espessa estrela ou na pele dele
estou escuro como
um abismo que se esconde de si mesmo na escuridão onde outras estrelas brilham
muito
não aqui
e me escondem
quando a noite é longe como agora numa toca como um bicho distraído de si de
seus remorsos e medos de seus atropelos e recordações
sempre morei como
se no meu corpo o escuro só ameaçasse e envolvesse o animal que ronda no mato
no abismo de uma casa sem portas
meu corpo era tudo
que eu não fui não soube não consegui meu corpo um túmulo onde até ladrões
entraram e ousaram atos impossíveis que eu mesmo morto pude presenciar ouvindo
e vendo as coisas acontecerem como se estivesse vivo
como numa gaveta
arrombada escondo partes largadas de quando fui menino zonas do meu corpo
perdido de quando eu ainda possuía desejos
passam relâmpagos
ou sóis da meia noite pelos vitrôs quebrados dessa casa em abandono que hoje
sou uma casa em ruínas numa cidade aonde já não mora ninguém
passam perdidos na
neblina do amanhecer de qualquer mar que não conheço navios fantasmas e seus
ocupantes todos mortos
de mim só posso me
lembrar menino entre funerais vazios em quartos onde sempre se ocultava alguém
doente alguém louco ou que estava para morrer
das noites da
minha infância restou um abandono tanto uma tal desnecessidade de vida planos
esperanças
sempre fui assim
parece e te digo logo que percebi que tens luminosas lembranças no teu caminho
eu que só tenho em mim uma fome sem remédio
minha pouca vida
sempre se alojou da própria morte de tudo daqueles que nunca amaram nem
souberam ser amados e que sempre me cercaram sem piedade
passam por minha
memória tardes que escorriam lentas a lugar nenhum anywhere anywhere
digo essas
palavras porque demonstram melhor esse estranhamento e os abismos que dentro do
que chamo de eu mesmo se cavaram faço isso sem a mais leve auto piedade com uma
fria vontade assassina uma tênue e fraca vontade no fundo talvez para te
seduzir para te destruir para que sejas igual a mim
no mais longe de toda
a noite eu procuro entre minhas mãos vazias um terno calor de braços um tempo
por quando o amor passava vindo talvez de ti como o pouco amor que me percorria
enquanto eu ainda dormia ou sorria agonizante ou chorava no frio útero da minha
mãe
uma mãe que viveu
tantos anos ao meu lado e que nunca conheci
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