dadas conversas no entre e sai
dos corredores gelados em busca de um café a estrada o sono na estrada os olhos
inchados de chorar
sentido nenhum a ser perseguido nunca
um copo de vinho na madrugada longa um amanhecer diferente
dos outros quando tudo revela-se cruelmente material e concreto a fome a
vontade de ir embora a necessidade de se tomar um banho dormir um pouco
ignorando as quaresmeiras floridas
seria imprudente tentar uma geografia da dor
pensando nisso porque pensou destacada no azul imenso de si
mesma essa frase grandiosa sorriu
uma geografia da dor seria o que?
sozinha de si e do mundo sem saber o que seria geografia
mapas de lugares relevos profundidades de mares fossas abissais cumes coloridos
picos nevados seres que em tudo estão de todos os tamanhos vivendo para que?
porque os momentos em que uma dor profunda procura seus
espaços num corpo desenham-se linhas oblíquas buscam-se vãos concêntricos
enovelados talvez montanhas entre abismos
células da mais entranhada solidão do ter-se que haver com o
que realmente somos sem apoio sem qualquer ajuda
linhas que se deslocam em várias dimensões imprevistas
esgarçadas absurdas desencantadas de si mesmas como se se construíssem à medida
que a dor vai se dando a conhecer deslizando dentro possuindo músculos corrente
sangüínea garganta soluços doloridos pensares dolorosos sobre o que esperar de
cada dia
à medida que tudo progride inexoravelmente
há uma geografia da dor que vai se firmando em traçados como
que se construindo em gestos montanhosos sorrateiros abismos vigorosas
planícies ilhas distantes vendavais
uma geografia cataclísmica
depois desistem as calamidades físicas de se tornarem reais
recuam como se escondendo envergonhadas de sua tão material ligação com a terra
porque a dor pode ser encarnada no silêncio insidiosamente
nessa talvez mais perigosa ausência de sons
ora um braço se move numa certa direção numa direção muito
curta buscando o gesto impossível quando o corpo se retrai um pouco num mínimo
movimento e a cabeça oscila como se fosse inacreditável viver
depois a outra mão busca um apoio invisível em pleno ar como
quem pede socorro mas muda de intenção
uma perna tenta um passo ensaia sair dali mas flexível se
dobra em si mesma tropeça no tecido diáfano de brisas mornas subitamente
aparecidas
e despenca
tão inacreditável viver em meio às memórias dolorosas que
parecem nunca ter sossego memórias inconformadas de serem apenas isso que hoje
são respingos de pequenos restos do que já passou foi perdido desvaneceu-se em
si
parte tão calada a vida tão todos gestos tudo que se esvai
torna-se fiapo de outra coisa inacabam-se uns nos outros em impossíveis
caminhos
interrompem-se voláteis na escura sombra dos dias um a um
misturam-se interceptam-se entre sombras pedidos urros
contravenções
volatilizam-se os dedos que buscaram alongando-se todos ao
mesmo tempo toques impossíveis
espaçados espaços encantados
envergonham-se de si
perdidos
como criancinhas
foi assim
houve uma certa hora em meio a esses pensamentos que alguém
entrou bem devagar na cobertura do vigésimo quinto andar
era alguém de quem ela adivinhou o porte sentiu a presença
como quando se pressente algo que se move no breu mais absoluto
notou tudo isso sem poder se virar nem olhar para trás
como se de súbito uma lufada única de um vento único se
aproximasse
uma porta que se abria muito silenciosamente
silenciosamente demais para ser real para ser crível para
não oferecer nenhum perigo olhos que a olhavam com intensidade letal mesmo de
costas ela adivinhou
era um frio imenso que chegava de lugar nenhum que pudesse
ser olhado um frio sem cor que era como que uma neblina uma geada
esmigalhando-se contra paredes fios dos postes barcos ancorados uma geada opaca
invernal e insuportável
Sofia olhou a tarde embranquecendo lenta à volta toda dela
numa tristeza aprisionada em cantos que nunca foram cantados
mas havia sim uma canção uma só canção dentro dela mesma que
insistia em ser lembrada uma perfeita e única frase musical que poderia resumir
de imediato toda vida que fora vivida
mas ela não se recordava patinando em tons de outras
melodias que se misturavam uns aos outros
no medo intenso do homem a porta aberta atrás de si a tarde
descendo em sua lentidão pela primeira vez ela compreendeu com todos os
sentidos que não era a tarde que descia era a noite que subia do horizonte
sufocando a tarde estrangulando a luminosidade mansa e lentamente
o escuro vinha do horizonte de traços retos contínuos que
iam se avolumando abraçando o mundo
era o escuro que empurrava o dia para nenhum lugar
mas a frase perfeita ainda não estava lá
sem poder cantarolar nenhuma nota percebeu que as lembranças
não estavam mais nela não haviam ficado à espera de um derradeiro chamado seu
ah! as lembranças já haviam partido espalhando-se pela terra
pelo vento das tardes pelas folhas dos coqueiros pelos pneus dos carros que
passavam pela vizinha gritando da janela pelas velas longínquas que deslizavam
pela barra em mares mais ou menos profundos
as lembranças corriam do seu corpo abandonavam-na com
delicadeza desmembrando-se em espaços ocultos como algo que a ninguém cabia
conhecer tinham sua vida seu mundo de lembranças que era um mundo perdido muito
longe dali um mundo que nem pertenceria mais decerto a esse mundo
havia um lugar só para o recordado
um lugar que a ninguém pertenceria
no momento do seu salto o mar chegou súbito
desenhou-se salgado pelas areias invadindo desaforado as
ruas
lavando as calçadas assustando as pessoas que a olhavam lá
de baixo
foi dessa forma como conto
o mar subiu rápido sem explicação com suas enormes ondas
fazendo com que o corpo de Sofia fosse tragado pelas águas transparentes
levando-a para muito longe dali aonde jamais poderia ser localizada
carregou-a em suas correntes frias constantes entre corais e
peixes para nunca mais ser vista ou encontrada por ninguém para que em silêncio
no silêncio mais profundo que une mortes e mares pudesse se desfazer entre
algas reluzentes entre miríades de estrelas do mar entre campos de flores
aquáticas
para enfim tornar-se ela mesma mar para correr pelo mundo
sem nenhum cansaço ou pressa cercar as pedras escorregadias de suas beiradas
bater nas escarpas rochosas ou lá deixar crescer os mariscos abraçando-os em
movimentos calmos longos ritmados e constantes
para abrigar milhões de peixes em seus cardumes coloridos
