domingo, 16 de outubro de 2011

pés em pétalas

quando as lembranças saiam pelas ruas
e eram lembranças de folhas e terra no outono elas encontravam outras histórias que iam ocupando pequenos espaços de vento ou pedaços de ar parado à beira de troncos ou postes
e quando uma ou outra lembrança povoava o amanhecer das ruas quietas
quando o movimento da cidade ainda não tinha se atrevido a espantar a quietude dos paralelepípedos é que essas lembranças de orvalho pela manhã em cafezais já tão distantes encontravam-se com fiapos de outras memórias atrevidas todas como nós a perambular

tudo isso acontecia antes que o barulho das coisas começassem sôfregas a cavar suas próprias e temporárias histórias
eram obscuras certas formas que sobrevoavam o ar limpo da madrugada
eram lembranças às vezes luminosas outras nem tanto que escapavam no ar azul que acompanhava o sol da manhã trazido por detrás do nítido contorno de cada prédio
me lembra sempre o sitio você me disse uma vez pela tela do computador
e apesar da distância em mares e terras que separa meu outono e tua primavera existe como que um tempo no qual existimos meninas e o cheiro de mato queimado que te percorre o pensamento não é o mesmo que talvez percorra o meu mas é cheiro e de matos por certo iguais ou quase
enquanto caminhas segurando a beira do casaco comprido no frio de Londres essa luminosidade que também é minha me percorre a pele fina que surge escorregadia por debaixo da saia curta
bem rente numa proximidade fresca e quase abrupta nossos corações podem cantar baixinho ou mesmo não mas percebem ambos brotos nascendo em canteiros em qualquer parte do mundo
em todos nas quais passeiem nossos pés
e o ar se tingindo de um rosa tão delicado como você me disse blossoms
tão delicadas as duas seguindo por essa estrada da vida afora pousando nossos olhos quem sabe distraídos por sobre flores miúdas num rosa de pétalas que teimarão em seguir nossos pensamentos

ando agora um pouco mais depressa e a madrugada já se tornou mais um dia comum
minhas memórias aceleradas desconhecem a realidade desse sol poluído da cidade teimando em se mostrar juntas com pressa tão exibidas todas de sua existência autônoma
e então vão se deixando ficar pelas esquinas onde outras lembranças se mesclam em conversas ouvidas de passagem em frases entreouvidas nos metrôs
são não minhas mas tão minhas essas histórias parcialmente ouvidas
como me aproprio delas descarada vadia como se eu fosse um ladrão

ou talvez já sigam sem dono existindo quase matéria sem consistência nenhuma tão como se nunca tivessem sido vividas
na brisa do outono é bom caminhar entre árvores aflitas vazia do que fui e até do que serei deixando que pensamentos alheios cubram minha própria vida e passem a me pertencer ou de fato a ninguém
vejo que a liberdade das lembranças viaja numa territorialidade que também a mim atiça cavalga e amedronta
num mundo só de mundos sem nenhuma materialidade que projetam incansavelmente suas eternas e recorrentes imagens de coisas plantas e viajantes
crio agora imagens sem nenhuma forma enquanto caminho respirando bem fundo prá não chorar pois as lágrimas não choradas e apenas elas conhecerão o orvalho que não tece o dia como quando era bem cedo e chegava alguém abrindo bem de leve a porta como quem não quer ser percebido

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