quinta-feira, 26 de novembro de 2009

sobre nuvens e vento

tarde de sol onde estou, no hotel há um enorme pátio no alto com uma piscina pequena e um enorme silêncio onde quase todo o tempo só ouço o vento
fico lá entre um e outro trabalho, fico para encontrar-me comigo e não me desconhecer na confusão dos outros

pensei hoje que olhar o muito quieto céu onde algumas nuvens passam deslizando é igual a viver
simples assim

às vezes como agora um bem-te-vi parou na antena e olhava a água brilhante....ficou assim muito tempo olhava a água e me olhava
por fim, e pude quase ver em seu corpinho a decisão tomada, deu um vôo rasante e escorreu seu bico na superfície molhada e se foi num céu cruelmente azul

fiquei pensando em dúvidas e decisões
fiquei pensando na coragem que é viver

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

uma noite muito escura

quando a cidade apagou sai caminhando pelas ruas escuras para chegar ao carro....não era medo o que eu sentia
sentia uma espécie de alegria malvada uma vingança escancarada contra cidades homens civilização excessos consumo desenfreado luzes desnecessárias
eu pensava nos bichos dos lugares mais ermos e gelados
nos seres vivos que se arrastavam por pedras negras
que nadavam em águas muito frias
na vida à mercê da natureza

mais tarde o silêncio era tão denso que se podia pegá-lo com as mãos um silêncio legítimo
perene
verdadeiro e assustador

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

anoitecendo

a noite vem devagar rastejando pelas paredes de fora do prédio e o silêncio é uma bola batendo ritmada na praça
mais uma noite
mais

no farol de Beagle a noite já caiu densa e gelada
penso se os bichos estão pelas pedras se gritam de vez em quando para o vento pelo vento afora sem cansaço

os bichos na noite correndo pelas florestas brancas
as raposas
a paz profunda

nenhuma violência e a luz enorme vazando sua claridade entre a neve que pesa nos galhos

anoitece anoitece
a noite agora envolve as paredes do quarto aonde escrevo com suas mãozinhas de seda tão delicadas as mãos da noite ainda menina derramadas de ternura

terça-feira, 13 de outubro de 2009

de sonhos

quando quero muito ter um pesadelo, mas desses de inquietude que me fazem passar o dia seginte todo em estado meditativo, desses que me levam a formular velhas perguntas sobre o significado da vida, estou num teatro...

a hora do espetáculo vai se aproximando, todos estão felizes cuidando cada um de suas coisas, menos eu: não sei qual será o espetáculo, qual minha função dentro dele, qual minha personagem, em que momentos entro e saio do palco, enfim.....

acorto e topo com esse dia escuro e sem vento como se fosse ficar assim para sempre, então pego um livro e me pergunto o que seria da vida sem um livro, aquele que nos socorre nas horas cinzentas onde o espetáculo já está acontecendo e você ainda procura seu papel...um pouco com preguiça de representar....

até de ler

terça-feira, 6 de outubro de 2009

primavera parada

parada na praça ela fica
atônita olhando as mulheres com seus cachorros as crianças entretidas nas amoreiras

e as árvores acolhem bandos de maritacas que gritam e gritam
para depois mergulhar do alto como se fossem bater a cabeça no chão

Dona Maria olha a tudo com um olhar aos poucos se apagando e posso ler nos olhos dela a muda pergunta que se faz
depois vai caminhando devagar segurando-se na cerca enquanto o dia termina

a lua cresce enquanto ela esquenta a sopa corta a fatia de pão e senta-se para comer
na mais absoluta solidão

sábado, 3 de outubro de 2009

lua ainda mais cheia

ando pela cidade
pelas sarjetas pontas de cigarro muitas muitas
pelas ruas os carros novos tantos carros novos entupindo as ruas sujas

o menino levanta a camiseta no farol quando pede um trocado
para mostrar que não tem um canivete uma faca uma arma qualquer
e a alma da gente se atropela no constrangimento doido no calor das ruas sem vento ou talvez numa brisa morna que começa a soprar agora vinda de algum lugar

o fim da tarde é triste enquanto o ônibus escorre suas rodas pelas ruas de uma favela qualquer

mas no fim a lua surge e por um momento a cidade se aquieta olhando para si mesma desencontrada e vadia
envergonhada
para seguir depois entre buzinas, gritos e a mais absurda mediocridade
como se viver fosse isso
só isso

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

lua cheia

a lua está lá
e eu não gosto de estar hoje numa cidade
não gosto dos prédios
das ruas com asfalto
dos carros

não gosto do barulho dos carros do barulho de tudo
a lua mora lá
mora só no silêncio escuro da noite

sinto falta do silêncio de mares de florestas congeladas lagos obscuros em meio aos montes gelados

falta eu sinto de ser bicho de não morar
de apenas existir como os pássaros
sem medo
como os pássaros que passaram pela tarde de hoje

como se a vida fosse para sempre

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

antes da hora

como se o tempo soubesse enquanto passa correndo pelas ruas escorrendo pelas paredes duras do quarto no silêncio da noite
como se as estações pudessem chegar na hora certa em horas marcadas em agendas, em nossas agendas humanas

o tempo não
ele rói a terra corta histórias pela metade desvia caminhos traça novos rumos inquietos nas curvas da madrugada

a nós resta olhar a lua procurar por um vento mais morno ou mais gelado descobrir nuvens escuras ou um céu sem nuvens e ir seguindo na chuva ou ao sol como calhar como for possível

enquanto o tempo enquanto a primavera enquanto a noite
tudo certo como dois e dois são cinco

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

mais escuro

na noite as janelas se iluminam assustadas enquanto a lua na vila aumenta dia a dia
a lua
crescendo em Ushuaia derramando-se nas águas do canal deixando a neve translúcida e plena como se o mundo
como se a vida

estar dividida
querer estar aqui e lá em todos os lugares em que o fogo ilumina toda escuridão tudo o que há de mais escuro
como se o medo
como se a morte

e os bichos
todos os bichos
até nós

domingo, 2 de agosto de 2009

escuro

escurece em Cerquilho Lisboa Canela em tantos outros lugares
escurece em Ushuaia nunca por completo como se a escuridão se escondesse entre as águas inquietas do canal

então é preciso deixar que o ar silencioso seja respirado com cuidado que os olhos olhem só um pouco o de fora para que os medos se soltem de nós e se ponham no vento da noite austral grande noite muita noite

comprida escuridão é a que nunca se completa ou deita para que os tordos procurem suas tocas entre a neve para que a vida prossiga nada é necessário nada a fazer para que todo o mistério se apresente

para isso basta a luz do fogo nas lareiras fogueiras lampiões pendurados nas esquinas suas labaredas

e por fim esse é todo o mistério da terra a extrema radicalidade dos extremos tudo o que se atrai e se repele incansavelmente

