Porto anoitecia num céu coalhado de estrelas recortando na imensidão azul marinha a curva escura das torres
um gosto de vinho ia tomando conta do ar
um cheiro de sombras e igrejas que se afundam em ladeiras e praias erguendo hirtos braços rumo à ausência de luz subia do chão das calçadas e do vale onde passavam os barcos
um silêncio com vontade de chorar passeava pelas ruas de pedra
e caminhando devagar invadia arrastava as almas num torpor gostoso como se o mundo estivesse contido todo ali nas ruas estreitas que a noite envolvia mais e mais
mais ao norte os picos escureciam rápido e o rio D' Ouro virava mansamente uma serpente na serra
as roupas penduravam-se para fora das janelas debruçadas num sereno que parecia nem ter fim e os homens cansados do dia pediam mais um copo com seus olhares parados enquanto uma televisão sem som trazia de longe outras paisagens
ela podia ver o recorte das linhas imaginárias dos mapas de sua infância desenhando-se por trás dos carros como riscos de néon por trás dos olhos dele que eram vazios no recorte do horizonte que não seguiam seus olhos
e conseguia seguir sua viagem antes mesmo de beber o último gole ou se erguer da cadeira até Cela que ela ainda não conhecia
mas que a esperava com suas fontes sua única rua de chão batido seu pequeno lago gelado suas pedras e parreiras imersas num aconchego silencioso e azul
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