desmedida distância
o avião cortaria o céu escuro rumo às
estrelas
ela sabia o avião iria ultrapassar o
momento da dor iria deixar para trás o frio e a chuva de São Paulo enfumaçada
iria cortar a noite suavemente tecendo zonas de silêncio onde antes havia a
sofreguidão de dias intermináveis e opacos
o avião iria desenhar espaços pequenos
e acumulados e iria flutuar num impenetrável presente no qual seu corpo cansado
poderia se abandonar
e como ela ansiava pelo momento de
embarcar
segurou firma a bolsa rente ao corpo
tentou fechar os olhos queria ouvir a chamada queria adivinhar no ar o átimo de
instante anterior ao que anunciasse sua partida
o avião decolaria na sua loucura
costumeira de desafiar a vida subiria suicida jogando-se em meio à chuva e ao vento
aos raios e trovões mas ela não teria nenhum medo sua alma deixava lentamente a
aflição para se tornar leve quase nuvem
o avião abriria espaço no espaço
líquido do ar e ficaria tão alto que de nada adiantaria olhar pela janela e
então nesse momento ela poderia olhar quieta para dentro de si onde a saudade
cavara um fosso profundo
só então ela poderia sentir sem ter
medo de morrer
a saudade deixara um rastro amarrado e
doloroso que iria se soltando aos poucos nas nove horas em que estaria lá no
alto fingindo que aquela viagem era só mais uma viagem no panorama farto de sua
tresloucada vida
só lá nos espaços levemente ondulados
seria possível começar a deixar de sentir a dor sem tamanho que a atormentava e
quando todas as luzes se apagassem naquele momento da madrugada em que se dorme
e se acorda e em que tudo é silêncio e som longínquo de motor nesse momento sim
poderia viver a saudade enlouquecida e tonta que só fazia aumentar sem a
presença dele
vê-lo por inteiro e deixar a saudade
doer demais e morder seu corpo e não perdoar pois tudo agora era uma questão de
muito pouco tempo ela que havia ficado tanto tempo sem ele
ela quase já podia vê-lo com seu corpo moreno
seus cabelos revoltos voando no ar frio
de New York seu olhar curioso ao pensar em como ela chegaria até ele
levantou-se lânguida e tremula rumo ao
portão de embarque
sem pensar sem sofrer quase sem querer
como se o destino a estivesse levando líquida rumo aos braços dele
era hora de embarcar
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