contatos de
primeiro grau
era só uma
palmeira esquecida pela chuva que se via da fresta da janela
mas era tão exata
tão como aquela que eu via da varanda de casas muito distantes que a tarde se
fez como só se fazem as mortes ou os partos quando não há qualquer testemunha
alguma coisa havia
por nascer entre a garoa e o estouro das ondas
era estranho e
incômodo chorar sobre as teclas do computador mas eu chorava posto que esse dia
me lembrava que a palmeira esquecida na fresta da janela era a mesma posicionava-se
igual tinha a mesma altura e a folhagem toda verde era igual a outra da minha
infância vista da varanda da minha primeira casa e só hoje eu tinha reparado
visto que andava cega e morta entre escadas paredes portas e os batentes dessa
janela daqui
o dia clareava e
algum barco teria se atrevido na soturna sombra dos mares sem nenhuma cor teria
deixado a marina depois de alguma espera mas sem olhar prá trás
Arildo estaria por
certo desafiando as ondas e os peixes sem Iemanjá
e os peixes se
contorciam em sua mãos habilidosas e duras no mar profundo sacudindo de leve o
barco pequeno que balançava entre uma e outra vaga como se o mundo todo fosse
só um curto recado um esquecimento de Deus uma ligeira imperfeição deixada
sobre esse imperfeito mundo de pessoas solitárias e quietas como só convém às
pedras e aos lagartos das montanhas ermas de sol e do mais completo
esquecimento
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