o carro rodava pela estrada como um rio que não cruzava nenhuma outra avenida nunca
um rio sem qualquer barco ou ponte
e as estrelas no céu eram fincadas e duras no espaço escuro como conchas submersas como restos de naufrágios remotos
recostada no banco do carro ela deixou que seus olhos fixassem aquele estúpido nada coalhado de luz gota a gota tantas as estrelas as mãos frias no volante
e agora diferentemente de quando era menina essas luzes pequenas não esmagaram seu peito numa dor funda sem cura seu peito apenas respirava fundo o ar fresco como um bicho
nem trouxeram as estrelas com seu brilho recordações de um futuro no qual permaneceria como enfim sempre permanecera só
a luz dessas estrelas cortava filtrando o ar parado da noite em que o carro rodava sem o barulho do motor na agonia anestesiante da madrugada
no pára-brisas uma garoa miúda vazia de esperanças mas igualmente das dores todas dessa vida cumpria seu dever sem charme de molhar as coisas devagar só mais um pouco as arestas os cantos as quinas das coisas
a paisagem era sempre a mesma só uma e escura e a vida que respirava nessa noite na mata em torno da estrada era subentendida como uma poça não sabida nunca possuída por ninguém
a solidão é só uma palavra ela pensou de repente sentada no âmago frio dessa hora que não passava que talvez não passasse nunca
a solidão nem era mais uma palavra tinha se tornado material como o banco do carro os sapatos apertando um pouco os dedos dos pés os faróis de um caminhão que nesse instante cruzava com ela
e na bruma do amanhecer o carro ainda rodava soturno seu som sem história sem sequer destino
o tempo permanecia quieto suspenso entre as primeiras nuvens do amanhecer
e as estrelas lá ainda recusando-se a partir nos vultos que aos poucos se distinguiam entre árvores e pássaros perdidos entre um guarda rodoviário e um pedágio abandonado na distância indivisa da neblina de horas sempre tão iguais
a viagem seguia como um sonâmbulo à procura de um destino entre névoa e vagas horas de quintais
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