PARA MENINOS E GAIVOTAS
OU
VOO RASANTE
Para
Catharina, Felipe Filho, Gabriel e Isabela
Para
o pequenino Gabriel que já vem vindo
INTRODUÇÃO:
AS CENAS SERÃO CHAMADAS DE SONHOS
Texto - para três atores e algumas
personagens
Ambiente de palco –
casa dos avós que permanece na lembrança do neto: vaga, fluida, sempre
presente. Os objetos ( poucos ) criam vida na imaginação do menino. Assim: o
rádio é um vasto mundo aonde moram as pessoas pequeninas que falam e cantam; o
bule de café às vezes flutua no ar da e é encontrado fora de lugar, a cadeira
de balanço balança sozinha levemente nas madrugadas, dentro das gavetas as
roupas tem uma vida própria escondida da vida de todo dia e os móveis flutuam,
camas, cômodas, sofás...........de vez em quando.
Ambiente de mar – o
mar limpo do passado, o mar não tão limpo do presente, a desolação ( que pode ser evitada ) do futuro.
PRIMEIRO SONHO – LONGE
Avô
( apontando) _ Longe !
Gabriel
_ Onde?
Avô
_ Lá longe! Muito Longe!
Avô
_ Lá..............................................lá na linha do horizonte!
Gabriel
procura _ Onde? Onde?
Avô
_ Olha menino......................olha querendo ver!
Gabriel
_ Ah! É um barco........................................o barco vem voando para cá ........ele vem voando!
SEGUNDO SONHO – O BARCO VOADOR E O
CORAÇÃO DOS PEIXES
Avó
_ Era uma vez um barco que voava; um pouco antes do anoitecer todo dia ele
passava alto, alto, voando.
Gabriel
_ Onde?
Avó
_ Alto muito alto seguindo o caminho do sol................................só
que ao contrário.
Gabriel
( encantando ) _ Ao contrário.....................................................
Avó
( mostrando) _ Vê? O sol ali caindo no mar! A lua lá crescendo nas montanhas. E
era nessa hora que o barco passava, passava muito alto!
(Pausa
grande)
Gabriel
( perguntando para si mesmo)_ A lua anda
no céu? E o barco passa perto da lua?
(
corte)
TERCEIRO SONHO – VENTANIA E CORAÇÕES
Avô
_ e depois vinha o vento ventando feito louco e era então que ela
aparecia...................................................................................................
Gabriel
_ Quem?
Avô
_ A gaivota.
Gabriel
_ A gaivota voa alto?
Avô
_ A gaivota voava no vento, com o vento, contra o vento e vinha sempre antes de
a escuridão chegar. Sempre alto.
(Gabriel
só pensa e vê a gaivota voando dentro dele, alto)
Avô
_ E via brilhando no mar o coração dos peixes que nadavam
Gabriel
( desconfiado ) _ O coração?
Voz
off _ O coração dos peixes, os peixes pulando na superfície do mar peixes
pulando brilhantes na trilha iluminada que o sol faz corações batendo com tanta
pressa o coração dos peixes que pulam no mar quando o sol se põe! Os peixes
temem o bico das gaivotas, as redes e os anzóis dos pescadores.
(
corte)
SONHO QUARTO – A SOLIDÃO DAS GAIVOTAS
Avô
_ a gaivota vinha sozinha de tudo sobrevoando o mar.
Gabriel
_ olhando o coração dos peixes?
Avô
_ ....................................................... ( pensando e
pensando)
Gabriel
_ elas podem ver o coração dos peixes? Elas podem ver o brilho dos peixes
pulando no ar? Vô..................................uma gaivota pode ouvir o
coração dos peixes batendo dentro do mar?
Avô
_ Pode! Porque é uma gaivota!
Gabriel
( concluindo ) _ A gaivota ouve o coração dos peixes antes de mergulhar!
Gabriel
( preocupado ) _ Mas..................................e os peixes, não percebem
quando a gaivota vai mergulhar? Eles não podem ver a sombra delas debaixo da
água do mar?
QUINTO SONHO – DE CHUVAS E TEMPESTADE
Avô ( falando para si mesmo) _ Emília tira a
roupa do varal que lá vem chuva!
