domingo, 26 de abril de 2009

houve uma noite contigo

foi durante um verão do qual já não me recordo e era um daqueles momentos raros no qual a noite chegara mas o mar ainda era morno e cheio de vida
nós estávamos ali como sob efeito de uma droga qualquer olhando o escuro do céu sem nenhuma estrela
na profundidade distante das águas um ou outro raio caia mas tão longe que não nos chegava qualquer som apenas um risco dobrado e dobrado sobre si mesmo que percorria o céu e era uma luz que não nos abandonaria nunca mais eu pensei
eu pensei então que havia mares gelados naquele mesmo instante e só esse pensamento bastou para me encher os olhos d’água
o mundo era grande demais eu tive certeza disso enquanto te ouvia gritando na lonjura parda das ondas e teu grito era da mais pura alegria era um som que vinha de zonas do teu corpinho pequeno lugares que eu não conheceria nunca mas que seriam serenos como punhados de sol sobre a relva molhada como um pouco da neblina cortando cada amanhecer em matas tão distantes e nas quais jamais viveremos
e que essas matas ah eu queria nelas um lugar qualquer que nenhum passo humano houvesse percorrido antes que fossem marcadas por teus gritos de feroz felicidade
fossem marcadas pelo ar que respiras e que rompem o líquido volume dessa praia marcando para sempre esse fim de tarde no qual finalmente somos os dois como duas nuvens irmãs que caminham e flutuam e se transformam quando há vento ou prenúncio de chuva e que se eternizam assim enquanto navegam no mais bonito do céu claro enquanto brincam e se espantam de que seja tão enorme o mundo com todos os seus insuspeitados contornos
a noite agora é completamente escura e estamos os dois com o mar encostando em nossos joelhos submersos e o mar é cálido e leve e se estende pela areia com uma fartura uma crença marítima em futuros que a nós talvez nem cheguem
és meu filho és tão não meu que o amor me chega à garganta em forma de soluço e aos olhos e posso flutuar existir na minha vida prosaica e boba e até fingir que lá serei feliz mas é dessa sensação que falo disso que não perderei desse mar do toque de tua mão pequena no meu braço do seu riso que tem nessa mistura toda que faz parte do teu ser um tanto de medo e um tanto da mais doce curiosidade
não te esquecerei não esquecerei o momento em que ergues o rosto e observas por um segundo o céu
e teu vulto se cobre com uma onda qualquer de luar


21 de fevereiro de 2.000

domingo, 19 de abril de 2009

uma parede deserta

e sumiram as primaveras plantadas nos quatro cantos da varanda
foram-se as avencas pequeninas e as roseiras bem cuidadas
em tudo um mormaço morno e sem tempo
uma desesperança fina como lâmina da faca mais afiada

da cozinha grande sumiu o cheiro de polenta frita
a mesa farta
a conversa dos adultos povoando a escuridão dos quartos cheios de crianças foi-se embora para nunca mais

silenciosa e derradeiramente tudo teve fim

no ar de agora apenas um desejo de mariposas e vento quente
um desejo tão!

então ela encostou o rosto no ladrilho frio
e quis parar estacionar ali
para todo o sempre parada
como uma pedra
um cravo morto
um feixe de olhos olhando sempre em frente
para sempre sem olhar

