escurece em Cerquilho Lisboa Canela em tantos outros lugares
escurece em Ushuaia nunca por completo como se a escuridão se escondesse entre as águas inquietas do canal
então é preciso deixar que o ar silencioso seja respirado com cuidado que os olhos olhem só um pouco o de fora para que os medos se soltem de nós e se ponham no vento da noite austral grande noite muita noite
comprida escuridão é a que nunca se completa ou deita para que os tordos procurem suas tocas entre a neve para que a vida prossiga nada é necessário nada a fazer para que todo o mistério se apresente
para isso basta a luz do fogo nas lareiras fogueiras lampiões pendurados nas esquinas suas labaredas
e por fim esse é todo o mistério da terra a extrema radicalidade dos extremos tudo o que se atrai e se repele incansavelmente
sexta-feira, 11 de outubro de 2013
mais escuro
na noite as janelas se iluminam assustadas enquanto a lua na vila aumenta dia a dia
a lua
crescendo em Ushuaia derramando-se nas águas do canal deixando a neve translúcida e plena como se o mundo
como se a vida
estar dividida
querer estar aqui e lá em todos os lugares em que o fogo ilumina toda escuridão tudo o que há de mais escuro
como se o medo
como se a morte
e os bichos
todos os bichos
até nós
a lua
crescendo em Ushuaia derramando-se nas águas do canal deixando a neve translúcida e plena como se o mundo
como se a vida
estar dividida
querer estar aqui e lá em todos os lugares em que o fogo ilumina toda escuridão tudo o que há de mais escuro
como se o medo
como se a morte
e os bichos
todos os bichos
até nós
houve uma noite contigo
houve uma noite contigo
foi durante um
verão do qual já não me recordo e era um daqueles momentos raros no qual a
noite chegara mas o mar ainda era morno e cheio de vida
nós estávamos
ali como sob efeito de uma droga qualquer olhando o escuro do céu sem nenhuma
estrela
na profundidade
distante das águas um ou outro raio caia mas tão longe que não nos chegava
qualquer som apenas um risco dobrado e dobrado sobre si mesmo que percorria o
céu e era uma luz que não nos abandonaria nunca mais eu pensei
eu pensei então
que havia mares gelados naquele mesmo instante e só esse pensamento bastou para
me encher os olhos d’água
o mundo era
grande demais eu tive certeza disso enquanto te ouvia gritando na lonjura parda
das ondas e teu grito era da mais pura alegria era um som que vinha de zonas do
teu corpinho pequeno lugares que eu não conheceria nunca mas que seriam serenos
como punhados de sol sobre a relva molhada como um pouco da neblina cortando
cada amanhecer em matas tão distantes e nas quais jamais viveremos
e que essas
matas ah! eu queria nelas um lugar qualquer que nenhum passo humano houvesse
percorrido antes que fossem marcadas por teus gritos de feroz felicidade
fossem marcadas
pelo ar que respiras e que rompem o líquido volume dessa praia marcando para sempre
esse fim de tarde no qual finalmente somos os dois como duas nuvens irmãs que
caminham e flutuam e se transformam quando há vento ou prenúncio de chuva e que
se eternizam assim enquanto navegam no mais bonito do céu claro enquanto
brincam e se espantam de que seja tão enorme o mundo com todos os seus
insuspeitados contornos
a noite agora é
completamente escura e estamos os dois com o mar encostando em nossos joelhos
submersos e o mar é cálido e leve e se estende pela areia com uma fartura uma
crença marítima em futuros que a nós talvez nem cheguem
és meu filho és
tão não meu que o amor me chega à garganta em forma de soluço e aos olhos e
posso flutuar existir na minha vida prosaica e boba e até fingir que lá serei
feliz mas é dessa sensação que falo disso que não perderei desse mar do toque
de tua mão pequena no meu braço do seu riso que tem nessa mistura toda que faz
parte do teu ser um tanto de medo e um tanto da mais doce curiosidade
não te
esquecerei não esquecerei o momento em que ergues o rosto e observas por um
segundo o céu
e teu vulto se
cobre com uma onda qualquer de luar
Gigi
Gigi
deitada no parapeito luminoso da janela