(
passa um vulto correndo)
Avô
( de novo) _ Emília corre regar as plantas que já vai chover! ( risadas)
( o
vulto volta correndo )
Gabriel
_ Então eu imaginei a casa do meu avô, velhíssima, então imaginei o mar onde
meu avô nadava menino, limpo, limpo de águas que se podia beber e imaginei o
meu avô menino assim como sou agora.
( a
paisagem na casa está repleta de seres imaginários e antigos que passam lentamente
que vêm e vão enquanto anoitece e amanhece, mas sempre segue junto um som do
mar)
Avó
_ Vem filho, corre antes que a chuva caia!
Gabriel
_ Não, não quero! Quero ver o mar!
Avó
_ Corre! Corre, vem aí uma tempestade!
Gabriel
_ Antes vem comigo até a praia, vem ver as gaivotas voando feito loucas no
vento em pleno ar! E os raios, vó ! Eu quero ver os raios! Ah! Vem, vamos ver
os raios caindo no mar!
(
corte)
SONHO NÚMERO SEIS – RETORNO
Gabriel
_ Olha lá!
Avó
e avô _ Onde?
Gabriel
_ Lá longe!
Avô
e avó _ O que?
Gabriel
_ O barco que voa!
Avô
e Avó _ Ah!!!!!!!!!!!!!!!! E a gaivota que vê o coração dos peixes!
Avó
_ quando o peixeiro chegava eu descia correndo as escadas e escolhia o mais
bonito, um peixe que ele tinha acabado de pescar.
Avô
_ quando o leite chegava o leiteiro tocava um sino, lembra? Então eu descia
para pegar um pouco, só para aquele dia.
(
pausa)
Avó
_ Lá! Longe, muito longe! No horizonte vermelho do mar!
Gabriel
_ Longe ......................no fundo bem fundo do mar onde os peixes dormem!
(
pausa )
Gabriel
_ Vô, como é que os peixes dormem?
(
pausa)
Avô
( ignorando a pergunta) _ Mais longe ainda meu filho, nos abismos profundos,
nas fossas abissais.............................onde nenhuma luz pode chegar.
Nem a luz do sol.
Gabriel
_ Tão fundo assim?
Avó
( que está tecendo uma colcha de retalhos feita com coisas do mar) _ Nas fossas
abissais.....................................lá onde todos os peixes são cegos.
Gabriel
_ Cegos? Cegos mesmo?
SONHO SETE – NO SÍTIO DE QUANDO TODOS
SÃO PEQUENOS
Avô
_ no sítio de quando eu era pequeno não havia luz.
(Gabriel
imagina o avô pequeno com medo da escuridão)
Avô
_ quando a noite chegava minha mãe fechava tudo................e o mundo ficava
lá fora, longe. Era uma cozinha como um aquário, eu me sentia preso num
aquário.
Gabriel
_ um mundo longe!
Avô
_ ela acendia os lampiões..............havia um lampião pendurado na porta de
cada quarto, um no banheiro e um na mesa da cozinha perto do fogão à lenha.
(Gabriel
continua imaginando esse lugar por dentro com tantas luzes penduradas e o avô
menino tomando banho de banheira)
Avó
_ quando eu era menina e a noite chegava com o vento que vinha do mar......................................................................................................
(Gabriel
fica imaginando uma avó pequena no vento indo para o mar. Gabriel pode ver a noite
vindo do mar, muito escura e a avó pequena escondida debaixo da cama com medo
da escuridão)
Avó
( continuando ) _ quando a noite chegava o silêncio crescia como um bicho bravo
e eu tinha um pouco de medo.
(Gabriel
sorri imaginando um silêncio enorme como uma pessoa grande ou um bicho que
passa pela casa de quando a avó era pequena)
Avó
_ Então nós podíamos ouvir na distância do mar a respiração dos golfinhos
enquanto passavam em bando.
Gabriel
_ O que você podia ouvir?
Avó
_ Sim? Ah! A respiração dos
golfinhos.............................................
Avô
– e no vento da tarde as tanajuras voavam e voavam em volta dos
lampiões...................................................................................................e
dos postes da rua.
Avó
_ e no vento da tarde nós corríamos e corríamos com os braços bem abertos
girando na areia quente, girávamos e girávamos até cair bem tontos........quase
sem conseguir respirar.
