com o passar dos anos a memória deles dentro dela ia ficando leve fluida como nuvens quando à tardinha o céu se tinge de vermelho
era uma sensação tão boa essa só assim a dor de certos quadros ia diminuindo como quando a chama de uma vela vai ficando menor e menor
já se vê dentro dela quase que um desejo de apagar uma querer que tudo desista de existir logo de vez
algumas imagens eram assim voltavam sem aviso chegavam quando a alma repousava num remanso de sossego e doíam como coisas que estivessem ainda acontecendo naquele exato instante e demorassem a terminar de acontecer ou continuassem acontecendo por um tempo irreal extremamente arrastado
algumas memórias doíam quando ela lembrava de uvas ou trilhas no meio do mato ou quando a adolescência estava chegando entre desassossego e um desespero sem motivo nem conseqüência
como doíam trazendo ventos do passado de inesquecível tormento como era o tempo um tempo que não podia voltar um segundo antes da queda uma palavra maldita ou que deveria enfim ter sido dita mas não
como essa sensação de impossibilidade machucava o silêncio mole da tarde enfrentava uma tristeza esquisita que se colava à chegada da noite perdia o rumo entre barulho de copos e talheres ou carros na avenida fazia esquecer as notícias do dia as notícias reais
a memória deles e a memória dela neles existiria por certo para sempre mas onde ficariam todas essas paixões pensadas ou vividas quando ela não mais existisse e seu corpo se desfizesse lentamente pavorosamente?
era preciso reter os pensamentos ainda mais aqueles que eram ou pareciam bonitos inteiros feitos em si mesmos sem nenhuma palavra a mais ou a menos exatos em seu acabamento de limites e palavras
pensamentos envoltos em cores ou cantos pensamentos pensados entre a água fria das geadas nos cafezais e a poluição escura das cidades tão inteiramente inteiros quanto um presente
era preciso aprisionar o tempo deter na tarde a sua passagem sangrenta estilhaçar o medo da morte que passa montada na passagem disfarçada tênue das horas
prender o medo como a um barco sempre ao contrário erguendo com força a pesada âncora que o impede de partir
um barco
como haveria ela de guardar as memórias e guardá-las para que para quem?
a tarde cai devagar essa tarde como nenhuma outra como todas e o céu hoje agora se mostra de um tom opaco sim de um azul misturado ao cinza de um azul frágil desistente de ser azul querendo ser uma outra cor sem saber qual qualquer cor desencontrada que nunca houvesse existido antes desse exato agora
procuro nos meus pensamentos guardados outra cor como aquela de uma outra tarde qualquer guardada entre os restos de tarde que presenciei mas nenhum nem de longe parece chega perto desse que se desmancha e já foge quando um escuro mais forte vem
procuro nas fendas entre uma e outra dobra das cortinas um não azul a outra cor que não se mostra uma palavra o nome dessa cor que nunca vi
mas o céu me traz a primeira estrela e com ela uma nova noite quieta parda e absurda como todas as que até agora eu vivi
outra noite única
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