Outono no sul
outono em Canela antes das cinco da tarde
somem os contornos de árvores e telhados
pros lados do mato uma nuvem se vê pousando
se liqüefazendo no chão
como são imperecíveis as coisas
aquelas que não podemos tocar
como as nuvens
o frio envolve ombros gretas mãos braços mas envolve com uma tal delicadeza que quase não sentimos continuando a andar
depois quando se percebe há luzes uma ou outra entre as casas e é preciso saber disso tudo quando a neve vier
porque esse ano a neve chegará de repente deixando muito brancas cada uma dessas ruas
então dona Ilse olhará pela janela e irá colocando um a um seus bonecos no parapeito dela nos parapeitos verdes e calafetados frente aos vidros muito limpos
para que possam ver lá fora a lindeza que a neve muito branca traz
assim seguirá o mundo quando os bonecos olharem a névoa espaçada e branca ou a nitidez da neve mais fria
a madeira e a macela os vidros que não deslizam e ficam transparentes olhando cada um os trilhos
por seus trilhos azeitados
as folhas vermelhas caídas pelas ruas
a grama brilhando na névoa que passa distante de nós dois que mal nos tocamos tensos entre o brilho mais gelado
na névoa que distante passa como se não soubesse nada de mundos homens mulheres que acabaram de perder seus homens nem das crianças
essas descalças que andam pelo mundo
um copo de vinho basta mais que o vinho o cheiro do perfume daquilo tudo que o vinho traz tão antigo
a solidão de ser mais aguda e saber
a cor que o vinho tem
uma cor que é só dele que se dilui tornando as bordas do copo tão ilusórias invisíveis que é como se o líquido forte e escuro se resguardasse de si mesmo do nada formasse um redondo halo para se abrigar
aqui o frio deixa as coisas diluídas enfumaçadas em vidros copos corpos que não são só isso que parecem ser
luzes que se misturam aos contornos da escuridão nem agridem nem chamam
muito longe vejo pelo vidro um horizonte tornado infinito um carro que chega de outra dimensão
muito longe
parece
uma torre pequena se ilumina de dentro dela mesma a luz caminha para fora mas caminha cautelosa como uma mãe que pisa bem leve quase sem querer pisar
uma mãe cujo filho doente acabou de dormir
em campos de macela não se adoece apenas se desaprende de ser feliz
as crianças aprendem ao nascer que as árvores são muitas e crescendo colecionam folhas secas para depois esparramá-las por ai
e o asfalto se dilui quando o sol é muito
aqui não se morre se vai dona Ilse para campos de macela trêmula perfumada macela que os ventos levam e trazem com seus minúsculos caules
se vai para se estar perto de cachoeiras geladas e borboletas amarelas
muito amarelas que esvoaçam sozinhas de tudo
sem mais nada precisar só o bater de suas azinhas miúdas
por que a imensa beleza é triste e dói e por que se torna tão inesquecível e machuca e chama à lembrança outros dias não belos que nunca deveriam ter existido
e nos lembram que a vida curta é que estamos
que é que estamos fazendo afinal?
onde nos matamos?
que é que vamos nos fazendo de nós é isso que a enormidade do belo pergunta e a isso não temos resposta
por isso para isso temos urgentemente que viver ficar aqui sair por ai falar com quem não devíamos abrir janelas tornarmo-nos inoportunos tanto quanto o verão com seus bichos nos postes iluminados
seus iças e pernilongos
porque esse calor que a lareira tem é o fogão de alguma infância que se esqueceu de si enquanto o calor cavalga as montanhas atropeladas de neve
tanto mais
fogão de madrugadas onde era urgente acordar e viver
porque o calor das chamas se espalha rápido e era um calor que trazia que era de rostos e mãos e bons dias felizes e beijos mãos dadas de correr atrás dos pés de café
urgência de lugar uma luta incansável
essa perdida sempre luta contra a morte
então as brasas e as palavras que foram sendo escritas de ti muito para que eu me sente no saguão junto ao fogo
e possa me tornar inteiramente feliz
possam existir no concreto do meu corpo
como se fossem sementes
ou filhos
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