domingo, 16 de outubro de 2011

receita de um sábado à tarde

porque talvez o sábado seja um dia insípido saio recolhendo a poesia espalhada nas coisas do mundo enquanto vou ao mercado
e pelas ruas como lixeiro por infinitas calçadas eu trago objetos atrevidos que me saltaram aos olhos exigindo serem percebidos

não eu não invento nada disso as coisas se atropelam em sua tranqüilidade e se atravessam no caminho que percorro às vezes até com fastio
não é minha culpa se trago umas e deixo outras à mercê da própria sorte pois mesmo seres inanimados sentem a passagem dos meus passos e avançam cheios de si
exausta de caminhar e de prestar tanta atenção ao que ocorre em meu caminho passo a recolher a poesia solta nas gavetas da cozinha com suas colheres facas garfos conchas
essas coisas delicadas e prosaicas também pedem aconchego e guarita
tão indefesas e tontas são que me enchem os olhos de lágrimas como se fossem pessoas pequeninas pedindo colo
a vida nessa casa ganha então uma desmedida fartura com as coisas saindo de seus cantos e navegando no ar translúcido da tarde

apenas cerro os vidros para que não se percam além das paredes para que eu não as perca de vista porque é bonito olhá-las enquanto dançam livres de sua rotina diária
e depois quando se cansam regressam aos seus lugares de origem e já a noite vem e elas passam a existir novamente como coisas de todo o dia
mas é nessa hora então que uma enorme compaixão toma conta de mim e passo a armazená-las também nas palavras como arrumo as verduras e frutas na geladeira
uma a uma com toda a delicadeza

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