quinta-feira, 14 de maio de 2009

de uma extrema delicadeza

de uma extrema delicadeza

anoitecia muito muito devagar
e a noite anoitecendo ia entrando pelas janelas entranhando nas frestas dos móveis e nos vãos esquecidos das gavetas
esse anoitecer ia brincando lentamente com as folhas do amor perfeito rastreando os passos de Gigi tentando bem de leve invadir o espaço entre almofadas e talheres
o noturno ar escuro preenchia devagar o vazio das panelas e mesmo debaixo dos lençóis a noite havia se insinuado deslizante
tudo ia sendo tomado por um silêncio aconchegante num vazio dos sons que conduziram o dia ao seu final e que agora também haviam desaparecido na penumbra
Sofia regando as plantas foi notando distraída que entre os vasos e mesmo a terra dos vasos e por debaixo dos móveis uma delicada escuridão a tudo envolvia com mil olhinhos de seda
e ela pensou a noite com seus passos pequenos de espuma e não fechou as janelas
com seus olhos a escuridão da noite parecia uma menina dormindo
tão linda
tão tranqüila a linda menina dormindo antes de a noite chegar

primavera de 1999

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