Georgina tece a noite
durante anos o tempo foi passado apenas
no viver a vida a cada dia
a casa se enchia de cheiros e sabores
um dia o peixe ensopado o camarão
noutro dia a carne de panela o milho verde cozido o pão de minuto
as crianças cresciam alguém tinha
sarampo e logo estavam todos febris e a casa girava em torno dos quartos de se
contar histórias que não tinham nem fim de se fazer compotas
e chegavam mais filhos e era preciso
chamar a parteira que vinha solícita com chás e poções ligeiramente afobada
por algum tempo chorava um bebe e os
corredores se perfumavam com o cheiro de fraldas
nas noites compridas a sala de jantar
se agitava e os mais velhos contavam suas proezas enquanto jogavam o bingo
e mais tarde após aquietar a todos ela
se deitava silenciosa ouvindo a respiração de seu homem no som contínuo das
ondas do mar
então rezava uma reza sem letras uma
reza calma sem nenhuma palavra agradecendo sua casa cheia seus filhos todos com
saúde
mas agora tudo se fora como fim de
sonho bom e sozinha tão sozinha como nunca ela ficara
e já não podia programar com as
empregadas o cardápio da semana nem sair às compras na manhã de sol ou esperar
o leiteiro
quando o falatório das enfermeiras
cessa e o hospital entra naquele torpor das madrugadas naquele silêncio que não
é silêncio naquele som que para ser um som necessitaria de alguma coisa viva
como um canto uma risada de criança um cheiro de feijão queimando na panela ela
ainda chega com dificuldade até o vidro da janela e tímida como a menor das
criancinhas vê para muito além do vulto escuro dos prédios sua primeira casa o
jardim e o poste aceso na noite espalhando no ar quente de São Vicente uma
cruel alegria
é tarde sempre nesse hora parece ser
mais tarde do que nunca mais tarde do que deveria mesmo assim ela ainda pode
ver todas aquelas janelas acesas
colando o nariz ao frio do vidro pode
ouvir o tilintar dos copos e as vozes alegres dos meninos enquanto cresciam ou
saiam batendo com força o portão de ferro
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