e vovó se pôs a costurar palavras sentada perto da janela
alinhavava casas de telhados azuis a barcos branquinhos cosendo com linhas de todas as cores
mesmo enquanto dormia vovó sonhava com palavras e cores das linhas que usaria para uni-las
vovó usando palavras rendadas perfume com renda de bilro com rendas meninas e outras palavras elegantemente tecidas
às vezes tinha que usar linhas duras como metal com elas prendia a morte em cestos bem fechados e a doença em quartinhos de crochê
quando não bordava vovó ligava as palavras no ar da sala de modo que suas paredes e depois delas o ar pleno do meio dia se fartassem de versinhos à deriva ligados por linhas invisíveis remendados ao sabor de suas lembranças como colchas de retalho
vovó sentada ao sol de inverno da tarde podia então reviver sua vida só de olhar as palavras que brincavam pelo ar
e quando eu sua neta bulia com uma frase ou outra separava ou juntava as letras criando novas histórias só então vovó sorria
_ah! Noninha ela dizia ah! Noninha!
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