na hora em que Ana entrou no metrô nada de especial aconteceu
o trem entrou deslizante por túneis e avenidas subterrâneas percorrendo aquele espaço tempo nostálgico onde nada existe e onde as coisas perdem subitamente seus verdadeiros contornos rodas metálicas em trilhos sons distantes de outros trens apenas uma voz que anuncia cada estação
mas naquela tarde de dezembro enquanto a existência das pessoas repetia mais uma tarde ensolarada por sobre a Avenida Paulista Ana decidiu trocar seus sapatos e o barulho inusitado de um enorme saco plástico que se abre de repente invadiu nosso circunspecto estar cada um em seu lugar alguns de pé outros já se aproximando das portas
tudo parou enquanto a moça distraída de si mesma e menos ainda atenta a qualquer um de nós trocou com vagar e cuidado seus lindos sapatos de salto por um par de confortáveis tênis azuis
digo trocou com vagar mas o ato foi muito maior que só isso: foi de uma ousadia tão desconcertante para nós quanto mais ela esticava cada uma das pernas e admirava o efeito dessa troca como se estivesse sozinha em seu apartamento
quando chegamos às Clínicas ela fechou com pressa a sacola e saiu correndo do trem
deixando para trás sem perceber como era magnífico aquilo fiquei muito tempo a pensar deixou um silêncio um mal-estar uma vergonha de sermos assim tão...de sermos assim como fomos...... como somos.......de termos ficado um ou outro com a boca aberta de estupefação
o que Ana fez foi simplesmente trocar os sapatos não num ato agressivo ou acintoso talvez tenha errado ao ignorar tantos olhares e tantas presenças mas se apenas foi trocar os sapatos
quando nos olhamos nós os que ficamos naquele vagão era como se nos perguntássemos inquietos se realmente existíamos
ficou entre uma ou outra estação um senhor um pouco querendo sorrir e um garoto que acompanhou Ana com os olhos até a escada rolante
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