sexta-feira, 11 de outubro de 2013

na pele dele

espessa estrela ou na pele dele


estou escuro como um abismo que se esconde de si mesmo na escuridão onde outras estrelas brilham muito
não aqui
e me escondem quando a noite é longe como agora numa toca como um bicho distraído de si de seus remorsos e medos de seus atropelos e recordações
sempre morei como se no meu corpo o escuro só ameaçasse e envolvesse o animal que ronda no mato no abismo de uma casa sem portas
meu corpo era tudo que eu não fui não soube não consegui meu corpo um túmulo onde até ladrões entraram e ousaram atos impossíveis que eu mesmo morto pude presenciar ouvindo e vendo as coisas acontecerem como se estivesse vivo
como numa gaveta arrombada escondo partes largadas de quando fui menino zonas do meu corpo perdido de quando eu ainda possuía desejos
passam relâmpagos ou sóis da meia noite pelos vitrôs quebrados dessa casa em abandono que hoje sou uma casa em ruínas numa cidade aonde já não mora ninguém
passam perdidos na neblina do amanhecer de qualquer mar que não conheço navios fantasmas e seus ocupantes todos mortos
de mim só posso me lembrar menino entre funerais vazios em quartos onde sempre se ocultava alguém doente alguém louco ou que estava para morrer
das noites da minha infância restou um abandono tanto uma tal desnecessidade de vida planos esperanças
sempre fui assim parece e te digo logo que percebi que tens luminosas lembranças no teu caminho eu que só tenho em mim uma fome sem remédio
minha pouca vida sempre se alojou da própria morte de tudo daqueles que nunca amaram nem souberam ser amados e que sempre me cercaram sem piedade
passam por minha memória tardes que escorriam lentas a lugar nenhum anywhere anywhere
digo essas palavras porque demonstram melhor esse estranhamento e os abismos que dentro do que chamo de eu mesmo se cavaram faço isso sem a mais leve auto piedade com uma fria vontade assassina uma tênue e fraca vontade no fundo talvez para te seduzir para te destruir para que sejas igual a mim
no mais longe de toda a noite eu procuro entre minhas mãos vazias um terno calor de braços um tempo por quando o amor passava vindo talvez de ti como o pouco amor que me percorria enquanto eu ainda dormia ou sorria agonizante ou chorava no frio útero da minha mãe

uma mãe que viveu tantos anos ao meu lado e que nunca conheci

Nenhum comentário:

Postar um comentário