Gabriel
_ Já sei, enquanto isso os peixes brilhantes pulavam ( pausa para imaginar) e
os peixes cegos nadavam na água fria do mar profundo!
(corte)
OITAVO SONHO - DE MEDOS E PEQUENOS PESADELOS
uma
narradora menina em off_ Era uma
vez um peixe que saiu bem cedo da toca com sua mãe num domingo como hoje para
passear pelo fundo do mar. Era um dia de tanto sol que se enxergava tudo
debaixo d'água e o peixinho viu uma coisa que brilhava tanto, ele nunca tinha visto uma coisa assim, e então saiu de
perto da sua mãe que conversava com umas amigas e foi lá xeretear. Era um saco
plástico o que ele via e ele não sabia o que era isso....então minha avó
conta... e quando ela conta.....ela conta de um jeito assim que nós três
choramos.....o peixinho vermelho se entalou no lixo e se debatia dentro dele
com a boquinha já cheia de plástico, sufocando, os olhos muito abertos,
assustado. A mamãe peixe tentou tirar seu filho de dentro daquilo, suas amigas
também, mas ele acabou morrendo entalado. Minha avó conta que também os peixes
choram. E nesse dia choraram muito. Só que a gente não vê porque as lágrimas
deles se misturam logo com a água do mar.
Gabriel está parado chorando.
Avó _ Gabriel, o que foi?
Gabriel _ Eu tive um sonho muito ruim.
(
corte)
NONO SONHO – ENTRE AS LEMBRANÇAS DE
QUANDO
Gabriel_
Na casa dos meus avós as coisas todas tinham vida............... meu avô dava
nomes às coisas. Nome para todas elas, para cada uma delas. As árvores tinham
nome, as galinhas, o carro, a geladeira.
Lembro
também que no rádio moravam as pessoas pequenas que falavam cantavam e contavam
as notícias eu podia imaginar o tamanho delas, de suas roupas, de seus pratos
de comida............... e nas gavetas depois que a gente dormia as roupas saíam
dançando no ar pelos corredores passando umas mais ligeiras outras mais devagar.
Tinha até uma blusa ou outra que tentava fugir pela janela!
E
embaixo de cada cama existia uma caverna escura que levava a lugares longe
ainda mais cheios de escuridão, às matas onde as onças se escondiam, as cobras
e outros bichos muito perigosos.
( Enquanto
ele conta imagens passam no palco: passa um pescador puxando seu barco; passa
uma gaivota voando alto rumo ao sol poente, passam bandos delas seguindo o
barco que vai chegando)
Gabriel
_ Meu avô acordava cedo para ir buscar o leite, ainda estava escuro e quando o
sol começava a nascer no horizonte ele cantava e dançava na estrada e às vezes
gritava _ Venha grande sol! Venha grande luz! Ilumina o mundo todo!
Voz off _ mas o sol agora é
um sol perigoso, um sol sem nenhuma proteção que queima a pele da gente, fundo,
dolorosamente.................
Alguém me responda: quem é
que está matando o sol?
DÉCIMO SONHO_ SOLO PARA TRÊS
Avó
_ era uma boneca velha, de pano que minha avó tinha me dado.
(Gabriel
imagina a avó da avó. Impossível de tão velha.)
Avó
_ eu acordava com o vento!
(Gabriel
vê o vento acordando o avô)
Eco:
_ o vento!
Avó
_ eu saía para a praia levando minha boneca quando ventava muito para ver as
ondas!
(
Gabriel vê a avó e a boneca andando de mãos dadas para a praia)
Eco
_ Para ver as ondas!
Avô
_ E na madrugada, encolhido na cama eu ficava ouvindo as mangas caindo no chão
uma a uma e contava. E esperava o dia clarear para olhar todas elas.
Gabriel
vê e conta as mangas em voz alta. _ uma duas três..........................Gabriel
_ num chão cheio de minhocas rastejando na terra úmida.
Eco 1
_ caindo num chão fofo de folhas secas!
Eco
2 _ cheio de minhocas!
(
pausa)
Avó
( mais alto, para Gabriel ) Vem meu filho, vamos para a praia!
Eco
1 – Os pés afundando na areia.
Eco
2 _ Os pés afundando nas folhas secas.