não sabe que a morte existe
fixada num momento qualquer do seu
futuro
Gigi desconhece o futuro
e vê os pombos no telhado
com leve curiosidade
mas eu que a observo nesse domingo 15
de novembro de 1998
dia único datado e imperdível
sofro de uma dor desnecessária:
sabendo da morte das coisas
da morte dela
da minha morte
sofro de um medo crônico e lodoso
que me rói por dentro
como um grito entupido
16.11.98
(da série “pequenos exercícios”)
para minha avó Gigi
Georgina tece a noite
durante anos o tempo foi passado apenas
no viver a vida a cada dia
a casa se enchia de cheiros e sabores
um dia o peixe ensopado o camarão
noutro dia a carne de panela o milho verde cozido o pão de minuto
as crianças cresciam alguém tinha
sarampo e logo estavam todos febris e a casa girava em torno dos quartos de se
contar histórias que não tinham nem fim de se fazer compotas
e chegavam mais filhos e era preciso
chamar a parteira que vinha solícita com chás e poções ligeiramente afobada
por algum tempo chorava um bebe e os
corredores se perfumavam com o cheiro de fraldas
nas noites compridas a sala de jantar
se agitava e os mais velhos contavam suas proezas enquanto jogavam o bingo
e mais tarde após aquietar a todos ela
se deitava silenciosa ouvindo a respiração de seu homem no som contínuo das
ondas do mar
então rezava uma reza sem letras uma
reza calma sem nenhuma palavra agradecendo sua casa cheia seus filhos todos com
saúde
mas agora tudo se fora como fim de
sonho bom e sozinha tão sozinha como nunca ela ficara
e já não podia programar com as
empregadas o cardápio da semana nem sair às compras na manhã de sol ou esperar
o leiteiro
quando o falatório das enfermeiras
cessa e o hospital entra naquele torpor das madrugadas naquele silêncio que não
é silêncio naquele som que para ser um som necessitaria de alguma coisa viva
como um canto uma risada de criança um cheiro de feijão queimando na panela ela
ainda chega com dificuldade até o vidro da janela e tímida como a menor das
criancinhas vê para muito além do vulto escuro dos prédios sua primeira casa o
jardim e o poste aceso na noite espalhando no ar quente de São Vicente uma
cruel alegria
é tarde sempre nesse hora parece ser
mais tarde do que nunca mais tarde do que deveria mesmo assim ela ainda pode
ver todas aquelas janelas acesas
colando o nariz ao frio do vidro pode
ouvir o tilintar dos copos e as vozes alegres dos meninos enquanto cresciam ou
saiam batendo com força o portão de ferro
na pele dele
espessa estrela ou na pele dele
estou escuro como
um abismo que se esconde de si mesmo na escuridão onde outras estrelas brilham
muito
não aqui
e me escondem
quando a noite é longe como agora numa toca como um bicho distraído de si de
seus remorsos e medos de seus atropelos e recordações
sempre morei como
se no meu corpo o escuro só ameaçasse e envolvesse o animal que ronda no mato
no abismo de uma casa sem portas
meu corpo era tudo
que eu não fui não soube não consegui meu corpo um túmulo onde até ladrões
entraram e ousaram atos impossíveis que eu mesmo morto pude presenciar ouvindo
e vendo as coisas acontecerem como se estivesse vivo
como numa gaveta
arrombada escondo partes largadas de quando fui menino zonas do meu corpo
perdido de quando eu ainda possuía desejos
passam relâmpagos
ou sóis da meia noite pelos vitrôs quebrados dessa casa em abandono que hoje
sou uma casa em ruínas numa cidade aonde já não mora ninguém
passam perdidos na
neblina do amanhecer de qualquer mar que não conheço navios fantasmas e seus
ocupantes todos mortos
de mim só posso me
lembrar menino entre funerais vazios em quartos onde sempre se ocultava alguém
doente alguém louco ou que estava para morrer
das noites da
minha infância restou um abandono tanto uma tal desnecessidade de vida planos
esperanças
sempre fui assim
parece e te digo logo que percebi que tens luminosas lembranças no teu caminho
eu que só tenho em mim uma fome sem remédio
minha pouca vida
sempre se alojou da própria morte de tudo daqueles que nunca amaram nem
souberam ser amados e que sempre me cercaram sem piedade
