Maria assim se explica quando lhe perguntam:
não sabia o que fazer com ele sempre na rua chegando muito tarde nem chegando ficando dias e dias fora tão pequeno ele só tem treze anos
eu procurei ajuda onde eu podia na polícia em todos os lugares por onde andei não consegui em hospital até em hospital eu fui posto de saúde nem sei quantas vezes deixava de ir trabalhar avisava a patroa
eram histórias que eu nem podia contar nem quero contar agora
eu tenho só esse filho ele é fechado não fala nada não sei quando está triste nem sei quando tem medo não sei nada do meu próprio filho
então foi que eu tive a idéia primeiro acorrentei ele no batente da porta e fui trabalhar
deu trabalho mas eu saí sossegada
depois acorrentei ele à minha própria perna para que ele tivesse que ficar colado a mim e não pudesse sair por aí e correr perigo só que então nenhum de nós dois podia ir a lugar nenhum e ele me batia enquanto estávamos os dois ali acorrentados e me chamava de louca e eu acho que eu era
os vizinhos chamaram alguém eu de pé nem ficava e para conseguir fazer um de comer era muito difícil
onde por Deus foi que eu errei eu pergunto isso todo dia e ele não está mais perto de mim agora ele não está aqui
me disseram prá esperar que logo logo chega o dia de visita mas faz tempo isso e não me avisam de nada
me levaram ele com um papel do juiz que um homem me entregou
eu olhei todas as letras e tudo se embaralhou não sei ler mas me explicaram
onde ele está não o acorrentam me disseram lá eles sabem cuidar de meninos desse jeito eles ficam calmos ficam bem
mas eu não acredito neles pois se nem eu que era mãe dava conta
e ele era meu filho
ele era, meu senhor, toda a minha vida
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