carregar navios em suas rotas barcos leves canoas
existindo tão somente una para sempre
para que seu rosto fosse recriado a cada vez que nela
pensássemos para que precisasse ser inventado cada novo pôr de sol essa hora
tão de saudades feita continuando assim viva em cada um de nós que seguiríamos
lembrando de suas risadas seu jeito afoito suas infindáveis aflições
lisas são as paredes liso é o concreto mais alto retas são
as linhas que envolvem essas moradas nas quais passamos nossas vidas umas mais
curtas que outras
mas há em tudo isso um pássaro chamado mãe da lua será
preciso que Sofia mesmo morta nunca se esqueça a mãe da lua chora na noite
clara
olha para o céu vela murmura seu canto triste nessas noites
de lua cheia enquanto ouvimos as cabeças cobertas de pavor seu gemido doloroso
como se soubesse coisas que queremos esquecer incríveis demais para serem
lembradas
um instante antes de deixar-se ir Sofia soube de suas muitas
vidas posto que as vidas paralelas são assim imprevisíveis e não seriam
diferentes no seu caso soube delas com a lucidez que só o momento da morte traz
vidas sem começo ou fim nenhuma finalidade sentido nenhum
o olhar é líquido os olhos transparentes duas leves líquidas
bolas riscadas de pequenos raios de ligeiros sóis ungidos como estrelas
girassóis que bóiam no vento estáticos sem nenhuma raiz
os olhos dela não têm raiz não sabem mais de onde vieram nem
para onde olhar não sabem calados dizer nada
vêem líquidos que são apenas do mundo o que se escondeu
olhos do escondido das coisas que não estão para serem
vistas nunca por ninguém que enxergam mesmo fechados a dura opacidade de
volumes e cores
seria necessário que pensassem temporais deixassem existir
dentro de si mesmos a fina curva dos riachos pequenos fios de intermitentes
cachoeiras
cachoeiras estáticas como sombras dentro dos seus olhos
cristalinas águas
ela não via o que estava ali já via agora tudo o que não
sabia do que não tinha conhecimento era desse forma simples e quieta que tomava
ciência da existência das coisas
que se apercebia sozinha de tudo
tudo muito mansamente olhos vítreos fechados vendo mais que
isso se apercebendo ao mesmo tempo das coisas de antes das que viriam depois
muito depois dela ter-se ido
soube assim que noite e dia existiam juntos que a ilusão
consistia em separá-los que todas as estações eram a mesma redonda estação que
o horizonte era um só à toda volta
soube que estava para sempre una ao seu nascimento e ligada
à própria morte em seu cordão umbilical e todo o horror dela se esvaiu
cabelos finos fartos lisos boiando no ar condensado de
infinitos redondos futuros
estamos em pleno ar
a queda era lenta como se não existisse chegada lugar aonde
jamais estar
e com ela despencava a noite voltavam os homens do mar tudo
dançava
um dia numa noite em algum lugar ela sonhara um sonho que
era assim arremessada em pleno ar pequena sem nem poder se segurar no vento
amargo no calor atropelado das muitas
inacabáveis noites mal dormidas num tempo que não terminava nunca enquanto ela
se debatia tentando inutilmente acordar caindo sem parar em espaços
desconsolados sem poder segurar-se em lugar nenhum ninguém
e gritava no desespero da queda mas nenhum som mais havia
que a socorresse nem sequer um balbucio um gemido
no sonho seus braços se alongavam procurando algo onde se
agarrar algo com suas mãos de menina rasgavam o ar em busca de um o quê de
qualquer pedaço de qualquer coisa
seu corpo não se encontrava mais em si mesmo sem limites
eiras beiras seus dedos
como poderiam?
tão pequenos na dor do de repente dos espaços espasmos não
tecidos de não se alojar em canto algum
Sofia pequena caia na vertigem do sem fim numa velocidade
que era como uma armadilha longe da janela estática provocante tentadora lá de
cima sem saber se a observavam se alguém teria gritado ao vê-la despencar
então outra noite outro sonho sempre igual só mudavam as
casas as paredes as janelas mas o abismo sempre ali sem grades a protegê-la de
si mesma sem redes colos nada
ela jogada num vazio de objetos num espaço sem fronteiras
nem nenhuma esperança braços que a empurravam violentos em qualquer das manhãs
abruptas de sua curta vida
depois subitamente anoitecia e o céu coalhado de estrelas
era o céu da sua infância enquanto andando por estradas poeirentas segurava
firma a mão de sua mãe céu coalhado de estrelas e ela enxergava o leite o
coalho o queijo recém colocado no mármore branco da pia
céu enorme que não podia impedi-la com suas nuvens passando
altas com suas chuvas repentinas de flutuar de envolver o mundo em outro mundo
molhado tornado névoa úmida
era nesse céu estrelado que ela flutuaria sem corpo sem peso
abstrata
mais uma noite mais um sonho sem janelas
sem qualquer palavra escapando da garganta fechada sem
qualquer sinal ela abstraindo-se de si mesma pensando na falta de oxigênio de
mundos novos na falta de gravidade que a libertasse da terra e a fizesse ir-se
como uma pipa céu afora linhas cortadas volta nenhuma poderia
num corpo libertado de tudo aonde a morte apenas houvesse
resvalado não moraria mais nenhuma dor lembrança subterfúgios de amores
roubados de outros amores havidos em outras dimensões
nesse não corpo feito de florestas sombras fantasmas do
nunca havido é que se esconderiam pensamentos sem dono desejos que vagam no
éter na profundidade de mares ainda inexistentes nunca dantes compartilhados
porque sem dúvida o inexistente sempre se aproximando torna
turvas as madrugadas cheias de neblina as curvas dos prédios suspensos na
colina torna outras as coisas que se vê torna o ar difícil de ser respirado
torna chumbo o que é leve gasta o que é
abundante em sombras e insistentes nevoeiros
então ela transformaria tudo numa perfeita desconhecida
nunca lembrada frase musical aquela que deslizaria feito ar entre as faces ocas
do seu pulmão que tocaria trêmula seus músculos abrindo-os de dentro para fora como
flores que se abriam nas madrugadas sonolentas em lugares onde ninguém nunca as
olharia
a perfeita porque única frase cantarolando dentro do seu
cérebro evitando tornar-se real no instante absoluto ela podia ouvi-la correndo
em meio à aflição do seu sangue acalmando o peso do seu corpo que já adivinhava
quieto a queda como que inventando-a dentro de si mesmo preparando-se para esse
esfacelamento que mais e mais se avizinhava
viver sem isso como poderia?
