na verdade ser sozinha é a condição básica da minha existência não sei existir junto existir com os outros andar respirar comer morar nada
então procurei viver sempre como agora um caramujo envolvo nesse xale de lã que tenho comigo desde quando nem me lembro mais
um caramujo que deixou de há muito e para trás o estado de desespero que enforma todas as vidas vazias um caramujo que não mais se importa
desconheço outro modo de viver e então sigo fechada em mim porque só comigo há um pequeno espaço de hábitos iguais que preservo e conservo há anos para prender o tempo intacto entre meus punhos fechados
restam apenas as fotos a me olhar de todos os cantos da casa fora isso evito tudo todas as horas vividas
as fotos e só elas me dizem do mundo o que não quero saber que há sol e vento e pessoas andando lentas por calçadas à beira mar
que barcos se perdem na preguiça das marolas e adormecem em mares da mais sutil perplexidade que aviões cruzam os ares como se viver fosse um soco na boca do estômago
passeio sim às terças-feiras sempre às cinco da tarde por dentro de minhas fotos
um dia quando houver tempo hei de te contar
nada no mundo pode ser melhor que isso pois as fotos preservam toda a necessária segurança em seus imutáveis cenários e ao escolhê-las com cautela posso saber que não haverá surpresas ou acontecimentos imprevistos correndo por entre os meus passos
se escolho um dia de chuva sei que estarei na cidade então me preparo com minha capa e guarda-chuva
nas noites quentes saio a passear de sandália e saia rodada por causa das ondas
quando quero chorar quando quero rir quando quero viver de novo algo que já vivi
meu mundo está assim esse por onde caminho às terças – feiras
não há surpresas nele nem angústias nem escolhas por fazer
de tudo que eu já vivi amiga como são difíceis as escolhas de tudo minhas fotos me livram deixando que entre nelas sempre às cinco horas da tarde
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