passam por minha
memória tardes que escorriam lentas a lugar nenhum anywhere anywhere
digo essas
palavras porque demonstram melhor esse estranhamento e os abismos que dentro do
que chamo de eu mesmo se cavaram faço isso sem a mais leve auto piedade com uma
fria vontade assassina uma tênue e fraca vontade no fundo talvez para te
seduzir para te destruir para que sejas igual a mim
no mais longe de toda
a noite eu procuro entre minhas mãos vazias um terno calor de braços um tempo
por quando o amor passava vindo talvez de ti como o pouco amor que me percorria
enquanto eu ainda dormia ou sorria agonizante ou chorava no frio útero da minha
mãe
uma mãe que viveu
tantos anos ao meu lado e que nunca conheci
Enquanto o dia se apruma
Enquanto o dia se apruma
Dona Rosália sente a sandália nova
apertando um pouco o dedo mindinho mas agora não tem tempo de trocar o sapato
toda aquela roupa por lavar e a máquina
que Rosália não quer acreditar a máquina paira um pouco acima do chão mas tão
pouco que ela tem que se agachar e passar por baixo de tudo a vassoura de
piaçava
o fio elétrico dá um pouco de trabalho
brincando no ar até encontrar a tomada e fica a se mover numa dança lerda de um
lado a outro da lavanderia enquanto Rosália tenta segurar o sabão em pó que
esvoaça e brilha solto no ar etéreo do outono
as roupas maiores se deixam levar
lentas traçando caminhos curvos pela cozinha e a copa enquanto as cuecas e as
meias já estão quase chegando na sala
Dona Rosália dispara na direção da porta
a tempo de ver todos os seus lençóis brancos e limpos de morrer saírem bailando
em desordem pela Madalena afora
primavera de 1999
EM CADA UM DE NÓS
em cada um de nós
sentada no banco reservado aos idosos Adriana chorava sozinha
chorava num silêncio que sequer disfarçava as lágrimas que escorriam
simétricas se encaixando na gola branca da blusa de frio
Adriana chorava em silêncio com a mais constrangedora dignidade e o
sofrimento que ela não escondia nem mostrava flutuou no ar parado no ar cansado
entre os vidros cerrados pela chuva
seguíamos todos juntos e a Heitor Penteado era uma alameda agora de
lembranças que cada um de nós sem desejar recuperava
todas elas tristes
do tamanho do meu amor
Do tamanho do meu amor
te contar como são as mangas pequenas
nos galhos
quando a primavera vai terminando e o
verão já aponta no horizonte dos dias com seu caldo doce e quente rompendo o
frescor da manhã.
te dizer das mangas dourando-se ao sol
de novembro com suas pálidas faces que se avermelham no passar rápido das horas
ouvir de ti o som da neve caindo
ininterrupta em terras distantes
e o gelado silêncio da imensidão quando
a noite se arrasta imersa em torpor
apreender em ti o aconchego do gelo e
da solidão ardendo antigos segredos
te mostrar o mar de Boiçucanga quando
vem a tarde mansa
e as estrelas despontam com seus
bracinhos de abismo
te envolver amor num princípio de lua
te contar palmo a palmo a brisa morna
do meu corpo imerso inteiro em azul
descobrir em ti um corpo que não
conhece o dia
só então o mundo que nos separa se
perderia em laranjais e furacões
em dunas e areia movediça
como tudo se quebra agora no impossível
som que nos envolve
como se parte em arcos contíguos o
choro que embala o oceano
nesse momento em que te olho e me
desejas
nessa distância tão pequena que de fato
nos separa.
E nesse espaço claramente impossível.
30.9.98
(" nos estilhaços das ruas "
)
do outro lado
do outro lado
tem uma janela sempre acesa na noite
uma janela que a minha janela encontra sempre
à mesma hora
irmãs na inquietação das abruptas
trevas
se olham na lonjura dos dois prédios
essas duas janelas
quadrados iluminados que espiam
cegos
a escuridão
enquanto a cidade dorme
mas eu que escrevo noite adentro
olho o retângulo esticado para fora dos
batentes
com seus dedinhos claros tateando a
escuridão
e penso naquele que acende a luz e o
cigarro
e como eu
ou não como eu
atiça a mente às voltas com fantasmas
ou simplesmente olha o céu
notando ao longe a minha janela acesa
no que pensa?