viver sem ele
enfim ela podia pensar nisso sem enlouquecer sem querer
rasgar-se com as próprias unhas pondo-se a nu direta e dolorosamente com suas
próprias mãos
sem ele sem tornar palavra o que sentia ser impedida de
deixar nascer essa palavra nunca dita para que o mundo ao seu redor se
acalmasse como uma pequena criança que dorme fazer dormir o mundo com seu canto
de ninar nunca cantado romper fronteiras rasgar os mapas tirar as linhas
divisórias de tudo que dividido se encontrava perceber novas tonalidades em
qualquer amanhecer de qualquer parte do planeta assombrar-se ao entender todas
as línguas conversando em qualquer dos idiomas conhecidos passear sobre águas
mares gelo pensar montanhas e arranha-céus deixar-se ser perpendicular a tudo
linha ponto final de uma tarde cinza ainda não vivida
não sofrer mais
viver sem ele tão sozinho como poderia
viver sem pensá-lo sem colocá-lo dormindo entre as suaves
linhas dos seus seios tocá-lo no sonho de antes de dormir beijar sua testa
quente aconchegar sob o cobertor suas mãos frias seus pés levantar-se correndo
ao ouvi-lo chorar desprotegido
não viver sem ele não lembrá-lo mais entre as flores deitado
pequenino calmo para sempre como uma pedra que se embrulha e depois se esquece
nunca mais ter que lembrar o dia em que debruçado lhe sorriu pela última vez como
que pedindo antecipadamente desculpas para então escorregar não ter que
sustentar essa imagem no de para sempre não ter que enxergar toda a vida o que
não era possível mais evitar não conseguir ouvir outros gritos rememorar outros
sorrisos tocar outro rosto afagar outras mãos tentar cobrir qualquer corpo nas
noites frias
não olhar mais para as coisas à procura do sentido fugido
não ter jamais que conviver com amanheceres azuis vazios como o nada não
possuir mais o instante da inspiração não saber de outras épocas ignorar o
futuro com sua solenidade de não acontecido seus ares vagos suas probabilidades
e incertezas
sobretudo não desejar mais conhecer o futuro
não querer futuro mais nenhum nenhuma vista a ser vista de
janelas altas nada a ser olhado contemplação nenhuma nem desejo
ser insana sim fazer a escolha que a ele não foi dada
decidir-se na calma vertigem das horas que se aproximavam pelo andar que
terminaria na curva do muro seguir em frente pisando no nada despencando porque
sim porque só assim faria insensata companhia ao já perdido conheceria a dor de
cair saberia como ele soube que não haveria nunca mais o mais tarde o outro dia
o outro instante onde ele poderia ter se segurado mais firmado seus pés quem
sabe entre os pés da cama gritado socorro amarrando-se para não ser jogado no
ingrato ar da tarde desconhecendo de uma vez a frágil idéia da esperança
definitivamente desacreditar
a chama de uma única vela única na escuridão mais escura
aquela onde os olhos se abrem e se fecham rápidos buscando mais uma réstia só
mais uma de luz
nada
numa escuridão dessas sem lua sem estrelas nenhuma lamparina
ao longe um cigarro que se ilumina às vezes o que sentir o que procurar sentir
isso que é um corpo que tem medo desde que nasceu posto que não há nada mais
certo que o destino dos corpos que respiram sufocam se afligem no silêncio dos
que não tem como gritar
temer a dor as doenças a morte temendo o inesperado o dia de
amanhã os próximos anos sofrendo por antecipação porque o que se sabe é que um
dia a escuridão virá como um farol que se fecha de repente não se abrindo mais
para ninguém passar
nem com as reverberações de um tiro no silêncio da madrugada
quando abraçamos nossos travesseiros suados agradecendo as paredes as portas
fechadas as casas de então
nunca mais a casa o sossego a paz da casa
noites apenas sem nenhuma vela acesa
sem nenhum amor
na janela da cozinha ela viu a luz recortada do outono
a luz passeava pelo amor-perfeito descia pelas roupas
dobradas na mesa de passar percorria os ladrilhos até o começo da sala
deixando-se então desaparecer muito delicadamente um centímetro outro
centímetro cada vez mais fraca até deixar de ser luz ser apenas um traço muito
fino um pingo de claridade que vai se dissolvendo como que em si mesma enquanto
cede lugar à noite que se anuncia inexorável
ela queria ser essa luz que vai se deixando alongar em
poucos pontos escuros até que ninguém mais se lembrasse de seu nome de que um
dia existiu um nome pontilhado primeiro em sílabas depois em letras mais tarde
em traços que no apagar-se iam sendo despedidos despedindo-se em murmúrios e
canções
desaparecer no ladrilho da sala de uma cozinha qualquer onde
ninguém sequer reparasse em sua existência em seu leve desaparecimento de
réstia de luz num fim de tarde qualquer sem ruído sem deixar nenhum vestígio
Sofia sem desejos desejou o que não seria nunca possível
desejou não ter nascido pois nem a primavera com suas flores
o dia a dia com seus pequenos prazeres nem o carinho os afagos nada valia ter
existido porque o desespero de então um desespero ela sabia de apenas tão
simplesmente ter nascido sem mais sem porquê estar seguindo um dia uma noite
após o outro como se não se pudesse escolher como se tudo fosse inevitável
ela não devia ter nascido para sonhar para pisar os pés na
areia fria da praia para chorar quando escurecia para temer a morte a cada dia
e sempre
na hora de morrer o tempo para
me disseram um dia
sendo mesmo assim foi o tempo que deixou primeiro de
escorrer
também ela quedou imóvel olhos fixos na linha do horizonte
para melhor se equilibrar
tudo nela parou
o movimento imperceptível dos olhos
os lábios e seus ligeiros tremores
a respiração
o pulmão guardou estático o ar que havia dentro dele em cada
uma das suas ocas cavidades
o sangue estancou nas veias contraídas
só então depois de um longo momento sem tempo no qual pôde
sentir-se plenamente viva
saltou
lembrou-se caindo que seria mais belo ter esperado um pouco
mais pelo pôr do sol para sentir-se cortando o ar tecido de rosa embebedando-se
entre os tons diáfanos que pairam em todas as superfícies etéreas
e assim
distraída com esse único pensamento
sentiu saudade só daquilo que não conhecera
do que não tinha sido vivido
do impossível
o sorriso dela nessa tarde não se apagaria mais
o homem pensou em que trechos do vento em que pedaços do ar
esses lábios resvalariam na queda se sentiriam o leve frescor da tarde ou se
seria apenas o arrepio do adeus
se conheceriam secos transidos alguma última palavra
e pensou por fim exausto que palavra poderia ter sido essa
a não dita
caminhando para casa o homem que conseguiu chegar mais perto
dela para perdê-la definitivamente pensava fiapos de lembranças soltas sentindo
saudades de coisas inesperadas como do gosto do doce de abóbora da vontade de
tomar caldo de cana comer mingau de fubá
sendo assim sentou-se num banco da praia de costas para o
