na verdade ser sozinha é a condição básica da minha existência já que não sei existir junto existir com os outros andar respirar comer morar nada
então procurei viver sempre como agora um caramujo envolvo nesse xale de lã que tenho comigo desde quando nem me lembro mais talvez de quando minha filha ainda vivia correndo por entre as pernas da gente
um caramujo que deixou de há muito e para trás o estado de desespero que enforma todas as vidas vazias pois já não me desespero mais não há necessidade disso e meus olhos estão secos
desconheço outro modo de viver e então sigo desse jeito porque só comigo sozinha de tudo e de todos preservo um pequeno espaço de hábitos iguais que conservo há anos para prender o tempo intacto entre meus punhos fechados
restam apenas as fotos que se perdem a me olhar de todos os cantos da casa mas que evito essa forçada convivência terá de ser como eu quero
as fotos e só elas me dizem do mundo o que não quero saber que há sol ou vento e pessoas andando lentas por calçadas à beira mar que me importa o que existe que me importa
contam que barcos se perdem na preguiça das marolas e adormecem em mares da mais sutil perplexidade contam do sol vago e doce do outono de carícias que nunca recebi
que aviões cruzam os ares como se viver fosse um soco na boca do estômago ou fosse talvez para sempre
passeio sim às terças-feiras às cinco da tarde por dentro de minhas fotos
e há fotos por toda a casa para me lembrar o fato simples de que ainda vivo e preciso me lembrar do que fui
preciso estar sempre perto das coisas que estão fotografadas e sendo assim não me esqueço
um dia quando houver tempo hei de te contar como é tentando afastar a enorme preguiça que tenho de contar coisas acontecidas vividas de verdade
não gosto nada disso que se chama fora daqui de realidade pois a realidade é torturante vai desenhando histórias que nunca quisemos viver dias que era melhor ter morrido trocado de existência por outros tentado viver a vida de qualquer outra pessoa
nada no mundo pode ser melhor que isso pois as fotos preservam toda a necessária segurança em seus imutáveis cenários e ao escolhê-las com cautela bem posso saber que não haverá surpresas ou acontecimentos imprevistos por dentro das minhas telas
os passeios são então tranqüilos e sem surpresas como convém a um ser como eu que com o passar dos anos me sinto menor e mais escondida medrosa com bichos e pessoas carros multidão morta de medo com todas as coisas vivas com meus próprios pensamentos que teimam em chegar quando mais os evito com os mortos deitados dentro de seus caixões com imagens de pessoas que sofrem outras que nunca foram felizes crianças das quais ninguém cuida e arrastam seu abandono entre os carros
quando não estou passeando dentro das fotos procuro passear por dentro do meu pobre corpo abandonado imaginando viagens pequenas do coração até o que imagino ser meu estômago da garganta até canais hipotéticos do ouvido da boca até o lugar da minha cabeça que cria os pensamentos para ordenar que se calem que respeitem essa pobre velha que hoje sou que deixem de me atormentar com seus desejos e lembranças de coisas que nunca vivi que parem de me cansar com mentiras
quando tenho mais coragem desço até meu útero para saber porque ali as coisas foram como foram para tentar descobrir o que afinal aconteceu que fez a vida secar tão cedo eu que mal a conheci
por que o sangue foi interrompido e tudo apodreceu sem aviso me deixando sozinha mais que tudo de mim mesma sem poder continuar sem ter mais alguém além dela que me abandonou tão menina quando eu apenas começava a caminhar nas circulares estradas do amor
nas fotos dela eu nunca tive vontade de passear um dia conseguirei minha menina passear naquelas fotografias de quando éramos felizes as duas de quando eras linda com suas faces rosadas e seus cabelos finos quando através dos seus enormes olhos eu quem sabe apreenderia o mundo
mas hoje tenho vontade de fechar essas janelas e lacrá-las para que não consiga mais enxergar por trás da janela da frente a sombra de alguém que se esconde atrás das vidraças ou atrás desse alguém
e que pode nem estar olhando para cá nem para ninguém mas sei que existe que fica exibindo sua vida com essa desfaçatez que me enoja
como me enojam todas as outras vidas com suas pernas seus caminhos e viagens festas de aniversário e outras comemorações
não quero saber de outras vidas hoje que percebo que não me contenho no pobre escurecido invólucro que o meu corpo é e que restou depois de tudo
tento voltar sempre àquele exato instante em que
não
ao instante imediatamente anterior ao do teu grito enquanto ainda caminhavas de mãos dadas comigo
aquele momento que escondia de nós o fantasma escuro da morte com seus ossos claros com seus recortes que me seguem desde então
um fantasma que sempre nos acompanhava e que não pressenti na minha imensa estupidez
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