foi durante um verão do qual já não me recordo e era um daqueles momentos raros no qual a noite chegara mas o mar ainda era morno e cheio de vida
nós estávamos ali como sob efeito de uma droga qualquer olhando o escuro do céu sem nenhuma estrela
na profundidade distante das águas um ou outro raio caia mas tão longe que não nos chegava qualquer som apenas um risco dobrado e dobrado sobre si mesmo que percorria o céu e era uma luz que não nos abandonaria nunca mais eu pensei
eu pensei então que havia mares gelados naquele mesmo instante e só esse pensamento bastou para me encher os olhos d’água
o mundo era grande demais eu tive certeza disso enquanto te ouvia gritando na lonjura parda das ondas e teu grito era da mais pura alegria era um som que vinha de zonas do teu corpinho pequeno lugares que eu não conheceria nunca mas que seriam serenos como punhados de sol sobre a relva molhada como um pouco da neblina cortando cada amanhecer em matas tão distantes e nas quais jamais viveremos
e que essas matas ah! eu queria nelas um lugar qualquer que nenhum passo humano houvesse percorrido antes que fossem marcadas por teus gritos de feroz felicidade
fossem marcadas pelo ar que respiras e que rompem o líquido volume dessa praia marcando para sempre esse fim de tarde no qual finalmente somos os dois como duas nuvens irmãs que caminham e flutuam e se transformam quando há vento ou prenúncio de chuva e que se eternizam assim enquanto navegam no mais bonito do céu claro enquanto brincam e se espantam de que seja tão enorme o mundo com todos os seus insuspeitados contornos
a noite agora é completamente escura e estamos os dois com o mar encostando em nossos joelhos submersos e o mar é cálido e leve e se estende pela areia com uma fartura uma crença marítima em futuros que a nós talvez nem cheguem
és meu filho és tão não meu que o amor me chega à garganta em forma de soluço e aos olhos e posso flutuar existir na minha vida prosaica e boba e até fingir que lá serei feliz mas é dessa sensação que falo disso que não perderei desse mar do toque de tua mão pequena no meu braço do seu riso que tem nessa mistura toda que faz parte do teu ser um tanto de medo e um tanto da mais doce curiosidade
não te esquecerei não esquecerei o momento em que ergues o rosto e observas por um segundo o céu
e teu vulto se cobre com uma onda qualquer de luar
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