o que acontecia naquela época é que a vista vista da água de dentro do rio do meio mesmo do rio era precisa delineada conforme a luz era de outono ou primavera ou quando ainda o frio soprava de longe de lugares que eu nunca conheceria
ou quando ainda nem a manhã chegara nas folhas das árvores quando a luz só pensava ainda em resvalar pela carne áspera das pedras e em ir descendo até o brilho líquido do rio no qual estaria eu passando deslizante nessa superfície fluida e de monótona aparência
talvez na noite se há nesse céu muitas estrelas vejo as janelas da casa iluminadas e um vulto que chega e se debruça na calada do mundo e então olha para esse lugar aonde estou que a escuridão da noite nem oculta
no lusco fusco que esconde as coisas com sua vontade sombria eu olho para a margem pois o olhar da gente olha mesmo sem querer olhar arrisca na palidez das horas um outro olhar
fico passeando meus olhos por cantos formas contornos tortos por onde transluzem linhas que hão de brilhar mais tarde quando terei já cerrado meus olhos exaustos de olhar
a terceira margem do rio é a terceira margem a terceira bem no meio ou dentro por onde me arranho em busca daquilo que não posso ser que temo ou desconheço
daquilo para o qual não terei tempo ou vida para viver daquilo que me faltará no meio de um tal cansaço de horas inúteis e vazias
nela estou embora ainda não saiba bem não sei se é o meu olhar se o tempo que já não sinto passar se é dentro desse tempo que vou enganando devagar engatinhando me mantendo acordada vigiando cada pedaço da noite tomando conta do tempo que assim posso ir controlando em punhados delirantes de minutos que eu não viveria se dormisse
por certo não viveria acho uma pena tão grande morrer!
acho uma pena tão grande estar sozinha enquanto a noite cobre o mundo de desassossego e traz em seu bojo de silêncio uma enorme morte encantada
a noite chega enquanto a canoa escorre e eu me deito no chão do barco sentindo por baixo da minha pele a água que passa e as estrelas no topo do mundo
e parecem maiores agora as estrelas mais que quando eu vivia na terra entre os troncos as pedras os bichos as gentes
deitada no chão da canoa estreita a água não tem nenhum som enquanto passa ou passo no rio dentro do seu corpo pesado de árvore
as margens estão de cada lado meu e há outra que defino com meu corpo que forma essa linha imperecível e absoluta que margeia um mundo do outro uma margem um traço um nada que sou eu deitada no fundo do barco a carne do meu corpo que se confunde eu que me confundo nesse tempo que escorre comigo que se escraviza a mim não o contrário nunca mais ser o contrário
essa vai se tornando ar quente um divisor de mundos no mundo mole das coisas silenciosas nesse mundo que é meu desde que e apenas pelo corpo da madeira tudo desliza no branco espaço das horas
soturna me ajeito às muitas temperaturas que dividem com a minha pele um volume denso de pétalas de perfumes distraídos que bóiam no vento ou se enroscam entre o mato alto das margens deixando afetos espalhados à beira fofa das raízes
no meio das noites quando consigo não dormir sequer um minuto que varo percebendo em claro um vazio de penumbras sem cor penumbras brancas como quando os espaços dos meus poros tentam com suas mãozinhas ferozes segurar os segundos que correm que nem sequer olham por onde andam nessas noites que engano e atrapalho com a minha cruel e determinada insônia
um vazio de penumbras me cercam brancas claras como meninas perdidas e apenas entre elas nessa noite sou feliz porque sem dormir a vida não passa para mim que permaneço imóvel bicho atento farejando rumores no mais calado do ar
ocupo todas as horas que os outros abandonam em seus suspiros que jogam fora nas janelas estreitas dos seus sonhos que ocupam zonas na intersecção das coisas entre o que é humano e essa hora noturna que não sei o que seja que não é mais que um outro elementos fora daqueles conhecidos
o elemento noite que nos surpreende com sua lenta passagem pela superfície fechada da terra dos poros da água dos nossos poros aflitos é o avesso da terra o avesso do dia mas não o meu contrário um cúmplice do medo que sinto um igual
o corpo respira na noite num silencio que se consome em si mesmo que se entrega à sua própria perfeição
na escuridão o silencio cava um poço fundo aberto rasgando as coisas todas que vagam pelo mundo os pensamentos que uma vez pensados grudam-se uns atrás dos outros e por trás dos olhos como se já fossem realidade uma realidade que não se pode alterar suprimir transportar para outros lugares que não aquele onde se encontram brincando de assombrar surgir das sombras talhando nas horas cruas do dia um risco de susto
olhares com os quais cruzou o meu olhar agora abandonado ao céu às estrelas e outras luzes que pressinto na mais clara escuridão se distanciaram mas continuarão existindo após o meu olhar sem a existência desses olhos que se agarram sempre às coisas como se viver fosse para sempre
da varanda consigo ver o rio e as andorinhas que encontram entre seu vôo na manhã coisas como pedaços secos de outras que há muito tempo existiram
pedaços de telhados que as chuvas intermitentes e as plantas trazidas pelos bicos dos pássaros passaram a percorrer os céus
do meu corpo para o teu uma lonjura de ventos um abismo de distâncias que meus pés jamais percorrerão teu corpo tua saliva densa que eu bebia mais que tudo por toda a água desse rio teu corpo que nem tinha mais a pele da qual meu corpo também se despia antes mesmo do teu corpo que se despia e ainda se despe só de pensar teu olhar me olhando por dentro como nem o meu próprio olhar consegue
teu olhar me olhando sendo possuído pelo teu olhar que me persegue em sonhos e na lucidez mais absurda teu olhar que mantém ainda correndo pelos rios das minhas veias o amor que sinto por coisas que sequer precisarei conhecer ou possuir
pois sempre terei a ti e estarei lavada da morte pela permanência infinita do teu corpo em mim por esse chão de árvores flutuantes que me socorre em vida
mais que tudo por teus olhos amorosos que jamais me deixarão
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