uma vez quando eu fui menino me lembro bem disso de uma praça dos meus pés sempre descalços eu nem ligava mais nem no frio
e no calor eu mergulhava no chafariz perto da catedral enquanto a polícia se distraia olhando as vitrines das lojas de sapatos
as nuvens como carneirinhos me lembro que alguém perto de mim um dia disse isso passeavam em bandos pelo céu e às vezes duas a duas como duas menininhas muito amigas de mãos dadas
no luminoso do céu é que me parecia ficar meu medo pendurado no luminoso mais fundo do céu bem na menina dos olhos
mas não era medo das coisas que eu tinha era medo da fome que eu sentia que não dava conta de fazer parar do frio da noite soturna quando eu não tinha um amigo e das botas que passavam dos guardas batendo na quina gelada das calçadas eram muitos os guardas armados com seus revólveres escuros
medo dos muros que ficavam ali tão hirtos e gigantescos de um pai que nunca conheci medo de ter nascido e estar agora tão abandonado na curva triste das avenidas entre o vazio dos faróis mirando o estreito da estrada
medo de não poder ter nunca nenhuma pequena esperança
é muito tarde da noite agora nessa hora da noite em que nem os carros param nem obedecem sinais nem nada passam como bandos de pombas assustadas quando ouvem tiros distantes
penso agora mais rápido penso sem parar bem depressa mesmo só prá afugentar o silêncio tão escuro da madrugada se quando eu nasci a mãe que eu não conheci olhou alguma vez o céu que eu vejo se olha ainda penso se afinal existe ou existiu em algum lugar essa mãe que eu imagino nessa hora de atropelo
crio nesse vazio que em mim habita um perfume dela que possa passear por meus braços por meu rosto uma voz cristalina que possa um dia cantar bem junto aos meus ouvidos uns lábios finos e tão rosados como só uma vez vi numa revista mas ainda mais bonitos
uns cabelos de tal delicadeza longos soltos que eu pudesse enfim acariciar
imagino se essa mãe pensa se pensou em alguém como eu na sua solidão como eu agora penso nela tão sem formas tão sem linhas traços nada pedindo ardente para ser inventada
nessa hora calada que é tão demorada de passar ainda mais se tenho fome faz frio como nesse instante ou chove eu me assusto só de pensar naquilo tudo que eu não tive e em como seria tão bom ser feliz só penso nela me pego pensando em toda a vida que eu não vivi sempre entre essas ruas fugindo da polícia esperando a neblina descer para mais me ocultar debaixo dos bancos ou dos viadutos e o cheiro bom da cola que anestesia a dor
é no medo da dor que eu penso agora olhando essa gente que a boca do metrô engole sem nenhum susto
e me pergunto todo o tempo prá onde elas vão e se era preciso tanto tantas ruas tantos carros tantas lojas tantos prédios tantas coisas enquanto sozinho eu penso nisso porque hoje você não veio me procurar nem veio ninguém e eu encosto aqui sentido um cheiro que nem existe de churro de pipoca de churrasquinho de gato que os homens comeram de dia na praça e sinto uma tontura boa
a tontura de não me incomodar mais mãe que nunca te tenha tido que não tenha uma casa uma cama alguém me acariciando os cabelos isso que só a fumaça da maconha pode me trazer o profundo descaso por todas as coisas pela vida que os outros meninos têm
viajo no tranqüilo do céu que desenha as nuvens da chuva e no mar que só conheço de foto vista no jornal enquanto minha mãe passa silenciosa no transtorno agudo das ruas vazias no barulho da água na fonte da Praça da Sé procurando quem sabe por um menino assim como eu
penso no amor que nunca conheci de ninguém nenhuma mão passeando pelos meus cabelos pela minha testa tão vazia de nenhum afago beijo qualquer coisa que me encantasse os dias que criasse uma rotina agora se dorme agora se levanta se toma um banho quente
lembro dos dias vazios nos quais jamais andei de mãos dadas com ninguém como sempre vejo passar as crianças
a rua é feita da sujeira que se agarra na alma da gente escorrega feito lodo por dentro e perto dos barcos voam gaivotas que pegam peixes fugidios nas redes no mesmo momento em que os urubus comem ao meu lado uma carniça de rato e é só isso que de verdade eu vejo
me chamam por aqui de um nome que não é meu nome a maioria das vezes de menino só quando não pivete que eu não gosto
menino mesmo é o que eu sou menino pequeno ainda mas sempre um menino valente esse orgulho eu tenho pois o que tiver que ser ou vir eu encaro limpando com a manga do casaco o nariz que o frio escorre olhando distraído prá ver se a lua mais uma vez saiu na névoa seca da madrugada
quando o céu é fechado e baixo como hoje o ar fica não sei porque mais pesado é quase como se eu me suicidasse devagar isso é uma coisa boa de sentir
como se cada minuto dessa noite besta se afirmasse sem motivo nenhum de existir uma coisa que nem desgraça é quase um pedido de desculpas para mim que não sou ninguém eu que nem mesmo sei quem eu sou
me disseram que eu vivia ao relento eu gostei dessa palavra relento como gosto de outras que digo baixinho prá afugentar esse engasgo do meu peito água gaivota meninas mãe lua estrela relento
lua chão areia grão meninas mãe ao relento eu estou mãe sozinho na cidade
são palavras bonitas essas e com elas eu posso esconder as outras como dor grito merda morte fome medo nojo
com elas posso falar formar frases juntando cidade medo fome dor relento cidade estrela meninas não sei onde colocar as estrelas a areia os grãos mas sei da lua que arredonda a quina dos prédios acho tão bonita a lua
não sei formar frases sei juntar essas palavras que contam quem sou quem somos porque há muitos eus que se escondem com o nariz escorrendo pelas ruas todas de São Paulo
um dia de tanto pensar vou achar um jeito bom de seguir vivendo uma forma de colocar essas palavras feias debaixo daquelas outras que eu procuro por toda parte escondidas entre as folhas das árvores mais altas nas bancas dos camelôs entre todas as coisas coloridas nas vitrines de tênis emborrachados nas portas dos restaurantes mais finos nas churrascarias na entrada do cinema em todos esses lugares que eu nunca fui na lona do circo na frente dos meninos de uniforme que passam para a escola todos juntos rindo alto
eu vou guardando as palavras bonitas que encontro vou colecionando todas no meu pensamento e como não sei escrever fico repetindo todo o tempo baixinho cada uma delas depois duas a duas todas juntas por fim e repito e repito sussurrando cochichando só prá não esquecer são muitas as palavras bonitas que eu guardo comigo e não falo delas prá ninguém minha mãe
em meio a todas elas lua mãe menino cidade vazia por onde andarás prá sempre tão longe de mim minha mãe?
se guardo prá ti e só prá ti todas essas palavras luminosas que eu coleciono e que tem brilho cor e um perfume de tanta delicadeza que inventei e que apenas mora no teu corpo esgarçado pela ausência e pela noite
por que é que sempre eu soube que não virias nunca?
moro na cidade do sol onde os meninos tiveram a sua chafariz recentemente restaurada e entre os pombos da praça e o sol que atravessa as árvores na cidade com cheiro de laranja os pés dos meninos tocam a água quase limpa com os pés marcas de seu tempo e de sua história na cidade o sol é de laranja
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