domingo, 16 de outubro de 2011

Para Pedro

Pedro

Nas tardes mornas penso em ti. Sem estória. Sem nenhum rosto.
Penso em ti num sufoco de chuvas e sereno, em nossas longas distâncias nunca percorridas junto ao mar.
E teu rosto sem fotografias é Marlon Brando em “O último tango em Paris”.
E eu sou Maria.

O fato de não termos tido nada um do outro para guardar, não termos tido filhos, nem obras, nem dividido espaços fora o de tantas camas, cantos obscuros, hotéis baratos e quartos emprestados, me deixa livre para mais e mais te amar.
Porque podes sempre surgir na curva fria de uma esquina ou brotar teu corpo esguio do cimento da calçada me curando dessa ausência que os anos apenas acentuam.
E não sei o que faria eu de mim se te cruzasse por ai na concretude macia de uma dessas tardes de outono posto que o mesmo abandono conhecido e antigo me desceria doce às curvas dos joelhos e o mesmo amor cego por teus olhos verdes me tornaria a cegar outra vez, enlouqueceria meu ventre e me arrepiaria os seios escondidos sob a blusa.
E minhas coxas teriam que sentir outra vez o toque sereno de tuas mãos tão cheias de exigências sempre tuas mãos e minha boca sem saber se abriria novamente como então, desesperada por beber da tua boca, ansiando apenas naufragar em ti beber de ti todos os líquidos teus.
Como numa estória que não teve fim, porque também seu começo foi e será sempre nebuloso, seria possível retomarmos tudo do ponto onde foi interrompido?
Porque Pedro me diga, não me lembro como nos afastamos nem quando como foi que tudo aconteceu, posto que não brigamos nunca nem nunca terminamos nada.
O que possuíamos se escondia sob a nossa pele molhada de suor, nossa pele por nós mesmos mordida arranhada machucada por tanto amor, por dentro dos nossos olhos que ardiam fundo nos olhos um do outro, nas nossas salivas misturadas tanto que já um no outro nos perdíamos, nos gritos abafados e no silêncio das noites chuvosas nas quais nos arrastávamos loucos sem qualquer receio, livres por fim da morte, completamente livres de tudo que mora nessa individualidade terrível que cada um de nós carrega ao longo dos dias de uma vida em total desperdício.

Será que voltaríamos a penetrar nessa zona oculta que circunscreve um nós atemporal e assombrado, ou diríamos frases banais mutuamente constrangidos?
Será que conheceríamos novamente as zonas ocultas de nossos seres ardendo em fúria nessa paixão que é também ódio e carinho misturados e na mesma medida que nos possuiu há tanto tempo atrás?
O desespero que só a paixão escura carrega que só desejos sem qualquer explicação ou lógica podem trazer seria novamente nosso destino?

Só de pensar na possibilidade luminosa de topar contigo outra vez na saída de um metrô passo pela cidade como um ser hipnotizado a quem é dado compassar em sonhos um improvável futuro de abandono.

Tereza

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