mar não sabendo se queria ficar ali até a noite chegar desconhecendo o que era que morava no escuro vão do seu
peito onde aquele sorriso de menina volta e meia se acendia arranhando seu
corpo por dentro como uma fogueira por demais preciosa para ser esquecida
depois soube que era isso esperaria sentado ali por ela por
mais lembranças dela de seus cabelos voando em todas as direções conforme
soprava no alto a brisa da tarde do silêncio dela ao cair sem um som sem gritar
se arrepender pedir socorro
quis que a noite demorasse a chegar para espantar o medo de
ter sobrevivido a ela de não ter conseguido segurá-la porque o escuro de depois
nunca mais seria o mesmo que antes desse sorriso noite abafada seria esse
sorriso transparente como se já viesse direto da alma ao ar translúcido surpreso
infantil
noite escura demais ele pensou evitando adivinhar quem
seriam as pessoas que nesse momento chorariam a falta dela
havia formas no mundo tudo árvores pedras prédios barcos
havia esse mundo visível que se desenhava reto redondo oblíquo que se avolumava
onde as coisas continuamente continuavam umas nas outras ao longo dentro das
outras
Sofia já não era
ousara quietamente em si mesma abandonar-se ao grande
desconhecido da morte apostando naquilo que não conhecia não via não podia
adivinhar
e nesse tempo que se seguiu à notícia da morte dela nenhum
de nós mais sabia ser com suas casas roupas pensamentos para pensar para
organizar dentro de nossas cabeças um motivo um momento um porquê que sem
entender perseguíamos
com ela tinham se partido de nós as esperanças como que
durante horas dias meses seguíssemos a vida porque ela nos puxava nos envolvia
em seus afazeres prosaicos tomar banho sair para o trabalho dizer bom dia ao
porteiro
mesmo seguindo nossas rotinas pensávamos seres voláteis
sabíamos que a vida não seria mais como havia sido até então que haveria
momentos tão vazios onde apenas pensaríamos peixes pequenos debatendo-se na
lama de riachos ainda menores ou em estreitas redes na agonia da morte
a vida andava apequenada e qualquer obscuridade nos
amedrontava
pensávamos coisas sem importância como caramujos se
arrastando na escuridão de alguma gruta como seres sem olhos vagando atrás de
comida em caminhos sem retorno
Pedro me disse mais tarde que ela conversara com a lua
nascente antes de pular que com suas mãos punhos dedos pareceu desenhar linhas
invisíveis extasiada em si mesma pela luz pálida da lua minguante quase nova
que ameaçava chegar disse também que cada final de frase que recitava baixinho
só para si mesma terminava em melodia que essas pequenas melodias compunham-se
sempre da mesma canção que eram como cantos de ninar de fazer passar o medo do
sono de evitar o medo de dormir que havia sempre uma mesma frase que quase
acontecia como se estivesse sendo procurada por ela tirada de um canto secreto
onde passara guardada a vida inteira Pedro repetia que eram frases era sempre a
mesma frase para a qual como se ela buscasse uma moldura em seu desalento uma
pequena frase musical que se repetia em tons diversos quase chorados contou que
a lua e sol foram seus últimos companheiros na tarde que desafiava lenta quase
que imaginando o por acontecer quase que evitando a inevitável chegada de uma
noite muito longa por demais
não havia mais nada só a reta do horizonte a linha desmaiada
do mar
no momento da morte de Sofia quando seus pensamentos afoitos
sobre o que havia sido viver desprenderam-se dela no ar úmido muito longe dali
e naquele exato instante sua mãe parou de fazer o jantar permanecendo largos
minutos com a concha de feijão suspensa acima da panela tomada por um
definitivo pavor
olhando o mar os pescadores baixaram seus anzóis sentindo
antecipadamente uma pesada pena dos peixes que iriam pescar
de seu desfalecimento nos anzóis
de seu debater nas estreitas redes de algodão
quando uma de nós gritou sem motivo conhecido soubemos num
golpe que algo havia acontecido com a nossa menina e antes de saber qualquer
coisa já chorávamos antes de atender telefones campainhas antes de nos
xingarmos aturdidos de nos querermos mal nos agredirmos para sempre como se
fôssemos culpadas com palavras que quotidianamente não usávamos
conta um pescador que aquela hora chegava do mar cercado
pelas gaivotas que o vulto que viu despencando era leve pequenino envolto em si
mesmo como um feto vestido de branco
como uma gaivota de asas machucadas que ninguém pudera amparar
que vendo isso passou a pensar sem nem mesmo perceber que
pensava como alguém podia abraçar-se a si mesma enquanto caía
quando muito tarde da noite ele chegou em casa cercado de
amigos estranhou que tivessem vivido ali os dois juntos pensou se seria
verdadeira sua vida olhando assustado as coisas dela em cima dos móveis um copo
em cima da pia o batom sem a tampa o cheiro de perfume ainda pairando no ar
tudo como se ela pudesse voltar a qualquer hora as roupas
coloridas no armário os sapatos e bolsas as compras da semana as frutas que
ainda não tinham sido guardadas esperando pelas mãos dela tão leves as mãos
delas limpando as folhas do alface escolhendo uma a uma as frutas os livros o
livro que ainda essa manhã ela lia na varanda o incenso de jasmim o computador
ainda ligado uma gargantilha jogada sobre a cama ainda desfeita como que à
espera de ser usada ainda essa noite
uma fantasia pendurada no cabide do lado de fora do armário
esperando a hora de ser vestida na noite de carnaval
então a ausência dela pesou sobre ele agressiva e escura
cercou-o com uma súbita falta de ar de chão de qualquer lugar para se segurar e
seus pensamentos sobre o que foram os dois juntos dia a dia com uma intensidade
de peles e sons noite a noite confundiram-no para sempre numa escuridão sem
remédio onde fúria e mansidão alternavam-se num desafiar a dor enchendo malas e
malas atirando coisas pelas janelas tentando despir-se daquilo tudo que nunca
mais poderia continuar a ser
a chuva contínua era uma cortina de água dividindo o fim da
varanda e o resto do mundo se houvesse só um mundo ela pensou
desde que estava velha passara a agradecer os dias chuvosos
seu silêncio e a nostalgia dos dias felizes era uma névoa que cobria aquilo que
nossos braços gostariam de novamente abraçar de vagamente sentir o perfume
espalhado em cabelos que não mais existiam em faces rosadas em corpos rijos
como se as lembranças tão nítidas fossem coisas que se coloca aqui ali que se
pode tocar deslizar pela pele até encontrar perdidas texturas sentir antigos
odores num longo mesmo que sonhado abraço
onde a saudade dói como uma ferida aberta
Sofia
a que tinha deixado de ser há tantos e tantos anos não havia
morrido inteiramente havia sido construída ao longo das décadas da sua ausência
