esse lá que eu vejo dessa praia deve ser muito triste à hora em que anoitece se o dia é frio e chove
e há uma delicadeza tal que fica pelo ar brincando como em pétalas inexistentes de flores que há muito já morreram enquanto o mar já de cansado e sem rumo levanta uma espuma silenciosa e branca como nuvens inesquecíveis
tudo é doce e mergulha em abismos da saudade mais difícil aquela das coisas que não se viveu que permanecem atônitas percorrendo aflitas os caminhos mais íngremes da alma
a saudade do que não foi vivido cerca essa ilha da fragilidade das coisas mortas mas que permanecem uma saudade fantasmagórica só um pouco dolorida como um ano inteiro vivido do qual nada ficou nem uma imagem nenhuma memória verdadeira
e pouco a pouco tantas memórias juntas começam a chamar as redes que lembram outras praias e areias de outras texturas densidades e cores
e essa praia em que estou é apenas mais um remanso na tarde difusa na neblina de além mar
um movimento mora nessas palavras de quando apenas se sonhou e o dia espera intacto e enorme na sombria soleira da porta
tudo é distante a partir da névoa que envolve a alma num movimento agudo pronto para ser vivido num suspiro que envolve o corpo de quando ainda nem se respirou
lá daquela ilha por trás da Ilha das Cobras há alguém que me vê
não
há alguém que vê no horizonte não essa praia em que estou mas as pontas da montanha onde a mata cresce buscando a brisa que essa hora traz uma brisa ainda morna no hálito da noite densa
e vendo o continente talvez pense que aqui possa existir alguém que ao cair da noite pensa nela se um outro ela existe assim bem devagar pensa em alguém sem nenhum contorno numa imagem de sonho que de repente é lembrada e logo fugaz desaparece
com extremo carinho com uma sensação sutil de esperança
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