sexta-feira, 11 de outubro de 2013

desmedida distância


desmedida distância

o avião cortaria o céu escuro rumo às estrelas

ela sabia o avião iria ultrapassar o momento da dor iria deixar para trás o frio e a chuva de São Paulo enfumaçada iria cortar a noite suavemente tecendo zonas de silêncio onde antes havia a sofreguidão de dias intermináveis e opacos

o avião iria desenhar espaços pequenos e acumulados e iria flutuar num impenetrável presente no qual seu corpo cansado poderia se abandonar
e como ela ansiava pelo momento de embarcar

segurou firma a bolsa rente ao corpo tentou fechar os olhos queria ouvir a chamada queria adivinhar no ar o átimo de instante anterior ao que anunciasse sua partida

o avião decolaria na sua loucura costumeira de desafiar a vida subiria suicida jogando-se em meio à chuva e ao vento aos raios e trovões mas ela não teria nenhum medo sua alma deixava lentamente a aflição para se tornar leve quase nuvem

o avião abriria espaço no espaço líquido do ar e ficaria tão alto que de nada adiantaria olhar pela janela e então nesse momento ela poderia olhar quieta para dentro de si onde a saudade cavara um fosso profundo

só então ela poderia sentir sem ter medo de morrer

a saudade deixara um rastro amarrado e doloroso que iria se soltando aos poucos nas nove horas em que estaria lá no alto fingindo que aquela viagem era só mais uma viagem no panorama farto de sua tresloucada vida

só lá nos espaços levemente ondulados seria possível começar a deixar de sentir a dor sem tamanho que a atormentava e quando todas as luzes se apagassem naquele momento da madrugada em que se dorme e se acorda e em que tudo é silêncio e som longínquo de motor nesse momento sim poderia viver a saudade enlouquecida e tonta que só fazia aumentar sem a presença dele

vê-lo por inteiro e deixar a saudade doer demais e morder seu corpo e não perdoar pois tudo agora era uma questão de muito pouco tempo ela que havia ficado tanto tempo sem ele

 ela quase já podia vê-lo com seu corpo moreno seus cabelos revoltos voando no ar  frio de New York seu olhar curioso ao pensar em como ela chegaria até ele

levantou-se lânguida e tremula rumo ao portão de embarque
sem pensar sem sofrer quase sem querer como se o destino a estivesse levando líquida rumo aos braços dele
era hora de embarcar


Nenhum comentário:

Postar um comentário