havia como que permanentemente se reinventado como se vivesse mais ainda do que
quando estava viva de verdade havia percorrido nossas histórias sempre presente
menina com seus vestidos coloridos aparecendo e desaparecendo a seu gosto
imprevisível e ardente
nessas décadas em que não mais existia crescera em mim como
um duplo alimentando-se mais e mais das minhas próprias lembranças de tanto
nela pensar olhando em tudo seus olhos vendo em todos os sorrisos o seu sorriso
sentindo sua presença nos cinemas lotados acompanhando seu vulto jovem
atravessando a avenida chamando um táxi pedindo mais um chope as faces rosadas
de calor
e criara a cada ano acompanhando na história das outras a
história que poderia ter sido a sua escolhendo entre os diversos destinos
possíveis aquele que melhor lhe serviria
então ela teria tido outro filho e eu a via de barriga
empinada os seios endurecidos pela chegada do leite o rosto iluminado pela
alegria da maternidade das noites sem dormir para ver o filho dormindo no berço
quieto quase como se não respirasse ou respirando muito levemente
vivendo tudo diretamente sem orgulho nem vaidade admirada de
que a vida permanecesse cercada de mistério
podia vê-la caminhando pelas ruas levando seu filho no colo
mostrando a ele o vento nos coqueiros as andorinhas em bando com a chegada do
verão mostrando a ele esse mundo no qual trafegava humanamente como se tivesse
ainda um corpo
depois era uma outra história que súbito se construía e
Sofia se atirava no primeiro avião com sua mochila cor-de-rosa andarilha mundo
afora conhecendo o mais longe de tudo países onde a noite não vira dia e os
dias se confundem com tempos curtos de se viver com pressa de que a claridade
se acabe onde as casas tem cores muito fortes para os que as olham não
esmoreçam não se cansem de lutar saibam sempre que um dia há de amanhecer
andaria resoluta pelos corredores dos aeroportos sem olhar para
nós que acenávamos as mãos em despedidas aflitas olhos fixos em determinados
futuros
posso reconhecer nessa enorme distância que os anos garantem
fiz com que permanecesse viva através de meus olhos de meus muitos modos de
sentir a passagem dos anos a chegada de mais um neto ou o verão
quis que através do meu próprio corpo continuasse seus anos
de viva emprestando a ela meus olhos meus pensamentos leves para que
construísse para si um destino no entanto sem sofrer ter dúvidas desesperar-se
posto que a existência que lhe dei foi uma vida iluminada sem cantos escuros
nem porões vultos à espreita nas vielas ciúmes doentios invejas fulminantes
insuportáveis dores do depois nenhuma decisão mais a tomar
uma vida que progredia sem materialidade num nunca se acabar
de delicadeza e fartura tão intensa e imensamente delicada como um interminável
afago
às vezes conversando com ela no escuro do quarto aquietava
suas indagações explicando a verdadeira origem do mundo a fugaz precariedade da
existência e a morte dos sentimentos na correria das horas no desespero da
necessária sobrevivência
aproveitei-me da desculpa de ser velha inútil e louca para
caminhar com ela por becos sórdidos portos ensolarados museus distantes falando
sozinha sem nenhuma vergonha levando-a para conhecer o mundo que havia deixado
tão cedo e de modo tão brutal para que novamente pudesse ver o orvalho deixando
os campos infindos cheios da luz pálida das manhãs as estrelas surgindo uma a
uma o sol tombando no mar sereno para que fosse de alguma forma feliz sentisse
o sal da água do mar o gosto forte da azeitona preta
levei-a pela mão como se leva a filha menor apreendendo a
andar nas pontas dos pés como uma bailarina fazendo com que finalmente
entendesse sua brusca partida sua partida apaixonada causada pela urgência de
viver plenamente cada segundo
trago-a ainda comigo desvendando seu destino duvidoso
descobrindo os tantos caminhos possíveis em seu viver
impossível linha leveza absoluta
isso seus olhos negros largos amendoados me disseram certa
tarde
no início Sofia estava comigo apenas nas horas das
caminhadas noite adentro da minha insônia companheira de noites que escorriam
sem que eu me deitasse ou quando eu a chamava para fazer-lhe todas as perguntas
para as quais eu ainda não tinha obtido resposta
mas ela jamais me conta nada da sua não vida sendo vivida há
décadas desconversa ri joga para trás num só gesto de cabeça seus cabelos lisos
troca depressa esse assunto por coisas banais como se não estivesse morta fala
de um beija-flor que ontem viu no parapeito da janela da roupa de alguém que
saiu do cinema de como não há um mundo atrás desse mundo ou de como pode ter-se
perdido em matas mares tranqüilos e sorri enquanto me abraça chamando baixinho
meu nome com seus olhos de ver demais mais do que sempre deveria ter visto
olhos de não ver é o que tento ensinar-lhe mesmo sendo tarde
demais
às vezes como olhos de pássaro largos abertos fixos sem
pestanejar
não ver o que não deve ser visto sobreviver na superfície
apenas a leveza
deslizar
essas vidas que no entanto lhe criei não gosta delas não
quer que eu a vá envelhecendo com o passar dos mesmos anos que me fizeram velha
criando para ela vidas que não viveu
morri jovem me disse um dia desses nunca serei velha tia
como você
acho triste ficar velha você não?
e ri da cara que devo fazer com essa sua lógica perfeita
sei disso meu bem lhe disse certa tarde embaixo das
mangueiras foi quando descobri há muito tempo que os mortos nunca envelhecem
nesse momento já sou muito mais velha que meu próprio pai de você então nem se
fala
ela sorri e me aponta as nuvens negras que chegaram sem que
eu desse por elas enquanto corremos de mãos dadas pisando as folhas secas dos
abacateiros que estalam correndo para lugar nenhum rodopiando entre pés de café
afundando nossos pés na terra vermelha sem fim dos velhos desaparecidos
cafezais da minha própria infância
mesmo que ela não queira que fazer? logo terá netos sendo
sempre a mesma menina de peitos grandes empinados pernas fortes de correr
dançar subir em árvores fala um pouco rouca de falar demais fora de hora coisas
que não eram mesmo daqui alucinações repetidas frases sem pé nem cabeça nada
que pudesse enfim ser dito mas essa era ela antes de se ir
depois de sua partida ele também partiu sem aviso embarcando
para um país longínquo gelado escuro onde a lembrança dela não o perseguisse
num desses lugares dos quais nada sei nem para contar a ela
sequer para inventar
para aonde vão os mortos quando se ausentam de nós
desaparecem dos sonhos vão aos poucos sumindo no de dentro apagando sua
passagem como que tornando-a mais e mais imprecisa quase a sumir de uma vez
quando nos esquecemos de seus rostos cheiros tom e volume da voz cor da pele
tornando-se definitivamente fantasmas linhas difusas inexistência?