sexta-feira, 31 de julho de 2009

princípio de toda a vida

" fim do mundo princípio de toda a vida"

perto do canal de Beagle na Terra do Fogo numa tarde gelada onde céu e mar se confundem numa brancura quase a mesma com a visão de montanhas brancas o mar está cheio de vida e o olhar segue encantado o que se move de maneira incessante e a presença assustadora das montanhas que um sol muito de leve faz brilhar

algumas das fotos tentaram guardar todo o encanto mas por dentro da gente corre além de todas as imagens uma sensação diferente como se coisas ainda por descobrir começassem a germinar de modo muito lento muito

http://www.flickr.com/photos/principiodetodavida/

Ushuaia

em meio à neve e ao gelo na solidão do Vale Tierra Major há encontros de silêncio e ventos há momentos antigos já perdidos que voltam e voltam recuperados na força imensa da natureza

há o frio cortante e o aconchego das cabanas no meio do nada que surgem de repente com seus aquecedores de ferro e um pouco de lenha seca à espera de quem chega
então a alma navega entre desolação e acolhidas como a saber que é isso simplesmente a vida um acaso uma sorte ou qualquer outro acontecimento imprevisto e impossível de evitar como a água congelada de um riacho uma pequena ponte de madeira tão sozinha em meio ao ermo de árvores cortadas pela base há dezenas de anos atrás e que não conseguiram mais crescer
ou a vidraça de uma janela onde os pequeninos cristais de gelo criaram formas de repetição impossível...
conhecer Ushuaia suas montanhas de picos nevados seu mar lagos florestas e cemitérios de florestas vales abruptos e rajadas incessantes que acompanham a enorme paz das noites transtorna a alma inaugura valores perdidos renova de modo brutal o olhar assusta comove modifica o mundo
numa simples visão num branco que repentinamente invade tudo e estamos afundamos as mãos congeladas mesmo resguardadas pelas luvas grossas o coração batendo ligeiro assustado de que seja tão assustadoramente bela
a vida

sábado, 13 de junho de 2009

terceiro sonho - ventania e corações

Avô _ e depois vinha o vento ventando feito louco e era então que ela aparecia...................................................................................................

Gabriel _ Quem?

Avô _ A gaivota.

Gabriel _ A gaivota voa alto?

Avô _ A gaivota voava no vento, com o vento, contra o vento e vinha sempre antes de a escuridão chegar. Sempre alto.

(Gabriel só pensa e vê a gaivota voando dentro dele, alto)

Avô _ E via brilhando no mar o coração dos peixes que nadavam

Gabriel ( desconfiado ) _ O coração?

Voz off _ O coração dos peixes, os peixes pulando na superfície do mar peixes pulando brilhantes na trilha iluminada que o sol faz corações batendo com tanta pressa o coração dos peixes que pulam no mar quando o sol se põe! Os peixes temem o bico das gaivotas, as redes e os anzóis dos pescadores.

domingo, 31 de maio de 2009

sol de chuva

eu era muito pequeno assim me lembro de pés sempre vermelhos do barro dos quintais por onde passava correndo atrás de pipa perdida fugindo de vaca brava
mas ainda assim ouço a flauta de meu pai que havia morrido logo que nasci ouço o choro de minha irmã caçula deitada num cesto perto do fogão de lenha minha mãe presa às suas costuras intermináveis

Batatais era quieta e pequena nas manhãs de todos os anos em que lá vivi com suas ruas gaiolas de passarinhos penduradas nas varandas das casinhas pequenas e mulheres varrendo a calçada antes que o dia esquentasse
e havia o colégio com suas alamedas floridas sua escadaria suas janelas altas seu piso de madeira encerada seu caramanchão onde nos sentávamos cansados das correrias da tarde no aguardo da noite que demorava muito a chegar enquanto a cidade escurecia pequena desconhecendo o tamanho do mundo deliciando-se com seus telhados vermelhos com o cheiro do ensopado no fogo e a polenta que lentamente se preparava tarde afora com a bruma que vinha de longe do meio dos matos já quase escuros como se tudo no mundo se resumisse a esse lugar a essa cidade plantada sozinha no topo da terra

quinta-feira, 14 de maio de 2009

de uma extrema delicadeza

de uma extrema delicadeza

anoitecia muito muito devagar
e a noite anoitecendo ia entrando pelas janelas entranhando nas frestas dos móveis e nos vãos esquecidos das gavetas
esse anoitecer ia brincando lentamente com as folhas do amor perfeito rastreando os passos de Gigi tentando bem de leve invadir o espaço entre almofadas e talheres
o noturno ar escuro preenchia devagar o vazio das panelas e mesmo debaixo dos lençóis a noite havia se insinuado deslizante
tudo ia sendo tomado por um silêncio aconchegante num vazio dos sons que conduziram o dia ao seu final e que agora também haviam desaparecido na penumbra
Sofia regando as plantas foi notando distraída que entre os vasos e mesmo a terra dos vasos e por debaixo dos móveis uma delicada escuridão a tudo envolvia com mil olhinhos de seda
e ela pensou a noite com seus passos pequenos de espuma e não fechou as janelas
com seus olhos a escuridão da noite parecia uma menina dormindo
tão linda
tão tranqüila a linda menina dormindo antes de a noite chegar

primavera de 1999

de uma extrema delicadeza

de uma extrema delicadeza

anoitecia muito muito devagar
e a noite anoitecendo ia entrando pelas janelas entranhando nas frestas dos móveis e nos vãos esquecidos das gavetas
esse anoitecer ia brincando lentamente com as folhas do amor perfeito rastreando os passos de Gigi tentando bem de leve invadir o espaço entre almofadas e talheres
o noturno ar escuro preenchia devagar o vazio das panelas e mesmo debaixo dos lençóis a noite havia se insinuado deslizante
tudo ia sendo tomado por um silêncio aconchegante num vazio dos sons que conduziram o dia ao seu final e que agora também haviam desaparecido na penumbra
Sofia regando as plantas foi notando distraída que entre os vasos e mesmo a terra dos vasos e por debaixo dos móveis uma delicada escuridão a tudo envolvia com mil olhinhos de seda
e ela pensou a noite com seus passos pequenos de espuma e não fechou as janelas
com seus olhos a escuridão da noite parecia uma menina dormindo
tão linda
tão tranqüila a linda menina dormindo antes de a noite chegar
primavera de 1999

sábado, 9 de maio de 2009

Boiçucanga e Cerquilho

as nuvens se acumularam nas montanhas mais ao norte
e Boiçucanga deixou-se anoitecer muito devagar assim como quem não quer
em Cerquilho o sino da igreja chamou sem muita convicção a noite tangendo cansado as Ave - Marias
Ondina sentiu uma fisgada doce em seu coração e pensou bandos de andorinhas ou gaivotas sobrevoando barcos e mangueiras em linhas sempre horizontais
sentiu-se então um pouquinho mais só numa vida que na noite existia em Cerquilho em tachos de polenta postos ao relento e nas vozes chamando crianças
Boicuçança ao mesmo tempo seus homens nos barcos em seus pequenos remansos de areia onde meninos ainda brincavam