será no que penso?
pensa que eu possa estar onde estou?
pensa quem sou?
ou simplesmente olha a lua?
abril de 2001
desmedida distância
desmedida distância
o avião cortaria o céu escuro rumo às
estrelas
ela sabia o avião iria ultrapassar o
momento da dor iria deixar para trás o frio e a chuva de São Paulo enfumaçada
iria cortar a noite suavemente tecendo zonas de silêncio onde antes havia a
sofreguidão de dias intermináveis e opacos
o avião iria desenhar espaços pequenos
e acumulados e iria flutuar num impenetrável presente no qual seu corpo cansado
poderia se abandonar
e como ela ansiava pelo momento de
embarcar
segurou firma a bolsa rente ao corpo
tentou fechar os olhos queria ouvir a chamada queria adivinhar no ar o átimo de
instante anterior ao que anunciasse sua partida
o avião decolaria na sua loucura
costumeira de desafiar a vida subiria suicida jogando-se em meio à chuva e ao vento
aos raios e trovões mas ela não teria nenhum medo sua alma deixava lentamente a
aflição para se tornar leve quase nuvem
o avião abriria espaço no espaço
líquido do ar e ficaria tão alto que de nada adiantaria olhar pela janela e
então nesse momento ela poderia olhar quieta para dentro de si onde a saudade
cavara um fosso profundo
só então ela poderia sentir sem ter
medo de morrer
a saudade deixara um rastro amarrado e
doloroso que iria se soltando aos poucos nas nove horas em que estaria lá no
alto fingindo que aquela viagem era só mais uma viagem no panorama farto de sua
tresloucada vida
só lá nos espaços levemente ondulados
seria possível começar a deixar de sentir a dor sem tamanho que a atormentava e
quando todas as luzes se apagassem naquele momento da madrugada em que se dorme
e se acorda e em que tudo é silêncio e som longínquo de motor nesse momento sim
poderia viver a saudade enlouquecida e tonta que só fazia aumentar sem a
presença dele
vê-lo por inteiro e deixar a saudade
doer demais e morder seu corpo e não perdoar pois tudo agora era uma questão de
muito pouco tempo ela que havia ficado tanto tempo sem ele
ela quase já podia vê-lo com seu corpo moreno
seus cabelos revoltos voando no ar frio
de New York seu olhar curioso ao pensar em como ela chegaria até ele
levantou-se lânguida e tremula rumo ao
portão de embarque
sem pensar sem sofrer quase sem querer
como se o destino a estivesse levando líquida rumo aos braços dele
era hora de embarcar
de uma extrema delicadeza
de uma extrema
delicadeza
anoitecia muito
muito devagar
e a noite
anoitecendo ia entrando pelas janelas entranhando nas frestas dos móveis e nos
vãos esquecidos das gavetas
esse anoitecer ia
brincando lentamente com as folhas do amor perfeito rastreando os passos de
Gigi tentando bem de leve invadir o espaço entre almofadas e talheres
o noturno ar
escuro preenchia devagar o vazio das panelas e mesmo debaixo dos lençóis a
noite havia se insinuado deslizante
tudo ia sendo
tomado por um silêncio aconchegante num vazio dos sons que conduziram o dia ao
seu final e que agora também haviam desaparecido na penumbra
Sofia regando as
plantas foi notando distraída que entre os vasos e mesmo a terra dos vasos e
por debaixo dos móveis uma delicada escuridão a tudo envolvia com mil olhinhos
de seda
e ela pensou a
noite com seus passos pequenos de espuma e não fechou as janelas
com seus olhos a
escuridão da noite parecia uma menina dormindo
tão linda
tão tranqüila a
linda menina dormindo antes de a noite chegar
primavera de 1999
de números e histórias
de números e
histórias
quando eu soube
olhei o quintal e era tudo tão extenso que doía
então corri pelo
chão onde as folhas secas se acumulavam em muitas camadas sem nunca terem sido
mexidas
folhas virando
adubo nos anos sem conta de suas existências de folha
folhas úmidas
abrigando o molhado da terra de debaixo
contei as
mangueiras como forma de nunca mais esquecer depois fui contando tudo
contando para me
agarrar contando para ter alguma coisa para levar na despedida para trazer para