peço a ela que não se vá ainda penso se nos encontraremos
quando eu também deixar de existir mas então sei que não e postergo minha morte
porque com minha morte Sofia deixará para sempre de existir
talvez isso me baste resgate a dor de não ter enxergado em
seus olhos de viva a aflição do adeus não ter podido ajudar quem sabe ter
podido segurar suas mãos que ela me estendeu alguma vez na beirada do
despenhadeiro
de não ter adivinhado ser a despedida quando pela última vez
me procurou contando desconexas histórias
quando eu me for
ela disse baixinho só para si mesma
e mergulhou em pensamentos que eram vazios esboços sem
palavras nem imagens em pensamentos lerdos leves como aromas misturando
perfumes de flores cheiro de goiaba e manga madura quando já apodrece no chão
ou foi bicada pelos passarinhos
pois Sofia treinava pensar sem palavras que cansaço pensar
tanto ela dizia penso pelas coisas mesmo nas coisas umas redondas outras leves
em cores ou sons sempre assim como se as percorresse enquanto as imagino se as
tornasse alegremente minhas
quando eu me for
mais tarde o tempo da queda seria só o tempo do olhar
desacreditado do que via na rapidez na voragem de tudo
um gesto de mão desconsolado
dois braços mudos que se erguiam com suas mãos espalmadas
um grito de criança lá embaixo na rua o início de uma oração
cabeças apontando em janelas transidas pelo medo que a morte mesmo ainda antes
de acontecer traz
então escrevo
sento-me todos os dias em horas diversas para deixar que
outros vivam suas vidas impossíveis nas palavras que não se apagarão
dessa forma quando eu também me for Sofia permanecerá
posso ver seu olhar matreiro caçoando do peso com que penso
essas frases pois ela sabe de há muito que a verdadeira vida é breve ela que
conhece a intensidade de todos os segredos
um dia hei de conseguir que ela me conte algumas dessas
coisas de que sabe visto que as verdades inventadas já estão no fim e não se
parecem mais e mais com a verdadeira e única verdade
aquela que nunca saberei
ela de fato não morreu nem existiu como nós outros que ainda
nos lembramos dela estupefatos ela permanece existindo sem nenhuma existência
nesse território que a ausência desenhou como a um limbo para aonde as almas da
minha infância eram levadas sem a força salvadora do batismo sobrevivendo
intermináveis numa pureza anônima e sem remédio
e por permanecer na ausência sem nome ardente como sempre
por flutuar aonde o tempo não chega por não se ter deixado ver inteira por
ninguém depois de morta é que pensamos nela como pensamos na névoa que envolve
prédios plantas praias pequenas sítios e currais onde nossas pegadas nunca permanecerão
sem deixar rastros sem que se tenha descoberto sobre sua partida quase nada
lugares por onde ela pode caminhar sem vestígios
lugares onde apenas a memória marca existindo implacável e
impiedosa
neblina névoa mormaço tardes enormes
no encontro entre o que vem do céu e o que da terra se esvai
fico com os olhos ardendo enquanto busco nas fotos antigas um trejeito
esquecido uma mecha de cabelos mais clara
uma gota muito fina de suor que lhe marcasse levemente a
linha abaixo dos olhos ou a testa clara
antes muito antes
quando eu ainda era menina olhando a minha volta certo dia
eu pensei para quem ficariam minhas bonecas meus cadernos rabiscados meu diário
se eu morresse
quem usaria meus primeiros sapatos de salto para aonde iriam
os brinquedos que sobreviveram à minha infância
mais
pensei o nunca mais da sombra das árvores que meus olhos
registravam verão após verão no sol a pino dos intermináveis dias de dezembro
o peito dói com a inexistência antecipando uma tristeza
grande das coisas do porvir coisas minhas que não sobreviveriam sem o meu
pensar nelas sem a minha presença
sendo dessa maneira elas se tornariam só coisas que se
esquece se joga fora em suas mínimas presenças de coisas tornadas já sem
nenhuma importância
a partir de então viver sempre foi um exercício constante de
me esquecer de não me apegar a nada que não fosse passageiro imaterial como a
noite como estrelas que nunca poderiam ser tocadas como tudo aquilo que nunca
me pertenceria como essa lua de hoje que adivinho mesmo antes de empurrar a
ponta da cortina
pensei que só me deixaria possuir pelo que não tem matéria
como os sonhos pensamentos tristes emoções que não se concretizam em lugar
nenhum desse mundo outras tantas coisas etéreas
nem amar
para que quando eu me fosse não sobrasse nada para ser
perdido deixado sobre uma cômoda de um quarto abandonado caído entre dois
móveis numa sala fechada à luz do sol ao passo das pessoas no entra e sai no
corre-corre de semanas e semanas sem fim
em gavetas empoeiradas onde ninguém mais mexerá
para onde teriam ido suas conclusões seus delírios sua
inquietação?
venho me repetindo essa pergunta que me assombra para me
fazer retornar àqueles dias estagnados que se passavam sorrateiros como se
estivesse proibido viver
tantas décadas se passaram mas agora enquanto regava o
jardim procurando galhos podres por sob os arbustos tirando as flores secas do
jasmim olhando ao longe as nuvens muito altas passando nesse céu de maio
inacreditável tão inacessíveis pensei nela nos seus sapatos de saltos altos em
seus livros em seus manuscritos pequenos nas teclas do computador poemas
dedicatórias resumos de escola algum conto talvez
imaginei um a um os enfeites que teria em seu apartamento
que eu não conheci nas cortinas transparentes de onde se avistava o mar nos elevadores
sobretudo no elevador espelhado que a levou até o alto depois no último lance
de escada que era preciso subir apoiando as mãos pequenas nas paredes ásperas
depois pensei em cada uma das suas mãos em seus diminutos
dedos de unhas feitas com esmalte cor de rosa
tentei criar nessa minha recordação procurada o som dos seus
passos no mármore frio sons até mesmo de pés descalços
se é que eram de mármore os degraus
ouvir sua respiração apressada sentir suas mãos úmidas que
deixavam marcas nos corrimões marcas molhadas
pensei nessas coisas miúdas que lhe pertenciam o desodorante
a escova de dentes o perfume que havia acabado de comprar os fios de seus
cabelos emaranhados no pente de ossos que gostava tanto no abajur japonês que
deixava seu quarto incandescente como uma lanterna na tarde que principiava que
não apagava nos dias cinzentos nos quais achava quase impossível viver
imaginei suas gavetas mais ou menos arrumadas as camisetas
coloridas os biquínis a roupa de baixo de renda as meias finas os vasos da
varanda as flores miúdas que regava um pouco atrapalhada sempre inquieta com
suas mãos trêmulas de não querer tocar o mundo mãos que se desconheciam uma à
outra que pareciam tremer na ausência prevendo de tudo sempre impossíveis
toques adivinhando obrigatórios futuros de asas
na comida do cachorro provavelmente a um canto da lavanderia
o pote com água fresca protegido do calor insano das vidraças ensandecidas pelo
sol de Copacabana
pensei se alguma réstia de sol entraria entre os vãos da
persiana
depois quis pensar seus pensamentos sobre os dias em que
viveu sobre as civilizações estranhas à nossa e que ela tanto quis conhecer
também as pessoas em seus lugares com sua rotina sempre tão igual que ela
questionava tanto
para aonde foram todos sem deixar nenhuma herança além de
poucas mal tiradas fotos?
