as nuvens se acumularam nas montanhas mais ao norte
e Boiçucanga deixou-se anoitecer muito devagar assim como quem não quer
em Cerquilho o sino da igreja chamou sem muita convicção a noite tangendo cansado as Ave - Marias
Ondina sentiu uma fisgada doce em seu coração e pensou bandos de andorinhas ou gaivotas sobrevoando barcos e mangueiras em linhas sempre horizontais
sentiu-se então um pouquinho mais só numa vida que na noite existia em Cerquilho em tachos de polenta postos ao relento e nas vozes chamando crianças
Boicuçança ao mesmo tempo seus homens nos barcos em seus pequenos remansos de areia onde meninos ainda brincavam
as vacas mugiram longe no Dorighelo e ela ouviu Terê fechando a porta da sala
na bruma indefinida e crua feita só de estrelas ela pôde perceber que o mundo penetrava pela janela e viu flores roxas nascendo em desalinho pelo quintal afora até tocar a areia longa e mais prá longe o fundo mar
o sol se afogava num céu que só Boiçucanga sabia envolver em seus braços
a vida era isso
Tereza fechando a porta
o sol se pondo em Cerquilho
e pelo mundo afora em horas diferentes e tardias
e ela vivendo num tempo absorto que poderia ser qualquer um
num tempo de qualquer cidade
de qualquer parte do mundo
ou numa hora qualquer
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