as vacas mugiram longe no Dorighelo e ela ouviu Terê fechando a porta da sala

na bruma indefinida e crua feita só de estrelas ela pôde perceber que o mundo penetrava pela janela e viu flores roxas nascendo em desalinho pelo quintal afora até tocar a areia longa e mais prá longe o fundo mar
o sol se afogava num céu que só Boiçucanga sabia envolver em seus braços
a vida era isso
Tereza fechando a porta
o sol se pondo em Cerquilho
e pelo mundo afora em horas diferentes e tardias
e ela vivendo num tempo absorto que poderia ser qualquer um
num tempo de qualquer cidade
de qualquer parte do mundo
ou numa hora qualquer

terça-feira, 5 de maio de 2009

Odete inventa o mar

deve ter sido no outono que a levaram sim porque por entre nossas lembranças daquela época há o vento noroeste balançando as cortinas jogando os lençóis do varal para desespero de Ana sacudindo a copa dos coqueiros levando as flores do jasmim em corrupios pelo ar
o vento e um tremor inevitável quando do bater de portas e janelas que se abriam de par em par ou se fechavam de repente
há memórias de uma luz difusa diluindo o contorno gasto dos barcos ancorados na praia pequena e névoa sobre o oceano uma perda de limites com o céu um estado de torpor como entre o sonho e a vigília umas saudades sem sossego de coisas que sequer aconteceram um receio de perder o que ainda nem se tem
eram assim aqueles dias em que certo dia demos pela falta dela
havia véus avermelhados e uma escuridão que demorava muito a subir da linha do horizonte pois a noite demorava demais a chegar

domingo, 26 de abril de 2009

houve uma noite contigo

foi durante um verão do qual já não me recordo e era um daqueles momentos raros no qual a noite chegara mas o mar ainda era morno e cheio de vida
nós estávamos ali como sob efeito de uma droga qualquer olhando o escuro do céu sem nenhuma estrela
na profundidade distante das águas um ou outro raio caia mas tão longe que não nos chegava qualquer som apenas um risco dobrado e dobrado sobre si mesmo que percorria o céu e era uma luz que não nos abandonaria nunca mais eu pensei
eu pensei então que havia mares gelados naquele mesmo instante e só esse pensamento bastou para me encher os olhos d’água
o mundo era grande demais eu tive certeza disso enquanto te ouvia gritando na lonjura parda das ondas e teu grito era da mais pura alegria era um som que vinha de zonas do teu corpinho pequeno lugares que eu não conheceria nunca mas que seriam serenos como punhados de sol sobre a relva molhada como um pouco da neblina cortando cada amanhecer em matas tão distantes e nas quais jamais viveremos
e que essas matas ah eu queria nelas um lugar qualquer que nenhum passo humano houvesse percorrido antes que fossem marcadas por teus gritos de feroz felicidade
fossem marcadas pelo ar que respiras e que rompem o líquido volume dessa praia marcando para sempre esse fim de tarde no qual finalmente somos os dois como duas nuvens irmãs que caminham e flutuam e se transformam quando há vento ou prenúncio de chuva e que se eternizam assim enquanto navegam no mais bonito do céu claro enquanto brincam e se espantam de que seja tão enorme o mundo com todos os seus insuspeitados contornos
a noite agora é completamente escura e estamos os dois com o mar encostando em nossos joelhos submersos e o mar é cálido e leve e se estende pela areia com uma fartura uma crença marítima em futuros que a nós talvez nem cheguem
és meu filho és tão não meu que o amor me chega à garganta em forma de soluço e aos olhos e posso flutuar existir na minha vida prosaica e boba e até fingir que lá serei feliz mas é dessa sensação que falo disso que não perderei desse mar do toque de tua mão pequena no meu braço do seu riso que tem nessa mistura toda que faz parte do teu ser um tanto de medo e um tanto da mais doce curiosidade
não te esquecerei não esquecerei o momento em que ergues o rosto e observas por um segundo o céu
e teu vulto se cobre com uma onda qualquer de luar


21 de fevereiro de 2.000

domingo, 19 de abril de 2009

uma parede deserta

e sumiram as primaveras plantadas nos quatro cantos da varanda
foram-se as avencas pequeninas e as roseiras bem cuidadas
em tudo um mormaço morno e sem tempo
uma desesperança fina como lâmina da faca mais afiada

da cozinha grande sumiu o cheiro de polenta frita
a mesa farta
a conversa dos adultos povoando a escuridão dos quartos cheios de crianças foi-se embora para nunca mais

silenciosa e derradeiramente tudo teve fim

no ar de agora apenas um desejo de mariposas e vento quente
um desejo tão!

então ela encostou o rosto no ladrilho frio
e quis parar estacionar ali
para todo o sempre parada
como uma pedra
um cravo morto
um feixe de olhos olhando sempre em frente
para sempre sem olhar

