sexta-feira, 16 de outubro de 2009

anoitecendo

a noite vem devagar rastejando pelas paredes de fora do prédio e o silêncio é uma bola batendo ritmada na praça
mais uma noite
mais

no farol de Beagle a noite já caiu densa e gelada
penso se os bichos estão pelas pedras se gritam de vez em quando para o vento pelo vento afora sem cansaço

os bichos na noite correndo pelas florestas brancas
as raposas
a paz profunda

nenhuma violência e a luz enorme vazando sua claridade entre a neve que pesa nos galhos

anoitece anoitece
a noite agora envolve as paredes do quarto aonde escrevo com suas mãozinhas de seda tão delicadas as mãos da noite ainda menina derramadas de ternura

terça-feira, 13 de outubro de 2009

de sonhos

quando quero muito ter um pesadelo, mas desses de inquietude que me fazem passar o dia seginte todo em estado meditativo, desses que me levam a formular velhas perguntas sobre o significado da vida, estou num teatro...

a hora do espetáculo vai se aproximando, todos estão felizes cuidando cada um de suas coisas, menos eu: não sei qual será o espetáculo, qual minha função dentro dele, qual minha personagem, em que momentos entro e saio do palco, enfim.....

acorto e topo com esse dia escuro e sem vento como se fosse ficar assim para sempre, então pego um livro e me pergunto o que seria da vida sem um livro, aquele que nos socorre nas horas cinzentas onde o espetáculo já está acontecendo e você ainda procura seu papel...um pouco com preguiça de representar....

até de ler

terça-feira, 6 de outubro de 2009

primavera parada

parada na praça ela fica
atônita olhando as mulheres com seus cachorros as crianças entretidas nas amoreiras

e as árvores acolhem bandos de maritacas que gritam e gritam
para depois mergulhar do alto como se fossem bater a cabeça no chão

Dona Maria olha a tudo com um olhar aos poucos se apagando e posso ler nos olhos dela a muda pergunta que se faz
depois vai caminhando devagar segurando-se na cerca enquanto o dia termina

a lua cresce enquanto ela esquenta a sopa corta a fatia de pão e senta-se para comer
na mais absoluta solidão

sábado, 3 de outubro de 2009

lua ainda mais cheia

ando pela cidade
pelas sarjetas pontas de cigarro muitas muitas
pelas ruas os carros novos tantos carros novos entupindo as ruas sujas

o menino levanta a camiseta no farol quando pede um trocado
para mostrar que não tem um canivete uma faca uma arma qualquer
e a alma da gente se atropela no constrangimento doido no calor das ruas sem vento ou talvez numa brisa morna que começa a soprar agora vinda de algum lugar

o fim da tarde é triste enquanto o ônibus escorre suas rodas pelas ruas de uma favela qualquer

mas no fim a lua surge e por um momento a cidade se aquieta olhando para si mesma desencontrada e vadia
envergonhada
para seguir depois entre buzinas, gritos e a mais absurda mediocridade
como se viver fosse isso
só isso

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

lua cheia

a lua está lá
e eu não gosto de estar hoje numa cidade
não gosto dos prédios
das ruas com asfalto
dos carros

não gosto do barulho dos carros do barulho de tudo
a lua mora lá
mora só no silêncio escuro da noite

sinto falta do silêncio de mares de florestas congeladas lagos obscuros em meio aos montes gelados

falta eu sinto de ser bicho de não morar
de apenas existir como os pássaros
sem medo
como os pássaros que passaram pela tarde de hoje

como se a vida fosse para sempre