a cidade grande onde haveria de tentar esquecer a dor de nunca mais amanheceres
entre cheiro de madeira queimando no fogão de polenta esquentando na chapa de
ferro
eram vinte e três
jabuticabeiras
eram cinco
mangueiras entre todas as árvores que não conseguiria sequer contar
não gosto dos
números
eles são parte de
perdas irrecuperáveis como ventos antigos vendavais
de linhas e maritacas
de linhas e maritacas
as maritacas se agrupam na árvore ao
lado quando surge o dia
mas depois quando tudo já se torna
continuidade e rotina
elas se põem a gritar em frente à
janela enquanto escrevo
e esta é a melhor parte
a que me ponho a pensar no teu rosto
jovem
nos teus febris olhos azuis
no que não poderíamos nunca ter sido
um para o outro
corte em abril
corte em abril
um bando de
maritacas cortou os céus da cidade
atropeladas
enlouquecidas
por um
momento a vida se agita
febril
inútil
entre os
retalhos das nuvens
depois a
Dr. Arnaldo retoma seu tráfego espesso
os
motoristas
cada um ao
seu volante
todos eles
mortos
contatos de primeiro grau
contatos de
primeiro grau
era só uma
palmeira esquecida pela chuva que se via da fresta da janela
mas era tão exata
tão como aquela que eu via da varanda de casas muito distantes que a tarde se
fez como só se fazem as mortes ou os partos quando não há qualquer testemunha
alguma coisa havia
por nascer entre a garoa e o estouro das ondas
era estranho e
incômodo chorar sobre as teclas do computador mas eu chorava posto que esse dia
me lembrava que a palmeira esquecida na fresta da janela era a mesma posicionava-se
igual tinha a mesma altura e a folhagem toda verde era igual a outra da minha
infância vista da varanda da minha primeira casa e só hoje eu tinha reparado
visto que andava cega e morta entre escadas paredes portas e os batentes dessa
janela daqui
o dia clareava e
algum barco teria se atrevido na soturna sombra dos mares sem nenhuma cor teria
deixado a marina depois de alguma espera mas sem olhar prá trás
Arildo estaria por
certo desafiando as ondas e os peixes sem Iemanjá
e os peixes se
contorciam em sua mãos habilidosas e duras no mar profundo sacudindo de leve o
barco pequeno que balançava entre uma e outra vaga como se o mundo todo fosse
só um curto recado um esquecimento de Deus uma ligeira imperfeição deixada
sobre esse imperfeito mundo de pessoas solitárias e quietas como só convém às
pedras e aos lagartos das montanhas ermas de sol e do mais completo
esquecimento
agosto entre os carros
agosto entre os
carros
todas as pessoas
tem um secreto pacto com a poesia
sei disso porque
quando setembro aponta no horizonte com suas madrugadas dia a dia um minuto
mais claras elas se olham pelas ruas a caminho do trabalho nessa precariedade
ardente que a morte das coisas traz com uma ardência sem limites como se
quisessem dizer tudo que nunca poderá ser dito
e há um punhado de
sorrisos que nunca foram dados palavras impossíveis que nunca foram faladas e
que se deixam ver bailando no ar sujo que o inverno largou pelas ruas por onde
passo cada manhã abismada de que tudo ainda seja assim tão desajeitadamente
pequeno
e mesmo que a
sujeira das ruas essa sujeira quase inacreditável e dura exista chamando a
atenção de meus olhos já tão cansados de reparar em tudo que o mundo não
deveria ser
mesmo que a
realidade apareça agora nessa hora da manhã em que a vejo com seus braços de
estrela seus corpinhos de nuvens afogadas no meio do pó frio das calçadas
mesmo assim
seguirei pensando o quanto é inevitável estar aqui perambulando por um bairro
ou outro passando pelo centro com seus antigos edifícios seus cinemas onde numa
lembrança muito distante velhos pianistas tocavam
e os homens que
por esses mesmos lugares passam olham para dentro de seus peitos em perdidos primaveris
pensamentos
por toda a parte
há um desejo no ar de que por fim alguma coisa aconteça que não essas de todos
os dias todos os dias lamentavelmente
quem poderá algum
dia saber o que pensam as pessoas que passam ?