26.8.96

quinta-feira, 16 de abril de 2009

adormecendo em mim mesma

o que acontecia naquela época é que a vista vista da água de dentro do rio do meio mesmo do rio era precisa delineada conforme a luz era de outono ou primavera ou quando ainda o frio soprava de longe de lugares que eu nunca conheceria
ou quando ainda nem a manhã chegara nas folhas das árvores quando a luz só pensava ainda em resvalar pela carne áspera das pedras e em ir descendo até o brilho líquido do rio no qual estaria eu passando deslizante nessa superfície fluida e de monótona aparência
talvez na noite se há nesse céu muitas estrelas vejo as janelas da casa iluminadas e um vulto que chega e se debruça na calada do mundo e então olha para esse lugar aonde estou que a escuridão da noite nem oculta
no lusco fusco que esconde as coisas com sua vontade sombria eu olho para a margem pois o olhar da gente olha mesmo sem querer olhar arrisca na palidez das horas um outro olhar
fico passeando meus olhos por cantos formas contornos tortos por onde transluzem linhas que hão de brilhar mais tarde quando terei já cerrado meus olhos exaustos de olhar
a terceira margem do rio é a terceira margem a terceira bem no meio ou dentro por onde me arranho em busca daquilo que não posso ser que temo ou desconheço
daquilo para o qual não terei tempo ou vida para viver daquilo que me faltará no meio de um tal cansaço de horas inúteis e vazias
nela estou embora ainda não saiba bem não sei se é o meu olhar se o tempo que já não sinto passar se é dentro desse tempo que vou enganando devagar engatinhando me mantendo acordada vigiando cada pedaço da noite tomando conta do tempo que assim posso ir controlando em punhados delirantes de minutos que eu não viveria se dormisse
por certo não viveria acho uma pena tão grande morrer!
acho uma pena tão grande estar sozinha enquanto a noite cobre o mundo de desassossego e traz em seu bojo de silêncio uma enorme morte encantada
a noite chega enquanto a canoa escorre e eu me deito no chão do barco sentindo por baixo da minha pele a água que passa e as estrelas no topo do mundo
e parecem maiores agora as estrelas mais que quando eu vivia na terra entre os troncos as pedras os bichos as gentes
deitada no chão da canoa estreita a água não tem nenhum som enquanto passa ou passo no rio dentro do seu corpo pesado de árvore
as margens estão de cada lado meu e há outra que defino com meu corpo que forma essa linha imperecível e absoluta que margeia um mundo do outro uma margem um traço um nada que sou eu deitada no fundo do barco a carne do meu corpo que se confunde eu que me confundo nesse tempo que escorre comigo que se escraviza a mim não o contrário nunca mais ser o contrário
essa vai se tornando ar quente um divisor de mundos no mundo mole das coisas silenciosas nesse mundo que é meu desde que e apenas pelo corpo da madeira tudo desliza no branco espaço das horas
soturna me ajeito às muitas temperaturas que dividem com a minha pele um volume denso de pétalas de perfumes distraídos que bóiam no vento ou se enroscam entre o mato alto das margens deixando afetos espalhados à beira fofa das raízes
no meio das noites quando consigo não dormir sequer um minuto que varo percebendo em claro um vazio de penumbras sem cor penumbras brancas como quando os espaços dos meus poros tentam com suas mãozinhas ferozes segurar os segundos que correm que nem sequer olham por onde andam nessas noites que engano e atrapalho com a minha cruel e determinada insônia
um vazio de penumbras me cercam brancas claras como meninas perdidas e apenas entre elas nessa noite sou feliz porque sem dormir a vida não passa para mim que permaneço imóvel bicho atento farejando rumores no mais calado do ar
ocupo todas as horas que os outros abandonam em seus suspiros que jogam fora nas janelas estreitas dos seus sonhos que ocupam zonas na intersecção das coisas entre o que é humano e essa hora noturna que não sei o que seja que não é mais que um outro elementos fora daqueles conhecidos
o elemento noite que nos surpreende com sua lenta passagem pela superfície fechada da terra dos poros da água dos nossos poros aflitos é o avesso da terra o avesso do dia mas não o meu contrário um cúmplice do medo que sinto um igual
o corpo respira na noite num silencio que se consome em si mesmo que se entrega à sua própria perfeição
na escuridão o silencio cava um poço fundo aberto rasgando as coisas todas que vagam pelo mundo os pensamentos que uma vez pensados grudam-se uns atrás dos outros e por trás dos olhos como se já fossem realidade uma realidade que não se pode alterar suprimir transportar para outros lugares que não aquele onde se encontram brincando de assombrar surgir das sombras talhando nas horas cruas do dia um risco de susto
olhares com os quais cruzou o meu olhar agora abandonado ao céu às estrelas e outras luzes que pressinto na mais clara escuridão se distanciaram mas continuarão existindo após o meu olhar sem a existência desses olhos que se agarram sempre às coisas como se viver fosse para sempre
da varanda consigo ver o rio e as andorinhas que encontram entre seu vôo na manhã coisas como pedaços secos de outras que há muito tempo existiram
pedaços de telhados que as chuvas intermitentes e as plantas trazidas pelos bicos dos pássaros passaram a percorrer os céus
do meu corpo para o teu uma lonjura de ventos um abismo de distâncias que meus pés jamais percorrerão teu corpo tua saliva densa que eu bebia mais que tudo por toda a água desse rio teu corpo que nem tinha mais a pele da qual meu corpo também se despia antes mesmo do teu corpo que se despia e ainda se despe só de pensar teu olhar me olhando por dentro como nem o meu próprio olhar consegue
teu olhar me olhando sendo possuído pelo teu olhar que me persegue em sonhos e na lucidez mais absurda teu olhar que mantém ainda correndo pelos rios das minhas veias o amor que sinto por coisas que sequer precisarei conhecer ou possuir
pois sempre terei a ti e estarei lavada da morte pela permanência infinita do teu corpo em mim por esse chão de árvores flutuantes que me socorre em vida
mais que tudo por teus olhos amorosos que jamais me deixarão

quarta-feira, 15 de abril de 2009

Para Isabela

Hoje, 15 de abril, fazes um ano e três meses de vida e é para ti que escrevo depois de te olhar demoradamente nesse fim de tarde de outono enquanto te preparas, descansando, para novamente correr, brincar, ir ao mar, ir ao mato na casa do tio Gordo, rir com teu irmão Gabriel enfim, atirar-se nos braços dos teus pais que te amam tanto, retornar às tuas ( e só tuas) importantes funções de apenas viver cada dia, cada minuto, experimentando carinhosamente a vida com essa alegria que tens, com essa forma só tua de olhar demoradamente cada coisa e depois sorrir esse teu sorriso largo que é a nossa alegria.
Um beijo de todos que te amam para que sares e voltes a correr pela casa, levando e trazendo coisas, imitando o cachorro, o gato e o boi.Para que o sol volte a colorir o mundo, muito cinza sem tua alegria!

contatos de primeiro grau

era só uma palmeira esquecida pela chuva que se via da fresta da janela
mas era tão exata tão como aquela que eu via da varanda de casas muito distantes que a tarde se fez como só se fazem as mortes ou os partos quando não há qualquer testemunha
alguma coisa havia por nascer entre a névoa e o estouro das ondas
era estranho e incômodo chorar sobre as teclas do computador mas eu chorava posto que esse dia me lembrava que a palmeira esquecida na fresta da janela era a mesma posicionava-se igual tinha a mesma altura e a folhagem toda verde era igual a outra da minha infância vista da varanda da minha primeira casa e só hoje eu tinha reparado visto que andava cega entre escadas paredes portas e batentes dessa janela daqui
o dia clareava e algum barco teria se atrevido na soturna sombra dos mares sem nenhuma cor teria deixado o porto depois de alguma espera mas sem olhar prá trás
Arildo estaria por certo desafiando as ondas e os peixes sem Iemanjá
e os peixes se contorciam em sua mãos habilidosas e duras no mar profundo sacudindo de leve o barco pequeno que balançava entre uma e outra vaga como se o mundo todo fosse só um curto recado um esquecimento de Deus uma ligeira imperfeição deixada sobre esse rarefeito mundo de pessoas solitárias e quietas como só convém às pedras e aos lagartos das montanhas ermas de sol e do mais completo esquecimento

domingo, 12 de abril de 2009

no vazio do sábado

o peixe amanheceu morto no aquário branco
de pedras brancas mantido em água mineral

era só um peixe preto
que vinha pedir comida cada manhã
e me olhava
com sua boca escura

hoje não há qualquer movimento na cozinha
e aquela forma pequenina
completamente dura e imóvel
parece menor ainda e mais sinistra
sem sua boca aberta
sem aqueles olhos que me diziam qualquer coisa
que eu fingia não entender
mas que agora se espremem nos vazios aflitos do
meu próprio coração