26.8.96

quinta-feira, 16 de abril de 2009

adormecendo em mim mesma

o que acontecia naquela época é que a vista vista da água de dentro do rio do meio mesmo do rio era precisa delineada conforme a luz era de outono ou primavera ou quando ainda o frio soprava de longe de lugares que eu nunca conheceria
ou quando ainda nem a manhã chegara nas folhas das árvores quando a luz só pensava ainda em resvalar pela carne áspera das pedras e em ir descendo até o brilho líquido do rio no qual estaria eu passando deslizante nessa superfície fluida e de monótona aparência
talvez na noite se há nesse céu muitas estrelas vejo as janelas da casa iluminadas e um vulto que chega e se debruça na calada do mundo e então olha para esse lugar aonde estou que a escuridão da noite nem oculta
no lusco fusco que esconde as coisas com sua vontade sombria eu olho para a margem pois o olhar da gente olha mesmo sem querer olhar arrisca na palidez das horas um outro olhar
fico passeando meus olhos por cantos formas contornos tortos por onde transluzem linhas que hão de brilhar mais tarde quando terei já cerrado meus olhos exaustos de olhar
a terceira margem do rio é a terceira margem a terceira bem no meio ou dentro por onde me arranho em busca daquilo que não posso ser que temo ou desconheço
daquilo para o qual não terei tempo ou vida para viver daquilo que me faltará no meio de um tal cansaço de horas inúteis e vazias
nela estou embora ainda não saiba bem não sei se é o meu olhar se o tempo que já não sinto passar se é dentro desse tempo que vou enganando devagar engatinhando me mantendo acordada vigiando cada pedaço da noite tomando conta do tempo que assim posso ir controlando em punhados delirantes de minutos que eu não viveria se dormisse
por certo não viveria acho uma pena tão grande morrer!
acho uma pena tão grande estar sozinha enquanto a noite cobre o mundo de desassossego e traz em seu bojo de silêncio uma enorme morte encantada
a noite chega enquanto a canoa escorre e eu me deito no chão do barco sentindo por baixo da minha pele a água que passa e as estrelas no topo do mundo
e parecem maiores agora as estrelas mais que quando eu vivia na terra entre os troncos as pedras os bichos as gentes
deitada no chão da canoa estreita a água não tem nenhum som enquanto passa ou passo no rio dentro do seu corpo pesado de árvore
as margens estão de cada lado meu e há outra que defino com meu corpo que forma essa linha imperecível e absoluta que margeia um mundo do outro uma margem um traço um nada que sou eu deitada no fundo do barco a carne do meu corpo que se confunde eu que me confundo nesse tempo que escorre comigo que se escraviza a mim não o contrário nunca mais ser o contrário
essa vai se tornando ar quente um divisor de mundos no mundo mole das coisas silenciosas nesse mundo que é meu desde que e apenas pelo corpo da madeira tudo desliza no branco espaço das horas
soturna me ajeito às muitas temperaturas que dividem com a minha pele um volume denso de pétalas de perfumes distraídos que bóiam no vento ou se enroscam entre o mato alto das margens deixando afetos espalhados à beira fofa das raízes
no meio das noites quando consigo não dormir sequer um minuto que varo percebendo em claro um vazio de penumbras sem cor penumbras brancas como quando os espaços dos meus poros tentam com suas mãozinhas ferozes segurar os segundos que correm que nem sequer olham por onde andam nessas noites que engano e atrapalho com a minha cruel e determinada insônia
um vazio de penumbras me cercam brancas claras como meninas perdidas e apenas entre elas nessa noite sou feliz porque sem dormir a vida não passa para mim que permaneço imóvel bicho atento farejando rumores no mais calado do ar
ocupo todas as horas que os outros abandonam em seus suspiros que jogam fora nas janelas estreitas dos seus sonhos que ocupam zonas na intersecção das coisas entre o que é humano e essa hora noturna que não sei o que seja que não é mais que um outro elementos fora daqueles conhecidos
o elemento noite que nos surpreende com sua lenta passagem pela superfície fechada da terra dos poros da água dos nossos poros aflitos é o avesso da terra o avesso do dia mas não o meu contrário um cúmplice do medo que sinto um igual
o corpo respira na noite num silencio que se consome em si mesmo que se entrega à sua própria perfeição
na escuridão o silencio cava um poço fundo aberto rasgando as coisas todas que vagam pelo mundo os pensamentos que uma vez pensados grudam-se uns atrás dos outros e por trás dos olhos como se já fossem realidade uma realidade que não se pode alterar suprimir transportar para outros lugares que não aquele onde se encontram brincando de assombrar surgir das sombras talhando nas horas cruas do dia um risco de susto
olhares com os quais cruzou o meu olhar agora abandonado ao céu às estrelas e outras luzes que pressinto na mais clara escuridão se distanciaram mas continuarão existindo após o meu olhar sem a existência desses olhos que se agarram sempre às coisas como se viver fosse para sempre
da varanda consigo ver o rio e as andorinhas que encontram entre seu vôo na manhã coisas como pedaços secos de outras que há muito tempo existiram
pedaços de telhados que as chuvas intermitentes e as plantas trazidas pelos bicos dos pássaros passaram a percorrer os céus
do meu corpo para o teu uma lonjura de ventos um abismo de distâncias que meus pés jamais percorrerão teu corpo tua saliva densa que eu bebia mais que tudo por toda a água desse rio teu corpo que nem tinha mais a pele da qual meu corpo também se despia antes mesmo do teu corpo que se despia e ainda se despe só de pensar teu olhar me olhando por dentro como nem o meu próprio olhar consegue
teu olhar me olhando sendo possuído pelo teu olhar que me persegue em sonhos e na lucidez mais absurda teu olhar que mantém ainda correndo pelos rios das minhas veias o amor que sinto por coisas que sequer precisarei conhecer ou possuir
pois sempre terei a ti e estarei lavada da morte pela permanência infinita do teu corpo em mim por esse chão de árvores flutuantes que me socorre em vida
mais que tudo por teus olhos amorosos que jamais me deixarão

