domingo, 16 de outubro de 2011

Marta vê o novo dia

no frio da cozinha na obscuridade da manhã Marta percebeu uma xícara passando solene na altura da sua boca
e talheres que boiavam no ar turvo do outono em posições e alturas tão variadas que o espaço se talhou entre madeira e metal
Beto pendurado na janela olhava as coisas fora de seus lugares como se aquela fosse uma manhã qualquer e o fogo se acendeu e a água logo começou a ferver alguns dedos suspensa do fundo da chaleira
e o pó de café se espalhava pelo ar em torno do coador como um desenho
sentada à mesa Marta teve certa dificuldade em fazer parar o requeijão na torrada a torrada no prato o prato na mesa a mesa no chão
só quando chegou a hora de sair foi que ela percebeu o apartamento todo navegando entre portas e paredes e não pôde deixar de sorrir ao ver passar sua escova de dentes dançando entre as obras completas de Machado de Assis

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