2001

sábado, 11 de abril de 2009

a menina que amava o mar

era uma noite por demais cheia de estrelas e quando olhamos para o céu as duas juntas sentadas no banco frio da praia o mundo se cobriu de um silêncio fresco e transparente como só se fazem os silêncios junto ao mar

e a noite era linda não havia nuvens no céu nem os pernilongos que te picam a pele clara voavam nessa hora e pela areia os siris caminhavam quietos lentos com preguiça de fugir dos nossos passos

a noite era feita só de ondas e os cachorros da cidade que nos seguiam os passos eram tranqüilos quando paravam para farejar a lua cheia brilhando na atmosfera leve do ar eras tão pequenina eras menina ainda quando me abraçavas ou corrias e teus pés afundavam delicados na areia orvalhada da praia ou procuravam a água morna que o sol da tarde havia esquentado

éramos só nós duas e os sinos chineses tocavam muito longe

havia barcos em alto mar com uma ou outra luz que às vezes desaparecia entre as marolas
e que brilhavam como pequenas estrelas

é primavera meu amor e se ficarmos bem quietinhas vamos ouvir as sementes das flores germinando rompendo o chão da praia à procura da luz e do sol que aparecerá cada dia mais cedo

ouviremos até os bichos nas suas tocas e as tatuíras escondidas sob a areia molhada da praia

então arrumaremos nossos baldes pás bolas e sairemos a passeio
e todos
até os peixes escondidos no fundo mais fundo do mar saberão que somos felizes

segunda-feira, 6 de abril de 2009

houve uma noite contigo

foi durante um verão do qual já não me recordo e era um daqueles momentos raros no qual a noite chegara mas o mar ainda era morno e cheio de vida
nós estávamos ali como sob efeito de uma droga qualquer olhando o escuro do céu sem nenhuma estrela
na profundidade distante das águas um ou outro raio caia mas tão longe que não nos chegava qualquer som apenas um risco dobrado e dobrado sobre si mesmo que percorria o céu e era uma luz que não nos abandonaria nunca mais eu pensei
eu pensei então que havia mares gelados naquele mesmo instante e só esse pensamento bastou para me encher os olhos d’água
o mundo era grande demais eu tive certeza disso enquanto te ouvia gritando na lonjura parda das ondas e teu grito era da mais pura alegria era um som que vinha de zonas do teu corpinho pequeno lugares que eu não conheceria nunca mas que seriam serenos como punhados de sol sobre a relva molhada como um pouco da neblina cortando cada amanhecer em matas tão distantes e nas quais jamais viveremos
e que essas matas ah eu queria nelas um lugar qualquer que nenhum passo humano houvesse percorrido antes que fossem marcadas por teus gritos de feroz felicidade
fossem marcadas pelo ar que respiras e que rompem o líquido volume dessa praia marcando para sempre esse fim de tarde no qual finalmente somos os dois como duas nuvens irmãs que caminham e flutuam e se transformam quando há vento ou prenúncio de chuva e que se eternizam assim enquanto navegam no mais bonito do céu claro enquanto brincam e se espantam de que seja tão enorme o mundo com todos os seus insuspeitados contornos
a noite agora é completamente escura e estamos os dois com o mar encostando em nossos joelhos submersos e o mar é cálido e leve e se estende pela areia com uma fartura uma crença marítima em futuros que a nós talvez nem cheguem
és meu filho és tão não meu que o amor me chega à garganta em forma de soluço e aos olhos e posso flutuar existir na minha vida prosaica e boba e até fingir que lá serei feliz mas é dessa sensação que falo disso que não perderei desse mar do toque de tua mão pequena no meu braço do teu riso que tem nessa mistura toda que faz parte do teu ser um tanto de medo e um tanto da mais doce curiosidade
não te esquecerei não esquecerei o momento em que ergues o rosto e observas por um segundo o céu
e teu vulto se cobre com uma onda qualquer de luar

21 de fevereiro de 2.000

sábado, 4 de abril de 2009

Odete inventa o mar (2)

Odete foi encontrada morta pela manhã do dia em que completaria 95 anos
vestia seu primeiro vestido comprido e estava mais magra do que nunca
aos pés da cama deixara bem alinhados seus primeiros sapatos de salto talvez para vesti-los assim que amanhecesse
quem sabe para indicar a todos sua intenção de partir
alguém se lembrou que fazia 82 anos que ela morava ali na mesma casa de saúde de onde não havia nunca saído em nenhum momento para lugar nenhum

......................................................................................

e era outono porque não se via a linha do horizonte em meio a névoa que cobria uma parte de tudo

sexta-feira, 3 de abril de 2009

meninos correm ao sol

ele tinha olhado as mesmas paisagens
as terras verdes de Jardinópolis se estendiam de horizonte a horizonte e já que ele não estava ali caberia a ela olhar com o mesmo olhar dele as terras de infância por onde correra descalço fugindo de vaca brava

terra da boa
terra vermelha generosa pronta pro plantio

e então do fundo de suas melhores memórias ela viu as mãos dele acariciando a terra num gesto que jamais esqueceria

os vales eram longas distâncias chamuscadas pelo sol
e o olhar dele em setembro sorriu menino travesso afrontando a passagem dos anos lembrando sombras e sítios

o olhar dele sobre Jardinópolis afrontava a própria morte e ela soube então que nos olhos dela agora derretidos sobre esses campos morariam para sempre os olhos dele

