quarta-feira, 15 de abril de 2009

contatos de primeiro grau

era só uma palmeira esquecida pela chuva que se via da fresta da janela
mas era tão exata tão como aquela que eu via da varanda de casas muito distantes que a tarde se fez como só se fazem as mortes ou os partos quando não há qualquer testemunha
alguma coisa havia por nascer entre a névoa e o estouro das ondas
era estranho e incômodo chorar sobre as teclas do computador mas eu chorava posto que esse dia me lembrava que a palmeira esquecida na fresta da janela era a mesma posicionava-se igual tinha a mesma altura e a folhagem toda verde era igual a outra da minha infância vista da varanda da minha primeira casa e só hoje eu tinha reparado visto que andava cega entre escadas paredes portas e batentes dessa janela daqui
o dia clareava e algum barco teria se atrevido na soturna sombra dos mares sem nenhuma cor teria deixado o porto depois de alguma espera mas sem olhar prá trás
Arildo estaria por certo desafiando as ondas e os peixes sem Iemanjá
e os peixes se contorciam em sua mãos habilidosas e duras no mar profundo sacudindo de leve o barco pequeno que balançava entre uma e outra vaga como se o mundo todo fosse só um curto recado um esquecimento de Deus uma ligeira imperfeição deixada sobre esse rarefeito mundo de pessoas solitárias e quietas como só convém às pedras e aos lagartos das montanhas ermas de sol e do mais completo esquecimento

Nenhum comentário:

Postar um comentário