domingo, 31 de maio de 2009

sol de chuva

eu era muito pequeno assim me lembro de pés sempre vermelhos do barro dos quintais por onde passava correndo atrás de pipa perdida fugindo de vaca brava
mas ainda assim ouço a flauta de meu pai que havia morrido logo que nasci ouço o choro de minha irmã caçula deitada num cesto perto do fogão de lenha minha mãe presa às suas costuras intermináveis

Batatais era quieta e pequena nas manhãs de todos os anos em que lá vivi com suas ruas gaiolas de passarinhos penduradas nas varandas das casinhas pequenas e mulheres varrendo a calçada antes que o dia esquentasse
e havia o colégio com suas alamedas floridas sua escadaria suas janelas altas seu piso de madeira encerada seu caramanchão onde nos sentávamos cansados das correrias da tarde no aguardo da noite que demorava muito a chegar enquanto a cidade escurecia pequena desconhecendo o tamanho do mundo deliciando-se com seus telhados vermelhos com o cheiro do ensopado no fogo e a polenta que lentamente se preparava tarde afora com a bruma que vinha de longe do meio dos matos já quase escuros como se tudo no mundo se resumisse a esse lugar a essa cidade plantada sozinha no topo da terra

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