Fluidez noturna
(a partir do conto “A terceira margem do rio” de Guimarães Rosa)
o que acontecia naquela época é que a vista vista da água de dentro do rio do meio mesmo do rio era precisa delineada conforme a luz era de outono ou primavera ou quando ainda o frio soprava de longe de lugares que eu nunca conheceria
ou quando ainda nem a manhã chegara nas folhas das árvores quando a luz só pensava ainda em resvalar pela carne áspera das pedras e em ir descendo até o brilho líquido do rio no qual estaria eu passando deslizante nessa superfície fluida e de monótona aparência
talvez na noite se há nesse céu muitas estrelas vejo as janelas da casa iluminada e um vulto que chega e se debruça no parapeito olhando para esse lugar aonde estou que a escuridão oculta
no lusco fusco que esconde as coisas com sua vontade sombria eu olho para a margem pois o olhar da gente olha mesmo sem querer olhar para onde alguma vida se agita
fico passeando meus olhos por cantos formas contornos tortos por onde transluzem linhas que hão de brilhar mais tarde quando terei já cerrado meus olhos exaustos
a terceira margem do rio é apenas a terceira margem
nela estou embora ainda não saiba não sei se é o meu olhar se o tempo que já não sinto passar tempo que vou enganando devagar me mantendo acordada vigiando cada pedaço da noite tomando conta do tempo que assim posso ir controlando em punhados delirantes de minutos que eu não viveria se dormisse
por certo não viveria
acho uma pena tão grande morrer!
a noite chega enquanto a canoa escorre e eu me deito no chão do barco sentindo por baixo da minha pele a água que passa e as estrelas no topo do mundo
e parecem maiores agora as estrelas mais que quando eu vivia na terra entre os troncos as pedras os bichos
deitada no chão da canoa estreita a água não tem nenhum som enquanto passa ou passo no rio
as margens estão de cada lado meu e há outra que defino com meu corpo que forma essa linha imperecível e absoluta que margeia um mundo do outro
essa vai se tornando ar quente um divisor de mundos no mundo mole das coisas silenciosas nesse mundo que é meu desde que e apenas pelo corpo da madeira
soturno me ajeito às muitas temperaturas que divide com a minha pele um volume denso de pétalas de perfumes distraídos que bóiam no vento ou se enroscam entre o mato alto das margens deixando afetos espalhados à beira fofa das raízes
no meio das noites quando consigo não dormir sequer um minuto que varo percebendo em claro um vazio de penumbras sem cor penumbras brancas como quando os espaços dos meus poros tentam com suas mãozinhas ferozes segurar os segundos que correm que nem sequer olham por onde andam nessas noites que engano e atrapalho com a minha cruel e determinada insônia
um vazio de penumbras me cercam brancas e apenas entre elas nessa noite sou feliz porque sem dormir a vida não passa para mim
ocupo todas as horas que os outros abandonam em seus suspiros que jogam fora nas janelas estreitas dos seus sonhos que ocupam zonas na intersecção das coisas entre o que é humano e essa hora noturna que não sei o que seja que não é mais que um outro elementos fora os conhecidos que nos surpreende com sua lenta passagem pela superfície fechada da terra dos poros da água
o corpo respira na noite num silencio que se consome em si mesmo que se entrega à sua própria perfeição
na escuridão o silencio cava um poço fundo aberto rasgando as coisas todas que vagam pelo mundo os pensamentos que uma vez pensados grudam-se uns atrás dos outros e por trás dos olhos como se já fossem realidade uma realidade que não se pode alterar suprimir transportar para outros lugares que não aquele onde se encontram brincando de assombrar surgir das sombras talhando nas horas cruas do dia um risco de susto
da varanda vejo o rio e as andorinhas que encontram entre seu vôo na manhã coisas como pedaços secos de outras coisas que há muito tempo existiram
pedaços de telhados que as chuvas intermitentes e as plantas trazidas pelos bicos dos pássaros passaram a percorrer os céus
do meu corpo para o teu uma lonjura de ventos um abismo de distâncias que meus pés jamais percorrerão
Nenhum comentário:
Postar um comentário