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Para Isabela

Hoje, 15 de abril, fazes um ano e três meses de vida e é para ti que escrevo depois de te olhar demoradamente nesse fim de tarde de outono enquanto te preparas, descansando, para novamente correr, brincar, ir ao mar, ir ao mato na casa do tio Gordo, rir com teu irmão Gabriel enfim, atirar-se nos braços dos teus pais que te amam tanto, retornar às tuas ( e só tuas) importantes funções de apenas viver cada dia, cada minuto, experimentando carinhosamente a vida com essa alegria que tens, com essa forma só tua de olhar demoradamente cada coisa e depois sorrir esse teu sorriso largo que é a nossa alegria.
Um beijo de todos que te amam para que sares e voltes a correr pela casa, levando e trazendo coisas, imitando o cachorro, o gato e o boi.Para que o sol volte a colorir o mundo, muito cinza sem tua alegria!

contatos de primeiro grau

era só uma palmeira esquecida pela chuva que se via da fresta da janela
mas era tão exata tão como aquela que eu via da varanda de casas muito distantes que a tarde se fez como só se fazem as mortes ou os partos quando não há qualquer testemunha
alguma coisa havia por nascer entre a névoa e o estouro das ondas
era estranho e incômodo chorar sobre as teclas do computador mas eu chorava posto que esse dia me lembrava que a palmeira esquecida na fresta da janela era a mesma posicionava-se igual tinha a mesma altura e a folhagem toda verde era igual a outra da minha infância vista da varanda da minha primeira casa e só hoje eu tinha reparado visto que andava cega entre escadas paredes portas e batentes dessa janela daqui
o dia clareava e algum barco teria se atrevido na soturna sombra dos mares sem nenhuma cor teria deixado o porto depois de alguma espera mas sem olhar prá trás
Arildo estaria por certo desafiando as ondas e os peixes sem Iemanjá
e os peixes se contorciam em sua mãos habilidosas e duras no mar profundo sacudindo de leve o barco pequeno que balançava entre uma e outra vaga como se o mundo todo fosse só um curto recado um esquecimento de Deus uma ligeira imperfeição deixada sobre esse rarefeito mundo de pessoas solitárias e quietas como só convém às pedras e aos lagartos das montanhas ermas de sol e do mais completo esquecimento

domingo, 12 de abril de 2009

no vazio do sábado

o peixe amanheceu morto no aquário branco
de pedras brancas mantido em água mineral

era só um peixe preto
que vinha pedir comida cada manhã
e me olhava
com sua boca escura

hoje não há qualquer movimento na cozinha
e aquela forma pequenina
completamente dura e imóvel
parece menor ainda e mais sinistra
sem sua boca aberta
sem aqueles olhos que me diziam qualquer coisa
que eu fingia não entender
mas que agora se espremem nos vazios aflitos do
meu próprio coração

