domingo, 31 de maio de 2009

sol de chuva

eu era muito pequeno assim me lembro de pés sempre vermelhos do barro dos quintais por onde passava correndo atrás de pipa perdida fugindo de vaca brava
mas ainda assim ouço a flauta de meu pai que havia morrido logo que nasci ouço o choro de minha irmã caçula deitada num cesto perto do fogão de lenha minha mãe presa às suas costuras intermináveis

Batatais era quieta e pequena nas manhãs de todos os anos em que lá vivi com suas ruas gaiolas de passarinhos penduradas nas varandas das casinhas pequenas e mulheres varrendo a calçada antes que o dia esquentasse
e havia o colégio com suas alamedas floridas sua escadaria suas janelas altas seu piso de madeira encerada seu caramanchão onde nos sentávamos cansados das correrias da tarde no aguardo da noite que demorava muito a chegar enquanto a cidade escurecia pequena desconhecendo o tamanho do mundo deliciando-se com seus telhados vermelhos com o cheiro do ensopado no fogo e a polenta que lentamente se preparava tarde afora com a bruma que vinha de longe do meio dos matos já quase escuros como se tudo no mundo se resumisse a esse lugar a essa cidade plantada sozinha no topo da terra

quinta-feira, 14 de maio de 2009

de uma extrema delicadeza

de uma extrema delicadeza

anoitecia muito muito devagar
e a noite anoitecendo ia entrando pelas janelas entranhando nas frestas dos móveis e nos vãos esquecidos das gavetas
esse anoitecer ia brincando lentamente com as folhas do amor perfeito rastreando os passos de Gigi tentando bem de leve invadir o espaço entre almofadas e talheres
o noturno ar escuro preenchia devagar o vazio das panelas e mesmo debaixo dos lençóis a noite havia se insinuado deslizante
tudo ia sendo tomado por um silêncio aconchegante num vazio dos sons que conduziram o dia ao seu final e que agora também haviam desaparecido na penumbra
Sofia regando as plantas foi notando distraída que entre os vasos e mesmo a terra dos vasos e por debaixo dos móveis uma delicada escuridão a tudo envolvia com mil olhinhos de seda
e ela pensou a noite com seus passos pequenos de espuma e não fechou as janelas
com seus olhos a escuridão da noite parecia uma menina dormindo
tão linda
tão tranqüila a linda menina dormindo antes de a noite chegar

primavera de 1999

de uma extrema delicadeza

de uma extrema delicadeza

anoitecia muito muito devagar
e a noite anoitecendo ia entrando pelas janelas entranhando nas frestas dos móveis e nos vãos esquecidos das gavetas
esse anoitecer ia brincando lentamente com as folhas do amor perfeito rastreando os passos de Gigi tentando bem de leve invadir o espaço entre almofadas e talheres
o noturno ar escuro preenchia devagar o vazio das panelas e mesmo debaixo dos lençóis a noite havia se insinuado deslizante
tudo ia sendo tomado por um silêncio aconchegante num vazio dos sons que conduziram o dia ao seu final e que agora também haviam desaparecido na penumbra
Sofia regando as plantas foi notando distraída que entre os vasos e mesmo a terra dos vasos e por debaixo dos móveis uma delicada escuridão a tudo envolvia com mil olhinhos de seda
e ela pensou a noite com seus passos pequenos de espuma e não fechou as janelas
com seus olhos a escuridão da noite parecia uma menina dormindo
tão linda
tão tranqüila a linda menina dormindo antes de a noite chegar
primavera de 1999

sábado, 9 de maio de 2009

Boiçucanga e Cerquilho

as nuvens se acumularam nas montanhas mais ao norte
e Boiçucanga deixou-se anoitecer muito devagar assim como quem não quer
em Cerquilho o sino da igreja chamou sem muita convicção a noite tangendo cansado as Ave - Marias
Ondina sentiu uma fisgada doce em seu coração e pensou bandos de andorinhas ou gaivotas sobrevoando barcos e mangueiras em linhas sempre horizontais
sentiu-se então um pouquinho mais só numa vida que na noite existia em Cerquilho em tachos de polenta postos ao relento e nas vozes chamando crianças
Boicuçança ao mesmo tempo seus homens nos barcos em seus pequenos remansos de areia onde meninos ainda brincavam

as vacas mugiram longe no Dorighelo e ela ouviu Terê fechando a porta da sala

na bruma indefinida e crua feita só de estrelas ela pôde perceber que o mundo penetrava pela janela e viu flores roxas nascendo em desalinho pelo quintal afora até tocar a areia longa e mais prá longe o fundo mar
o sol se afogava num céu que só Boiçucanga sabia envolver em seus braços
a vida era isso
Tereza fechando a porta
o sol se pondo em Cerquilho
e pelo mundo afora em horas diferentes e tardias
e ela vivendo num tempo absorto que poderia ser qualquer um
num tempo de qualquer cidade
de qualquer parte do mundo
ou numa hora qualquer

terça-feira, 5 de maio de 2009

Odete inventa o mar

deve ter sido no outono que a levaram sim porque por entre nossas lembranças daquela época há o vento noroeste balançando as cortinas jogando os lençóis do varal para desespero de Ana sacudindo a copa dos coqueiros levando as flores do jasmim em corrupios pelo ar
o vento e um tremor inevitável quando do bater de portas e janelas que se abriam de par em par ou se fechavam de repente
há memórias de uma luz difusa diluindo o contorno gasto dos barcos ancorados na praia pequena e névoa sobre o oceano uma perda de limites com o céu um estado de torpor como entre o sonho e a vigília umas saudades sem sossego de coisas que sequer aconteceram um receio de perder o que ainda nem se tem
eram assim aqueles dias em que certo dia demos pela falta dela
havia véus avermelhados e uma escuridão que demorava muito a subir da linha do horizonte pois a noite demorava demais a chegar