Avó
menina ( girando ) _ Voar com o vento!
Gabriel
_ Voar, andar no ar, correr no ar, correr por cima da água do mar!
(
passam gaivotas, bonecas ao vento, vozes que chamam nomes:
Zéquinha...................... Gigi........................, Rossini..................,
Gilda............... Emília, ..................Coutinho,....................;
avó, avô e menino estão encantados numa casa-mar cercada de mato, numa casa de
objetos flutuantes que passam falando cada um seus nomes próprios: um rádio,
uma geladeira, uma cadeira de balanço de palhinha, um bule enorme de café e uma
janela por onde entra uma réstia de sol forte)
Eco
_ menino...........vem!
Meninos
e menina _ Para onde?
Eco
_ ver o mar!
Menino
avô _ quero pisar na lama.
Eco
_ Como?
Eco
2 _ Na lama......................................e na areia...............................
Gabriel
_ quero voar com as gaivotas....................................................
Ecos
juntos _ Como?
Gabriel
_ com as
gaivotas.......................................................................
Avó
menina _ Ah! minha boneca........vem voar no vento!
Gabriel
_ quero voar entre as árvores do quintal por entre mangas e abacateiros
Eco
1 _ voando baixinho com o vento como as andorinhas.
Gabriel
_ de repente eu me lembrei dos pingüins andando nas superfícies geladas com
seus pés pequeninos.
Eco
2 _ e da onça na mata silenciosa.
Avó
menina _ e da casa escura enorme por onde eu andava sozinha.
Ecos
juntos _ esperando o dia amanhecer
Avó
_ prestando atenção para conseguir ouvir as ondas batendo lá longe.
(
imagens de matas destroçadas, de queimadas, de mares onde bóia o lixo, de
geleiras derretendo, de manchas de óleo atingindo praias e animais, de
enchentes em cidades cheias de lixo, bueiros entupidos de um saco de plástico
voando no ar a caminho do mar)
Avó
_ eu remava e remava entre enormes peixes que pulavam no ar claro à minha volta.
Avô
e menino _ e o mar era limpo, salgado, transparente
Gabriel
( remando )_ Vó! Dá prá ver o fundo do mar! Tem uma tartaruga enorme nadando
lá! E peixes azuis muitos, tantos!
(
imagens de mares desolados sem nenhuma vida, tráfego congestionado em enormes
cidades poluídas)
Gabriel
_ Vó, vem ver no fundo do mar a tartaruga!
Voz
off ( vinda do futuro) _ Naqueles dias distantes todos estavam vivos: os
golfinhos, as baleias, os tubarões, os cardumes de peixes pequenos, as gaivotas
que voavam no ar azul e as tatuíras pequeninas correndo e fazendo seus buracos
na areia molhada! as borboletas amarelas.............muitas........tantas
borboletas que vinham da montanha para ver o mar. E os meninos estavam vivos
para correr, remar, nadar, pular nas maiores ondas, sonhar em suas casas, ouvir
o vento de ar muito limpo cantando nos quintais)
(
corte)
DÉCIMO PRIMEIRO SONHO – SEMPRE E SEMPRE
Três
vultos ( sombras) sem identificação.
Personagem
1 – Ei! Corre aqui!
Personagem
2 _ Fazer o quê?
Personagem
1 _ Só olha, depressa!!!
Personagens
2 e 3 _ O quê? O quê?
Personagem
1 _ Olha o barco vem vindo de novo.
Personagens
2 e 3 _ Ah!
(corte)
ÚLTIMO SONHO – LONGE
Avô _
Longe !
Gabriel
_ Onde?
Avô
_ Muito Longe!
Avô
_ Lá..............................................lá na linha do horizonte!
Gabriel
procura _ Onde? Onde?
Avô
_ Olha com força......................querendo ver!
Gabriel
_ Ah! É o barco........................................o barco vem voando para
cá vô........ele vem voando!
Voz
de menina em off _ alguém, por favor faça alguma coisa, alguém me ajude, alguém
me diga que as tartarugas não vão morrer, nem os golfinhos e que sempre, para
sempre haverá dias de sol e gaivotas;
alguém,
por favor faça alguma coisa ( a voz vai diminuindo)
FIM
Sônia Machado de Azevedo, outono de 2009
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