2001

sábado, 11 de abril de 2009

a menina que amava o mar

era uma noite por demais cheia de estrelas e quando olhamos para o céu as duas juntas sentadas no banco frio da praia o mundo se cobriu de um silêncio fresco e transparente como só se fazem os silêncios junto ao mar

e a noite era linda não havia nuvens no céu nem os pernilongos que te picam a pele clara voavam nessa hora e pela areia os siris caminhavam quietos lentos com preguiça de fugir dos nossos passos

a noite era feita só de ondas e os cachorros da cidade que nos seguiam os passos eram tranqüilos quando paravam para farejar a lua cheia brilhando na atmosfera leve do ar eras tão pequenina eras menina ainda quando me abraçavas ou corrias e teus pés afundavam delicados na areia orvalhada da praia ou procuravam a água morna que o sol da tarde havia esquentado

éramos só nós duas e os sinos chineses tocavam muito longe

havia barcos em alto mar com uma ou outra luz que às vezes desaparecia entre as marolas
e que brilhavam como pequenas estrelas

é primavera meu amor e se ficarmos bem quietinhas vamos ouvir as sementes das flores germinando rompendo o chão da praia à procura da luz e do sol que aparecerá cada dia mais cedo

ouviremos até os bichos nas suas tocas e as tatuíras escondidas sob a areia molhada da praia

então arrumaremos nossos baldes pás bolas e sairemos a passeio
e todos
até os peixes escondidos no fundo mais fundo do mar saberão que somos felizes

segunda-feira, 6 de abril de 2009

houve uma noite contigo

foi durante um verão do qual já não me recordo e era um daqueles momentos raros no qual a noite chegara mas o mar ainda era morno e cheio de vida
nós estávamos ali como sob efeito de uma droga qualquer olhando o escuro do céu sem nenhuma estrela
na profundidade distante das águas um ou outro raio caia mas tão longe que não nos chegava qualquer som apenas um risco dobrado e dobrado sobre si mesmo que percorria o céu e era uma luz que não nos abandonaria nunca mais eu pensei
eu pensei então que havia mares gelados naquele mesmo instante e só esse pensamento bastou para me encher os olhos d’água
o mundo era grande demais eu tive certeza disso enquanto te ouvia gritando na lonjura parda das ondas e teu grito era da mais pura alegria era um som que vinha de zonas do teu corpinho pequeno lugares que eu não conheceria nunca mas que seriam serenos como punhados de sol sobre a relva molhada como um pouco da neblina cortando cada amanhecer em matas tão distantes e nas quais jamais viveremos
e que essas matas ah eu queria nelas um lugar qualquer que nenhum passo humano houvesse percorrido antes que fossem marcadas por teus gritos de feroz felicidade
fossem marcadas pelo ar que respiras e que rompem o líquido volume dessa praia marcando para sempre esse fim de tarde no qual finalmente somos os dois como duas nuvens irmãs que caminham e flutuam e se transformam quando há vento ou prenúncio de chuva e que se eternizam assim enquanto navegam no mais bonito do céu claro enquanto brincam e se espantam de que seja tão enorme o mundo com todos os seus insuspeitados contornos
a noite agora é completamente escura e estamos os dois com o mar encostando em nossos joelhos submersos e o mar é cálido e leve e se estende pela areia com uma fartura uma crença marítima em futuros que a nós talvez nem cheguem
és meu filho és tão não meu que o amor me chega à garganta em forma de soluço e aos olhos e posso flutuar existir na minha vida prosaica e boba e até fingir que lá serei feliz mas é dessa sensação que falo disso que não perderei desse mar do toque de tua mão pequena no meu braço do teu riso que tem nessa mistura toda que faz parte do teu ser um tanto de medo e um tanto da mais doce curiosidade
não te esquecerei não esquecerei o momento em que ergues o rosto e observas por um segundo o céu
e teu vulto se cobre com uma onda qualquer de luar

21 de fevereiro de 2.000

sábado, 4 de abril de 2009

Odete inventa o mar (2)

Odete foi encontrada morta pela manhã do dia em que completaria 95 anos
vestia seu primeiro vestido comprido e estava mais magra do que nunca
aos pés da cama deixara bem alinhados seus primeiros sapatos de salto talvez para vesti-los assim que amanhecesse
quem sabe para indicar a todos sua intenção de partir
alguém se lembrou que fazia 82 anos que ela morava ali na mesma casa de saúde de onde não havia nunca saído em nenhum momento para lugar nenhum

