bem pouco antes de morrer Ana viu vindo do fundo lodoso e frio do lago o peixe vermelho que se colaria deslizante à sua retina para sempre
houve tempo também para se perguntar por que nunca reparara nos peixes desse lugar nem tampouco nos barcos que cediam seu peso doce ao balanço das marolas num silêncio inquieto de pássaros
Ana até o momento de morrer não reparara jamais nas andorinhas que sugavam rápidas a água com uma doçura de bicos pequenos
que voavam juntas sem nenhuma linearidade nessa manhã de setembro
que não percebiam o quanto ela se debatia gritando num abandono sem ecos seu terror inútil
o peixe parou um instante na água com seus grandes olhos abertos talvez fitando seus olhos talvez
um anu piou longe e o céu amanhecendo ia descendo sobre a terra um azul inesquecível e completo
havia pencas de flores amarelas tão pequenas na beirada do lago aonde ela jamais chegaria notou um pouco debruçadas sobre a água
Ana reparou naqueles caules longos finos frágeis de leve acompanhando a brisa que chegava agora de algum lugar com olhos que se apagariam daqui a pouco
e sabia que seus olhos estavam se despedindo do mundo porque reparou como em nenhum outro momento de sua vida antes desse nas pétalas tão frágeis das flores numa só e menor flor no ar perfumado que nunca mais seria dela
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