teria ido ela esconder-se por um tempo em lugar ignorado
para melhor pensar como quando era pequena escondida sob a mesa de jantar?
embaixo de uma cama dentro de um armário?
desejara olhar o tempo sem o obstáculo de janelas ou batente
de varandas? queria treinar giros saltos num espaçoso e solitário lugar aberto
desafiando seu medo de altura?
precisara de ar puro de enxergar na distância redondos
horizontes azuis?
subira com alguém conversando discutindo mesmo brigando
estava triste alegre eufórica preparando-se para a noite?
havia almoçado comera
suas saladas seus doces olhando para ele olhando pela janela vendo televisão
registrando a eterna ausência dele nos simulacros do dia?
teria discutido com alguém desesperando-se com a
incompreensível insanidade das pessoas?
teria sentido que não haveria mais sentido em lutar sempre
as mesmas lutas sentido em coisa alguma?
subira sem levar com ela nada nenhum papel documento lenço
flor o telefone celular?
teria pensado que desceria pelos mesmos degraus que
apertaria novamente o botão do elevador que voltaria ao seu apartamento para
lavar os pratos guardar o resto do almoço no congelador na certeza de que
haveria mais uma refeição?
ou desconfiava que poderia nunca mais abrir a porta brincar
com o cachorro passar o pano no chão branco da cozinha?
mesmo que de leve desconfiasse
subira transtornada correndo chorando engolindo o choro
mordendo os gritos antes que explodissem no fundo da garganta e num ímpeto sem
volta se atirara?
galgara cada degrau calada lenta inesperadamente só?
teriam tantas testemunhas visto o que não acontecera?
olho à minha volta nessa simplicidade que me envolve o bule
de chá as primaveras para além da janela um livro a lua a noite que principia
nenhuma companhia tudo limpo em seus
lugares
e nesse momento sei como existo que algo decidiu por ela
quem sabe a lembrança de um sonho os morangos sem lavar em cima da pia uma
vontade atormentada de conhecer Veneza uma desesperança sem fundo nem fim
era um depois de almoço quando se almoçava muito cedo lá
pelas onze estávamos todos tão juntos pais tios primos eram as férias de julho
saindo em bando os mais velhos caminhando atrás de nós que corríamos sob o sol
muito cálido do inverno sol que nem queria ser quente que delicado escorria
pelo rosto de cada um como um carinho de há muito esperado
lembro que as laranjeiras vistas assim de longe do meio do
cafezal eram enfileiradas exatas perfeitas todas do mesmo tamanho carregadas de
fruta madura amarelas amarelas
e para além havia abacateiros misturados às mixiriqueiras
que cresciam conforme seus impulsos umas fartas em sombra e tamanho outras
mirradas espremidas entre limoeiros e erva cidreira que crescia aqui e ali sem
regra sem donos sem necessidade
estava brincando escondida sob a folhagem espessa do café
quando ouvi o ruído
colada ao meu braço esquerdo a cobra erguida a língua num
entra e sai da boca seus olhos escuros nos meus olhos o sol o tempo a conversa
o riso dos outros eu presa entre o medo e o fascínio olhando sua cabeça
triangular
era bicho venenoso e eu sabia
foi assim que descobri a morte seus meandros a preciosa
precariedade da vida
não ter sido mordida não ter desmaiado ouvindo o grito de
meu pai o choro de minha mãe na tarde cheia de mormaço envolta num sumiço de
formas como se tudo se entremeasse o real e a irrealidade do mundo aquela que
habita parada nossos pensamentos sentindo um cansaço um atordoamento as vistas
escurecendo antes da hora como eu lia nos livros como se contava por aquelas
bandas o inchaço num torpor tomando conta de pernas e braços a impossibilidade
de movimento a não dor nem a percepção das coisas mundos grandes ensombrados
um céu azul limpo umas poucas nuvens passando rápidas tão
alto levadas pelo vento para o onde nunca saberei nem sabia em épocas tantas
tão longínquas
nem sei porque me lembro disso se essas não são as memórias
dela irrecuperáveis depois do tempo em que caladas para sempre ocuparam cantos
de gavetas vãos de páginas de livros espaços entre cobertores
por trás das memórias dela houve outras antigas de uma
antigüidade que nem as árvores genealógicas dão conta coisas de sangue que
falavam de famílias vindas de longe de navio fugidas do continente europeu do
norte do continente africano com suas lembranças exatas de olivais tâmaras
camelos misturando sóis tórridos a prenúncios de neve em campos sem fim línguas
misturadas em dialetos incompreensíveis miscelânea de culturas religiões
nada concreto tudo vapores mornos ou gelados de continentes
e aldeias longínquas sensibilidade de sol escaldante horizontes nos quais os
olhos se perdiam ardidos na espera de chuvas impossíveis
isso tudo era ela era Sofia caminhando no topo do dia
beirando os limites de si mesma
espaços escuros havia no mundo os desenhados pelo sol pela
sombra nos vãos das grandes mangueiras nesse interior escuro onde a noite ao se
precipitar pouco mais oculta aonde nos escondíamos enquanto os adultos nos
chamavam sentados bem quietos nos galhos altos
disso tudo se lembrava ela nesse exato instante
galhos com cheiro forte inesquecível de sombras velhas
cascas rugosas grossas sombras desde sempre desconhecedoras da luz do brilho do
sol de cada manhã
becos de escuridão acolhedora aonde nos disfarçávamos do
mundo do tempo cansativo de olhar coisa pessoa ser um entre outros
simplesmente existindo por completo
sombras escuras como casas suspensas sem necessidade de
qualquer parede num escuro de silêncios onde nem pensar ser coisa viva nada
naquele branco de sons da infância onde muito longe alguém
gritava um nome
nome de um de nós enquanto as árvores e as bananeiras o
escuro nos protegiam
silêncio de corações atropelados onde a visão da manga
madura impedia o braço porque nem o som de um braço em seu caminho rumo à manga
madura poderia ser escutado num deslizar da pele no oxigênio da tarde muito
menos a boca mordendo a casca avermelhada pelo sol que batia fora do lado de
fora da mata escura