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e era outono porque não se via a linha do horizonte em meio a névoa que cobria uma parte de tudo

sexta-feira, 3 de abril de 2009

meninos correm ao sol

ele tinha olhado as mesmas paisagens
as terras verdes de Jardinópolis se estendiam de horizonte a horizonte e já que ele não estava ali caberia a ela olhar com o mesmo olhar dele as terras de infância por onde correra descalço fugindo de vaca brava

terra da boa
terra vermelha generosa pronta pro plantio

e então do fundo de suas melhores memórias ela viu as mãos dele acariciando a terra num gesto que jamais esqueceria

os vales eram longas distâncias chamuscadas pelo sol
e o olhar dele em setembro sorriu menino travesso afrontando a passagem dos anos lembrando sombras e sítios

o olhar dele sobre Jardinópolis afrontava a própria morte e ela soube então que nos olhos dela agora derretidos sobre esses campos morariam para sempre os olhos dele

Jardinópolis 22/09/97

quarta-feira, 1 de abril de 2009

o menino que eu não tive

uma vez quando eu fui menino me lembro bem disso de uma praça dos meus pés sempre descalços eu nem ligava mais nem no frio
e no calor eu mergulhava no chafariz perto da catedral enquanto a polícia se distraia olhando as vitrines das lojas de sapatos
as nuvens como carneirinhos me lembro que alguém perto de mim um dia disse isso passeavam em bandos pelo céu e às vezes duas a duas como duas menininhas muito amigas de mãos dadas
no luminoso do céu é que me parecia ficar meu medo pendurado no luminoso mais fundo do céu bem na menina dos olhos
mas não era medo das coisas que eu tinha era medo da fome que eu sentia que não dava conta de fazer parar do frio da noite soturna quando eu não tinha um amigo e das botas que passavam dos guardas batendo na quina gelada das calçadas eram muitos os guardas armados com seus revólveres escuros
medo dos muros que ficavam ali tão hirtos e gigantescos de um pai que nunca conheci medo de ter nascido e estar agora tão abandonado na curva triste das avenidas entre o vazio dos faróis mirando o estreito da estrada
medo de não poder ter nunca nenhuma pequena esperança
é muito tarde da noite agora nessa hora da noite em que nem os carros param nem obedecem sinais nem nada passam como bandos de pombas assustadas quando ouvem tiros distantes
penso agora mais rápido penso sem parar bem depressa mesmo só prá afugentar o silêncio tão escuro da madrugada se quando eu nasci a mãe que eu não conheci olhou alguma vez o céu que eu vejo se olha ainda penso se afinal existe ou existiu em algum lugar essa mãe que eu imagino nessa hora de atropelo
crio nesse vazio que em mim habita um perfume dela que possa passear por meus braços por meu rosto uma voz cristalina que possa um dia cantar bem junto aos meus ouvidos uns lábios finos e tão rosados como só uma vez vi numa revista mas ainda mais bonitos
uns cabelos de tal delicadeza longos soltos que eu pudesse enfim acariciar
imagino se essa mãe pensa se pensou em alguém como eu na sua solidão como eu agora penso nela tão sem formas tão sem linhas traços nada pedindo ardente para ser inventada
nessa hora calada que é tão demorada de passar ainda mais se tenho fome faz frio como nesse instante ou chove eu me assusto só de pensar naquilo tudo que eu não tive e em como seria tão bom ser feliz só penso nela me pego pensando em toda a vida que eu não vivi sempre entre essas ruas fugindo da polícia esperando a neblina descer para mais me ocultar debaixo dos bancos ou dos viadutos e o cheiro bom da cola que anestesia a dor
é no medo da dor que eu penso agora olhando essa gente que a boca do metrô engole sem nenhum susto
e me pergunto todo o tempo prá onde elas vão e se era preciso tanto tantas ruas tantos carros tantas lojas tantos prédios tantas coisas enquanto sozinho eu penso nisso porque hoje você não veio me procurar nem veio ninguém e eu encosto aqui sentido um cheiro que nem existe de churro de pipoca de churrasquinho de gato que os homens comeram de dia na praça e sinto uma tontura boa
