Carta de Marina para sua irmã
Odete
O que é que parte e como será
minha mãe partir, eu que não sei nem mesmo se nasci?
Se não me lembro de um dia ter
ouvido o barulho do mar nas pedras da Prainha ou os sons da água em tua
barriga....só te conheci mãe no redondo quente do teu colo de enquanto cuidavas
de mim, nos redemoinhos dos teus ternos pensamentos.
Depois foram vindo os outros,
todos os outros e assim que aprendi a andar foi que ela chegou e era tão
pequenina. Ela precisava mais que eu do calor de colos, de cantos, de aprender
palavras como mãe, calor, brincar.
Foi assim e só assim que pensei
quando me pus a criar um mundo nascido das minhas próprias mãos enquanto
aprendia os traços do desenho e depois as letras. E aprendi também que às vezes
eu era tão só e que o quarto em que me deixavas tão grande, como se fosse sem
paredes a me protegerem com um ar imóvel no qual eu poderia me perder,
naufragar se fosse liquefeito como se meu berço estivesse ao relento,
consumindo-se em si mesmo nos nós da sua madeira, flutuando, flutuando.
Pensei em Ana agora já que estás
tão distante de mim, em Odete que partiu deixando a sala muito mais vazia mais
quieta como se todos houvessem partido um silêncio de morte prematura, um pavor
do esquecimento para nunca mais estar entre nós para ser outra que nunca mais
encontramos.
Tão longe de tudo e de todos.
Meu coração falha quando penso
nela, tento respirar e não consigo, sobe dentro do peito uma bola liquida
ardendo pelas paredes da garganta em ondas escuras, quentes, cada vez mais
fortes. Por isso cavam caminho para fora tentam subir pelas paredes íngremes
caminhando rumo ao sol que brilha fora de toda essa escuridão.
Quero mais uma vez te dizer que o
sol entre a chuva fina é mais belo e que teu sorriso entre lágrimas disfarçadas
muito pequeninas se dissolvem no ar mais pleno de tudo que nunca tivemos
juntas. Esse ar que nunca respiramos as duas sempre sabendo da tua oculta
existência. A dor é maior agora que sei que continuas viva, mas não no mesmo
mundo no qual existo e levo minha vida a cada manhã talhando o queijo e
fritando a polenta.
Porque nossas vidas nunca mais se
encontrarão e mesmo assim quero estar ao teu lado pelas letras por essas frases
que rascunho com as mãos sujas de carvão. Quero continuar minha vida próxima da
tua pele imaginária que nunca toquei minha Odete querida, pois que me foi dada
a fala e a fala que te tiraram para que eu possa escrever as palavras todas que
desaprendestes, chorar por ti as lágrimas que já não consegues, rir, rodopiar
descalça nas chuvas grossas do verão e gritar muito, gritar todos os gritos que
jamais darás e mesmo que o fizesses os enfermeiros chegariam apressados.
Mas nós duas sabemos que quando a
noite vem é preciso urrar como um bicho porque a vida é muita e precisas ir
agora em meio a toda essa escuridão. Queria te pedir fica comigo só mais um
pouco, eu tenho tanto medo. Conta pra mim as histórias que nunca contastes,
divide comigo teus todos os pensamentos, coloca em meus ombros as coisas tuas,
as que fostes pensando e guardando em tua solidão ao longo de tantos anos como
eu às minhas bonecas, para que me contes se brincava com elas como já brinquei,
ou se ainda brincas tão velha e tão menina ainda estás.
Conta-me todos os nomes e noites
insones nas quais quisestes estar no mar, no jardim da nossa casa, no teu
quarto enluarado, pois que nunca fechavas tuas janelas, depois te prometo,
contarei tudo a quem quiser ouvir, levarei tua história a todos os cantos, a
todos os ouvidos e pintarei teu rosto, descreverei teu corpo que nunca soube o
que era o amor e cantarei por ti, gritarei e sorrirei por ti por todos os anos
em que ainda viver.
E meus netos serão teus netos e
ouvirão tuas histórias, não essa da vida que te tiraram, mas das outras, de
todas as outras que vens vivendo nos quadros, no seu olhar que não se cansa de
esquadrinhar o horizonte.
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