agosto entre os
carros
todas as pessoas
tem um secreto pacto com a poesia
sei disso porque
quando setembro aponta no horizonte com suas madrugadas dia a dia um minuto
mais claras elas se olham pelas ruas a caminho do trabalho nessa precariedade
ardente que a morte das coisas traz com uma ardência sem limites como se
quisessem dizer tudo que nunca poderá ser dito
e há um punhado de
sorrisos que nunca foram dados palavras impossíveis que nunca foram faladas e
que se deixam ver bailando no ar sujo que o inverno largou pelas ruas por onde
passo cada manhã abismada de que tudo ainda seja assim tão desajeitadamente
pequeno
e mesmo que a
sujeira das ruas essa sujeira quase inacreditável e dura exista chamando a
atenção de meus olhos já tão cansados de reparar em tudo que o mundo não
deveria ser
mesmo que a
realidade apareça agora nessa hora da manhã em que a vejo com seus braços de
estrela seus corpinhos de nuvens afogadas no meio do pó frio das calçadas
mesmo assim
seguirei pensando o quanto é inevitável estar aqui perambulando por um bairro
ou outro passando pelo centro com seus antigos edifícios seus cinemas onde numa
lembrança muito distante velhos pianistas tocavam
e os homens que
por esses mesmos lugares passam olham para dentro de seus peitos em perdidos primaveris
pensamentos
por toda a parte
há um desejo no ar de que por fim alguma coisa aconteça que não essas de todos
os dias todos os dias lamentavelmente
quem poderá algum
dia saber o que pensam as pessoas que passam ?
mesmo quando não
sabem sobretudo quando não vêem nada disso que vejo
e quando um ou
outro olhar cruza o meu olhar então se faz no ar uma forma oblíqua porque são
sempre assim essas formas no ar
figuras que não se
pode tocar
figuras que sequer
terão existência quando o pleno dia chegar
instantâneas e
muito pouco perceptíveis formas essas que em vão tento abraçar com meu corpo de
sol cheirando a sabonete e lavanda
mas são cansados
os gestos que se arrastam no luminoso oxigênio do dia e o velho que agora passa
carrega em seus ombros uma imensa melancolia
essa que atrasa as
estações que prolonga o inverno que nos torna a todos um pouco mais tristes e
inevitavelmente perdidos entre os postes lojas esquinas entre tudo o que nunca
será
é preciso
registrar aqui de modo drástico e definitivo a importância daquilo tudo que
nunca será e que percorre a cidade em percursos invisíveis
é preciso afirmar
essa dolorosa e fotográfica constatação de que os prédios se diluem na massa de
inevitáveis desencontros de que o sangue resta ressecado na ponta aguda dos
becos dos tiros dos gritos das crianças torturadas na periferia dos abortos
feitos nas tardes mortas de cansaço entre os executivos apressados nos metrôs
que escondem o calor da Paulista em espaços da mais perfeita ordem em vãos
livres de museus cujos fetos entopem as privadas dos escritórios elegantes
descobertos apenas e tão somente pelo cheiro insuportável que navega tenso
entre os micros
importa registrar
num registro impossível tudo o que nunca será
nossa existência
de rostos vincados pela dor por sorrisos pequenos que nos aprisionam em nossa
realidade de horários supermercados escolas e bancos
por todo esse
tempo que vai escorrendo de nossos corpos exaustos de nunca viver a vida nesse
ir e vir sem sentido na rotina amarga imposta pelos quarteirões fechados em si
mesmos como grutas nos trens que se sucedem nos aviões que sobrevoam o céu azul
de quando a noite começa a cair
o lixo amontoado
ao longe na calçada é uma criança dormindo ao relento mais uma delas dessa São
Paulo colorida com o perverso sacrifício sempre tão sem inocência dos inocentes
como quem não sabe
como quem mente no escuro os fantasmas não existem meu menino só meninos que
morrem sozinhos no poço escuro das drogas existem aqueles fantasmas que no
escuro espremem o coração descem o frio à boca do estômago caras remelentas nos
faróis meninas meninos estupradas estuprados pelos pais enquanto outros meninos
de bicicleta passam paralelos exageradamente anônimos completamente
desconhecidos de ti que também desperdiçavas teu tempo pelas ruas ouvindo tudo
que todas as densas imagens têm prá contar sem uma palavra sequer nenhuma letra
as flores na
Doutor Arnaldo os ipês amarelos de agosto o rosa súbito das enormes árvores que
surgem encantadas no cinza das casas velhas os passarinhos pois cantam pássaros
em muitos dos teus cantos vagos minha cidade e até borboletas se avista em
plena Av. Sumaré voando desesperadas entre os carros dos fins de tarde de
enquanto passeava contigo
queria te dizer
que amo esses seres anônimos que cruzam opacos meu caminho
esses homens e
mulheres com suas casas na periferia seus desejos de uma televisão melhor até
mesmo de um carro seus rostos pálidos seus olhos fundos
queria poder te
dizer que amo os camelôs que armam suas barracas no circuito das Clínicas e as
pessoas que param sorriem ainda podem ser felizes em qualquer manhã
amo com um amor
infeliz e doloroso as crianças doentes especialmente aquelas sem cabelo de
olhos fundos e faces encovadas que compram um macaquinho de corda na bicicleta
talvez um algodão doce e lambem os lábios de satisfação sorrindo seus sorrisos
tristes
pudesse eu te
dizer do olhar de amor que essas pessoas têm do tempo para parar e agradecer e
lembrar de um outro dia passando ali de uma toalha bordada do gosto bom do
beiju feito na hora
hei de conseguir
contar mais tarde de uma tarde na Santa Casa e de como a lua cheia se deixava
ver de repente por trás dos prédios dos ambulatórios e dos centros cirúrgicos
do mesmo modo altaneiro como entre coqueiros muito distantes
como pessoas famílias
inteiras horas e horas de espera uma transfusão de sangue uma fratura um tiro
uma sessão de quimioterapia olhavam devem olhar ainda para a lua como se nunca
caminhando até o ponto do ônibus e se despedem agradecidas de que haja a vida
haja a noite e exista ainda o caminho da casa
te contar do meu
desejo eu queria tanto
de uma vida enfim
como essas vidas parecem ser
que seja completa
em si mesma que possa se parecer com outras vidas
não como as que
enxergamos ávidos pelo vidro dos carros entre os carros uma vida
o menino manco
caminha no cruzamento os carros buzinam uma mulher bem vestida fala um palavrão
horrível mas o menino não sabe não pode correr
o homem negro sobe
a Teodoro Sampaio puxando a carroça de sucata o suor escorre por suas pernas tortas
uma mais curta que a outra
o Esquadrão
Resgate salva um motoqueiro enquanto o gordo no Audi reclama do atraso do
trânsito da vida infernal dos estúpidos que se deixam atropelar enquanto
escarra na avenida
na frente do IML
as maritacas passam gritando cortando o céu de fora a fora
amanheceu de todo
e em São Paulo um novo dia já vai longe
nos cemitérios
todos as árvores estão floridas meu amor e eu não consigo mais te contar
nenhuma outra história entre tantas que nunca consegui contar
tomo tuas mãos geladas
nas minhas mãos toco cada um dos teus dedos pequenos infinitamente longe teus
pequenos dedos
lá fora as
maritacas gritam e gritam mas não ouves mais o som contínuo que essa cidade tem
um som que parece
o mar de que gostavas tanto meu menino
enquanto eu aqui
morta em vida para sempre
morta em vida para
sempre olhando teu corpo tão coberto pelo frio
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