mesmo quando não
sabem sobretudo quando não vêem nada disso que vejo
e quando um ou
outro olhar cruza o meu olhar então se faz no ar uma forma oblíqua porque são
sempre assim essas formas no ar
figuras que não se
pode tocar
figuras que sequer
terão existência quando o pleno dia chegar
instantâneas e
muito pouco perceptíveis formas essas que em vão tento abraçar com meu corpo de
sol cheirando a sabonete e lavanda
mas são cansados
os gestos que se arrastam no luminoso oxigênio do dia e o velho que agora passa
carrega em seus ombros uma imensa melancolia
essa que atrasa as
estações que prolonga o inverno que nos torna a todos um pouco mais tristes e
inevitavelmente perdidos entre os postes lojas esquinas entre tudo o que nunca
será
é preciso
registrar aqui de modo drástico e definitivo a importância daquilo tudo que
nunca será e que percorre a cidade em percursos invisíveis
é preciso afirmar
essa dolorosa e fotográfica constatação de que os prédios se diluem na massa de
inevitáveis desencontros de que o sangue resta ressecado na ponta aguda dos
becos dos tiros dos gritos das crianças torturadas na periferia dos abortos
feitos nas tardes mortas de cansaço entre os executivos apressados nos metrôs
que escondem o calor da Paulista em espaços da mais perfeita ordem em vãos
livres de museus cujos fetos entopem as privadas dos escritórios elegantes
descobertos apenas e tão somente pelo cheiro insuportável que navega tenso
entre os micros
importa registrar
num registro impossível tudo o que nunca será
nossa existência
de rostos vincados pela dor por sorrisos pequenos que nos aprisionam em nossa
realidade de horários supermercados escolas e bancos
por todo esse
tempo que vai escorrendo de nossos corpos exaustos de nunca viver a vida nesse
ir e vir sem sentido na rotina amarga imposta pelos quarteirões fechados em si
mesmos como grutas nos trens que se sucedem nos aviões que sobrevoam o céu azul
de quando a noite começa a cair
o lixo amontoado
ao longe na calçada é uma criança dormindo ao relento mais uma delas dessa São
Paulo colorida com o perverso sacrifício sempre tão sem inocência dos inocentes
como quem não sabe
como quem mente no escuro os fantasmas não existem meu menino só meninos que
morrem sozinhos no poço escuro das drogas existem aqueles fantasmas que no
escuro espremem o coração descem o frio à boca do estômago caras remelentas nos
faróis meninas meninos estupradas estuprados pelos pais enquanto outros meninos
de bicicleta passam paralelos exageradamente anônimos completamente
desconhecidos de ti que também desperdiçavas teu tempo pelas ruas ouvindo tudo
que todas as densas imagens têm prá contar sem uma palavra sequer nenhuma letra
as flores na
Doutor Arnaldo os ipês amarelos de agosto o rosa súbito das enormes árvores que
surgem encantadas no cinza das casas velhas os passarinhos pois cantam pássaros
em muitos dos teus cantos vagos minha cidade e até borboletas se avista em
plena Av. Sumaré voando desesperadas entre os carros dos fins de tarde de
enquanto passeava contigo
queria te dizer
que amo esses seres anônimos que cruzam opacos meu caminho
esses homens e
mulheres com suas casas na periferia seus desejos de uma televisão melhor até
mesmo de um carro seus rostos pálidos seus olhos fundos
queria poder te
dizer que amo os camelôs que armam suas barracas no circuito das Clínicas e as
pessoas que param sorriem ainda podem ser felizes em qualquer manhã
amo com um amor
infeliz e doloroso as crianças doentes especialmente aquelas sem cabelo de
olhos fundos e faces encovadas que compram um macaquinho de corda na bicicleta
talvez um algodão doce e lambem os lábios de satisfação sorrindo seus sorrisos
tristes
pudesse eu te
dizer do olhar de amor que essas pessoas têm do tempo para parar e agradecer e
lembrar de um outro dia passando ali de uma toalha bordada do gosto bom do
beiju feito na hora
hei de conseguir
contar mais tarde de uma tarde na Santa Casa e de como a lua cheia se deixava