Jardinópolis 22/09/97

quarta-feira, 1 de abril de 2009

o menino que eu não tive

uma vez quando eu fui menino me lembro bem disso de uma praça dos meus pés sempre descalços eu nem ligava mais nem no frio
e no calor eu mergulhava no chafariz perto da catedral enquanto a polícia se distraia olhando as vitrines das lojas de sapatos
as nuvens como carneirinhos me lembro que alguém perto de mim um dia disse isso passeavam em bandos pelo céu e às vezes duas a duas como duas menininhas muito amigas de mãos dadas
no luminoso do céu é que me parecia ficar meu medo pendurado no luminoso mais fundo do céu bem na menina dos olhos
mas não era medo das coisas que eu tinha era medo da fome que eu sentia que não dava conta de fazer parar do frio da noite soturna quando eu não tinha um amigo e das botas que passavam dos guardas batendo na quina gelada das calçadas eram muitos os guardas armados com seus revólveres escuros
medo dos muros que ficavam ali tão hirtos e gigantescos de um pai que nunca conheci medo de ter nascido e estar agora tão abandonado na curva triste das avenidas entre o vazio dos faróis mirando o estreito da estrada
medo de não poder ter nunca nenhuma pequena esperança
é muito tarde da noite agora nessa hora da noite em que nem os carros param nem obedecem sinais nem nada passam como bandos de pombas assustadas quando ouvem tiros distantes
penso agora mais rápido penso sem parar bem depressa mesmo só prá afugentar o silêncio tão escuro da madrugada se quando eu nasci a mãe que eu não conheci olhou alguma vez o céu que eu vejo se olha ainda penso se afinal existe ou existiu em algum lugar essa mãe que eu imagino nessa hora de atropelo
crio nesse vazio que em mim habita um perfume dela que possa passear por meus braços por meu rosto uma voz cristalina que possa um dia cantar bem junto aos meus ouvidos uns lábios finos e tão rosados como só uma vez vi numa revista mas ainda mais bonitos
uns cabelos de tal delicadeza longos soltos que eu pudesse enfim acariciar
imagino se essa mãe pensa se pensou em alguém como eu na sua solidão como eu agora penso nela tão sem formas tão sem linhas traços nada pedindo ardente para ser inventada
nessa hora calada que é tão demorada de passar ainda mais se tenho fome faz frio como nesse instante ou chove eu me assusto só de pensar naquilo tudo que eu não tive e em como seria tão bom ser feliz só penso nela me pego pensando em toda a vida que eu não vivi sempre entre essas ruas fugindo da polícia esperando a neblina descer para mais me ocultar debaixo dos bancos ou dos viadutos e o cheiro bom da cola que anestesia a dor
é no medo da dor que eu penso agora olhando essa gente que a boca do metrô engole sem nenhum susto
e me pergunto todo o tempo prá onde elas vão e se era preciso tanto tantas ruas tantos carros tantas lojas tantos prédios tantas coisas enquanto sozinho eu penso nisso porque hoje você não veio me procurar nem veio ninguém e eu encosto aqui sentido um cheiro que nem existe de churro de pipoca de churrasquinho de gato que os homens comeram de dia na praça e sinto uma tontura boa
a tontura de não me incomodar mais mãe que nunca te tenha tido que não tenha uma casa uma cama alguém me acariciando os cabelos isso que só a fumaça da maconha pode me trazer o profundo descaso por todas as coisas pela vida que os outros meninos têm
viajo no tranqüilo do céu que desenha as nuvens da chuva e no mar que só conheço de foto vista no jornal enquanto minha mãe passa silenciosa no transtorno agudo das ruas vazias no barulho da água na fonte da Praça da Sé procurando quem sabe por um menino assim como eu
penso no amor que nunca conheci de ninguém nenhuma mão passeando pelos meus cabelos pela minha testa tão vazia de nenhum afago beijo qualquer coisa que me encantasse os dias que criasse uma rotina agora se dorme agora se levanta se toma um banho quente
lembro dos dias vazios nos quais jamais andei de mãos dadas com ninguém como sempre vejo passar as crianças
a rua é feita da sujeira que se agarra na alma da gente escorrega feito lodo por dentro e perto dos barcos voam gaivotas que pegam peixes fugidios nas redes no mesmo momento em que os urubus comem ao meu lado uma carniça de rato e é só isso que de verdade eu vejo
me chamam por aqui de um nome que não é meu nome a maioria das vezes de menino só quando não pivete que eu não gosto
menino mesmo é o que eu sou menino pequeno ainda mas sempre um menino valente esse orgulho eu tenho pois o que tiver que ser ou vir eu encaro limpando com a manga do casaco o nariz que o frio escorre olhando distraído prá ver se a lua mais uma vez saiu na névoa seca da madrugada
quando o céu é fechado e baixo como hoje o ar fica não sei porque mais pesado é quase como se eu me suicidasse devagar isso é uma coisa boa de sentir
como se cada minuto dessa noite besta se afirmasse sem motivo nenhum de existir uma coisa que nem desgraça é quase um pedido de desculpas para mim que não sou ninguém eu que nem mesmo sei quem eu sou
me disseram que eu vivia ao relento eu gostei dessa palavra relento como gosto de outras que digo baixinho prá afugentar esse engasgo do meu peito água gaivota meninas mãe lua estrela relento
lua chão areia grão meninas mãe ao relento eu estou mãe sozinho na cidade
são palavras bonitas essas e com elas eu posso esconder as outras como dor grito merda morte fome medo nojo
com elas posso falar formar frases juntando cidade medo fome dor relento cidade estrela meninas não sei onde colocar as estrelas a areia os grãos mas sei da lua que arredonda a quina dos prédios acho tão bonita a lua
não sei formar frases sei juntar essas palavras que contam quem sou quem somos porque há muitos eus que se escondem com o nariz escorrendo pelas ruas todas de São Paulo
um dia de tanto pensar vou achar um jeito bom de seguir vivendo uma forma de colocar essas palavras feias debaixo daquelas outras que eu procuro por toda parte escondidas entre as folhas das árvores mais altas nas bancas dos camelôs entre todas as coisas coloridas nas vitrines de tênis emborrachados nas portas dos restaurantes mais finos nas churrascarias na entrada do cinema em todos esses lugares que eu nunca fui na lona do circo na frente dos meninos de uniforme que passam para a escola todos juntos rindo alto
eu vou guardando as palavras bonitas que encontro vou colecionando todas no meu pensamento e como não sei escrever fico repetindo todo o tempo baixinho cada uma delas depois duas a duas todas juntas por fim e repito e repito sussurrando cochichando só prá não esquecer são muitas as palavras bonitas que eu guardo comigo e não falo delas prá ninguém minha mãe
em meio a todas elas lua mãe menino cidade vazia por onde andarás prá sempre tão longe de mim minha mãe?
se guardo prá ti e só prá ti todas essas palavras luminosas que eu coleciono e que tem brilho cor e um perfume de tanta delicadeza que inventei e que apenas mora no teu corpo esgarçado pela ausência e pela noite
por que é que sempre eu soube que não virias nunca?

