sábado, 29 de outubro de 2011

do pensar entre os pés de café

eu te pensava tanto tanto eu te pensava e te queria não como não exatamente como eras foras houveras sido para mim
eu te sonhava tanto e mergulhava rindo no teu sorriso sorrindo do teu riso torto te buscando nas manhãs luminosas da infância na lua nova da adolescência quando os prados todos se enchiam de luz e cores encantadas
e coisas como todas as formas inconclusas dos objetos mágicos que crias
e nesse inesgotável manancial de linhas combinadas em que traças tua obra um pouco fico
em mim nunca te disse isso pois naquela época eu ainda não sabia
todas as sensações viram imagens que só as palavras e os gestos podem possuir
enquanto em ti traços e cores elas são
eu te pensava tanto enquanto espero e nesse silêncio tumultuado eu te lembrava quando éramos só nós dois o sítio todo enluarado a varanda ao longe iluminada e uma lua que só enquanto podíamos ser pequenos existisse tão imensa

na brisa leve daqueles tempos os pés de milho balançavam seus braços pelo ar e nós ficávamos quietos um com o outro disso me lembro bem talvez que tecesses já traços casuais de coisas a que só mais tarde destes vida e eu pequena tentava sem saber descobrir no universo das palavras conhecidas algumas que fossem delicadas embalando a noite o verão o odor das mangas penduradas nas mangueiras tua presença ao meu lado
como será te encontrar nesse momento eu que há tanto tempo não te vejo?

enquanto que as sombras da casa do sítio nos encontravam brincando ou correndo por todos os cantos onde não andamos nunca mais nem separados
e enquanto todos te esperam como e quando será que virás?
eu te esperava tanto que viesses só prá que nos sentássemos numa varanda enquanto pintas e o sol se derrama sobre todos os telhados de todas as casas do mundo e eu pudesse estar te escrevendo como um pouco faço agora e tentasse te prender nas linhas nas curvas dos pontos na eternidade do momento que passa enquanto os sinos chineses dão conta do vento que encanta a madrugada

antes embalávamos nossas vidas sentados no terreiro de café e ao redor era tudo muito escuro
desde aquela época me lembro muito bem já temíamos pressentindo a morte não essa de cada dia a morte que nos leva hoje um sorriso depois um perfume que ninguém mais possui um tom de voz que move o ar como os sinos uma risada que clareia as madrugadas
essa que vai nos levando pelos sempre assustadores caminhos da não consciência do esquecimento e da perda
mais uma noite de primavera chega sobre a cidade e embora estejas longe nem sei onde
sei que estamos vivos os dois e é o quanto basta

Nenhum comentário:

Postar um comentário