a tontura de não me incomodar mais mãe que nunca te tenha tido que não tenha uma casa uma cama alguém me acariciando os cabelos isso que só a fumaça da maconha pode me trazer o profundo descaso por todas as coisas pela vida que os outros meninos têm
viajo no tranqüilo do céu que desenha as nuvens da chuva e no mar que só conheço de foto vista no jornal enquanto minha mãe passa silenciosa no transtorno agudo das ruas vazias no barulho da água na fonte da Praça da Sé procurando quem sabe por um menino assim como eu
penso no amor que nunca conheci de ninguém nenhuma mão passeando pelos meus cabelos pela minha testa tão vazia de nenhum afago beijo qualquer coisa que me encantasse os dias que criasse uma rotina agora se dorme agora se levanta se toma um banho quente
lembro dos dias vazios nos quais jamais andei de mãos dadas com ninguém como sempre vejo passar as crianças
a rua é feita da sujeira que se agarra na alma da gente escorrega feito lodo por dentro e perto dos barcos voam gaivotas que pegam peixes fugidios nas redes no mesmo momento em que os urubus comem ao meu lado uma carniça de rato e é só isso que de verdade eu vejo
me chamam por aqui de um nome que não é meu nome a maioria das vezes de menino só quando não pivete que eu não gosto
menino mesmo é o que eu sou menino pequeno ainda mas sempre um menino valente esse orgulho eu tenho pois o que tiver que ser ou vir eu encaro limpando com a manga do casaco o nariz que o frio escorre olhando distraído prá ver se a lua mais uma vez saiu na névoa seca da madrugada
quando o céu é fechado e baixo como hoje o ar fica não sei porque mais pesado é quase como se eu me suicidasse devagar isso é uma coisa boa de sentir
como se cada minuto dessa noite besta se afirmasse sem motivo nenhum de existir uma coisa que nem desgraça é quase um pedido de desculpas para mim que não sou ninguém eu que nem mesmo sei quem eu sou
me disseram que eu vivia ao relento eu gostei dessa palavra relento como gosto de outras que digo baixinho prá afugentar esse engasgo do meu peito água gaivota meninas mãe lua estrela relento
lua chão areia grão meninas mãe ao relento eu estou mãe sozinho na cidade
são palavras bonitas essas e com elas eu posso esconder as outras como dor grito merda morte fome medo nojo
com elas posso falar formar frases juntando cidade medo fome dor relento cidade estrela meninas não sei onde colocar as estrelas a areia os grãos mas sei da lua que arredonda a quina dos prédios acho tão bonita a lua
não sei formar frases sei juntar essas palavras que contam quem sou quem somos porque há muitos eus que se escondem com o nariz escorrendo pelas ruas todas de São Paulo
um dia de tanto pensar vou achar um jeito bom de seguir vivendo uma forma de colocar essas palavras feias debaixo daquelas outras que eu procuro por toda parte escondidas entre as folhas das árvores mais altas nas bancas dos camelôs entre todas as coisas coloridas nas vitrines de tênis emborrachados nas portas dos restaurantes mais finos nas churrascarias na entrada do cinema em todos esses lugares que eu nunca fui na lona do circo na frente dos meninos de uniforme que passam para a escola todos juntos rindo alto
eu vou guardando as palavras bonitas que encontro vou colecionando todas no meu pensamento e como não sei escrever fico repetindo todo o tempo baixinho cada uma delas depois duas a duas todas juntas por fim e repito e repito sussurrando cochichando só prá não esquecer são muitas as palavras bonitas que eu guardo comigo e não falo delas prá ninguém minha mãe
em meio a todas elas lua mãe menino cidade vazia por onde andarás prá sempre tão longe de mim minha mãe?
se guardo prá ti e só prá ti todas essas palavras luminosas que eu coleciono e que tem brilho cor e um perfume de tanta delicadeza que inventei e que apenas mora no teu corpo esgarçado pela ausência e pela noite
por que é que sempre eu soube que não virias nunca?

corte em abril

um bando de maritacas cortou os céus da cidade
atropeladas
enlouquecidas

por um momento a vida se agita
febril
inútil
entre os retalhos das nuvens

depois a Dr. Arnaldo retoma seu tráfego espesso
os motoristas
cada um ao seu volante
todos eles mortos