ver de repente por trás dos prédios dos ambulatórios e dos centros cirúrgicos
do mesmo modo altaneiro como entre coqueiros muito distantes
como pessoas famílias
inteiras horas e horas de espera uma transfusão de sangue uma fratura um tiro
uma sessão de quimioterapia olhavam devem olhar ainda para a lua como se nunca
caminhando até o ponto do ônibus e se despedem agradecidas de que haja a vida
haja a noite e exista ainda o caminho da casa
te contar do meu
desejo eu queria tanto
de uma vida enfim
como essas vidas parecem ser
que seja completa
em si mesma que possa se parecer com outras vidas
não como as que
enxergamos ávidos pelo vidro dos carros entre os carros uma vida
o menino manco
caminha no cruzamento os carros buzinam uma mulher bem vestida fala um palavrão
horrível mas o menino não sabe não pode correr
o homem negro sobe
a Teodoro Sampaio puxando a carroça de sucata o suor escorre por suas pernas tortas
uma mais curta que a outra
o Esquadrão
Resgate salva um motoqueiro enquanto o gordo no Audi reclama do atraso do
trânsito da vida infernal dos estúpidos que se deixam atropelar enquanto
escarra na avenida
na frente do IML
as maritacas passam gritando cortando o céu de fora a fora
amanheceu de todo
e em São Paulo um novo dia já vai longe
nos cemitérios
todos as árvores estão floridas meu amor e eu não consigo mais te contar
nenhuma outra história entre tantas que nunca consegui contar
tomo tuas mãos geladas
nas minhas mãos toco cada um dos teus dedos pequenos infinitamente longe teus
pequenos dedos
lá fora as
maritacas gritam e gritam mas não ouves mais o som contínuo que essa cidade tem
um som que parece
o mar de que gostavas tanto meu menino
enquanto eu aqui
morta em vida para sempre
morta em vida para
sempre olhando teu corpo tão coberto pelo frio
agora
agora
que o azul do céu é menos intenso
que o anoitecer é ainda mais leve
que a densidão amorosa do que fostes ou
do que pensei teres sido
daquilo que do meio do meu medo desejei
já se esvai
posso trazer-te de volta com teus olhos
como o céu de ainda a pouco
incrivelmente azuis
como te tocar sendo assim?
como isso poderia alguma vez ter sido
feito?
adormecendo em mim mesma
adormecendo em mim
mesma
o que acontecia
naquela época é que a vista vista da água de dentro do rio do meio mesmo do rio
era precisa delineada conforme a luz era de outono ou primavera ou quando ainda
o frio soprava de longe de lugares que eu nunca conheceria
ou quando ainda
nem a manhã chegara nas folhas das árvores quando a luz só pensava ainda em
resvalar pela carne áspera das pedras e em ir descendo até o brilho líquido do
rio no qual estaria eu passando deslizante nessa superfície fluida e de
monótona aparência
talvez na noite se
há nesse céu muitas estrelas eu possa ver as janelas da casa iluminadas e um
vulto que chega e se debruça na calada do mundo e então olha para esse lugar onde
estou que a escuridão da noite nem oculta
no lusco fusco que
esconde as coisas com sua vontade sombria eu olho para a margem pois o olhar da
gente olha mesmo sem querer olhar arrisca na palidez das horas outro olhar
fico passeando
meus olhos por cantos formas contornos tortos por onde transluzem linhas que
hão de brilhar mais tarde quando terei já cerrado meus olhos exaustos de olhar
a terceira margem
do rio é a terceira margem a terceira bem no meio ou dentro por onde me arranho
em busca daquilo que não posso ser que temo ou desconheço
daquilo para o
qual não terei tempo ou vida para viver daquilo que me faltará no meio de um
tal cansaço de horas inúteis e vazias
nela estou embora
ainda não saiba bem não sei se é o meu olhar se o tempo que já não sinto passar
se é dentro desse tempo que vou
enganando devagar engatinhando me mantendo acordada vigiando cada pedaço da
noite tomando conta do tempo que assim posso ir controlando em punhados
delirantes de minutos que eu não viveria se dormisse
por certo não
viveria acho uma pena tão grande morrer!
