Enquanto o dia se apruma
Dona Rosália sente a sandália nova
apertando um pouco o dedo mindinho mas agora não tem tempo de trocar o sapato
toda aquela roupa por lavar e a máquina
que Rosália não quer acreditar a máquina paira um pouco acima do chão mas tão
pouco que ela tem que se agachar e passar por baixo de tudo a vassoura de
piaçava
o fio elétrico dá um pouco de trabalho
brincando no ar até encontrar a tomada e fica a se mover numa dança lerda de um
lado a outro da lavanderia enquanto Rosália tenta segurar o sabão em pó que
esvoaça e brilha solto no ar etéreo do outono
as roupas maiores se deixam levar
lentas traçando caminhos curvos pela cozinha e a copa enquanto as cuecas e as
meias já estão quase chegando na sala
Dona Rosália dispara na direção da porta
a tempo de ver todos os seus lençóis brancos e limpos de morrer saírem bailando
em desordem pela Madalena afora
primavera de 1999
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