durante muitos meses anos ela pensou naquele tempo muito
estreito que é quase como um túnel moldado pelo invisível oxigênio esgarçado
onde a respiração já não consegue ser respiração e o sofrimento da existência
se reduz desejando se tornar definido momento no qual o corpo nos seus últimos
derradeiros instantes de corpo inteiro corpo em vida pleno decide despencar
tempo de tentar tirar o cabelo dos olhos de querer tirar o
cabelo dos olhos e já não conseguir de ter que fechar os olhos as mãos
espanadas no ar sem poder mais enxergar o íngreme e definitivo irrevogável
caminho da queda
tempo muito curto esse em que não há nada mais a ser feito a
não ser cair
exceto talvez desejar que se rompam os tímpanos para não
ouvir o baque do próprio corpo no chão que se ceguem os olhos para não olhar
mais por nenhum instante a insuportável beleza do mundo
foi então que seus pés tocaram uma pequena coisa morna que
se arrastava lentamente depois deslizaram na maciez profunda de mato cerrado
encontraram novamente a lesma pequena com sua viscosidade seguiram adiante em
estradas encardidas sem nome nexo qualquer sentido pisaram conchas com seus
ligeiros estalidos chegaram numa planície de folhas secas muitas empilhadas as
de cima torrando-se ao sol as do fundo molhadas de serenos infindáveis em
gestação perene de minhocas e pequenos insetos sem nome
desse modo depois de alguns passos viscosos cheguei ao
pântano agudo da minha infância de quem fui nos pés descalços esmagando as
folhas molhadas deixando a lama tecer auréolas em cada um dos dedos caminhando
mansamente antes mesmo do dia amanhecer muito devagar
fui eu que me quis assim morna lamacenta escura fui quem me
fiz me refazendo outra vez nesse caminho seco ladeado de abismos pés afundando
cada vez mais no húmus da terra naquilo que não soube ser
enquanto voávamos céu adentro noite afora éramos mais leves
que o ar borboletas amarelas indo em busca dos campos imensos onde os girassóis
cegavam os horizontes a toda volta
íamos vazias sem nenhuma forma ou cor
em trezentos e sessenta graus onde o amarelo toca sem tempo
o azul voávamos
sem nenhuma pressa qualquer arrependimento
era a mais simples inteira solidão
a de não ter mais pedaços solidão de nem vozes nenhuma
palavra partes para restarem juntas para estarem umas com as outras um ombro
doendo a testa que pode latejar no início de uma febre peles longas deitadas
lado a lado em longas noites onde as mãos deslizam espantando medos de
silêncios vários de outros corpos de seres estrelados de mais tarde
nem mais nenhuma febre
nenhum olhar a percorrer quinas de retratos curvas de móveis
orelhas de livros cabos de panelas casa afora sempre parecendo procurar o que
nem mora mais nunca morou nos rastros gastos do tempo
uma solidão simples demais era essa de morrer não de saber
que daqui a pouco seria o momento de já não mais nunca mais existir
momento do não todo de ínfimas partes dilaceradas já como
saber antecipando tudo lagos de sangue talvez como numa aurora única definitiva
em vermelhos e outros tons mais ou menos desenhados
pensei na tua solidão no depois em teu olhar percorrendo as
coisas todas num que fazer abandonado pelos gestos da tarde tão sem ninguém que
pudesse soltar um som surpreso aborrecer-se contigo ao mesmo tempo lembrando a
hora do café
compras a guardar roupas a vestir comidas a fazer ainda a
louça arrumada empilhada nesses sentidos de espera que qualquer futuro traz
quando há algum futuro
depois senti a tua não espera no atônito de um canto escuro
para nunca mais nem se chegar nenhuma ventania balançando as cortinas que ainda
seriam colocadas talvez naquela tarde mesmo
pensei em ti
sozinho tão de tudo de cada um dos objetos que foram nossos
em alguma daquelas instâncias cruas de viver da pasta de dente de que
gostávamos tanto de alguns livros que líamos e relíamos dos doces que eu
comprava dos nossos sons
lembrei da nossa solidão antes que nos encontrássemos
solidão de ruas de bares de muitos muitas solidão de partes
repartição gotas que esborrifam-se nem se sabe aonde sobre quem o que
a desse de repente imprevisto para o qual me apronto solidão
ainda mais funda cavando um abismo entre o coração e o que restaria depois dele
num tremendo não ser nem querer fazer mais nenhum som
pensei em ti no fim em teus olhos que nunca consegui
escurecer em teus verdes grandes olhos olhando o nada azul transparente da
janela
sofri antecipadamente pelo teu destino ingrato e desmedido
visto que terias por companhia o meu cruel abandono quem sabe até mesmo como
refúgio naquelas horas de medo súbito de ódio imenso de dor insana
e num pequeno frágil segundo imaginei-te deitado na cama que
era nossa percebendo-te um desejo menino de nunca mais se levantar
seus olhos olhavam fixos o teto onde havíamos pintado o
arco-íris suas mãos seguravam o livro que eu havia terminado de ler passeavas
teus dedos capa afora distraído como quem principia a se esquecer
então quis-te novamente ser sol lua vento fazer-te novamente
companhia ser chuva para molhar teus cabelos quis ser nuvem antes da chuva cair
para amar-te mais um pouco ser a sombra dos teus passos pesados na escada tuas
chegadas abruptas fora das horas em que eu te esperava
e depois desquis tudo isso desquerendo ter-te conhecido
percebendo que eu podia ter vivido outras vidas tantas longe dos teus olhos
verdes que abriam histórias de colinas e desmandos que passeavam dentro do meu
corpo me vendo pelo avesso me querendo pelo que eu ainda nem era impondo suas
condições de amor tantas exigências descabidas dolorosas
então desejo-te mesmo nesse último instante em que arrisco
meu mais antigo sonho sinto essas gotas de suor que se formam em tua testa a
cortina levemente balançando tua imensa solitária dor
ouço o vento passeando em janelas e varandas
som miúdo doce último
Sofia soube enternecida que esse seria o último som a ser
ouvido e seu coração naufragou na ternura
Sônia Machado de
Azevedo
2006
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