acho uma pena tão
grande estar sozinha enquanto a noite cobre o mundo de desassossego e traz em
seu bojo de silêncio uma enorme morte encantada
a noite chega
enquanto a canoa escorre e eu me deito no chão do barco sentindo por baixo da
minha pele a água que passa e as estrelas no topo do mundo
e parecem maiores
agora as estrelas mais que quando eu vivia na terra entre os troncos as pedras
os bichos as gentes
deitada no chão da
canoa estreita a água não tem nenhum som enquanto passa ou passo no rio dentro
do seu corpo pesado de árvore
as margens estão
de cada lado meu e há outra que defino com meu corpo que forma essa linha
imperecível e absoluta que margeia um mundo do outro uma margem um traço um
nada que sou eu deitada no fundo do barco a carne do meu corpo que se confunde
eu que me confundo nesse tempo que escorre comigo que se escraviza a mim não o
contrário nunca mais ser o contrário
essa vai se
tornando ar quente um divisor de mundos no mundo mole das coisas silenciosas
nesse mundo que é meu desde que e apenas pelo corpo da madeira tudo desliza no
branco espaço das horas
soturna me ajeito
às muitas temperaturas que dividem com a minha pele um volume denso de pétalas
de perfumes distraídos que bóiam no vento ou se enroscam entre o mato alto das
margens deixando afetos espalhados à beira fofa das raízes
no meio das noites
quando consigo não dormir sequer um minuto que varo percebendo em claro um
vazio de penumbras sem cor penumbras brancas como quando os espaços dos meus
poros tentam com suas mãozinhas ferozes segurar os segundos que correm que nem
sequer olham por onde andam nessas noites que engano e atrapalho com a minha
cruel e determinada insônia
um vazio de
penumbras me cercam brancas claras como meninas perdidas e apenas entre elas
nessa noite sou feliz porque sem dormir a vida não passa para mim que permaneço
imóvel bicho atento farejando rumores no mais calado do ar
ocupo todas as
horas que os outros abandonam em seus suspiros que jogam fora nas janelas
estreitas dos seus sonhos que ocupam zonas na intersecção das coisas entre o que
é humano e essa hora noturna que não sei o que seja que não é mais que um outro
elemento aqueles conhecidos
o elemento noite
que nos surpreende com sua lenta passagem pela superfície fechada da terra dos
poros da água dos nossos poros aflitos é o avesso da terra o avesso do dia mas
não o meu contrário um cúmplice do medo que sinto um igual
o corpo respira na
noite num silencio que se consome em si mesmo que se entrega à sua própria
perfeição
na escuridão o
silencio cava um poço fundo aberto rasgando as coisas todas que vagam pelo
mundo os pensamentos que uma vez pensados grudam-se uns atrás dos outros e por
trás dos olhos como se já fossem realidade uma realidade que não se pode
alterar suprimir transportar para outros lugares que não aquele onde se encontram
brincando de assombrar surgir das sombras talhando nas horas cruas do dia um
risco de susto
olhares com os
quais cruzou o meu olhar agora abandonado ao céu às estrelas e outras luzes que
pressinto na mais clara escuridão se distanciaram mas continuarão existindo após
o meu olhar sem a existência desses olhos que se agarram sempre às coisas como
se viver fosse para sempre
da varanda consigo
ver o rio e as andorinhas que encontram entre seu vôo na manhã coisas como
pedaços secos de outras que há muito tempo existiram
pedaços de
telhados que as chuvas intermitentes e as plantas trazidas pelos bicos dos
pássaros passaram a percorrer os céus
do meu corpo para
o teu uma lonjura de ventos um abismo de distâncias que meus pés jamais
percorrerão teu corpo tua saliva densa que eu bebia mais que tudo por toda a
água desse rio teu corpo que nem tinha mais a pele da qual meu corpo também se
despia antes mesmo do teu corpo que se despia e ainda se despe só de pensar teu
olhar me olhando por dentro como nem o meu próprio olhar conseguiria
teu olhar me
olhando sendo possuído pelo teu olhar que me persegue em sonhos e na lucidez
mais absurda teu olhar que mantém ainda correndo pelos rios das minhas veias o
amor que sinto por coisas que sequer precisarei conhecer ou possuir
pois sempre terei
a ti e estarei lavada da morte pela permanência infinita do teu etéreo corpo em
mim por esse chão de árvores flutuantes que me socorre em vida
mais que tudo por
teus olhos amorosos que jamais me deixarão
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