sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Carta de Marina para sua irmã Odete

Carta de Marina para sua irmã Odete

O que é que parte e como será minha mãe partir, eu que não sei nem mesmo se nasci?
Se não me lembro de um dia ter ouvido o barulho do mar nas pedras da Prainha ou os sons da água em tua barriga....só te conheci mãe no redondo quente do teu colo de enquanto cuidavas de mim, nos redemoinhos dos teus ternos pensamentos.
Depois foram vindo os outros, todos os outros e assim que aprendi a andar foi que ela chegou e era tão pequenina. Ela precisava mais que eu do calor de colos, de cantos, de aprender palavras como mãe, calor, brincar.
Foi assim e só assim que pensei quando me pus a criar um mundo nascido das minhas próprias mãos enquanto aprendia os traços do desenho e depois as letras. E aprendi também que às vezes eu era tão só e que o quarto em que me deixavas tão grande, como se fosse sem paredes a me protegerem com um ar imóvel no qual eu poderia me perder, naufragar se fosse liquefeito como se meu berço estivesse ao relento, consumindo-se em si mesmo nos nós da sua madeira, flutuando, flutuando.
Pensei em Ana agora já que estás tão distante de mim, em Odete que partiu deixando a sala muito mais vazia mais quieta como se todos houvessem partido um silêncio de morte prematura, um pavor do esquecimento para nunca mais estar entre nós para ser outra que nunca mais encontramos.
Tão longe de tudo e de todos.
Meu coração falha quando penso nela, tento respirar e não consigo, sobe dentro do peito uma bola liquida ardendo pelas paredes da garganta em ondas escuras, quentes, cada vez mais fortes. Por isso cavam caminho para fora tentam subir pelas paredes íngremes caminhando rumo ao sol que brilha fora de toda essa escuridão.
Quero mais uma vez te dizer que o sol entre a chuva fina é mais belo e que teu sorriso entre lágrimas disfarçadas muito pequeninas se dissolvem no ar mais pleno de tudo que nunca tivemos juntas. Esse ar que nunca respiramos as duas sempre sabendo da tua oculta existência. A dor é maior agora que sei que continuas viva, mas não no mesmo mundo no qual existo e levo minha vida a cada manhã talhando o queijo e fritando a polenta.
Porque nossas vidas nunca mais se encontrarão e mesmo assim quero estar ao teu lado pelas letras por essas frases que rascunho com as mãos sujas de carvão. Quero continuar minha vida próxima da tua pele imaginária que nunca toquei minha Odete querida, pois que me foi dada a fala e a fala que te tiraram para que eu possa escrever as palavras todas que desaprendestes, chorar por ti as lágrimas que já não consegues, rir, rodopiar descalça nas chuvas grossas do verão e gritar muito, gritar todos os gritos que jamais darás e mesmo que o fizesses os enfermeiros chegariam apressados.
Mas nós duas sabemos que quando a noite vem é preciso urrar como um bicho porque a vida é muita e precisas ir agora em meio a toda essa escuridão. Queria te pedir fica comigo só mais um pouco, eu tenho tanto medo. Conta pra mim as histórias que nunca contastes, divide comigo teus todos os pensamentos, coloca em meus ombros as coisas tuas, as que fostes pensando e guardando em tua solidão ao longo de tantos anos como eu às minhas bonecas, para que me contes se brincava com elas como já brinquei, ou se ainda brincas tão velha e tão menina ainda estás.
Conta-me todos os nomes e noites insones nas quais quisestes estar no mar, no jardim da nossa casa, no teu quarto enluarado, pois que nunca fechavas tuas janelas, depois te prometo, contarei tudo a quem quiser ouvir, levarei tua história a todos os cantos, a todos os ouvidos e pintarei teu rosto, descreverei teu corpo que nunca soube o que era o amor e cantarei por ti, gritarei e sorrirei por ti por todos os anos em que ainda viver.

E meus netos serão teus netos e ouvirão tuas histórias, não essa da vida que te tiraram, mas das outras, de todas as outras que vens vivendo nos quadros, no seu olhar que não se cansa de esquadrinhar o horizonte.

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