corte em abril

um bando de maritacas cortou os céus da cidade
atropeladas
enlouquecidas

por um momento a vida se agita
febril
inútil
entre os retalhos das nuvens

depois a Dr. Arnaldo retoma seu tráfego espesso
os motoristas
cada um ao seu volante
todos eles mortos

terça-feira, 31 de março de 2009

Odete inventa o mar

em sua última noite acordada Odete inventou o mar
penteou seus cabelos pintou seus velhos lábios do batom mais claro e se deitou para morrer
sabia que isso aconteceria porque estava cansada demais para seguir vivendo estava farta de sentir saudades

em cada um de nós

sentada no banco reservado aos idosos Adriana chorava sozinha
chorava num silêncio que sequer disfarçava as lágrimas que escorriam simétricas se encaixando na gola branca da blusa de frio
Adriana chorava em silêncio com a mais constrangedora dignidade e o sofrimento que ela não escondia nem mostrava flutuou no ar parado no ar cansado entre os vidros cerrados pela chuva
seguíamos todos juntos e a Heitor Penteado era uma alameda agora de lembranças que cada um de nós sem desejar recuperava
todas elas tristes

pés em pétalas

quando as lembranças saíam pelas ruas
e eram lembranças de folhas e terra no outono elas encontravam outras histórias que iam ocupando pequenos espaços de vento ou pedaços de ar parado à beira de troncos ou postes
e quando uma ou outra lembrança povoava o amanhecer das ruas quietas
quando o movimento da cidade ainda não tinha se atrevido a espantar a quietude dos paralelepípedos é que essas lembranças de orvalho pela manhã em cafezais já tão distantes encontravam-se com fiapos de outras memórias atrevidas todas como nós a perambular

tudo isso acontecia antes que o barulho das coisas começassem sôfregas a cavar suas próprias e temporárias histórias
eram obscuras certas formas que sobrevoavam o ar limpo da madrugada
eram lembranças às vezes luminosas outras nem tanto que escapavam no ar azul que acompanhava o sol da manhã trazido por detrás do nítido contorno de cada prédio
me lembra sempre o sitio você me disse uma vez pela tela do computador
e apesar da distância em mares e terras que separa meu outono e tua primavera existe como que um tempo no qual existimos meninas e o cheiro de mato queimado que te percorre o pensamento não é o mesmo que talvez percorra o meu mas é cheiro e de matos por certo iguais ou quase
enquanto caminhas segurando a beira do casaco comprido no frio de Londres essa luminosidade que também é minha me percorre a pele fina que surge escorregadia por debaixo da saia curta
bem rente numa proximidade fresca e quase abrupta nossos corações podem cantar baixinho ou mesmo não mas percebem ambos brotos nascendo em canteiros em qualquer parte do mundo
em todos nas quais passeiem nossos pés
e o ar se tingindo de um rosa tão delicado como você me disse blossoms
tão delicadas as duas seguindo por essa estrada da vida afora pousando nossos olhos quem sabe distraídos por sobre flores miúdas num rosa de pétalas que teimarão em seguir nossos pensamentos

ando agora um pouco mais depressa e a madrugada já se tornou mais um dia comum
minhas memórias aceleradas desconhecem a realidade desse sol poluído da cidade teimando em se mostrar juntas com pressa tão exibidas todas de sua existência autônoma
e então vão se deixando ficar pelas esquinas onde outras lembranças se mesclam em conversas ouvidas de passagem em frases entreouvidas nos metrôs
são não minhas mas tão minhas essas histórias parcialmente ouvidas
como me aproprio delas descarada vadia como se eu fosse um ladrão

ou talvez já sigam sem dono existindo quase matéria sem consistência nenhuma tão como se nunca tivessem sido vividas
na brisa do outono é bom caminhar entre árvores aflitas vazia do que fui e até do que serei deixando que pensamentos alheios cubram minha própria vida e passem a me pertencer ou de fato a ninguém
vejo que a liberdade das lembranças viaja numa territorialidade que também a mim atiça cavalga e amedronta
num mundo só de mundos sem nenhuma materialidade que projetam incansavelmente suas eternas e recorrentes imagens de coisas plantas e viajantes
crio agora imagens sem nenhuma forma enquanto caminho respirando bem fundo prá não chorar pois as lágrimas não choradas e apenas elas conhecerão o orvalho que não tece o dia como quando era bem cedo e chegava alguém abrindo bem de leve a porta como quem não quer ser percebido

outono de 2.000

momento de peixes

bem pouco antes de morrer Ana viu vindo do fundo lodoso e frio do lago o peixe vermelho que se colaria deslizante à sua retina para sempre
houve tempo também para se perguntar por que nunca reparara nos peixes desse lugar nem tampouco nos barcos que cediam seu peso doces ao balanço das marolas num silêncio inquieto de pássaros
Ana até o momento de morrer não reparara jamais nas andorinhas que sugavam rápidas a água com uma doçura de bicos pequenos
que voavam juntas sem nenhuma linearidade nessa manhã de setembro
que não percebiam o quanto ela se debatia gritando num abandono sem ecos seu terror inútil
o peixe parou um instante na água com seus grandes olhos abertos talvez fitando seus olhos talvez
um anu piou longe e o céu amanhecendo ia descendo sobre a terra um azul inesquecível e completo
havia pencas de flores amarelas tão pequenas na beirada do lago aonde ela jamais chegaria notou um pouco debruçadas sobre a água
Ana reparou naqueles caules longos finos frágeis de leve acompanhando a brisa que chegava agora de algum lugar com olhos que se apagariam daqui a pouco
e sabia que seus olhos estavam se despedindo do mundo porque reparou como em nenhum outro momento de sua vida antes desse nas pétalas tão frágeis das flores numa só e menor flor no ar perfumado que nunca mais seria dela

agosto de 2000

de uma extrema delicadeza

anoitecia muito muito devagar
e a noite anoitecendo ia entrando pelas janelas entranhando nas frestas dos móveis e nos vãos esquecidos das gavetas
esse anoitecer ia brincando lentamente com as folhas do amor perfeito rastreando os passos de Gigi tentando bem de leve invadir o espaço entre almofadas e talheres
o noturno ar escuro preenchia devagar o vazio das panelas e mesmo debaixo dos lençóis a noite havia se insinuado deslizante
tudo ia sendo tomado por um silêncio aconchegante num vazio dos sons que conduziram o dia ao seu final e que agora também haviam desaparecido na penumbra
Sofia regando as plantas foi notando distraída que entre os vasos e mesmo a terra dos vasos e por debaixo dos móveis uma delicada escuridão a tudo envolvia com mil olhinhos de seda
e ela pensou a noite com seus passos pequenos de espuma e não fechou as janelas
com seus olhos a escuridão da noite parecia uma menina dormindo
tão linda
tão tranqüila a linda menina dormindo antes de a noite chegar
primavera de 1999

agosto entre os carros

todas as pessoas tem um secreto pacto com a poesia
sei disso porque quando setembro aponta no horizonte com suas madrugadas dia a dia um minuto mais claras elas se olham pelas ruas a caminho do trabalho nessa precariedade ardente que a morte das coisas traz com uma ardência sem limites como se quisessem dizer tudo que nunca poderá ser dito
e há um punhado de sorrisos que nunca foram dados palavras impossíveis que nunca foram faladas e que se deixam ver bailando no ar sujo que o inverno largou pelas ruas por onde passo cada manhã abismada de que tudo ainda seja assim tão desajeitadamente pequeno
e mesmo que a sujeira das ruas essa sujeira quase inacreditável e dura exista chamando a atenção de meus olhos já tão cansados de reparar em tudo que o mundo não deveria ser
mesmo que a realidade apareça agora nessa hora da manhã em que a vejo com seus braços de estrela seus corpinhos de nuvens afogadas no meio do pó frio das calçadas
mesmo assim seguirei pensando o quanto é inevitável estar aqui perambulando por um bairro ou outro passando pelo centro com seus antigos edifícios seus cinemas onde numa lembrança muito distante velhos pianistas tocavam
e os homens que por esses mesmos lugares passam olham para dentro de seus peitos em perdidos primaveris pensamentos
por toda a parte há um desejo no ar de que por fim alguma coisa aconteça que não essas de todos os dias todos os dias lamentavelmente
quem poderá algum dia saber o que pensam as pessoas que passam ?

