sempre bem de manhã quando a avenida escorria lerda rumo ao dia
as bancas de flores acordando o cemitério ainda no ostracismo das madrugadas quando não se enterra ninguém
ele sentado esperando a condução ela passando por ele como se nada
ele com seus olhos compridos ela em sua pose altaneira olhando as árvores floridas da avenida sempre florindo antes da hora quando ainda nem era primavera
ele um homem sendo agredido na manhã azul um maníaco escondendo por sob o casaco a mão criminosa que afagava seu corpo inquieto de menino foi o que disseram
a manhã assustada ela parada ao longe olhando sem coragem para chegar perto defender o cara que ia sendo machucado com gestos terríveis e palavras daqueles homens de negro com seus olhos assustados mirando ao longe as flores sem nome pedindo um mudo auxilio sem nenhuma resposta
ele
que não havia feito nada que apenas cedera a um desejo sem nome que também era o dela naquela manhã em que as maritacas sobrevoavam o céu da cidade
em que a vida se desperdiçava entediada entre os muitos carros que passavam entre os passos comportados das pessoas
no tempo em que ele se acariciava discreto olhando o vulto dela totalmente encoberto por uma capa de frio
ela que se sabia olhada e desejada mais que nunca entre a avenida e a névoa que encobria parte dos vidros do metrô
Nenhum comentário:
Postar um comentário