mesmo quando não sabem sobretudo quando não vêem nada disso que vejo
e quando um ou outro olhar cruza o meu olhar então se faz no ar uma forma oblíqua porque são sempre assim essas formas no ar
figuras que não se pode tocar
figuras que sequer terão existência quando o pleno dia chegar
instantâneas e muito pouco perceptíveis formas essas que em vão tento abraçar com meu corpo de sol cheirando a sabonete e lavanda
mas são cansados os gestos que se arrastam no luminoso oxigênio do dia e o velho que agora passa carrega em seus ombros uma imensa melancolia
essa que atrasa as estações que prolonga o inverno que nos torna a todos um pouco mais tristes e inevitavelmente perdidos entre os postes lojas esquinas entre tudo o que nunca será

é preciso registrar aqui de modo drástico e definitivo a importância daquilo tudo que nunca será e que percorre a cidade em percursos invisíveis
é preciso afirmar essa dolorosa e fotográfica constatação de que os prédios se diluem na massa de inevitáveis desencontros de que o sangue resta ressecado na ponta aguda dos becos dos tiros dos gritos das crianças torturadas na periferia dos abortos feitos nas tardes mortas de cansaço entre os executivos apressados nos metrôs que escondem o calor da Paulista em espaços da mais perfeita ordem em vãos livres de museus cujos fetos entopem as privadas dos escritórios elegantes descobertos apenas e tão somente pelo cheiro insuportável que navega tenso entre os micros

importa registrar num registro impossível tudo o que nunca será

nossa existência de rostos vincados pela dor por sorrisos pequenos que nos aprisionam em nossa realidade de horários supermercados escolas e bancos
por todo esse tempo que vai escorrendo de nossos corpos exaustos de nunca viver a vida nesse ir e vir sem sentido na rotina amarga imposta pelos quarteirões fechados em si mesmos como grutas nos trens que se sucedem nos aviões que sobrevoam o céu azul de quando a noite começa a cair

o lixo amontoado ao longe na calçada é uma criança dormindo ao relento mais uma delas dessa São Paulo colorida com o perverso sacrifício sempre tão sem inocência dos inocentes
como quem não sabe como quem mente no escuro os fantasmas não existem meu menino só meninos que morrem sozinhos no poço escuro das drogas existem aqueles fantasmas que no escuro espremem o coração descem o frio à boca do estômago caras remelentas nos faróis meninas meninos estupradas estuprados pelos pais enquanto outros meninos de bicicleta passam paralelos exageradamente anônimos completamente desconhecidos de ti que também desperdiçavas teu tempo pelas ruas ouvindo tudo que todas as densas imagens têm prá contar sem uma palavra sequer nenhuma letra

as flores na Doutor Arnaldo os ipês amarelos de agosto o rosa súbito das enormes árvores que surgem encantadas no cinza das casas velhas os passarinhos pois cantam pássaros em muitos dos teus cantos vagos minha cidade e até borboletas se avista em plena Av. Sumaré voando desesperadas entre os carros dos fins de tarde de enquanto passeava contigo

queria te dizer que amo esses seres anônimos que cruzam opacos meu caminho
esses homens e mulheres com suas casas na periferia seus desejos de uma televisão melhor até mesmo de um carro seus rostos pálidos seus olhos fundos
queria poder te dizer que amo os camelôs que armam suas barracas no circuito das Clínicas e as pessoas que param sorriem ainda podem ser felizes em qualquer manhã
amo com um amor infeliz e doloroso as crianças doentes especialmente aquelas sem cabelo de olhos fundos e faces encovadas que compram um macaquinho de corda na bicicleta talvez um algodão doce e lambem os lábios de satisfação sorrindo seus sorrisos tristes
pudesse eu te dizer do olhar de amor que essas pessoas têm do tempo para parar e agradecer e lembrar de um outro dia passando ali de uma toalha bordada do gosto bom do beiju feito na hora
hei de conseguir contar mais tarde de uma tarde na Santa Casa e de como a lua cheia se deixava ver de repente por trás dos prédios dos ambulatórios e dos centros cirúrgicos do mesmo modo altaneiro como entre coqueiros muito distantes
como pessoas famílias inteiras horas e horas de espera uma transfusão de sangue uma fratura um tiro uma sessão de quimioterapia olhavam devem olhar ainda para a lua como se nunca caminhando até o ponto do ônibus e se despedem agradecidas de que haja a vida haja a noite e exista ainda o caminho da casa

te contar do meu desejo eu queria tanto
de uma vida enfim como essas vidas parecem ser
que seja completa em si mesma que possa se parecer com outras vidas
não como as que enxergamos ávidos pelo vidro dos carros entre os carros uma vida
o menino manco caminha no cruzamento os carros buzinam uma mulher bem vestida fala um palavrão horrível mas o menino não sabe não pode correr
o homem negro sobe a Teodoro Sampaio puxando a carroça de sucata o suor escorre por suas pernas tortas uma mais curta que a outra
o Esquadrão Resgate salva um motoqueiro enquanto o gordo no Audi reclama do atraso do trânsito da vida infernal dos estúpidos que se deixam atropelar enquanto escarra na avenida
na frente do IML as maritacas passam gritando cortando o céu de fora a fora
amanheceu de todo e em São Paulo um novo dia já vai longe
nos cemitérios todos as árvores estão floridas meu amor e eu não consigo mais te contar nenhuma outra história entre tantas que nunca consegui contar
tomo tuas mãos geladas nas minhas mãos toco cada um dos teus dedos pequenos infinitamente longe teus pequenos dedos
lá fora as maritacas gritam e gritam mas não ouves mais o som contínuo que essa cidade tem
um som que parece o mar de que gostavas tanto meu menino
enquanto eu aqui morta em vida para sempre
morta em vida para sempre olhando teu corpo tão coberto pelo frio